As bruxas do passado e do presente

Hoje vistas como símbolo de maldade e representadas por imagens assustadoras, as bruxas já foram consideradas guardiãs da vida e da morte, com papel essencial nas comunidades camponesas europeias da Idade Média.

[Esse texto foi originalmente publicado na edição 364 da Revista Ciência Hoje]
 

Bruxa. Que imagem vem à sua mente quando você lê essa palavra? Agora, pergunte-se: De onde vem essa imagem? Será que toda bruxa se assemelha à que você pensou?

Não é raro imaginarmos a bruxa como uma mulher mais velha dotada de um grande e enverrugado nariz, trajando roupas surradas e chapéu pontudo, ao lado de seu gato preto e seu caldeirão e inevitavelmente ligada à maldade. Mas afinal, de onde vem essa peculiar figura? Talvez você se surpreenda em saber que as bruxas existiram, sim, no mundo real. Mas elas não eram exatamente como descrevemos.

Bruxa: as três bruxas de Macbeth (1783), do pintor suíço Johann Füssli.
As três bruxas de Macbeth (1783), do pintor suíço Johann Füssli. A imagem, inspirada na peça do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616), ilustra três bruxas com traços similares aos de outras bruxas da cultura popular. Crédito: Wikipedia Commons

Para a população camponesa europeia da Idade Média, as mulheres reconhecidas como “bruxas” eram membros fundamentais da comunidade. Elas eram normalmente mais velhas, acumulando muitos anos de experiência, e dominavam os saberes necessários para lidar com a vida e a morte: a dose correta para curar uma doença, o procedimento preciso na hora do parto, as plantas capazes de promover abortos, as ervas que causavam alívio durante o passamento. “A ela se pede a vida, a morte, remédios, venenos”, como define o historiador Jules Michelet.

É justamente daí que vem a imagem da bruxa como uma idosa, tendo o caldeirão como companheiro inseparável (onde se misturavam os ingredientes dos seus preparados). Entre os seus semelhantes, elas não eram vistas como más ou perversas por natureza; eram chamadas mulheres sábias em várias línguas, e participavam ativamente da vida comum. Em alguns casos, cobravam pequenos valores pelos seus feitiços, em outros, apenas o faziam como um membro da comunidade que cumpre o seu papel. Seja como for, entre as populações campesinas da Europa, ela era a médica, a conselheira, a guardiã da vida e da morte.

Você pode se perguntar, mas se bruxas eram mulheres reais e tinham trabalhos dignos, por que houve figuras como Circe, a feiticeira que transforma os homens em porcos na “Odisseia” de Homero, e tantas outras mulheres más e assustadoras?

O estudioso de mitologia e religião Joseph Campbell (famoso por teorizar a chamada Jornada do Herói) explica que, desde as épocas mais remotas da história, a mulher é vista como força mágica e misteriosa da natureza, e esse poder feminino acabou despertando uma das maiores preocupações do ser masculino – como quebrá-lo, controlá-lo e usá-lo para seus próprios fins.

 

Conhecimento que empodera e incomoda

Durante dez séculos de hegemonia do Cristianismo no Ocidente, a Igreja tolerou práticas consideradas “pagãs” em toda a Europa, de modo que as crenças tradicionais de diversos povos permaneceram vivas e, em muitos casos, sincretizadas ao catolicismo. Porém, no final do século XIV e meados do XV, houve severa investida contra tudo que contrariasse os dogmas cristãos – e as mulheres sábias se tornaram um alvo preferencial da ira dos então chamados inquisidores.

As tensões já existentes entre masculino e feminino desaguaram numa das mais terríveis turbulências sociais na Europa medieval. A caça às bruxas, como ficou conhecida, foi amparada por uma série de justificativas teóricas inventadas por padres em toda a Europa. O mais famoso guia para esse intento foi o “Martelo das Feiticeiras” (Malleus Maleficarum), de 1486, primeiro manual inquisitorial endossado pelo papa. Nele, as “mulheres sábias” deixavam de ser membros fundamentais da sociedade para serem entendidas como agentes de Satã na Terra. O livro defendia que a feitiçaria era resultado direto de um pacto com o demônio; era típica da mulher, de qualquer idade, pois ela seria “sexualmente insaciável” e, por isso, mais frágil diante do diabo; portanto, sua prática era maléfica por natureza.

Com esse movimento, a imagem das feiticeiras de autonomia e poder para influir na vida coletiva se transformou. O nascimento da Inquisição e o início da caça às bruxas, no século XIV, impulsionaram uma nova narrativa sobre essas mulheres, muito diferente daquela que a comunidade estabelecera. A partir de então, a figura da “mulher sábia” passava a ser substituída por nada mais, nada menos do que uma agente das forças das profundezas que se reúne com suas semelhantes no chamado (e inventado) “sabá negro” para praticar magia negra e adorar o diabo.

Bruxa: Pintura do espanhol Francisco de Goya (1746-1828) conhecida como Sabá das bruxas.
Pintura do espanhol Francisco de Goya (1746-1828) conhecida como Sabá das bruxas. O bode (no meio) representa o demônio e, ao seu redor, mulheres (bruxas) lhe oferecem bebês como alimento. Essa era a crença sobre como eram as reuniões das bruxas. Crédito: Wikipedia Commons

 

As versões de bruxas na cultura

Se depois do século XVIII a Inquisição já havia acabado, a imagem da bruxa construída nesse período permaneceu. No entanto, como resposta a mudanças de contexto – religioso, político, tecnológico e social –, representações alternativas (embora igualmente inventadas) para as bruxas foram surgindo.

Conhecemos, através do cinema e da televisão, uma variedade enorme de bruxas de feições grotescas e caricatas, ou apenas com características distantes do padrão de beleza que se vê nas princesas, evocando um senso de “feiura”. Dessas características atribuídas à feiura podemos citar a velhice e o nariz grande e enverrugado, em bruxas como a da Branca de Neve; a pele de cor não branca, como no caso da Bruxa Má do Oeste, de O Mágico de Oz; o excesso de peso, que podemos ver na personagem Úrsula, da Disney, e na Bruxa Onilda.

Atendendo aos anseios de um público masculino que sensualiza as mulheres em qualquer oportunidade, também surgiram muitas representações de bruxas hipersexualizadas, como no clássico filme “Elvira: A Rainha das Trevas”, no qual a feiticeira induz o homem puro ao pecado da luxúria. Mas uma característica que parece ser uma constante entre boa parte das bruxas da cultura pop é a perversidade: são sempre mulheres pecadoras de caracteres indesejáveis.

Nos últimos anos, algumas estórias vêm transformando bruxas famosas em anti-heroínas, ou seja, personagens que praticam atos moralmente negativos, mas motivadas por boas intenções ou por mero acaso. O livro “Wicked: a história não contada das bruxas de Oz”, que se tornou um musical premiado da Broadway, nos dá outra versão da história do Mágico de Oz, pela perspectiva das bruxas (a má e a boa).

O ditado “nenhuma boa ação fica sem punição” é usado na catártica música “No Good Deed”, que reflete toda a frustração de Elphaba (a bruxa verde e “má”) de tentar fazer o bem, de ser motivada por boas ações, mas acabar causando consequências negativas e sofrer diversas injustiças. Vale também citar a bruxa Malévola, da Disney, que ganhou dois filmes e teve a chance de contar sua história e ser melhor compreendida.

Elphaba e Glinda. Bruxa
Fanart das bruxas Elphaba (Bruxa Má do Oeste, a verde) e Glinda (Bruxa Boa do Leste) por James Claridades. Veja mais em: @squeegool ou https://squeegool.tumblr.com/search/elphaba

Mesmo assim, a imagem de bruxa perversa ainda é tão forte que se uma criança vai a uma festa fantasiada de Glinda (a Bruxa Boa do Mágico de Oz), ela certamente será confundida com uma fada ou princesa.

O que podemos perceber com isso é que a imagem que fazermos das bruxas são construções que surgiram com o único intuito de manter uma estrutura de poder, subjugando o feminino e mantendo a supremacia do masculino. São resquícios de uma criminalização institucionalizada da mulher livre, sábia e dona do próprio caminho.

A imagem das bruxas mudou com os anos, mas isso não significa que uma versão substituiu a outra, elas coexistem, se relacionam e se retroalimentam. Nesses anos, as bruxas também mudaram. Essas mulheres que faziam o mundo acontecer desde a aurora da humanidade, hoje estão espalhadas por todas as áreas do conhecimento da natureza que se possa imaginar. Se algo se manteve constante, foi a dificuldade do homem de dividir o protagonismo da história e as tentativas perversas de manutenção da artificial e suposta superioridade moral, intelectual e biológica do homem.


Waldyr Imbroisi
Professor da Casa de Redação e do Curso Aporia

Lucas Miranda
Físico e divulgador de ciências
Colunista na Ciência Hoje e Editor do Ciência Nerd

Lucas Miranda

Físico e mestre em Divulgação Científica pela Unicamp. É professor no Sistema Anglo de Ensino, Colunista da Revista Ciência Hoje, Coordenador do projeto Ciência ao Bar e Cinegrafista, Editor e Tradutor na TV NUPES (Fac. de Medicina - UFJF)

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