Erika Medeiros: veste o jaleco

No Planteia, cientistas de ciências biológicas e agrárias compartilham suas experiências. Republicamos hoje nossa entrevista com Erika Valente de Medeiros, professora da Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (UFAPE). Do sonho de vestir jaleco à carreira acadêmica, Erika destaca que fazer ciência exige dedicação e coragem.

Inteligência emocional é o mais importante nessa profissão, determina até onde você irá e com quem você vai

Erika Valente de Medeiros

O que a influenciou a seguir carreira científica?

Sonho. Quando crian√ßa, eu vivia em uma realidade em que as oportunidades eram √≠nfimas e a viol√™ncia imperava. Sonhava em sair ou minimizar essa realidade e a √ļnica forma que encontrei foi estudando. Sonhava em ser astronauta ou cientista. Logo percebi que a primeira op√ß√£o seria muito dif√≠cil. Na minha adolesc√™ncia, meu pai fazia hemodi√°lise. A realidade que j√° era ruim, ficou pior. Diante da doen√ßa dele, descobri um s√≠mbolo que me acalmava: pessoas de jaleco. A vontade de vestir um jaleco aumentou e ser cientista se tornou a melhor op√ß√£o.

Sabia que no Brasil as chances de você ser uma cientista aumentariam muito como professora universitária. Minha vontade de seguir a carreira acadêmica se fortaleceu. Já no primeiro ano de graduação, procurando estágio, soube que uma professora de química do Departamento de Antibióticos buscava alunos. Ela não aceitava biólogos, mas me deu uma chance. Com o tempo, ela passou a preferir biólogos por ver um diferencial para a pesquisa que ela fazia. Fui aceita para o mestrado em Recife e no Rio Grande do Norte. Antes de decidir, fui assaltada e quase estuprada e optei por sair de Recife.

Fiz mestrado e doutorado no Rio Grande do Norte. N√£o foi f√°cil. Fui a primeira bi√≥loga aceita no curso de p√≥s-gradua√ß√£o em agronomia e sofri um bocado. O descr√©dito por ser bi√≥loga me impulsionou a provar minha compet√™ncia. Fiz mestrado em um ano e oito meses e o doutorado em apenas dois anos. As pessoas comentavam que bi√≥logo com p√≥s-gradua√ß√£o em agronomia teria dificuldade em conseguir emprego. A maioria dos concursos na √°rea de fitopatologia exigia forma√ß√£o em agronomia e eu n√£o podia me candidatar. 

Optei por concursos na √°rea de microbiologia, coerentes com minha tese em microbiologia agr√≠cola. Comecei a vida acad√™mica com 27 anos, uma das professoras mais jovens da minha institui√ß√£o, a Universidade Federal do Agreste de Pernambuco, em Garanhuns, interior de Pernambuco. Hoje dou aulas, oriento alunos de gradua√ß√£o, p√≥s-gradua√ß√£o e p√≥s-doutorado e sou bolsista de produtividade em pesquisa, um sonho que realizei h√° cinco anos atr√°s. E n√£o parei por a√≠… 

Qual a motivação que direciona o seu trabalho?

Minha maior motivação é ajudar a mudar a realidade da minha Região. Acredito que a pesquisa deve mitigar ou solucionar problemas da sociedade. A universidade tem papel social. Essa busca por mudanças tem dois grandes aspectos. O primeiro é mudar a realidade de alguns discentes brilhantes, com potencial de se tornarem atores de mudança na sociedade. Se não fosse a universidade, eles não seriam descobertos. O segundo é dar respostas diretas aos problemas do campo através de pesquisas aplicadas. Por exemplo, eu moro em uma região considerada o bolsão de pobreza de Pernambuco. A maioria dos produtores plantam para subsistência, com pouca ou nenhuma tecnologia, o que gera perdas na produção. Desde que iniciei na carreira acadêmica em 2009, minha motivação é diminuir essas perdas com ferramentas sustentáveis e torná-las acessíveis a esses produtores.

Quais as contribui√ß√Ķes que voc√™ fez para a ci√™ncia?

Enquanto bolsista de inicia√ß√£o cient√≠fica sintetizei mol√©culas e avaliei suas fun√ß√Ķes, principalmente como antibi√≥ticos. Vi camundongos com convuls√£o ter uma melhora no quadro cl√≠nico ao receber essas mol√©culas. Tamb√©m, participei de pesquisas em que mol√©culas extra√≠das de plantas eram testadas para fun√ß√Ķes biotecnol√≥gicas diversas.

No mestrado e no doutorado trabalhei com um fungo (Monosporascus cannonballus) que dizimou a produ√ß√£o de mel√£o do Rio Grande do Norte e no Cear√°. Na √©poca ambos os Estados eram respons√°veis por cerca de 95% da exporta√ß√£o de mel√£o do Brasil. No mundo, poucas pessoas estudam esse fungo e no Brasil, somente meu orientador e eu. 

Descobrimos que esse fungo era um habitante natural do solo. Dependendo do manejo do meloeiro, o fungo vira um potente patógeno. Desenvolvi duas moléculas capazes de combatê-lo, sem matá-lo, ajudando as plantas a se desenvolverem melhor. As moléculas eram promissoras também para o manejo de outros patógenos habitantes do solo.

Já como pesquisadora em início de carreira tive três projetos aprovados por agências de fomento para descobrir qual o principal patógeno do solo que estava dizimando a produção de mandioca em Pernambuco e buscar formas alternativas de manejo para a cultura. A pesquisa foi demanda de um grupo de agricultura familiar que eu participava com outros atores da sociedade, entre eles, secretarias de agricultura, órgãos de extensão, cooperativas e produtores. Desde então, desenvolvemos diversas ferramentas para mitigar o problema da podridão radicular da mandioca, incluindo publicação de artigos em revistas internacionais de impacto e registro de patentes.

No pós-doutorado na França, os pesquisadores do centro de pesquisa queriam entender a forma de recuperação de áreas degradadas por agricultura na Caatinga, maior floresta tropical seca do mundo. O estudo foi realizado através de três redes de pesquisadores: SISBIOTA-Matas Secas, NEXUS-Caatinga e INCT:ONDACBC. Os estudos permitiram caracterizar a identidade da microbiologia de solo degradados, com diferentes manejos ou em recuperação, usando a enzimologia ambiental como ferramenta. Os primeiros trabalhos de enzimologia na área de Caatinga é do nosso grupo!

A relação com a França estimulou o meu grupo a trabalhar com biochar (carvão vegetal, conhecido também como biocarbono, empregado na correção do solo) e ampliar minha rede de colaboradores no Brasil e no exterior. O estudo envolve diversas abordagens multidisciplinares, por exemplo, uso do biochar como componente alternativo no manejo de doenças de plantas e na fertilização do solo.

Quais s√£o os maiores desafios das cientistas no Brasil? 

Muitos s√£o os desafios dos cientistas no Brasil e um pouco mais para as mulheres cientistas. O primeiro desafio √© tornar-se uma cientista. Para isso, voc√™ ter√° que passar pelo mestrado e pelo doutorado. √Č necess√°rio estudar por mais anos, ganhando uma bolsa com dedica√ß√£o exclusiva, longe do mercado de trabalho. Diante dos cortes de investimento na ci√™ncia brasileira, ter uma bolsa aprovada √© ganhar um pr√™mio. Contudo, o fato de consegui-la n√£o garantir√° estabilidade, tampouco voc√™ ter√° qualquer direito trabalhista. 

Depois voc√™ ter√° que passar em um concurso p√ļblico, perto ou longe de onde voc√™ mora. Ter√° que trabalhar muito para publicar os trabalhos, √†s vezes colocando dinheiro do pr√≥prio bolso, e concorrer aos editais com pesquisadores do Brasil inteiro para conseguir financiamento de √≥rg√£os de fomento para montar um laborat√≥rio ou uma estrutura m√≠nima de trabalho. Esses desafios s√£o mais leves quando se tem parcerias.

Se você for uma cientista que trabalha em universidade, terá que ministrar aulas, fazer extensão, orientar alunos, formular projetos, comprar materiais de custeio e permanentes, administrar verbas, prestar contas e lidar com burocracias antipesquisa. Hoje, por exemplo, uma das maiores dificuldades que tenho é comprar reagentes que dependem de autorização da Polícia Federal. O pedido deve ser solicitado pela universidade e a autorização não chega. Estamos aguardando há meses e, por isso, interrompemos as análises.

O que mais a entusiasma na atividade de cientista?

Entregar respostas para uma agricultura sustentável em um país cuja economia é baseada no setor agrícola. Ver minha pesquisa divulgada em grandes revistas da área e ter o reconhecimento de pesquisadores do exterior. Tudo isso mostra que você está no caminho certo. Fiquei muito feliz ao ver na plataforma Researchgate, que o pesquisador que inventou um dos métodos de análise de atividade enzimática baixou e leu meu artigo!

A forma√ß√£o de recursos humanos me anima. Pensar que os alunos poder√£o se tornar parceiros, cientistas, v√™-los crescendo profissionalmente e pessoalmente, ganhando o mundo e trazendo novidades. √Č muito orgulho! 

Tamb√©m fico muito feliz em ter meu nome entre os contemplados em um edital, dada a grande concorr√™ncia no pa√≠s. Ser aprovada para a minha primeira bolsa de produtividade foi um desses momentos. √Č um grande pr√™mio de reconhecimento para quem trabalha com pesquisa. Sonho ainda em progredir na carreira e chegar √† pesquisadora 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient√≠fico e Tecnol√≥gico (CNPq). Outra honra foi ser convidada para reuni√Ķes da Coordena√ß√£o de Aperfei√ßoamento de Pessoal de N√≠vel Superior (CAPES) para contribuir com a avalia√ß√£o de projetos de pesquisa importantes para o pa√≠s. Aprendi muito nessas reuni√Ķes, fiz novos contatos e me sinto realizada. 

Algum conselho para as jovens aspirantes a cientista?

Estude muito e tenha gosto pelo estudo. Se dedique ao ingl√™s, pois √© a l√≠ngua oficial da ci√™ncia. Procure fazer diferente do que todo mundo faz. Seja determinada, teimosa, n√£o desanime, mesmo que os outros digam que voc√™ n√£o consegue. Quando disserem isso, ressignifique e use como combust√≠vel para seguir. Se imponha, pois a sociedade ainda favorece os homens. Chore quando o seu experimento der errado, respire fundo e retorne. Algumas das grandes descobertas foram feitas com erros. 

Respeite seus limites. Tenha metas e diga n√£o a tudo que te desvie delas. Forme parcerias com quem te coloque para cima, pois ningu√©m consegue nada sozinho, especialmente neste meio onde a concorr√™ncia √© desenfreada. Tenha humildade, ou√ßa mesmo aquele que voc√™ acha que n√£o pode contribuir com voc√™, pois um insight pode te tirar da “caixinha”. 

Saia da sua zona de conforto. V√° longe, abrace todas as oportunidades que tiver para passar um tempo fora do pa√≠s, aprenda outras culturas e forme parcerias com outros pesquisadores, mostre o seu diferencial e n√£o repita o que eles est√£o fazendo. Intelig√™ncia emocional √© o mais importante nessa profiss√£o, pois determinar at√© onde voc√™ ir√° e com quem voc√™ vai. Como costumo dizer aos meus alunos, parafraseando o astronauta Buzz Lightyear nos filmes da franquia Toy Story… V√° ao infinito e al√©m!!!

Como está o andamento das pesquisas em meio a pandemia de COVID-19? Quais os desafios e as estratégias adotadas para superá-los?

No in√≠cio a adapta√ß√£o a pandemia da COVID-19 foi dif√≠cil, pois nunca t√≠nhamos passado por isso. Como l√≠der do grupo de pesquisa, tive que tomar algumas decis√Ķes doloridas para quem estava no meio das an√°lises, com experimentos em andamento. Me senti respons√°vel por vidas, mais importantes do que qualquer outra coisa, e proibi o acesso dos alunos ao laborat√≥rio. Afinal, tudo poder√° ser refeito. Paramos tudo e aceitamos as determina√ß√Ķes para enfrentar o desconhecido. O que d√≥i mais √© n√£o saber quando termina a crise e como voltaremos a normalidade. 

Olho esse per√≠odo como uma oportunidade para repensar a vida em todos os seus aspectos, inclusive na pesquisa. Uma boa oportunidade para desengavetar artigos e aprender coisas novas. Existe a pesquisa de dados, j√° publicados ou dispon√≠vel em bancos de dados, que podem ser usados para formular e testar hip√≥teses in√©ditas sem sair de casa. 

Fa√ßo reuni√Ķes virtuais com o meu grupo para falar de trabalho ou outros assuntos. A estrat√©gia que bolei foi dividir os participantes em equipes com linhas de trabalho similares. Passei algumas diretrizes para repensarmos todos os trabalhos, acolhendo os alunos em suas dificuldades, ouvindo ideias, para acharmos sa√≠das para cada caso.

O importante √© perceber que tem dias mais dif√≠ceis. Neles precisamos dar espa√ßo aos sentimentos, “respirar” um pouco para, ent√£o, voltar com toda disposi√ß√£o. Permita-se passar por isso, pois voc√™ n√£o √© uma m√°quina. Mantenha a mente ativa, reinvente-se, respire fundo, cuide da vida pessoal e profissional, siga, pois sairemos pessoas melhores dessa. E quem sabe pesquisadores melhores! Vai passar!

Sobre a cientista convidada  

Erika Medeiros √© bi√≥loga pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e fez mestrado e doutorado em Fitotecnia pela Universidade Federal Rural do Semi-√Ārido (UFERSA). O p√≥s-doutorado em ecologia microbiana de solos foi realizado na Fran√ßa. Hoje √© professora na Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (UFAPE) e faz pesquisas multidisciplinares com foco em microbiologia e bioqu√≠mica de solos. Atua como consultora da CAPES na avalia√ß√£o quadrienal dos programas da √°rea de Ci√™ncias Agr√°rias I.

Entrevista publicada originalmente em 10 de junho de 2020.

Quarentenados: cientistas na pandemia

Em meio à pandemia, três jovens aspirantes a cientistas da Unicamp contam como fazer ciência, sobreviver e viver durante a quarentena

 

A chegada de uma nova doen√ßa infecciosa causada pelo novo coronav√≠rus e seu r√°pido espalhamento pelo mundo imp√Ķem a busca de solu√ß√Ķes pela ci√™ncia. No momento em que a sociedade mais precisa da ci√™ncia, ela reage em meio ao crescente ataque ao conhecimento cient√≠fico (o anticientificismo), √†s universidades p√ļblicas e aos cortes de recursos para pesquisa. 

Neste cen√°rio, cientistas de todo o mundo buscam incansavelmente por vacinas e medicamentos eficientes contra o SARS-CoV-2 e analisam modelos matem√°ticos e m√©todos de conduta social que ajudem os gestores p√ļblicos a conter o cont√°gio. Contudo, n√£o s√£o os √ļnicos, a ci√™ncia n√£o parou. Cientistas de todas as √°reas experimentaram mudan√ßas em seu trabalho e em sua vida.

Tr√™s cientistas ligados ao Laborat√≥rio de Gen√īmica e bioEnergia (LGE) da Unicamp, em diferentes etapas de forma√ß√£o, d√£o seus depoimentos sobre os efeitos da quebra abrupta de rotina e a reorganiza√ß√£o de suas vidas em meio a esse marco hist√≥rico. A pandemia e o isolamento social imp√Ķem diferentes n√≠veis de dificuldades para estes jovens cientistas. Muitos trabalhos s√£o pr√°ticos e dependem da infraestrutura do laborat√≥rio e do contato com pesquisadores mais experientes e orientadores. √Č sob essa supervis√£o que eles aprendem e crescem como cientistas. 

Luan Beschtold √© apaixonado por ci√™ncias e com 19 anos j√° experimentou ser cientista. Ele completou o est√°gio do ensino t√©cnico em Biotecnologia no LGE e se prepara para o vestibular. Jennifer n√£o perde tempo e aproveita a gradua√ß√£o, participando de diversos projetos. Graduanda em Ci√™ncias Biol√≥gicas, ela faz inicia√ß√£o cient√≠fica. J√° Fellipe √© um cientista maduro com doutorado. Engenheiro Qu√≠mico de forma√ß√£o, continua sua pesquisa no p√≥s-doutorado. Os tr√™s concederam entrevistas por e-mail e aplicativo de mensagens contando a panaceia para seus projetos de vida ap√≥s o COVID-19.  

Jennifer Wellen

Jennifer Wellen, 21 anos, estuda Ciências Biológicas na Unicamp e já está no final de sua graduação. Antes do estabelecimento da quarentena, ela estava animada escrevendo seu projeto de iniciação científica e acompanhando experimentos em andamento no Laboratório de Estudos da Dor e Inflamação no Instituto de Biologia.

A influ√™ncia de altera√ß√Ķes na dieta sobre comportamentos depressivos √© o foco da pesquisa, que usa o camundongo como modelo para os testes, oferecendo a eles uma dieta rica em a√ß√ļcar e gordura. T√©cnicas para o estudo de dor e depress√£o, como o teste de Von Frey, para quantificar a dor que o animal est√° sentindo, e o teste de intera√ß√£o social s√£o aplicados para detectar o desenvolvimento de comportamentos depressivos.

Esse fluxo de trabalho, contudo, foi modificado. Os experimentos laboratoriais tiveram de ser interrompidos, dando mais espaço para análises feitas no computador. Através de um software livre Jennifer analisa os vídeos dos camundongos para o teste de interação social.

Com a queda de seu notebook durante a quarentena, com a tela virada para baixo, Jennifer teve problemas para continuar realizando as análises. Por sorte, ela conseguiu salvar os arquivos do projeto, mas precisou continuar seus estudos com um notebook fornecido pela coordenação do Instituto de Biologia.

“A comunica√ß√£o fica muito falha √† dist√Ęncia. O aprendizado √© bem mais te√≥rico do que seria um projeto bem experimental. Isso deixa tudo meio falho. Eu sinto que estou aprendendo muito menos e quando depende das pessoas para aprender est√° sendo muito demorado”, contou. As intera√ß√Ķes com cientistas mais experientes, os experimentos e todo o aprendizado no laborat√≥rio enriqueciam a pesquisa de Jennifer, que lamenta estar aprendendo menos e mais lentamente.

Jennifer, de Indaiatuba, est√° morando em uma Rep√ļblica com seu namorado e outros tr√™s moradores. Ela teve de ficar em Bar√£o Geraldo por conta de seus estudos e pesquisas e considera que voltar para a casa de seus pais agora seria quebrar a quarentena e trazer riscos desnecess√°rios √† sua fam√≠lia.

Mesmo com a saudade, Jennifer est√° feliz. A rela√ß√£o com seu namorado est√° muito mais pr√≥xima. O apoio e companheirismo nesses tempos cresceram. Os dois caminham cerca de 5 Km nas tardes com Greg, o cachorro da rep√ļblica, e depois se exercitam em casa. Fora de casa e durante as caminhadas, ambos usam m√°scaras e mant√™m um distanciamento adequado de outras pessoas.

A arte e a cultura t√™m se mostrado ref√ļgios n√£o s√≥ para os cientistas, mas para todos n√≥s que enfrentamos esses momentos dif√≠ceis. Devorar novas s√©ries, filmes, m√ļsicas e animes s√£o fontes de divers√£o para a estudante. “Nessa quarentena est√° at√© dif√≠cil indicar s√©rie e filme, porque eu virei uma otaku. Assisto muitos animes e eu terminei uns cinco.” Ela tamb√©m conta que o lan√ßamento do √°lbum Future Nostalgia da cantora Dua Lipa salvou a sua quarentena, com destaque para a m√ļsica Break my Heart.

Felipe Mello

Fellipe Mello, 29, graduado em Engenharia Qu√≠mica e doutorando em Bioenergia, todos na Unicamp, est√° em seu primeiro ano do p√≥s-doutorado. Logo que Fellipe terminou de montar um plasm√≠deo, a Unicamp decretou o fim das atividades n√£o essenciais. “Eu precisava editar um gene de uma levedura minha, na verdade fazer o nocaute, que √© deletar o gene do genoma de uma linhagem, substituindo esse gene por outro. E, da√≠, para isso, eu preciso de um plasm√≠deo, o CRISPR. CRISPR √© aquela metodologia de edi√ß√£o gen√©tica.” Montar um plasm√≠deo √© um processo complicado, ele conta, que leva mais de um m√™s para ser finalizado. Felizmente, Fellipe conseguiu terminar a tempo essa etapa do trabalho, evitando perdas ao seu projeto.

As idas ao laborat√≥rio e os trabalhos de bancada diminu√≠ram. Embora Fellipe v√° algumas vezes por semana l√° para viabilizar o uso do rob√ī de pipetagem, pelo qual ele √© respons√°vel, a maior parte do trabalho ele faz em casa. Mesmo distante, ele est√° em contato di√°rio com seus alunos, discutindo projetos e os ajudando com an√°lises de dados. A maioria dos alunos ainda trabalha no laborat√≥rio seguindo um esquema de rod√≠zio para respeitar o distanciamento social. “Estamos trabalhando normalmente. A gente est√° em contato di√°rio. A gente sempre conversa. Eu estou sempre ajudando elas [orientadas], principalmente a analisar dados. Muitas v√≠deo chamadas! Al√©m das reuni√Ķes do laborat√≥rio convencionais, eu tenho feito bastante reuni√Ķes com as minhas alunas.”

Al√©m de orientar seus alunos √† dist√Ęncia, Fellipe est√° focado em escrever um novo projeto, se lan√ßando em uma nova etapa de seu trabalho. O objetivo √© desenvolver um biosensor baseado na levedura Saccharomyces cerevisiae capaz de detectar o v√≠rus da COVID-19. Gon√ßalo Pereira, coordenador do laborat√≥rio, e a mestranda Carla Maneira tamb√©m est√£o envolvidos na proposta, que j√° foi aprovada pela Inova para ser patenteada. Os tr√™s desenvolveram o projeto no in√≠cio da quarentena, o submeteram recentemente √† FAPESP e agora aguardam o resultado para financiamento. Em pouco tempo Fellipe conseguiu avan√ßar em seus estudos, indo al√©m de suas expectativas.

“Eu achei que n√£o conseguiria trabalhar em casa porque meu trabalho era puramente experimental e de bancada, mas tem sido bem produtivo e estou conseguindo fazer bastante coisa.” Apesar de apegado √† rotina e gostar das atividades presenciais no laborat√≥rio, o p√≥s-doutorando est√° feliz com a rotina imposta pela quarentena.

O que mant√©m Fellipe animado √© a atividade f√≠sica. Antes da quarentena, ele praticava tri√°tlon, crossfit, corrida e ciclismo. Hoje, com a compra de alguns equipamentos, ele  treina em casa e se mant√©m saud√°vel. Para Fellipe, os esportes, principalmente os individuais, oferecem uma forma de se conectar consigo mesmo.

Fellipe, assim como Jennifer, tamb√©m est√° isolado em casa com seu namorado e tr√™s outros amigos, longe da fam√≠lia. “Est√° todo mundo junto, o que ajuda bastante o processo. Ficar sozinho eu acho mais complicado.”

Os avós de Fellipe foram fazer o isolamento junto com seus pais em Resende, no interior do Rio de Janeiro, para facilitar os cuidados. Fellipe sente falta da família, mas não arrisca visitá-los.

Luan Beschtold

Luan Beschtold, 19, terminou o Ensino Médio em 2019 e agora seu foco principal é o estudo para o vestibular. Sua meta é cursar Engenharia Química na Unicamp. Ele também pensa na possibilidade de fazer Ciências Biológicas ou Farmácia como segunda opção.

No ano passado, Luan fez est√°gio no Laborat√≥rio de Gen√īmica e bioEnergia da Unicamp como parte do curso t√©cnico em Biotecnologia. Apesar do est√°gio encerrado, Luan fez muitas amizades, que o ajudaram nos estudos para o vestibular. Ele conta que recebeu uma grande quantidade de livros para pr√©-vestibular do pessoal do laborat√≥rio e est√° se guiando por eles. Quando ele n√£o entende algum conte√ļdo, procura por videoaulas na internet.

Luan organiza uma rotina de estudos semanal no Excel, com a separa√ß√£o de mat√©rias em per√≠odos. “Eu estou estudando de segunda a s√°bado, das 8h √†s 18h com intervalo de 10 minutos a cada 50 minutos de estudo”. Durante a noite, ele descansa e aproveita para aperfei√ßoar suas habilidades na guitarra, treinando novas m√ļsicas.

Luan est√° em isolamento em sua casa com a fam√≠lia e afirma que, durante a quarentena, somente seu padrasto costuma sair para a compra de produtos. “Me sinto um pouco preocupado em rela√ß√£o com o que pode vir pela frente. Para me distrair de todo esse caos estou treinando novas m√ļsicas na guitarra e assistindo animes”, comenta.

Atividades f√≠sicas s√£o uma forma importante de manter o corpo e a mente saud√°veis. Luan lamenta que agora sua rotina de esportes e exerc√≠cios se tornou muito limitada, mas tenta se adaptar √†s circunst√Ęncias da quarentena. “Eu recentemente comecei um treinamento em casa e √†s vezes ando de bicicleta no meu bairro.”

Caminhando juntos

Os tr√™s cientistas est√£o lidando com momentos de ansiedade. Al√©m da preocupa√ß√£o com amigos e familiares, h√° um grande sentimento de incerteza em rela√ß√£o ao futuro. O estabelecimento de uma rotina leve, que d√™ espa√ßo para o lazer e atividades f√≠sicas √© essencial para a manuten√ß√£o da sa√ļde mental. Estamos vivendo per√≠odos de mudan√ßas e √© normal levar tempo para adaptar-se. Para que os cientistas continuem fazendo ci√™ncia √© necess√°rio que o bem-estar esteja em primeiro lugar nas preocupa√ß√Ķes.

A arte e a cultura tamb√©m foram citadas pelos cientistas como ref√ļgios para o enfrentamento desse momento dif√≠cil. E voc√™? Como est√° lidando com a quarentena? Tem dicas de livros, m√ļsicas, filmes ou s√©ries? Conta pra gente nos coment√°rios!

Jennifer, Fellipe e Luan indicam:

Ang√©lica Franceschini , comunicadora social ‚Äď midialogia pela Unicamp, participou do programa M√≠dia Ci√™ncia da Fapesp no Laborat√≥rio de Estudos Avan√ßados em Jornalismo (Labjor/Unicamp). Hoje faz mestrado em multimeios na Unicamp.

Continue lendo:

Madelaine Venzon: inseto praga, inseto solução

Madelaine Venzon, pesquisadora da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG) e coordenadora do Programa Estadual de Pesquisa em Agroecologia, estuda insetos benéficos para eliminar agrotóxicos dos cultivos e reduzir a contaminação ambiental.

 

Entusiasmo-me pela pesquisa que busca solu√ß√Ķes para a agricultura baseada na natureza

Madelaine Venzon

O que a influenciou a seguir carreira científica?

No final do curso de agronomia na Universidade Federal de Pelotas, Rio Grande do Sul, me interessei pelo estudo dos insetos, principalmente, o controle de pragas por métodos alternativos, sem uso de agrotóxicos. As notícias de contaminação ambiental por agrotóxicos e outros agentes químicos me incomodavam na época e continuam me incomodando hoje.

Logo ap√≥s formada, trabalhei com agr√īnoma por alguns meses em Caxias do Sul, minha terra natal. O excesso e a exclusividade do controle qu√≠mico como m√©todo de controle de pragas e doen√ßas na regi√£o chamava a aten√ß√£o e me preocupava. Um ano ap√≥s formada, iniciei o mestrado na Universidade Federal de Lavras (UFLA), Minas Gerais, sob supervis√£o do Prof. Cesar Freire Carvalho, quem me introduziu ao mundo dos insetos predadores. Desde ent√£o, meu interesse pelo controle biol√≥gico s√≥ aumenta.

Qual a motivação que direciona o seu trabalho?

Ser √ļtil e realizar pesquisas necess√°rias para a sociedade. Sinto uma enorme realiza√ß√£o pessoal com o meu trabalho! Minha motiva√ß√£o continua a mesma do in√≠cio da carreira: a busca por alternativas ao uso de agrot√≥xicos. A forma√ß√£o de recursos humanos na minha √°rea de estudo e as atividades de populariza√ß√£o da ci√™ncia me motivam muito tamb√©m.

Por exemplo, quando em uma atividade de interc√Ęmbio com agricultores, voc√™ v√™ que uma simples explica√ß√£o com demonstra√ß√£o pr√°tica de como os insetos s√£o ben√©ficos para a agricultura, transforma o olhar dessas pessoas sobre um determinado organismo. √Č motivador! Por isso, falo sempre aos meus colegas: ‚Äď Saiam do conforto dos seus laborat√≥rios e das salas de aula de vez em quando e interajam com as pessoas, com os agricultores, os estudantes, etc. Isso d√° uma vis√£o diferenciada √† pesquisa, especialmente quando queremos realmente ser √ļteis!

Quais as contribui√ß√Ķes que voc√™ fez para a ci√™ncia?

Comecei a carreira de pesquisadora na Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), na cidade de Uberaba, Minas Gerais, em 1992, logo após finalizar o mestrado. Ali fui pioneira na implantação de um projeto de controle biológico de percevejos da soja.

Depois do doutorado em controle biol√≥gico realizado na Universidade de Amsterd√£ na Holanda, continuei minha pesquisa na EPAMIG de Vi√ßosa, Minas Gerais. O desafio era aplicar os conhecimentos adquiridos na agricultura familiar. Foi nessa √©poca que iniciei meus estudos em controle biol√≥gico conservativo, com foco em estrat√©gias para aumentar as popula√ß√Ķes de inimigos naturais nos cultivos de caf√© e de hortali√ßas.

Considero importante o trabalho que fa√ßo que une pesquisa cient√≠fica b√°sica e aplicada na √°rea de manejo agroecol√≥gico de pragas em benef√≠cio, principalmente, dos pequenos agricultores. Meu trabalho √© feito em diferentes escalas ‚Äď laborat√≥rio, casa de vegeta√ß√£o e campo ‚Äď e os resultados s√£o publicados em peri√≥dicos indexados para a comunidade cient√≠fica. No entanto, na minha opini√£o, meu diferencial est√° nas a√ß√Ķes de populariza√ß√£o da ci√™ncia que fa√ßo. Tenho sempre a preocupa√ß√£o de comunicar meus resultados de pesquisa em linguagem f√°cil e acess√≠vel em circulares t√©cnicos ou informes agropecu√°rios publicados pela EPAMIG.¬†

Outra contribui√ß√£o √© a edi√ß√£o do livro 101 Culturas: Manual de Tecnologias Agr√≠colas, editora UFV (ed. 2, 2019), considerado o “Manual do Agr√īnomo” por ser uma fonte relevante sobre temas do dia a dia de agr√īnomos, como exig√™ncias clim√°ticas, √©pocas de plantio, cultivares dispon√≠veis, tratos culturais, colheita e comercializa√ß√£o para 101 culturas de import√Ęncia econ√īmica. O livro re√ļne 250 especialistas e √© fruto das pesquisas realizadas na EPAMIG e tamb√©m em outras institui√ß√Ķes de pesquisa e ensino do pa√≠s.¬†

Quais s√£o os maiores desafios das cientistas no Brasil?

Fazer ciência é um desafio no Brasil. O tempo para nos dedicarmos exclusivamente à pesquisa é um dos entraves. Grande parte do tempo é gasto em atividades burocráticas e na busca por recursos para trabalhar, financeiros e logísticos. Sobra pouco tempo efetivo para mergulhar fundo nas pesquisas. A falta de financiamento e de infraestrutura para pesquisa, para citar alguns exemplos, são outros gargalos, que representam sérias dificuldades.

O que mais a entusiasma na atividade de cientista?

Entusiasmo-me pela pesquisa que busca solu√ß√Ķes para a agricultura baseada na natureza. √Č um trabalho sem fim, cheio de descobertas e desafios!

Algum conselho para as jovens aspirantes a cientista?

Usem bem o tempo, especialmente durante a pós-graduação. Leiam muito. Há uma infinidade de fontes a serem exploradas. Visitem o campo e observem a natureza e o comportamento dos organismos. Observem como as plantas reagem ao ataque dos insetos e como os insetos se relacionam. Cumpram sempre seus compromissos de trabalho e, se possível, façam um treinamento no exterior, pois a experiência de vida pessoal e profissional é imensa.

Sobre a cientista convidada

Madelaine √© engenheira agr√īnoma formada pela Universidade Federal de Pelotas, fez mestrado em Fitossanidade (Entomologia) na Universidade Federal de Lavras (UFLA) e doutorado pela Universidade de Amsterd√£, Holanda. Come√ßou a carreira de pesquisadora na Empresa de Pesquisa Agropecu√°ria de Minas Gerais (EPAMIG) em 1992. Em 2017 recebeu o pr√™mio de Destaque M√©rito Cient√≠fico da EPAMIG pelos trabalhos desenvolvidos em prol do controle biol√≥gico.

Já escreveu mais de 100 artigos em jornais científicos arbitrados, além de 15 livros e 45 capítulos de livros de editoras nacionais e internacionais. Orientou mais de 120 alunos, entre iniciação científica, treinamento técnico, trabalho de conclusão de curso, especialização, pós-graduandos (mestrandos e doutorandos) e pós-doutorandos. Atualmente é professora nos cursos de Pós-Graduação em Entomologia e em Defesa Sanitária Vegetal, ambos pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), e coordena o Programa Estadual de Pesquisa em Agroecologia.

Inseto praga, inseto solução

Madelaine busca solu√ß√Ķes na natureza para uma agricultura menos dependente de qu√≠micos e mol√©culas sint√©ticas e mais saud√°vel e segura para os seres humanos e demais organismos do planeta Terra. A tarefa requer o estudo dos ecossistemas e da teia de rela√ß√Ķes entre diferentes organismos que os comp√Ķe. Observar e contemplar a natureza faz parte do seu ‚Äúfazer ci√™ncia‚ÄĚ.¬†

Uma das solu√ß√Ķes para evitar ou reduzir o uso de agrot√≥xicos para controlar pragas e doen√ßas que causam preju√≠zos √†s lavouras est√° no controle biol√≥gico conservativo, tema de estudo da cientista. O controle biol√≥gico conservativo re√ļne pr√°ticas de manejo que promovem e protegem popula√ß√Ķes de organismos considerados inimigos dos organismos que se quer combater. Os chamados ‚Äúinimigos naturais‚ÄĚ podem ser insetos, fungos, bact√©rias, etc. que se alimentam do organismo praga, predam seus ovos ou formas jovens, depositam seus ovos nele ou infectam-no com alguma doen√ßa. As possibilidades na natureza s√£o in√ļmeras.¬†

Um pr√°tica do controle biol√≥gico conservativo √© o plantio na lavoura de plantas n√£o-cultiv√°veis ou n√£o-comerci√°veis que sejam fonte de alimento ou que sirvam de ninhos artificiais para os inimigos naturais. Para ilustrar, o uso de gergelim ao redor de planta√ß√Ķes de arroz aumenta o n√ļmero de inimigos naturais das pragas comuns √† essa cultura e, na China (entre 900 e 1200 a.C.), ninhos da formiga-verde (Oecophylla smaragdina) eram espalhados deliberadamente pelas lavouras de citros para o controle de insetos, que danificavam folhas.¬†

Usar um organismo contra o outro √© ecologicamente correto e mais barato que o uso dos famigerados agrot√≥xicos. De acordo com um estudo recente, o uso do controle integrado de pragas com o controle biol√≥gico conservativo aumenta a produ√ß√£o em 5-40% e reduz o uso de qu√≠micos do grupo pesticidas em 30-70%. Apesar de antigas, essas pr√°ticas s√£o ainda pouco estudadas e exploradas comercialmente. O fato √© que os benef√≠cios econ√īmicos, principalmente, para pequenos agricultores e as vantagens ecol√≥gicas e ambientais dessas pr√°ticas poder√£o ser estrat√©gicas para a produ√ß√£o de alimentos em um futuro incerto de crise clim√°tica.

Crédito de imagem: Pixabay no Pexels

Entrevista publicada originalmente em 29 abril de 2020.

Louise May De Mio: O prazer de descobrir e questionar

Para Louise Larissa May De Mio, professora e pesquisadora na Universidade Federal do Paraná (UFPR)  fazer ciência depende de curiosidade e boas ideias. O prazer de descobrir e questionar foram apreendidos com mestres entusiasmados ainda na graduação. Hoje é ela quem inspira jovens cientistas.

 

A curiosidade vinculada as boas ideias s√£o elementos essenciais para a vida de cientista e podem ser potencializadas ao se trabalhar em equipes multidisciplinares.

Louise Larissa May De Mio

O que a influenciou a seguir carreira científica?

Minha carreira acad√™mica iniciou com pequenas curiosidades, ideias e pensamentos ao longo do per√≠odo escolar. No curso de agronomia na Universidade Federal do Paran√° (UFPR), a professora Maria L√ļcia R. Z. Costa Lima (in memoriam) ministrava as aulas de fitopatologia com muito entusiasmo e dedica√ß√£o e isso me despertou o interesse pela √°rea, que todos os meus colegas achavam complexa.¬†

A partir da√≠ ingressei em est√°gios de pesquisa e desenvolvimento de ci√™ncia como uma forma nova de pensar. A inicia√ß√£o cient√≠fica na UFPR foi o primeiro passo. Na sequ√™ncia, mestrado e doutorado na Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ da Universidade de S√£o Paulo (ESALQ/USP) e p√≥s-doutorado na Universidade da Calif√≥rnia Davis nos Estados Unidos. Durante o mestrado, o Prof. Dr. Hisoshi Kimati (in memoriam) me incentivou a desenvolver pensamento l√≥gico com base na observa√ß√£o cr√≠tica e muita leitura de artigos cient√≠ficos, o que tamb√©m me proporcionou a base para entender aspectos da ci√™ncia aplicada. Nesta etapa eu j√° estava infectada pelo prazer de descobrir o novo e questionar tudo que se apresentava. O per√≠odo de mestrado e doutorado que passei na ESALQ foi importante para o desenvolvimento da minha carreira de forma √©tica e aprofundada. Tive muita sorte de encontrar excelentes profissionais ao longo da minha jornada.

Qual a motivação que direciona o seu trabalho?

Sou professora na UFPR há mais de duas décadas e sempre que entro em uma sala de aula, da graduação ou da pós-graduação, vejo muitas possibilidades e universos a serem desvendados. Durante as aulas, muitas vezes, reconheço no brilho dos olhos dos alunos, aqueles que vão seguir carreira na mesma área que eu escolhi. Muito gratificante! Na pesquisa que desenvolvo com uma grande equipe de alunos, pós-graduandos, pesquisadores e produtores rurais ocorre o mesmo, a cada descoberta encontro uma nova motivação para continuar.

Quais as contribui√ß√Ķes que voc√™ fez para a ci√™ncia?

No ensino, a forma√ß√£o de pessoas, profissionais bem qualificados e conscientes da import√Ęncia do conhecimento adquirido. Pessoas que gostam do que fazem e realizam seu trabalho buscando novos desafios para a melhoria do agroneg√≥cio com base na ci√™ncia. Na gradua√ß√£o, leciono a parte b√°sica dos fundamentos da fitopatologia e discuto o conte√ļdo relacionando-o ao manejo das doen√ßas em plantas. Na p√≥s-gradua√ß√£o atuo na √°rea de epidemiologia e controle de doen√ßas com foco no manejo integrado.

Na pesquisa, o desenvolvimento de conhecimentos em diferentes n√≠veis, incluem desde t√©cnicas para garantir sustentabilidade e alimentos seguros at√© estudos de b√°sicos para explicar fen√īmenos biol√≥gicos que nos desafiam constantemente. Ao longo da minha carreira foram publicados alguns artigos e na maioria deles existe uma preocupa√ß√£o com a aplicabilidade do conhecimento para melhorar a vida dos produtores de alimentos.¬†

No in√≠cio da carreira fui respons√°vel pela implementa√ß√£o da produ√ß√£o integrada de algumas frut√≠feras de clima temperado no estado do Paran√°, liderando e interagindo com um grupo grande de t√©cnicos, pesquisadores e produtores. Desta etapa surgiram demandas de pesquisa ligadas a estrat√©gias de controle de doen√ßas para minimizar o uso de fungicidas qu√≠micos. Como resultado, foram propostas muitas altera√ß√Ķes no manejo, considerando estudos epidemiol√≥gicos em campo, que hoje auxiliam produtores a produzir alimentos de forma mais ecol√≥gica. Tamb√©m, estudamos de forma mais aprofundada pat√≥genos (latentes ou quiescentes) em frutas que, muitas vezes, desenvolvem sintomas somente durante o processo de comercializa√ß√£o e, por isso, s√£o importantes para o mercado de importa√ß√£o e exporta√ß√£o.

Al√©m de estudos epidemiol√≥gicos, nos √ļltimos 10 anos temos tamb√©m monitorado a sele√ß√£o de pat√≥genos com resist√™ncia √† fungicidas em frut√≠feras e em soja. Identificamos os mecanismos de a√ß√£o e desenvolvemos estrat√©gias de manejo para evitar que a efici√™ncia de fungicidas no campo seja reduzida. Em paralelo, tenho uma linha de pesquisa com prospec√ß√£o e desenvolvimento de produtos de origem biol√≥gica ou com base em √≥leos essenciais para controle de doen√ßas em sistemas de produ√ß√£o org√Ęnica ou para serem integrados ao manejo convencional.

Os trabalhos realizados pelo grupo s√£o divulgados em teses, disserta√ß√Ķes, artigos cient√≠ficos, artigos t√©cnicos, livros, manuais, palestras e treinamentos. Fazemos o poss√≠vel para transformar a ci√™ncia produzida pela equipe para uma linguagem adequada, atendendo aos diferente p√ļblicos da sociedade.

Quais s√£o os maiores desafios das cientistas no Brasil?

Atingir o maior n√ļmero de pessoas com as informa√ß√Ķes geradas e fazer pesquisa alinhada com as necessidades e participa√ß√£o da sociedade. Para isso, s√£o necess√°rios: financiamento para pesquisa de longo prazo, integra√ß√£o de dados coletados no laborat√≥rio e em experimentos de campo e desenvolvimento de pesquisas mais aplicadas. Estas pesquisas devem integrar pesquisadores de diferentes √°reas e contar com apoio e discuss√Ķes do setor produtivo.

O que mais a entusiasma na atividade de cientista?

A possibilidade de novas descobertas e as mudanças que podemos proporcionar ao integrar conhecimento, experiência e inovação. A curiosidade vinculada as boas ideias são elementos essenciais para vida de cientista e podem ser potencializadas ao se trabalhar com equipes multidisciplinares, com experiências em diferentes áreas.

Algum conselho para as jovens aspirantes a cientista?

Sim, que sempre busquem desafios e objetivos para facilitar a vidas das pessoas, trabalhem de forma colaborativa em equipe, integrando avan√ßos tecnol√≥gicos com ambiente sustent√°vel. N√£o se acomodem e n√£o se limitem em situa√ß√Ķes de dificuldades. Em frente, avan√ßando sempre! Al√©m disso, repassem o conhecimento adquirido, trocando, incentivando e valorizando boas ideias.

Como está o andamento das pesquisas em meio a pandemia da COVID-19? Quais os desafios e as estratégias adotadas para superá-los?

A pandemia da COVID-19 nos imp√īs um desafio enorme de reorganizar metas e trabalhos em andamento. Temos um grupo de pesquisa chamado “LEMID ‚Äď Laborat√≥rio de Epidemiologia para Manejo Integrado de Doen√ßas” de plantas e nos organizamos em reuni√Ķes semanais ou quinzenais para acompanhamento dos trabalhos de cada p√≥s-graduando. Nas reuni√Ķes decidimos priorizar o uso dos laborat√≥rios para os trabalhos que n√£o puderam ser interrompidos, em especial aqueles com pat√≥genos biotr√≥ficos que precisam ser mantidos em planta, pois n√£o podem ser cultivados in vitro, como o agente causal da ferrugem asi√°tica da soja.¬†

Experimentos em campo continuam sendo realizados, por exemplo: na cultura da videira, estamos quantificando danos de doen√ßas e prospectando agentes biol√≥gicos para controle; na macieira e na ameixeira est√£o sendo realizados estudos epidemiol√≥gicos em campo. Alguns dados precisam ser coletados para evitar interrup√ß√£o nas pesquisas planejadas a longo prazo. Al√©m desses trabalhos, temos acompanhado popula√ß√Ķes de pat√≥genos ao longo das safras, para monitorar resist√™ncia √† fungicidas. Essas pesquisas est√£o sendo conduzidas com o devido cuidado e com ajuda de produtores rurais e fruticultores parceiros.

Os alunos de pós-graduação, graduação, iniciação científica e tecnológica têm autorização para entrar no laboratório e continuar as pesquisas, desde que tomados todos os cuidados preconizados para evitar o contágio. Estamos em turnos de trabalho com no máximo dois alunos por dia no laboratório.

No restante, todos est√£o trabalhando remotamente na compila√ß√£o de dados j√° coletados, an√°lises de dados e leitura de artigos cient√≠ficos. Alguns alunos em fase mais adiantada da pesquisa, assim como os p√≥s-doutorandos, est√£o escrevendo artigos cient√≠ficos ou corrigindo os que est√£o em tr√Ęmite nas revistas. Fazemos, para isso, reuni√Ķes peri√≥dicas envolvendo pesquisadores parceiros de outras institui√ß√Ķes no Brasil e no mundo. Atualmente, tenho na equipe uma aluna em programa de doutorado sandu√≠che nos Estados Unidos.¬†

Estamos também elaborando um livro sobre análises epidemiológicas aplicadas para doenças de plantas em conjunto com pesquisadores da área da estatística da UFPR. Esse trabalho estará disponível em plataformas online de acesso livre. 

Enfim, não está fácil lidar com esta situação que assola o mundo, mas com todo esse planejamento estamos nos mantendo conectados e ajudando uns aos outros. A pesquisa científica é a grande esperança para superarmos este desafio.

Sobre a cientista convidada

Louise Larissa May De Mio √© engenheira agr√īnoma pela Universidade Federal do Paran√° (UFPR) e fez mestrado e doutorado em fitopatologia pela Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ da Universidade de S√£o Paulo (ESALQ/USP). O p√≥s-doutorado em epidemiologia e manejo de doen√ßas de plantas foi realizado na Calif√≥rnia nos Estados Unidos. Hoje √© professora na UFPR e faz pesquisas multidisciplinares com foco na aplica√ß√£o do conhecimento no agroneg√≥cio.

Entre as linhas de pesquisa que desenvolve destacam-se: a elabora√ß√£o de novas formas de cultivar frut√≠feras e leguminosas sem ou com reduzido uso de agroqu√≠micos; acompanhamento da evolu√ß√£o da resist√™ncia de pragas e doen√ßas no campo aos qu√≠micos em uso; e desenvolvimento de qu√≠micos para combate de pragas e doen√ßas menos poluentes ao meio ambiente e que possam ser usados no cultivo de alimentos org√Ęnicos, por exemplo.

Já escreveu mais de 160 artigos em jornais científicos arbitrados, além de 26 livros e capítulos de livros de editoras nacionais e internacionais. Orientou mais de 140 alunos, entre iniciação científica, treinamento técnico, trabalho de conclusão de curso, especialização, pós-graduandos (mestrandos e doutorandos) e pós-doutorandos. Atualmente é professora no programa de Pós-Graduação em Produção Vegetal, na área de Fitopatologia, e coordena o Laboratório de Epidemiologia para Manejo Integrado de Doenças (LEMID) e o Laboratório de Epidemiologia Molecular (LAEM).

 

Crédito de imagem: Bruno Scramgnon no Pexels

Entrevista publicada originalmente em 12 agosto de 2020.