Magneto: um supervilão que não estudou física

[Esta é uma versão expandida de um texto escrito para a edição de janeiro de 2020 da revista Ciência Hoje, por Lucas Miranda]

Foi no contexto do Nazismo alemão que nasceu Max Eisenhardt. De família judia, o garoto viu todos os seus familiares serem mortos e ele próprio só conseguiu escapar do campo de concentração tempos mais tarde.

Após muitos anos reconstruindo sua vida na Rússia, a tragédia retorna à sua porta. Ao ver a filha morrer em um incêndio, o homem, tomado de ira, usa seus poderes magnéticos em público pela primeira vez para matar os responsáveis.

Magneto levitando

Imbuído do ideal da supremacia dos mutantes sobre a humanidade, passa a atender pelo nome de Erik Magnus Lehnsherr (mais tarde, “Magneto”) e passa a atuar como um violento ativista (ou, se preferir, um “terrorista”) contra os humanos e em defesa dos mutantes.

Mas aposto que você não faz ideia do quão poderoso é o Magneto e a quantidade de coisas que o seu poder de gerar e controlar campos magnéticos é capaz de fazer.

Nesse post, vou focar no Magneto mais conhecido popularmente: o dos filmes! Este, sim, não sabe física muito bem e, por isso, não faz ideia do tamanho do seu poder. O Magneto dos quadrinhos é bem diferente e seus poderes são mais bem explorados.

Vamos começar, então, falando um pouco de física.

Controlando campos magnéticos

O magnetismo é uma capacidade de atração ou repulsão que certos materiais possuem. Esta capacidade, somada ao fenômeno da eletricidade, compõe o chamado eletromagnetismo, que é uma das quatro forças fundamentais da natureza.

Toda vez que uma carga elétrica se movimenta no espaço ela gera provoca o surgimento desses efeitos magnéticos e a área sob efeito desses efeitos é chamada de “campo magnético”.

Em 1831, o inglês Michael Faraday descobriu que qualquer variação em um campo magnético provoca o surgimento de um campo elétrico, que por sua vez pode produzir uma corrente elétrica em um material condutor. Essa foi uma importante descoberta que deixou clara a íntima ligação entre a eletricidade e o magnetismo e a influência mútua de um sobre o outro.

Se Erik “Magneto” Lehnsherr soubesse que o controle de campos magnéticos também te dá o controle de campos elétricos e, por sua vez, o controle de cargas elétricas; e se ele soubesse que basicamente toda a matéria que conhecemos é feita de cargas elétricas, ou seja, tudo que existe é afetado pelo magnetismo, ele provavelmente seria o vilão mais perigoso e poderoso de todos os universos de quadrinhos.

Muito além de levitar carros

Levantar objetos metálicos, como carros, e controlar o ferro do sangue de policiais é a maior parte das coisas que o Magneto, dos filmes, faz. Mas isto está muito aquém do tanto de coisas que ele poderia fazer!

Como o magnetismo é capaz de afetar fótons, as partículas de luz, ele poderia fazer, por exemplo, com que toda a luz que viesse em sua direção o contornasse, sem atingi-lo. Impedindo que raios luminosos atinjam seu corpo e sejam refletidos para os olhos das pessoas ele simplesmente ficaria invisível. É claro que isso tem suas desvantagens e você pode ler mais sobre isso outro texto que escrevi para a Ciência Hoje.

metal sendo derretido por magneto
Metal sendo derretido por indução magnética provocada pela corrente circulando na bobina. O vídeo completo (e não acelerado) você encontra aqui.

Usando a Lei de Faraday, o Magneto poderia gerar um campo magnético de altíssima intensidade ao redor de um metal para induzir nele uma alta corrente elétrica.

Essa corrente elétrica circulando pelo metal geraria uma quantidade de calor cada vez maior podendo fazê-lo derreter completamente de tão quente. E é baseado nesse princípio, de gerar calor com campos magnéticos, que os fogões de indução funcionam.

Agora, imagine que notícia ruim é essa para o Wolwerine, cujos ossos contém em grande quantidade o metal Adamantium. Sim, o Magneto poderia fazê-lo derreter de dentro pra fora.

Por fim, vale lembrar que o nosso cérebro funciona à base de impulsos elétricos. Cada ordem do cérebro para toda e qualquer parte do nosso corpo é mediada por eletricidade. Com muito estudo, o Magneto poderia ser capaz de estimular ou até desligar qualquer área do cérebro exercendo um fino controle sobre cada ação da pessoa e até mesmo da sua personalidade e de suas emoções.

O Magneto poderia extrair ferro do sangue de alguém?

Algo que não faz tanto sentido científico para o Magneto é a capacidade de extrair o ferro presente no sangue de uma pessoa, como fez com um guarda da prisão onde estava em X-Men 2.

magneto
Cena do X-Men 2: Magneto extrai o excesso de ferro do sangue do guarda (que havia sido injetado pela Mística).

De fato, o ferro é um material que responde fortemente a campos magnéticos. Chamamos esses materiais de ferromagnéticos e eles são fortemente atraídos por ímãs.

No entanto, o ferro presente em nosso sangue não está na sua forma ferromagnética, ele está diluído e ligado às moléculas de hemoglobina.

E nesse estado ele se comporta como um material paramagnético, ou seja, ele responde muito fracamente a campos magnéticos e, por consequência, é fracamente atraído por ímãs.

Grupo Heme, a parte da hemoglobina que contém o Ferro (Fe), que está no centro. Além de se ligar a quatro átomos de Nitrogênio, o Ferro se liga ao Oxigênio, e é dessa forma que a hemoglobina transporta Oxigênio no sangue.

Existem duas evidências no filme de que o ferro injetado no guarda pela Mística já estava diluído no seu sangue.

Quando o guarda vai levar a bandeja de comida para a cela onde estava Magneto, ele passa por um detector de metais, que não acusa nada. É claro que esses detectores podem estar mais ou menos sensíveis à presença de metal (dependendo de como foram calibrados).

Mas é de se esperar que numa prisão onde está um super vilão de altíssima periculosidade o detector de metais seja calibrado de modo a identificar o menor resquício de metal.

Outra evidência é a própria fala de Magneto, quando o guarda deixa a bandeja na cela: “Too much iron in your blood” (há muito ferro no seu sangue).

Desse modo, levando em conta que o ferro estava diluído (e na sua forma paramagnética), para extrair o ferro da molécula de hemoglobina o Magneto teria que separar o guarda inteiro a um nível atômico! Ou seja, separá-lo átomo por átomo. E o campo magnético necessário para isso acontecer é milhões de vezes maior que o maior campo magnético já gerado no planeta Terra.

A lista de coisas que o Magneto poderia fazer sabendo um pouco de física ainda vai longe, mas vamos parar por aqui (vai que ele lê esse texto!). Você consegue pensar em outros poderes derivados do controle total do magnetismo?


Lucas Miranda
Físico e divulgador de ciências
Colunista na Ciência Hoje e Editor do Ciência Nerd

Lucas Miranda

Físico e mestre em Divulgação Científica pela Unicamp. É professor no Sistema Anglo de Ensino, Colunista da Revista Ciência Hoje, Coordenador do projeto Ciência ao Bar e Cinegrafista, Editor e Tradutor na TV NUPES (Fac. de Medicina - UFJF)

5 thoughts on “Magneto: um supervilão que não estudou física

  • 14 de agosto de 2020 em 20:08
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    Ótimo texto! Mas ainda bem que o Magneto não sabe dessas coisas.

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  • 21 de setembro de 2020 em 16:57
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    Muito legal o seu texto, realmente se Magneto “jogasse sério” facilmente o mundo seria dele, mas a história ficaria bem chata 😀

    Acho que a única história que já vi um personagem usar ao máximo todas as suas habilidades sem dar chance, é em “Cautious Hero: The Hero Is Overpowered but Overly Cautious” (fica a sugestão de anime para assistir, são só 12-13 episódios)

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  • 24 de maio de 2021 em 15:31
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    Podiam fazer o contrário também e falar dos metais que ele não manipula.

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  • 2 de junho de 2021 em 18:37
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    O fascínio do filme é justamente certas limitações que o autor deu aos mutantes, imaginem se todos pudessem explorar seus poderes ilimitadamente! Não teria graça!

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  • 3 de novembro de 2021 em 15:22
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    Na verdade, o Magneto é um gênio e tipo ele sabe de todas essas coisas, inclusive ele pode manipular o metal a nível molecular, acho que por isso ele tem a capacidade de extrair metal no sangue de uma pessoa. No seriado The Gifted, a filha dele, Polaris consegue utilizar o poder sobre o Magnetismo para mexer com as cargas elétricas.

    Mas voltando a ao texto, pelo fato de o Erik ser um gênio, ele provavelmente sabe de todas essas coisas, mas como um Vilão com cérebro e moral ( às vezes ), o Magneto tem limitações. E digo às vezes porque tem uma edição dos quadrinhos em que o cara basicamente ameaçou arrebentar com o Planeta se não dessem a ilha de Genosha pra ele, ou seja… Ele é muitoooo perigoso mesmo.

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