Pseudociências: o que são e por que existem?

Pseudociência, como o próprio nome diz, é uma falsa ciência. Ou, em outras palavras, é qualquer coisa que tenta se passar por científica, que se apresenta como ciência, mas não é. Infelizmente, são muitas as pseudociências que existem por aí e, certamente, você conhece algumas delas.

Este é um conteúdo introdutório, que não vai se aprofundar em nenhuma pseudociência em particular. Deixarei isso para textos futuros.

Este conteúdo foi produzido originalmente em vídeo para o canal Ciência Nerd. Você pode assisti-lo ao lado ou seguir lendo-o abaixo!


POR QUE EXISTEM PSEUDOCIÊNCIAS?

O que leva uma pessoa a utilizar o nome da ciência para tentar justificar ou “comprovar” uma crença ou conjunto de crenças? Por que vemos tantas pessoas interessadas em dar um ar de científico a algo que claramente não é, algo que tem origem mística, religiosa, folclórica ou no senso comum?

A resposta não poderia ser outra: Ciência tem credibilidade. A ciência tem a confiança das pessoas, principalmente no Brasil. E isso já foi demonstrado por pesquisas como a do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, em 2019. Segundo essa pesquisa:

  • 73 % dos entrevistados acreditam que a ciência traz mais benefícios que malefícios e somente 4 % acham o contrário (mais malefícios).
  • 86 % acreditam que a pesquisa científica é essencial para o desenvolvimento da indústria.
  • 66 % acreditam que os governantes devem seguir as orientações dos cientistas.
  • 81 % acreditam ciência e a tecnologia estão tornando nossas vidas mais confortáveis.

Ou seja, a ciência, de fato, tem muito crédito e é bem vista pela maioria das pessoas. O problema é o seguinte: nessa mesma pesquisa foi perguntado: 1) Você conhece o nome de algum cientista brasileiro importante? e 2) Você conhece o nome de alguma instituição que faz pesquisa no país? E para essas perguntas, o resultado foi:

  • 90 % não sabe ou não se lembra do nome de nenhum cientista brasileiro. Apenas 7 % souberam responder.
  • 88 % não sabe ou não se lembra de nenhuma instituição que faz pesquisa no Brasil. Apenas 9 % souberam responder.
Pesquisa sobre percepção pública da ciência. Post Pseudociências.
Você pode conferir a pesquisa e fazer suas próprias análises neste link: www.cgee.org.br/web/percepcao

Agora, analise esse cenário. As mesmas pessoas que confiam na ciência não fazem ideia do que é e onde se faz ciência. Se esta entidade chamada ciência não tem rosto e nem lugar, qualquer um pode assumir esse título para si, qualquer um pode se auto-intitular cientista e, consequentemente, ganhar toda essa credibilidade que a ciência tem.

Percebe o perigo desse cenário? Entende por que que as pessoas perceberam que chamar algo de científico traz uma enorme credibilidade? Dificilmente as pessoas saberão dizer se aquilo é ou não ciência de verdade. Confiar na ciência sem saber exatamente o que ela é, é como assinar um cheque em branco. Então, muita gente percebeu isso e resolveu se chamar de cientista, ou resolveu chamar de ciência coisas que não são ciência.

Dito isso, vamos ver alguns exemplos de pseudociências.

Pseudoarqueologia

Imagine uma pessoa que resolve sair por aí, visitando sítios arqueológicos, coletando relíquias, encontrando documentos antigos e fazendo as interpretações mais esquisitas possíveis a partir desses materiais, sem nenhum critério e sem seguir o método científico da arqueologia. Uma pessoa que ficou famosa fazendo isso é o suíço Erich von Daniken, autor do livro pseudocientífico “Eram os Deuses Astronautas?”. Este mesmo indivíduo idealizou a famosa e tenebrosa série “Alienígenas do passado”, que nos gerou muito mais memes do que conhecimentos.

Giorgio Tsoukalos, apresentador do Alienígenas do Passado.

Segundo este suíço, na antiguidade, astronautas alienígenas vieram à Terra e ajudaram os humanos a evoluir.

Você poderia pensar “mas esse não é o roteiro de ‘Eternos’, da Marvel?”. Parece, não é? Mas essa era exatamente a crença desse sujeito.

O pior de tudo é que Daniken é um arqueólogo, por formação. Ele estudou a arqueologia enquanto uma ciência, mas obviamente não a colocou em prática e decidiu, por conta própria, abandonar todos os métodos científicos da arqueologia.

Por fingir ser científica, mesmo não seguindo nenhum critério da ciência, a pseudoarqueologia entra na lista das pseudociências.

Astrologia

Outra pseudociência bastante famosa é a astrologia, a crença de que a posição dos corpos celestes poderia determinar ou afetar a personalidade das pessoas e as relações entre as pessoas. Esse tema demanda um texto a parte, mas vamos a algumas observações breves.

Em primeiro lugar, é importante dizer que você tem direito de acreditar no que quiser, seja uma religião qualquer, seja astrologia ou qualquer outra pseudociência. O que ninguém pode dizer é que astrologia é uma ciência, porque não é.

Não pense que há qualquer componente científico na astrologia, porque não há. Tenha a consciência de que essa crença não tem embasamento científico. Na verdade, há embasamento científico pra dizer que a astrologia não explica e nem prevê a personalidade das pessoas.

Uma pesquisa publicada em março de 2022 na revista científica Personality and Individual Differences pela editora Elsevier, investigou a relação entre a crença na astrologia, os traços de personalidade, o nível de narcisismo e de inteligência de indivíduos. Veja alguns trechos da conslusão dessa pesquisa:

O objetivo do presente estudo foi investigar como as diferenças individuais se relacionam com a crença na astrologia. O principal resultado mostrou que quanto maior o narcisismo, talvez surpreendentemente, maior a crença na astrologia. A associação positiva é possivelmente devido à visão de mundo egocêntrica que os une, embora isso deva ser examinado em pesquisas futuras.

[…] Além disso, como as previsões astrológicas e os horóscopos tendem a ser enquadrados positivamente, isso reforça sentimentos grandiosos e, portanto, pode atrair ainda mais os narcisistas. Observe que os traços narcisistas se correlacionaram com a crença de que a astrologia é apoiada pela ciência, o que leva a uma especulação de que os narcisistas podem geralmente ser mais resistentes aos fatos.

Em outra pesquisa, publicada em 1974 na revista científica The Journal of Psychology, os pesquisadores investigaram se havia relação entre a personalidade de um indivíduo e a previsão indicada pelo seu Sol, Lua e signos ascendentes. A conclusão deles foi a seguinte:

Os participantes indicaram quão agressivos, ambiciosos, criativos, intuitivos e extrovertidos eles pensavam que eram e preencheram o “Inventário de Personalidade Eysenck”. Cada sujeito também designou um amigo que o descreveu no mesmo conjunto de escalas de avaliação. Como os horários exatos de nascimento estavam disponíveis, foi possível determinar seu Sol, Lua e signos ascendentes. Os resultados mostraram que os indicadores astrológicos de personalidade não estavam relacionados às descrições das personalidades dos sujeitos nem do próprio ou dos amigos.

Assim como essas, muitas outras pesquisas demonstram a falibilidade das previsões astrológicas. Você pode pesquisar por esses estudos em plataformas como o Google Scholar ou o Scielo.

Eu, pessoalmente, não tenho nenhum problema com a crença em astrologia. Para mim, um grande problema surge quando essa crença começa a invadir o contexto do trabalho.

Matéria do jornal Extra de março de 2020: “Astrologia tem aparecido cada vez mais em seleções de emprego. Saiba como agir”

Pseudociências : astrologia

Imagine-se perdendo uma vaga de emprego porque seu signo não bateu com aquele esperado pela empresa. Isso é gravíssimo, é extremamente preocupante.

Se o RH da empresa faz uma análise psicológica dos candidatos (usando protocolos/testes/questionários que têm validade científica) e concluir que o seu perfil não se encaixa no cargo, tudo bem. Não faz sentido colocar uma pessoa extremamente tímida e introvertida no cargo de vendedora, por exemplo. Isso é muito diferente de julgar uma pessoa simplesmente pela data do seu nascimento, que é algo que não diz absolutamente nada sobre ela.

E me parece que existe um fenômeno nas pseudociências de “escalada da fantasia” (nome que eu acabei de inventar). Por exemplo: atualmente, existe uma coisa chamada “astrologia empresarial”, que consiste em analisar o mapa astral dos donos de um negócio e comparar com o mapa astral da empresa. Ou seja, a empresa também passa a ser considerada um ser afetado pela posição dos astros. O que faz ainda menos sentido do que a própria astrologia tradicional.

Uma vez que você aceita pseudociências, essa construção de mentiras e fantasias não tem limite, ela só vai escalando. Pseudociências podem levar você a qualquer conclusão que você quiser, o limite é a vontade da pessoa que está inventando e até onde ela está disposta a ir para se aproveitar da ignorância das pessoas sobre o que é ciência.

Design Inteligente

O Design Inteligente tem como base uma ideia muito próxima da pensamento cristão: existem várias propriedades e características do universo que apontam para existência de um criador. Ou seja, a perfeição dos seres vivos, da natureza, demandam a existência um ser de suprema inteligência que seja criador de tudo que conhecemos. Muitas religiões creem nisso.

O problema é que, dos anos 1990 para cá, um bioquímico chamado Michael Behe se apropriou desse conceito para criar uma interpretação terrível. Em seu livro, a caixa preta de Darwin, Behe diz que existem algumas estruturas no universo que são complexas demais pra terem sido produzidas pela evolução das espécies. E a partir da publicação de seu livro, muitas pessoas começam a utilizar essa tese para para negar a evolução de Darwin e afirmar que Deus existe.

Evidentemente, as pessoas que já eram anti-evolucionistas (e que acreditavam que a Terra tinha somente 8000 anos ou que a humanidade veio de Adão e Eva), abraçou essa ideia e se uniu a esse movimento de Design Inteligente. Mesmo Behe não sendo anti-evolucionista, suas teses deram a essas pessoas o argumento de que: “veja, nosso movimento de Design Inteligente é anti-evolucionista e é apoiado por cientistas, logo, somos um movimento científico”.

Por se enxergarem como uma ciência (a “ciência que provou a existência de Deus”), e obvviamente não ser uma ciência, o Design Inteligente ganha o nosso carimbo de pseudociência. E esse movimento é tão pavoroso que sequer os religiosos o reconhecem e o respeitam.

Se quiser ler mais sobre isso e entender o perigo que essa pseudociência oferece, recomendo começar pelos testos do Carlos Orsi publicados no Instituto Questão de Ciência:

Homeopatia

Para fechar esse texto, quero falar da principal e mais polêmica terapia alternativa, que obviamente é uma pseudociência: a homeopatia.

Você pode ser uma daquelas pessoas que diz: “mas homeopatia funciona comigo”. Sim, eu acredito que funciona (ou que parece funcionar), e é até esperado que isso aconteça, mas certamente não funciona mais do que um placebo.

Em primeiro lugar, o que é homeopatia? Resumidamente, é você pegar uma substância que poderia ter um efeito curativo no seu corpo e diluir ela muitas e muitas vezes. Sabe aqueles sucos em pó que você dilui? Homeopatia é como você pegar um grão daquele pozinho, diluir em 50 litros de água e beber alguns goles. Só que, no caso da homeopatia, o grão é um remédio qualquer.

Existe um monte de explicações para dizer que isso funciona muito bem, mas o que, de fato, diz a ciência.

Pesquisas mostram que não há diferença entre homeopatia e placebo. Placebo é uma substância inerte (ou seja, que não tem nenhuma interação com o organismo), que é dada a um paciente como se fosse um remédio, sem o paciente saber. Um comprimido de farinha pode ter um efeito positivo em alguns casos, pode trazer benefícios para o paciente. Mas definitivamente não serve pra tratar todo tipo de doença e tem uma ação bastante limitada.

Então, quer dizer que tomar um comprimido de farinha ou um remédio homeopático têm o mesmo efeito, tem a mesma chance de me fazer melhorar? Exatamente. Se você quer pagar caro em um remédio homeopático que tem o mesmo efeito que uma água com açúcar, tudo bem, é direito seu. Mas, novamente, não se iluda, isso não é ciência.

A homeopatia também merece um texto a parte, por isso não vou me aprofundar aqui. Mas existem muitos conteúdos bons por aí, desmistificando pseudociências na área da saúde, principalmente aquelas que o governo brasileiro gasta dinheiro para oferecer no SUS. Recomendo sempre os textos do Instituto Questão de Ciência e o canal da Bibi Bailas, além, é claro, do canal Ciência Nerd.


Lucas Miranda

Físico e mestre em Divulgação Científica pela Unicamp. É professor no Sistema Anglo de Ensino, Colunista da Revista Ciência Hoje, Coordenador do projeto Ciência ao Bar e Cinegrafista, Editor e Tradutor na TV NUPES (Fac. de Medicina - UFJF)

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