A Nobel Ada Yonath: desvendando os ribossomos

Publicado por Giovana Maria Breda Veronezi em

Desde que recebi o convite para colaborar neste blog, não poderia estar mais feliz. Como mulher e aspirante a cientista, acredito que espaços como este devem ser muito valorizados e compartilhados com todos! Para inaugurar minha participação, gostaria de trazer uma grande cientista que muito me inspira e que tive o prazer de poder conhecer pessoalmente: a ganhadora do prêmio Nobel de Química de 2009, Ada E. Yonath.

Durante a minha graduação, eu integrei por duas vezes a comissão organizadora do CAEB – Congresso Aberto aos Estudantes de Biologia, que acontece na Unicamp a cada dois anos e é organizado por alunos do curso de Ciências Biológicas. Na décima segunda edição, que aconteceu em 2015, fizemos o convite para a vinda da Professora Ada e quão imensa foi nossa alegria quando ela prontamente aceitou e nos deu a honra de sua participação.

Ada Yonath – Por U. Montan

Ada Yonath – Por U. Montan

Ada nasceu em Jerusalém em 1939 e desde pequena sempre teve a curiosidade de investigar o mundo ao seu redor. Vinda de uma família pobre, muito religiosa e de uma tradição em que era designado às mulheres apenas os afazeres domésticos, ela teve a oportunidade de frequentar uma escola secundária bem referenciada, pois era vontade de seus pais que tivesse uma educação de qualidade. Com a morte de seu pai quando ela ainda era muito jovem, Ada passou a ajudar no sustento da família, mas manteve a vontade de continuar estudando após finalizar o colegial, contando com o apoio de sua mãe a essa decisão.

Dessa maneira, Ada completou sua graduação e mestrado em química, bioquímica e biofísica. Em seguida, dedicou seu doutorado e pós-doutorado a investigar a estrutura de proteínas, uma delas o colágeno. Concluído o pós-doutorado, ela retornou para o Instituto Weizmann, onde antes recebera seu título de Doutora, e estabeleceu o primeiro (e por muito tempo, único) Laboratório de Cristalografia Biológica de Israel. A partir de então, mergulhou no objeto de estudo ao qual se dedica até hoje: o ribossomo.

Em colaboração com outros pesquisadores, Ada almejava obter a estrutura tridimensional do ribossomo e assim poder compreender melhor como ocorre o processo de síntese proteica, essencial à vida de todos os organismos. Para isso, a metodologia utilizada foi a cristalografia de raio X e foi preciso o desenvolvimento de técnicas específicas que para muitos membros da comunidade científica não seriam possíveis. Apesar do descrédito, Ada e seu grupo obtiveram o sucesso e, entre os anos de 2000 e 2001, publicaram pela primeira vez a estrutura tridimensional completa das duas subunidades do ribossomo bacteriano.

Uma vez que os principais antibióticos que são utilizados atuam na síntese proteica das bactérias, os 20 anos de pesquisa de Ada e colaboradores dedicados aos ribossomos também possibilitaram um maior entendimento da ação destes fármacos e trouxeram novas perspectivas para os estudos de alternativas contra patógenos resistentes, uma grande problemática que se necessita superar. Atualmente, a pesquisadora almeja olhar para o passado e investigar como a maquinaria de produção de proteínas surgiu e evoluiu, se mantendo tão conservada entre as espécies.

nobel

Thomas Seitz e Venkatraman Ramakrishnan, ganhadores do Nobel de Química de 2009 juntamente com Ada

Ada recebeu o prêmio Nobel de Química em 2009 juntamente com os cientistas Venkatraman Ramakrishnan e Thomas Steitz pelo mapeamento da estrutura do ribossomo. Foi a primeira mulher do Oriente Médio a ser laureada com o Prêmio Nobel em ciências, a quarta a ganhar o Nobel de Química e a primeira a receber este prêmio desde 1964. Em 2008, recebeu o prêmio Unesco-L’Oreal para mulheres na ciência e possui ainda muitas outras premiações.

Durante sua passagem pelo CAEB, Ada se mostrou uma mulher simples, de muito carisma e que gosta de estar em contato com os jovens, discutindo e entendendo melhor o jeito deles de pensar. Apesar de todos os convites que recebe para divulgação de seu trabalho e do papel da mulher na ciência, acredito que o de sua neta de 5 anos para que ela fosse ao jardim de infância falar sobre ribossomos tenha sido o mais especial!

Ada Yonath em 2011, durante congresso científico. Em sua caricatura, os ribossomos substituem seus cabelos cacheados

Ada Yonath em 2011, durante congresso científico. Em sua caricatura, os ribossomos substituem seus cabelos cacheados

Para maiores detalhes sobre a vida e o trabalho de Ada, deixarei disponível aqui a sua trajetória contada por ela mesma. Aqui também é possível ver as estruturas tridimensionais do ribossomo resultantes do seu trabalho. Que ela continue inspirando muitas de nós a seguirem suas sonhadas carreiras, seja na ciência ou mesmo fora dela.


Giovana Maria Breda Veronezi

Graduada em Ciências Biológicas pela Unicamp em 2014 e Mestra em Biologia Celular e Estrutural pela mesma universidade. Com o sonho de criança em ser Bióloga realizado, almeja na vida adulta ver a ciência (e o mundo) cada vez mais pelos olhos delas.

3 comentários

Daniela Fogaça · 8 de outubro de 2016 às 13:21

Texto muito bom! Gostei muito da história de Ada e, principalmente, em ler esse texto justamente na semana em que houve a nomeação do Prêmio Nobel de Química. Além disso, saber que existem mulheres na ciência me deixa muito feliz, uma vez que sou graduanda em Química na UNICAMP e sei que obstáculos ocorrerão. Parabéns!

    Giovana Maria Breda Veronezi · 8 de outubro de 2016 às 18:57

    Olá Daniela! Muito obrigada, fico extremamente feliz com seu comentário! Realmente o caminho não é fácil, mas ainda bem que existem mulheres como a Ada para nos inspirar a seguirmos em frente.

A Nobel Ada Yonath: desvendando os ribossomos - Blogs Científicos - UNICAMP · 25 de julho de 2016 às 16:02

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