É mais fácil ganhar na Mega-Sena do que adivinhar o próximo termo da sequência numérica [2, 3, 5, 7, 11, ?]
Uma coisa que passei a detestar são aqueles ditos ‘desafios de lógica’ nos quais são dados alguns valores em sequência e te pedem para ‘descobrir’ qual o próximo. Um exemplo bem popular no Brasil é esse:
2, 10, 12, 16, 17, 18, 19, ?
A resposta ‘certa’ para esse desafio seria 200, pois o ‘padrão’ esperado envolve os números Naturais que começam com a letra D. O ponto é que sem uma regra por trás do funcionamento dessa sequência, adivinhar o próximo termo é menos do que improvável, e sim, impossível. Do tipo, lhe dou sete termos de uma sequência e te desafio a encontrar o oitavo termo:
0, 25, 50, 70, 86, 96, 100, ?
Vou até plotar esses pontos num gráfico para ver se isso nos ajuda a ter alguma ideia.

É uma curva crescente, mas parece que o crescimento dela é maior no começo do que no final, pensando assim poderia chutar que a resposta seja algo entre 101 e 103. E certamente erraria, pois a resposta pensando no ‘padrão correto’ seria 96. Afinal, essa é a função 100*sen(x) com x variando em intervalos de 15 graus.

Ou seja, após atingir 100, a função vai descrescer até chegar em -100. Percebe como que ‘descobrir’ esse padrão não é tão simples quanto dizem.
Outro exemplo legal, pensemos na seguinte sequência:
2, 3, 5, 7, 11
Ela se parece com a sequência dos números Primos. Mas também pode ser o conjunto das raízes do seguinte polinômio:
-2310 + 2927.x – 1358.x² + 288.x³ – 28.x⁴ + x⁵

Se pensarmos que o desafio pede o próximo termo sem nos informar qual a ‘função’ que controla a sequência, ficamos em uma encruzilhada, afinal não dá para decidir se estamos considerando a sequência dos números Primos, que nesse caso o próximo termo seria 13, ou uma função polinomial de grau 6 com 6 raízes reais, o que implica na existência de não-enumeráveis soluções representadas como uma superfície no espaço tridimensional de todos os gráficos possíveis.

Ou de fato, qualquer outra função matemática (bizarra ou não) que intercepte pelo menos os 5 pontos conhecidos poderia ser dada como ‘desafio’. Isso é um tanto injusto até mesmo em um mundo onde as pessoas acreditam terem ‘grandes chances’ de ganhar na Mega-Sena. Pois sua chance de ganhar na Mega-Sena com um bilhete simples que é de 1/50.063.860 (aproximadamente 0,000002%), e posso dizer, que sua chance de adivinhar o sexto termo dessa sequência é muito menor do que esse valor.
Créditos da imagem de capa à Milesl por Pixabay
Como referenciar este conteúdo em formato ABNT (baseado na norma NBR 6023/2018):
SILVA, Marcos Henrique de Paula Dias da. É mais fácil ganhar na Mega-Sena do que adivinhar o próximo termo da sequência numérica [2, 3, 5, 7, 11, ?]. In: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. Zero – Blog de Ciência da Unicamp. Volume 5. Ed. 1. 1º semestre de 2021. Campinas, 04 jan. 2021. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/zero/2513/. Acesso em: <data-de-hoje>.

Texto excelente!
Obrigada Ivy :3
Bien ai...muito interesante💪🇧🇷🌎
2 em 2
O grande problema da Matemática (pura?) é que ela cria um mundo todo particular...ainda que lógico e inquestionavel na maioria das vezes. Esta discursão não faz sentido, por exemplo, no mundo do ensino básico...aonde temos que expor exemplos que sejam "absorvíveis" por qualquer aluno(a). O mundo real funciona de outra maneira...nunca lançaria um desafio desses para a maioria dos alunos... é uma Matemática que afasta as pessoas...
Bom dia André, de fato a Matemática assim chamada de pura, não é um campo do conhecimento aplicável. Pense nela mais como uma filosofia, com operadores lógicos. Seu objetivo em sala de aula não é resolver problemas do dia-a-dia, e sim fornecer ferramentas mentais para o tratamento de problemas. Essa é uma questão que sempre levanto em minhas aulas (no Ensino Médio e Ensino Superior), que aqui estamos numa "academia", nosso objetivo é o fortalecimento da habilidade de raciocínio, e sua capacidade de estrapolação de domínios. Aquela velha piada, de que a pessoa sabia responder aquela pergunta com maçãs, mas não com laranjas, é o que na realidade enxergo como uma barreira de domínios. E sim, problemas difíceis são bons, pois forçam a ruptura de domínios cognitivos, ainda que leve tempo. Mas puxando o comentário para esse post, o blog em si não é um blog didático de matemática, não tem como objetivo ensinar ao leitor tópicos do currículo escolar... esse blog procura promover a divulgação da matemática, trazendo discussões legais pro público geral, mesmo que após a leitura o público fique ainda mais confuso e pensativo, esse é um ótimo resultado no ponto de vista da divulgação científica.