Resenha critica da Obra Educação na América Latina: história, movimentos, resistências e proposições.

Resenha critica da Obra Educação na América Latina: história, movimentos, resistências e proposições.

Por Helena Vetorazo https://orcid.org/0000-0001-5657-1900

Ficha técnica

KRUPPA, Sonia Maria Portella; MASCARENHAS, Fábio Sampaio; SOUZA, Marilene Proença Rebello de (Orgs.). Educação na América Latina: história, movimentos, resistências e proposições. São Paulo: Portal de Livros Abertos da USP / Fundação Memorial da América Latina, 2026.

Territórios de Resistência: A Educação como Trincheira na América Latina

A coletânea Educação na América Latina: história, movimentos, resistências e proposições, organizada por Sonia Maria Portella Kruppa, Fábio Sampaio Mascarenhas e Marilene Proença Rebello de Souza, toma como ponto de partida a premissa de que a educação no continente é um território histórico de disputa, indissociável das tensões políticas e econômicas locais. Publicada pela Fundação Memorial da América Latina em parceria com a FEUSP, a obra de 485 páginas afasta-se de neutralidades técnicas para analisar as redes públicas de ensino diante das heranças coloniais, das desigualdades estruturais e das reformas gerenciais neoliberais que buscam mercantilizar o direito à instrução.

O volume estrutura-se a partir de uma articulação institucional entre o Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam/USP), a Faculdade de Educação da USP e o Memorial da América Latina, dividindo-se em três eixos teóricos e empíricos: a análise integrada da região, os estudos comparados e a inserção do cenário brasileiro nesse panorama conceitual. Essa arquitetura é sustentada por um corpo de colaboradores que transita entre a pedagogia histórico-crítica, a psicologia histórico-cultural e a sociologia política, o que confere densidade interdisciplinar ao exame da realidade escolar e das ações dos movimentos sociais latino-americanos.

No primeiro eixo, voltado às matrizes decoloniais e psicossociais, os autores mobilizam os referenciais de Paulo Freire, Lev Vigotski e Ignácio Martín-Baró para confrontar o conceito de fatalismo latino-americano — a percepção ideológica de que a exclusão social seria um dado imutável da realidade regional. Por meio da Psicologia da Libertação, discute-se como os processos de conscientização atuam na decolonização epistêmica e na recuperação da memória histórica, transformando o ato pedagógico em vetor de emancipação. Essa base teórica ganha contornos práticos no segundo bloco, dedicado à antropologia da educação, com destaque para o estudo da marcha educativa em Oaxaca, no México. O capítulo demonstra como a organização sindical e as coalizões de professores indígenas formularam propostas pedagógicas autônomas em meio a processos de insurreição popular. A dimensão transnacional se completa com uma análise comparativa entre Brasil e Colômbia a respeito do acesso de migrantes venezuelanos à educação básica, evidenciando as lacunas normativas e humanitárias da região.

O terceiro núcleo da obra concentra-se na realidade brasileira, oferecendo uma leitura crítica do que os autores caracterizam como uma transição democrática incompleta. Os ensaios recuperam desde as Reformas de Base da década de 1960 até os processos contemporâneos de privatização e estabelecimento de parcerias público-privadas nas redes estaduais e municipais de ensino. A crítica direciona-se à adoção de modelos de gestão empresarial que priorizam métricas de eficiência e competitividade demandadas por organismos financeiros internacionais, esvaziando o sentido formativo e crítico da escola pública. Em contrapartida, o livro documenta as táticas de resistência mobilizadas por docentes e por movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Do ponto de vista analítico, um dos maiores méritos do livro consiste em superar o isolamento cultural e linguístico que historicamente afasta a produção acadêmica brasileira dos debates promovidos na América Hispânica. A articulação entre a psicologia social e a sociologia política confere rigor à análise das subjetividades e das estruturas macroeconômicas. Contudo, a diversidade de perspectivas teóricas resulta em oscilações pontuais no fôlego analítico e na densidade estilística entre os capítulos. Além disso, embora o mapeamento da lógica mercantil sobre a escola seja preciso, o volume deixa caminhos abertos para que investigações futuras incorporem o impacto das novas tecnologias digitais corporativas e da inteligência artificial na precarização do trabalho docente.

Educação na América Latina consolida-se como um diagnóstico substancial das reformas educacionais contemporâneas e um registro da práxis pedagógica dos movimentos sociais da região. Trata-se de uma leitura de referência para pesquisadores, estudantes e profissionais dedicados à Sociologia da Educação, às Políticas Públicas e à Psicologia Escolar que buscam compreender as dinâmicas de poder e resistência que moldam o ensino público no continente.

One thought on “Resenha critica da Obra Educação na América Latina: história, movimentos, resistências e proposições.

  1. Que resenha fantástica, profa. Helena! Texto impecável que nos faz refletir sobre a realidade da educação no nosso continente. Muito obrigado por compartilhar essa leitura de referência conosco! Sou estudante de pedagogia. Vou ler o livro.

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