A corrida espacial tur√≠stica √© p√ļblico-privada

Vai para onde: Lua ou Marte? Na reportagem, o astr√īnomo Ricardo Ogando, do Observat√≥rio Nacional, fala sobre o recente avan√ßo das viagens com tripula√ß√£o feito pela SpaceX, com apoio e financiamento da NASA. O marco hist√≥rico atingido na miss√£o SpaceX Demo-2 √© o primeiro passo para o turismo espacial comercial.¬†

No sábado, 30 de março de 2020, às 16:22 (horário de Brasília), em meio a pandemia da COVID-19, os astronautas Robert Behnken e Douglas Hurley a bordo da cápsula Dragon acoplada ao foguete Falcon 9 partem de Cabo Canaveral na Flórida em direção à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês). O objetivo da missão, denominada SpaceX Demo-2, foi testar a atracação da Dragon à ISS, fazer testes simulados para demonstrar o sistema completo de transporte de tripulação e retornar à Terra sem danos ou prejuízos físicos e materiais. A missão deve terminar em agosto deste ano.

“Nos √ļltimos anos, os voos espaciais foram conduzidos por ag√™ncias estatais, como a NASA e a Roscosmos da R√ļssia, a partir do Cosm√≥dromo de Baikonur, no Cazaquist√£o. A SpaceX desenvolveu uma nova c√°psula e um novo foguete reutiliz√°vel com o intuito de substituir os √īnibus espaciais. A nova tecnologia devolveu a capacidade de lan√ßamento aos Estados Unidos. Esse foi o primeiro voo tripulado no pa√≠s desde julho de 2011”, disse Ricardo Ogando, astr√īnomo do Observat√≥rio Nacional, localizado no Rio de Janeiro.

Elon Musk √© o nome s√≠mbolo da atual conquista espacial, que canaliza ci√™ncia, tecnologia e investimentos pesados dos setores p√ļblico e privado. O bilion√°rio de m√ļltiplas facetas e credenciais ‚Äď engenheiro, designer, empreendedor e filantropo ‚Äď fundou a SpaceX em 2002, empresa respons√°vel pela miss√£o. O sonho de Musk √© fazer da Lua e de Marte destinos tur√≠sticos poss√≠veis para a popula√ß√£o civil.

Segundo Ogando, a miss√£o √© um grande feito mesmo que indissoci√°vel do momento cr√≠tico atual. “O feito est√° conectado √† crise pol√≠tica. Imagina-se que viagens espaciais inspirem ideais mais elevados, como na s√©rie de fic√ß√£o cient√≠fica Jornadas nas Estrelas. Infelizmente, o que se v√™, em geral, √© que os f√£s do Elon Musk s√£o bastante t√≥xicos e que a nova corrida espacial √© uma cortina de fuma√ßa dos males feitos do governo Donald Trump.”

Apesar da controversa figura de Musk, transvertido por fãs em guru do futuro, o voo com astronautas americanos, tecnologia americana e partindo de solo americano marca a independência dos Estados Unidos na conquista espacial científica e comercial. O acesso ao espaço passa pela revolução no transporte demonstrada na missão.

A SpaceX criou a s√©rie Falcon de foguetes de lan√ßamento e tamb√©m a c√°psula Dragon, reutiliz√°vel e vers√°til no transporte de carga ou passageiros, dependendo de poucas adapta√ß√Ķes. Para aumentar a seguran√ßa, baratear custos e agilizar inova√ß√Ķes, a estrat√©gia da empresa foi concentrar processos e desenvolver tecnologias internamente, minimizando parcerias com terceiros.

“Empresas focadas em um projeto podem otimizar e baratear desenvolvimentos. Agora, ao visar lucro, empresas privadas podem negligenciar certos requerimentos para diminuir custos ou mesmo desconsiderar a presta√ß√£o de contas √† sociedade. O resultado pode ser negativo. O caso dos sat√©lites Starlink ilustram a quest√£o: os milhares de sat√©lites de comunica√ß√£o em √≥rbita t√™m brilho excessivo, atrapalhando as observa√ß√Ķes do c√©u por amadores e profissionais. O brilho √© um problema conhecido e poderia ser evitado se considerado desde o in√≠cio do projeto. Agora fazem gambiarras para resolver”, explica Ogando.

Na lista de tecnologias da SpaceX est√° o Falcon 1, um foguete de dois est√°gios, que usa como combust√≠vel propulsor RP-1 (um tipo de querosene para foguetes) e oxig√™nio l√≠quido. J√° o Falcon 9 √© similar a primeira vers√£o, com capacidade de colocar em √≥rbita uma carga superior (at√© 12,500 kg). H√° tamb√©m a c√°psula Dragon, desenhada inicialmente para atender √†s demandas da NASA de transporte de carga √† ISS (ida e volta) e cujo desenvolvimento e miss√Ķes, como a SpaceX Demo-2, s√£o patrocinadas pelo Programa Comercial de Servi√ßos de Transporte Orbital (COTS) desde 2006.

“O grande barato do Falcon 9 s√£o os est√°gios que voltam e pousam na Terra em p√© e de forma controlada. Nos antigos √īnibus espaciais, os est√°gios ca√≠am, em geral, no oceano e a recupera√ß√£o por navios era muito cara e complicada. A c√°psula Crew Dragon ainda cai no oceano, j√° que n√£o tem combust√≠vel suficiente para a volta, mas as novidades incluem, al√©m do design moderno, as telas touch, a op√ß√£o manual ou de auto-acoplagem √† ISS e um mecanismo de seguran√ßa para problemas durante o lan√ßamento, por exemplo, uma explos√£o”, explica Ogando.

As roupas dos astronautas tamb√©m estampam as aspira√ß√Ķes do feito, como comenta Ogando. “O visual √© bem mais moderno e vistoso do que as roupas ab√≥boras dos √īnibus espaciais e foram desenhadas pelo figurinista Jose Fernandez dos filmes de Hollywood, como Mulher Maravilha. Al√©m disso, resistem a despressuriza√ß√£o em caso de emerg√™ncia, mas n√£o s√£o preparadas para caminhadas espaciais.”

At√© o momento, a miss√£o foi bem-sucedida e representa o primeiro passo para a SpaceX obter a certifica√ß√£o necess√°ria para o Programa de Tripula√ß√£o Comercial da NASA. “A facilidade de acesso ao espa√ßo pode permitir mais experimentos na ISS e mais sat√©lites e sondas no c√©u para melhorar nossa comunica√ß√£o e conhecimento do nosso planeta e do universo. Para a ci√™ncia brasileira, o feito pode inspirar gera√ß√Ķes de novos cientistas. O lan√ßamento foi coberto por diversos canais e acompanhado por milh√Ķes de pessoas no Brasil e no mundo”, relata.

Juntas, NASA, SpaceX e tamb√©m a Boeing v√£o projetar, construir, testar e operar o transporte humano para a √≥rbita baixa da Terra (2.000 Km). O sucesso vai al√©m da explora√ß√£o cient√≠fica espacial e demonstra que parcerias p√ļblico-privadas podem alavancar empreendimentos comerciais lucrativos. As pr√≥ximas metas da SpaceX incluem aumentar a quantidade de carga e o n√ļmero de tripulantes por voo.

“N√£o h√° necessidade de voos tripulados para a Lua ou Marte para aprendermos sobre eles. Esses voos tripulados s√£o caros e perigosos. Sondas rob√≥ticas podem muito bem fazer esse trabalho. Al√©m disso, corridas espaciais n√£o s√£o sustent√°veis, por isso chegamos na Lua h√° 50 anos e nunca mais voltamos. Nosso planeta √© o √ļnico que temos, aqui encontramos o modo f√°cil de sobreviver no universo. Cuidar dele √© muito melhor e mais f√°cil do que tentar terraformar Marte”, finaliza Ogando.¬†¬†

Lua e Marte podem vir a ser destinos tur√≠sticos poss√≠veis para os c√≠rculos sociais de Musk. Para a maioria da popula√ß√£o, na imin√™ncia de uma crise clim√°tica sem retorno, com extin√ß√£o de grande parte da diversidade de flora e fauna, a sobreviv√™ncia e manuten√ß√£o dos meios de vida ainda est√° na Terra. A esperan√ßa √© que as novas tecnologias, desenvolvidas na conquista espacial comercial, possam resolver problemas mais urgentes ‚Äď em solo firme.

Bibliografia

DREYER, L. Latest developments on SpaceX’s Falcon 1 and Falcon 9 launch vehicles and dragon spacegraft. IEEE Aerospace conference, 2009. doi: 10.1109/AERO.2009.4839555

Fonte entrevistado: Agência Bori

Crédito imagens: SpaceX no Pexels

Revis√£o de texto: Nat√°lia Flores


Texto publicado originalmente em 26 de junho de 2020