Se eu fosse invadir a Terra…

Era uma aula de matemática como outra qualquer no dia de Emanuelly, sem que realmente houvesse uma deixa nos conceitos ou exemplos para que assuntos mais aleatórios surgissem. Mas ela sabe que para muitos alunos, seus professores são os adultos com quem mais interagem durante a semana, e justamente por isso, a atenção dada à turma deve ir além de uma preocupação na aprendizagem de conceitos da sua disciplina. Pois em sua visão pedagógica, a educação inicia-se do cuidado e carinho, que propiciam cenários possíveis para a aprendizagem, e se essa posição não for ocupada por professores, provavelmente será ocupada pelo mundo.

Eis que Gustavo, um aluno bastante comunicativo, pergunta algo que toma a atenção de toda a sala. “Professora, como você acha que seria uma invasão alienígena?”

Emanuelly para, respira, e toma coragem para explicar, pois embora este fosse um assunto para o qual ela já se dedicou a pensar várias vezes, a resposta dada para a turma carecia de uma elaboração apropriada.

Ela começa colocando que em sua visão, os alienígenas deveriam ter uma diferença tecnológica com o ser humano atual tão grande quanto nossa civilização tem daquela que invadiu o Brasil em 1500 (ela faz questão de enfatizar o termo invasão em vez de descobrimento).

Plano de invasão alienígena – por Emanuelly de Paula

  1. Ocultar a ameaça. É essencial para o plano ser bem sucedido que o alvo demore para detectar a ameaça invasora ou até mesmo nunca a perceba, pois quanto mais cedo a ameaça for reconhecida, mais eficazes serão as contramedidas.
  2. Estudar o alvo. Aprender sobre o ser humano, seus sistemas de comunicação, estruturas sociais. Relacionar através de contextos históricos e do comportamento atual, como foram os grandes movimentos sociais e o que poderia movimentar novos.
  3. Recrutar aliados. Com base no estudo sobre o ser humano, identificar pessoas que pela oferta de benefícios próprios, aceitariam se sujeitar aos interesses dos invasores, ainda que as ações resultem em um prejuízo ao coletivo.
  4. Concentração de riquezas: Com um processamento de dados mais avançado que o do ser humano, utilizaríamos modelos econômicos mais precisos para prever o comportamento do capital, obter enormes lucros através de investimentos e concentrar uma grande fortuna.
  5. Redução do poder: Financiando campanhas políticas, colocaria no poder das principais nações, candidatos com propostas para que os principais setores saíssem da responsabilidade do poder público.
  6. Individualização: Desenvolveria sistemas de serviços e funções que fossem realizadas de forma individual, reduzindo a presença de grupos sociais
  7. Controle: Favoreceria com base nos dados processados de cada pessoa, a oferta contínua de entretenimentos alinhados aos seus interesses variando com conteúdos que defendam os interesses do grupo invasor.

Feito isso, a autonomia do ser humano sobre a Terra viria a se degradar, e as pessoas ficariam sujeitas a um sistema da qual não seriam mais capazes de se opor com força suficiente para mudá-lo. Mesmo se a essa altura começassem a surgir mobilizações, poderíamos utilizar a maioria adepta ao sistema para suprimí-la. Assim, a invasão estaria concluída, sem nos expormos, sofrermos baixas ou mesmo, pisarmos na Terra.

Ao terminar a explicação os alunos pareciam um tanto decepcionados, pois na visão hollywoodiana uma invasão alienígena geralmente é retratada com conflitos bélicos, naves pousando, nações se unindo. Mas da forma como a professora colocou, tudo foi muito morno, quase como se fosse uma panela com água fria que aos poucos vai esquentando, até que sem perceber, o que está dentro dela cozinhe. Emanuelly questiona a turma se eles consideram que esse plano para dominar a raça humana através do enfraquecimento da autonomia humana, parece eficaz? A turma pensa um pouco e começam a concordar, realmente isso levaria à submissão do ser humano frente a um sistema controlado por alienígenas, que resultaria na dominação do planeta.

Contudo, a cereja do bolo veio mesmo na ocasião em que Luiza, uma das alunas, questiona essa estratégia como não sendo alienígena. Pois atualmente da forma como ela pontuou, essas coisas já ocorrem:

  1. Fake news sobre o aquecimento global, pandemia, entre outras ameaças que procuram ocultar.
  2. Big data que são coletadas o tempo todo e sobre tudo o que fazemos.
  3. Corrupção que faz pessoas de vários grupos lutarem por decisões que prejudicam o coletivo.
  4. Capitalismo neoliberal que faz com que o dinheiro possa ser gerado de forma independente dos meios de produção.
  5. Privatização faz com que os governos tenham menor controle sobre as funções essenciais.
  6. Uberização cada pessoa trabalha de forma independente como prestadora de um serviço.
  7. Algoritmos de redes sociais selecionam os conteúdos que veremos e que sejam mais rentáveis para a plataforma.

Frente a esse comentário, a professora Emanuelly opta em não responder, e joga a pergunta para que o restante da turma opine.

Mas agora vários alunos começavam a se opor, dizendo que aquela fala tinha cunho político, e o nome de vários personagens políticos começaram a aparecer no discurso. Rapidamente a turma começou a discutir e trocar farpas de acordo com seus diferentes posicionamentos e valores. A professora contudo interviu, dizendo que Luiza apenas descreveu o que ela havia dito, mas usou alguns termos que estão mais associados a discursos políticos, e isso era engraçado. Pois quando ela falava de alienígenas como uma ameaça, toda a turma parecia concordar que tal modelo era ruim, mas agora que Luiza trouxe esse cenário para mais perto da nossa realidade, isso começou a causar divergência… pensem nisso.

Em um clima de silêncio, a turma parecia reflexiva, ninguém queria se manifestar, pois por um momento a ficção era bem mais interessante e inocente de se discutir do que a realidade. Emanuelly sentia que aquela fagulha de discussão poderia ser desenvolvida, mas sem uma bagagem forte em História, Filosofia, Geografia e Sociologia, ela sabia que se tentasse prosseguir, corria o risco de apagar aquele princípio de fogo. Decidiu assim retomar ao tópico de matemática que desenvolvia antes da pergunta que motivou aquela discussão, e mais tarde contar aos seus colegas que trabalham com essa turma, sobre a discussão que mediou, na expectativa de que pudessem fazer melhor proveito daquela fagulha.

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Ok, este certamente não é um post típico e tampouco fala diretamente de Matemática. Contudo, já faz algum tempo que estou tentando terminá-lo, começo a escrever, volto, apago tudo, retomo a ideia e por ai foi, então aproveito para falar um pouco do próprio texto como conteúdo.

No início do texto, temos a posição humana da professora de Matemática, de compreender que os alunos tem nos seus professores um dos principais e mais regulares contatos com indivíduos adultos. Isto é, durante a semana, aquelas crianças e adolescentes interagem com seus colegas de idades próximas, mas também, com seus professores, que são adultos em exercício de ações educativas. Em minha visão, isso coloca os professores em uma posição de interação privilegiada, as vezes tão próximos quanto a própria família dos alunos, pois são adultos com os quais é preciso construir diálogos, desenvolver uma interação e formar vínculos de afeto. Embora não sejam os únicos adultos que interagem com as crianças e adolescentes, certamente são aqueles cuja profissão exige esta maior proximidade.

Ainda no primeiro parágrafo, a professora destaca que na sua visão pedagógica, o carinho e o cuidado precedem a aprendizagem, pois são estes que criam os cenários em que aprender passa a ser possível. Isto quer dizer que da forma como ela enxerga a educação, para se aprender requer primeiro a disposição para aprender, e isto exige um vínculo afetivo com quem ensina. Não sendo o conteúdo pelo conteúdo, mas o conteúdo pela relação estabelecida com quem o está ensinando. Uma turma que sinta estima por uma professora, estaria mais receptiva a ouvir o que ela dirá, independente do conteúdo em si. Fechando o primeiro parágrafo, temos na Emanuelly a percepção sobre sua própria responsabilidade no processo de educação, ao entender que se este papel não for reinvidicado por educadores, serão dominados por grupos com outros interesses.

Prosseguindo, em minhas aulas é realmente bastante comum que alguns alunos lancem perguntas aleatórias. Já tive um aluno que no meio da aula perguntou se eu concordava que um partido nazista existisse, e minha recomendação foi de que ele tomasse bastante cuidado com aquela pergunta, pois era uma questão que deveria ser levada para uma discussão mais séria com seus professores de Geografia, História, Filosofia ou Sociologia, e não deveria ser feita de forma leviana. O aluno agradeceu minha recomendação e não deu sequência naquela aula para essa pergunta.

Mas em outras tantas ocasiões, surgem questões que podem ser respondidas sem tanta reflexão, questões pessoais, de posicionamento político, de valores, ou meras curiosidades, como esta discutida no post. Que embora pareça leviana, traz um norral de possibilidades para se desenvolver discussões. Começando pela definição da diferença tecnológica entre a civilização atual e a alienígena, em uma comparação com a civilização que invadiu o Brasil e a nossa atual. O destaque para a palavra invasão em vez de descobrimento procura deixar claro seu posicionamento diante o que foi o colonização do ocupação do Brasil e da importância de um movimento decolonizador em todas as frentes da sociedade.

Na sequência, temos o plano de invasão que inicia-se com a ocultação da ameaça, que como a aluna Luiza coloca, é equivalente ao emprego das Fake News no sentido de dificultar uma percepção clara do que ocorre. Isto retarda movimentos de resistência e a ação de contramedidas, como é perfeitamente retratado no filme Não olhe para cima de 2021.

O passo seguinte envolve o estudo do alvo, que atualmente ocorre mediante as Big Data, tudo o que fazemos é conhecido, nosso comportamento, nosso perfil, escolhas, atitudes, e dentro de alguma margem de erro mínima, somos descritos dentro de perfis de consumidores bastante comuns (não é atoa que muitas vezes o que pensamos/fazemos aparece como anúncios). Verdade seja dita, o sistema nos conhece às vezes melhor do que nós mesmos.

A parte seguinte envolve reunir aliados, isso pode ser retratado como uma questão da teoria de jogos (semelhante àquela discutida no post Dilema do Prisioneiro e o Lockdown) onde cada parte opta em aceitar a proposta pois tem como receio que se recusar, a outra parte aceitará. Encontrar aliados neste caso seria localizar indivíduos que aceitariam trabalhar contra seu grupo para benefício indivídual.

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Após reunir aliados vemos o passo de concentrar riquezas sem aumentar a produção, o investimento no capital em si como ocorre no Neoliberalismo. A redução do poder público sobre as empresas estatais que desempenham funções essenciais para a população. A individualização do trabalhador, que passa a vender sua hora de trabalho a depender da demanda, sem garantias, grupos e com poucos direitos. Por fim, os algoritmos das redes sociais, que direcionam seus produtos de entrenimento em um ritmo contínuo, incessante e perfeitamente alinhado com o usuário, ao mesmo tempo que favorece a divulgação e circulação de conteúdos que atendam aos seus próprios interesses.

O texto avança para o fim primeiro com a concordância da turma sobre este plano fragilizar a autonomia do ser humano perante o sistema invasor. Mas logo a percepção se altera quando termos mais associados a discursos políticos aparecem em cena. Isso retoma inclusive a questão inicial do plano, que discute a percepção de uma ameaça, ou seja, os alienígenas elaborarem um plano é uma ameaça perceptível para a turma, mas as ameaças com as quais lidamos na realidade se camuflam com nomes menos ameaçadores, muitas vezes associadas a uma ideia de desenvolvimento econômico. Sem essa clareza sobre a ameaça, a própria turma se coloca em discórdia, mas quando voltam para a ideia de que de ambas as formas, está ocorrendo um enfraquecimento da autonomia do ser humano, parece que concordam, ainda que não estejam dispostos a abrir mão de seus respectivos posicionamentos políticos, mesmo que desconexos dos seus valores.

No fim, a professora reconhece que aquilo era uma fagulha, algo que poderia crescer, mas ela por si só conhece suas limitações e por isso, não se sentia em condições de continuar investindo neste princípio de chama, e opta em retomar a aula antes que a fagulha se apague. E encaminhar aos seus colegas professores a possibilidade de aproveitarem aquela fagulha para acenderem mais aquela discussão.

De fato este foi um texto difícil de se elaborar, que por várias vezes (como já mencionei) pensei em parar de escrevê-lo, mas acredito que carregue junto uma reflexão importante e que se alinha aos interesses da Divulgação Científica, e ainda, não isenta aos professores a responsabilidade sobre tal discussão. Isto é, não cabe a prerrogativa de que “eu sou professora de matemática, logo isso não me diz respeito”, uma vez que como é dito no início do texto, no posição desta professora, os educadores ocupam um papel de destaque no processo de educação de crianças e adultos, e isto se estende para além dos conceitos curriculares de suas disciplinas.


Como referenciar este conteúdo em formato ABNT (baseado na norma NBR 6023/2018):

SILVA, Marcos Henrique de Paula Dias da. Se eu fosse invadir a Terra…. In: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. Zero – Blog de Ciência da UnicampVolume 11. Ed. 1. 1º semestre de 2024. Campinas, 11 de junho 2024. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/zero/5777/. Acesso em: <data-de-hoje>.

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