The last of us e os zumbis do mundo real

Os filmes e séries de zumbis são tão adorados pelo público, fazem tantas referências uns aos outros e possuem tanto em comum, que podemos dizer que eles se tornaram um gênero cinematográfico (ou, pelo menos, um subgênero dentro do terror).

Se você é aficcionado por esse tipo de história, você com certeza já se perguntou quais as chances de um apocalipse zumbi acontecer. A resposta pra essa pergunta ninguém tem, mas você sabia que existem parasitas do mundo real capazes de transformar alguns animais em zumbis?

Neste texto, vamos falar sobre alguns dos zumbis do mundo real, incluindo o fungo Cordyceps, da franquia The Last of Us, que foi inspirado em um parasita do mundo real que transforma formigas em zumbis.

Este conteúdo é inspirado em meu texto “Zumbis do mundo real” (publicado na edição 389 da Revista Ciência Hoje) e foi produzido em vídeo para o canal Ciência Nerd. Você pode assisti-lo ao lado ou lê-lo abaixo!


O QUE EXATAMENTE SÃO OS ZUMBIS?

Desde os filmes do George Romero (que é considerado o pai dos filmes de zumbi) até hoje, foram muitas as explicações diferentes paro surgimento dos zumbis. As explicações para a origem dos zumbis vão desde as mais mágicas e esotéricas até as mais científicas e tecnológicas.

Para começarmos a tratar deste tema é importante termos em mente o que estamos chamando de zumbi. Se observarmos toda a história dos filmes de zumbi, podemos definir essas criaturas como

seres escravizados dentro da própria mente. Criaturas que não possuem qualquer vontade própria, ou não possuem a capacidade de agir por vontade própria, de escolherem o que fazer. Os zumbis são totalmente controlados pelo instinto de se alimentar e se reproduzir (ou seja, de transformar mais pessoas em zumbis).

Embora muitos considerem zumbis como mortos-vivos (geralmente, mais mortos do que vivos), vamos deixar esse detalhe de lado. A definição de vida é bastante complexa e queremos aqui simplificar as coisas.

Considerando essa definição, será que existe no mundo real alguma coisa parecida com um zumbi? Sim, existe. E a The Last of Us vai nos ajudar a chegar em um bom exemplo de zumbi do mundo real.

A história de The Last of Us

The Last of Us é uma franquia de jogos da PlayStation que fez um sucesso estrondoso. Já é citado como um dos melhores jogos de todos os tempos e acabou de ser lançado como uma série de TV da plataforma de streaming HBO Max, conquistando também excelentes críticas e notas altíssimas.

Surge, na América do Sul, um fungo capaz de infectar pessoas e, inicialmente, deixar elas irracionalmente agressivas. A descoberta tardia desse fungo acabou permitindo que ele fosse exportado para o mundo todo, principalmente para os Estados Unidos, que é onde a história se passa. O número de internações por essa infecção misteriosa foi aumentando tanto, que no dia 26 de setembro de 2013 aconteceu o chamado “Outbreak day”, ou “o dia do surto”. A partir desse dia, a infecção se tornou incontrolável, os infectados ganharam as ruas e todos os lugares ficaram perigosos. 

O exército e a guarda nacional tomaram as ruas para tentar conter o surto. Como os infectados eram agressivos e atacavam ferozmente as pessoas, o exército recebeu ordens de matar todos eles. Pessoas inocentes, que foram confundidas com infectados, também foram mortas pelo exército.

A morte de tantas pessoas levou à das instituições, dos governos. Uma das poucas autoridades que restaram foi a FEDRA (Agência Federal de Resposta a Desastres). Com o tempo, foram criadas zonas de quarentena, para manter a população saudável isolada e tentar manter uma ordem social. Obviamente, uma parte da população se rebelou contra as imposições, as regras e os limites estabelecidos pela FEDRA e se organizaram em grupos armados, sendo o mais importante deles “os vagalumes”.

Nesse cenário, The Last of Us acompanha a jornada de dois sobreviventes: Joel (um carpinteiro, que acabou virando um contrabandista) e Ellie (uma garota que, por razões misteriosas, era imune a essa infecção).

Cordyceps e a infecção zumbi

O fungo que causou esse apocalipse no jogo é chamado Cordyceps e a sua infecção acontece em 4 estágios:

Estágio 1:
Runner
(ou “corredor”)

Dentro de dois dias depois de ser mordido ou arranhado por um infectado, o fungo atinge o cérebro da pessoa e ela entra no primeiro estágio da infecção. Os infectados nesse primeiro estágio recebem o nome de “runners” (ou corredores) e mantém a aparência humana, podendo ser facilmente confundidos com uma pessoa saudável.

Os runners vagam pelas ruas, eventualmente gemendo de dor, e tendem a formar grupos grandes. Quando veem uma pessoa saudável eles correm para atacá-la. 

runner, zumbi de the last of us
Estágio 2:
Stalker
(ou “perseguidor”)

Depois de uma ou algumas semanas, o fungo cresce e começa a eclodir pra fora da cabeça da pessoa. Nesse 2º estágio, os infectados recebem o nome de stalkers (ou perseguidores).

Diferentemente dos runners, os stalkers são mais ferozes, mais difíceis de combater e conseguem se esconder e fazer pequenas emboscadas pra conseguirem atacar humanos saudáveis.

Stalker, zumbi de the last of us
Estágio 3:
Clicker
(ou “estalador”)

Depois de um ano de infecção, o fungo já está tão grande, que a cabeça do infectado vira um enorme cogumelo. Apenas a boca fica preservada, para que ele se alimente.

Nesse terceiro estágio, os chamados clickers (ou estaladores) perdem a visão da luz, mas adquirem uma espécie de ecolocalização. Muito mais ferozes e mais fortes, essas criaturas emitem clicks (estalidos) para detectar as coisas na frente deles. Um humano consegue andar próximo a um clicker sem ser percebido, mas se ele faz um pequeno barulho, o clicker detecta e começa a correr em direção à pessoa.

Estágio 4:
Bloater
(ou “inchado”)

Quando um infectado consegue sobreviver por mais de uma década, ele se aproxima do quarto estágio, o “bloater”. Nesse estágio, o corpo inteiro fica coberto de fungo e o infectado é extremamente forte e resistente.

Esses seres raros são bem lentos, mas quando ele agarra uma pessoa é impossível escapar. 

Podemos dizer que The Last of Us é muito bem sucedido em mostrar uma origem biológica para os zumbis e a forma como a infecção evolui. Diferentemente de muitas histórias de zumbi, não há a clássica dicotomia do zumbi contra o não zumbi. O processo de zumbificação é gradativo e ele transforma, aos poucos, não apenas a aparência, mas também o comportamento e as capacidades físicas do infectado.

E uma coisa incrível para nós que adoramos ciência: o agente infeccioso desses zumbis do jogo EXISTE no mundo real!

Ophiocordyceps e a formiga zumbi

Se uma formiga está caminhando e inadvertidamente pisa em um esporo de um fungo, seus dias podem estar contados. Existe um fungo, que foi descoberto pelo naturalista britânico Alfred Russel Wallace, que recebeu o nome de Ophiocordyceps unilateralis. Ophio…Cordyceps. Sim, é quase o mesmo nome do fungo do The Last of Us, e não por coincidência. O jogo se inspirou em um fungo que, de fato, existe e pode parasitar formigas, transformando-as em verdadeiros zumbis.

Quando o esporo desse fungo invade o organismo da formiga ele se multiplica em várias novas células, que vão se alimentando dela, mas deixá-la morrer. Durante uma ou duas semanas, a formiga infectada continua fazendo as suas funções no ninho. Porém, com o passar do tempo o seu movimento vai ficando mais trêmulo, mais errático. A formiga sofre algumas convulsões e começa a cair de alguns lugares quando tenta escalar. Existem casos em que as demais formigas do formigueiro percebem o comportamento estranho e isolam a formiga infectada. Algumas pesquisas científicas descrevem bem esse processo, você pode conferir uma dessas pesquisas neste link.

Formiga zumbi
Formiga que foi completamente colonizada pelo fungo Ophiocordyceps. Fotografia de David P Hughes

Depois de certo tempo, o fungo se comunica quimicamente com o cérebro da formiga e a obriga a subir em uma planta e morder com força uma folha. A formiga obedece, porque está zumbificada e não é capaz de tomar uma decisão diferente. Quando ela chega na folha e se prende a ela, de cabeça para baixo, usando sua própria mordida, o fungo desfere o seu golpe final e mata o inseto. A partir daí, o parasita começa a colonizar todo o corpo do inseto e, após alguns dias, faz brotar da sua cabeça um ascocarpo (algo parecido com um pequeno cogumelo). O ascocarpo irá produzir e liberar novos esporos e eles serão despejados no chão, que se tornará um verdadeiro campo minado para novas formigas.

Há pesquisas científicas que mostram que, em algumas áreas, é possível encontrar até 26 cadáveres de formigas por metro quadrado. E a maior parte das formigas nesses cemitérios são encontradas a uma altura de 25 centímetros do chão. Essa altura, que não é em vão, tem a temperatura e a umidade ideais que favorecem muito a produção e dispersão dos esporos do fungo.

Essa atuação do Ophiocordyceps é tão brilhante quanto assustadora. Tudo que o parasita faz com a formiga tem como objetivo a reprodução e o espalhamento do fungo. Podemos dizer que o Cordyceps de The Last of Us é ainda mais eficiente, pois ele não mata o seu hospedeiro (o que garante a sua locomoção) e ainda induz na pessoa um comportamento agressivo que faz com que ele ataque outras pessoas e passe o fungo para elas.

Leucochloridium e o caracol zumbi

Existe um platelminto chamado Leucochloridium paradoxum que tem pássaros como hospedeiro definitivo. No entanto, para se locomover de um pássaro para outro, ele se utiliza de um hospedeiro intermediário: o caracol.

Caracol infectado pelo Leucochloridium paradoxum

Um pássaro contaminado joga, através das suas fezes, os ovos desse verme no ambiente. Quando um caracol ingere essas fezes (e, sim, algumas espécies de caracol tem esse hábito alimentar), os ovos do verme eclodem dentro do caracol. As larvas, então, se desenvolvem no intestino do molusco até um atingirem um estágio larval chamado de esporocisto. Esses esporocistos vão se acumulando e formando um tubo (ou mais de um tubo), que vai do intestino a antena do caracol. E o que antes era uma anteninha pequena e fina vai se tornar um tubo inchado. Dentro desses tubos, que são extremamente coloridos, o movimento das larvas dá a impressão que a antena está pulsando, está em movimento.

O próximo passo é o Leucocloridium assumir o controle do caracol e levá-lo ele para um lugar aberto e bem iluminado. Um animal que olha de longe e vê algo cilindrico, colorido e com tons esverdeado, mexendo como se estivesse se contorcendo, vai facilmente achar que se trata de uma lagarta. E é exatamente isso que um pássaro vai ver. Uma lagarta. Comida! O pássaro, então, come o caracol e o parasita atinge seu objetivo, podendo agora alcançar sua fase adulta e terminar seu ciclo evolutivo.

Ou seja, o platelminto não apenas exerceu um controle mental sobre o caracol, como o fez se colocar em extremo risco, algo que um caracol nunca faria espontaneamente. Então, esse também é um parasita bem assustador.

Toxoplasmose em ratos e em humanos

Uma das zoonoses mais comuns no mundo inteiro é a toxoplasmose. Talvez você tenha toxoplasmose e não saiba. A estimativa é que mais da metade da população brasileira possui essa doença, mas ela pode se manter assintomática (ou seja, sem apresentar sintomas) pela vida inteira da pessoa.

A toxoplasmose é causada por um protozoário chamado Toxoplasma gondii e o hospedeiro definitivo desse parasita são gatos e outros felinos. Mesmo assim, ele pode infectar outros animais, como o ser humano, através da ingestão de água e alimentos contaminados.

Quem mais sofre com essa doença são as pessoas com baixa imunidade, as que passam por tratamento quimioterápico contra o câncer, pessoas recém-transplantadas e gestantes. Nos casos mais graves da doença, a toxoplasmose pode provocar lesões oculares, microcefalia, hidrocefalia, alterações motoras, e outros sintomas.

Certo, mas o que isso tem a ver com zumbis? Existe uma relação muito curiosa e ainda alvo de muitos estudos entre esse protozoário e o cérebro. Na Universidade de Oxford (Reino Unido), uma pesquisa descobriu que ratos infectados por esse microrganismo perdem o medo do cheiro de gatos. E tem casos até que eles se sentem atraídos por um feromônio presente na urina dos felinos. Assim, um rato infectado se expõe mais a esses predadores e viram alvo fácil. Graças a essa manipulação cerebral, o rato serve de veículo para que o Toxoplasma chegue no gato, seu hospedeiro definitivo.

Mas e nós, humanos, sofremos algum efeito parecido?

Existem fortes evidências de que esse protozoário realmente provoca alterações mentais em seres humanos. Muitas pesquisas vêm mostrando que a toxoplasmose pode ser um fator de risco importante para algumas doenças psiquiátricas, como a esquizofrenia, a bipolaridade, a doença de Alzheimer, a depressão, a epilepsia, entre outras. Como essas doenças são multifatoriais (ou seja, são causadas por muitos fatores) é difícil dizer o real papel da toxoplasmose no desenvolvimento delas. Mas só o fato de haver correlação entre essas enfermidades e a presença do Toxoplasma já é um grande alerta vermelho e um indicativo de que precisamos de mais pesquisas na área.

Então, não é que o ser humano se torne um zumbi. Nós humanos somos complexos demais para que um único microorganismo seja capaz de assumir o controle total do nosso corpo. Mas é possível que um parasita seja capaz de modificar drasticamente nosso cérebro, nosso comportamento, às vezes até nossos pensamentos e fazer com que a gente perca um pouco o controle do nosso corpo e das nossas ações.

Eu vou lançar em breve um vídeo falando de uma pesquisa que calculou as chances da gente sobreviver a um apocalipse zumbi. Sim, já fizeram pesquisas científicas sobre isso. E essa pesquisa é muito legal. Então pra você saber quando vai sair esse vídeo se inscreve aqui no canal se não tiver inscrito ainda (é só clicar no botãozinho vermelho aqui em baixo). E vocÊ pode me seguir no instagram também, porque lá eu sempre divulgo os vídeos novos.


Leia mais:

Lucas Miranda

Físico e mestre em Divulgação Científica pela Unicamp. É professor no Sistema Anglo de Ensino, Colunista da Revista Ciência Hoje, Coordenador do projeto Ciência ao Bar e Cinegrafista, Editor e Tradutor na TV NUPES (Fac. de Medicina - UFJF)

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