Conheça jovens inventoras que podem revolucionar o futuro da ciência (parte 2)

Publicado por Marina Barreto Felisbino em

Se tem algo que nos fascina, são mentes jovens e brilhantes, capazes de olhar para problemas velhos por ângulos novos e propor soluções onde antes parecia impossível. Em agosto de 2016, o Ciência Pelos Olhos Delas trouxe exemplos de algumas jovens inventoras das mais diversas origens que, tendo em comum o incentivo de mentoras e mentores, conseguiram criar produtos e soluções que tiveram impacto local ou ainda muito além de suas fronteiras.

Arte feita por Daniel Almeida e publicada no site Revista Pesquisa Fapesp. Todos os direitos reservados.

E você sabia que é possível fazer pesquisa e entrar no mundo da ciência ainda antes da faculdade? Sim! Isso é uma realidade relativamente comum em muitos países como os EUA, onde clubes de ciência são muito incentivados. Além disso, feiras de ciência locais classificatórias para feiras estaduais, nacionais e internacionais são um importante ponto de encontro para colaborações e divulgação desses jovens talentos e suas ideias.

Apesar de pouco conhecidas ou até divulgadas, em nosso país também existem algumas iniciativas como essa. O Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica aos Estudantes de Ensino Médio (PIBIC Jr) é uma opção destinada a estudantes de escolas públicas e privadas, em que durante um ano o aluno convive com professores universitários e alunos de graduação e pós-graduação a fim de desenvolver um projeto. Ao final do ano, o projeto é apresentado em feiras de ciências. Entre os objetivos, está despertar vocação científica e incentivar novos talentos, aprendendo técnicas e métodos de pesquisa e desenvolvendo um pensamento científico.

Independente do caminho profissional que posteriormente essa ou esse jovem irá tomar, o contato com o fazer e o pensar ciência sempre terá impactos positivos tanto no desenvolvimento individual quanto no coletivo. Além disso, quantos talentos podem estar escondidos entre os muros da escola, prontos a serem lapidados e brilhar? 

Hoje apresento novas jovens inventoras para nos inspirar com suas criações e genialidade. Espero que seus exemplos de dedicação, mas principalmente de incentivo via escolas/professores/comunidades possam ser cada vez mais seguidos. 

Dasia Taylor

Imagem retirada do jornal Iowa City Press – Citizen. Todos os direitos reservados.

Uma estudante do ensino médio de 17 anos da escola Iowa City West High School, localizada em Iowa City nos EUA, recebeu diversos prêmios em feiras locais e estaduais até avançar como uma das 40 finalistas da mais prestigiada e tradicional feira de ciência e matemática do país para estudantes de último ano do ensino médio, a Regeneron Science Talent Search

Dasia se destacou ao criar uma sutura cirúrgica capaz de indicar a presença de contaminação bacteriana. Seu projeto baseia-se no fato de que há uma mudança no pH da pele de ácido (em torno de 5) para alcalino (em torno de 9) quando esta se torna contaminada. Algumas frutas e vegetais são indicadores naturais da mudança de pH. Esse é o caso do suco de beterraba que muda de cor vermelho vivo para roxo escuro com a mudança de pH. Dasia desenvolveu uma sutura de algodão tingida pelo suco de beterraba que poderia mudar sua dor na presença de contaminação local.

A grande genialidade do projeto está em usar produtos simples e acessíveis para um problema que afeta de maneira desproporcional países de baixa e média renda. Segundo Dasia, alguns países africanos como Serra Leoa têm taxas de 20% de infecção após cesarianas. 

Essa preocupação de Dasia com a equidade de acesso a recursos de saúde é algo que sempre esteve presente na vida da garota. Ela usa seu tempo após a escola para participar do clube Black History Game Show, sobre história negra dos EUA, e frequentar as reuniões semanais do conselho estudantil da escola e distrital para defender um currículo antirracista. 

Juliana Estradioto

Imagem retirada do site do jornal El Pais. Todos os direitos reservados.

Brasileira de Osório, cidade pequena no Rio Grande do Sul, ganhou imenso destaque no país ao receber diversos prêmios nacionais e internacionais pelas pesquisas desenvolvidas ainda no ensino médio no Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), no Litoral Norte. 

Tendo a orientação da professora Flávia Twardowski, Juliana iniciou um projeto de extensão social procurando formas de reduzir os resíduos gerados por agricultores do litoral que produziam geleias de frutas, mais especificamente da casca de maracujá. A estudante percebeu que seria possível usar uma substância da casca para produzir um plástico biodegradável que poderia substituir o saco convencional preto que envolvia as mudas antes do plantio. Uma solução que atacaria dois problemas. Com esse projeto, Juliana recebeu diversos prêmios e honrarias como o quarto lugar na categoria Engenharia Ambiental na maior competição de ciência entre estudantes de ensino médio do mundo, a Intel ISEF em 2017. Também recebeu medalha de ouro na Genius Olympiad, uma competição em nível de ensino médio que visa soluções para problemas ambientais. 

Dando sequência ao projeto de extensão e pesquisa, a jovem e sua orientadora então mudaram de foco para um novo resíduo agrícola – a casca de macadâmia. Com ela, a invenção que usa a casca para geração de membrana que pode atuar como substituto para curativos foi patenteada. Com esse projeto, Juliana recebeu o primeiro lugar na categoria Ciências de Materiais da Intel ISEF e foi convidada a participar da cerimônia de entrega do Prêmio Nobel na Suécia.

Atualmente, Juliana cursa Engenharia de Materiais na UFRGS. Uma de suas bandeiras é incentivar outras meninas na produção científica no Ensino Médio com o projeto Meninas Cientistas.

Gitanjali Rao

Imagem retirada do site da Times Magazine. Todos os direitos reservados.

Eleita pela revista Times como a criança do ano de 2020, essa estadunidense de 15 anos tem muitos motivos para ser celebrada. A premiação contou com 5000 inscritos entre 8 e 16 anos, sendo selecionados 5 finalistas que produziram um impacto positivo no mundo. 

Em entrevista concedida à atriz Angelina Jolie, a garota contou um pouco de sua trajetória e invenções. Entre elas, um sensor com tecnologia de nanotubos capaz de detectar, de forma rápida e barata, a qualidade da água e transmitir essa informação para um aplicativo de celular. A ideia veio a partir de uma mesma tecnologia usada para detecção de contaminação no ar e frente à crise de água contaminada na cidade de Flint em Michigan, EUA. 

E falando em aplicativos de celular, outra invenção de Gitanjali é um app e extensão do Chrome capaz de prevenir o cyberbullying – Kindly. Baseado em tecnologia de inteligência artificial, essa extensão detecta palavras ou frases ofensivas (entendidas como bullying) e oferece a opção do usuário em editar ou enviar da forma original. Dessa forma, o usuário tem a chance de repensar o conteúdo ofensivo. Muitos adolescentes que testaram a tecnologia argumentam que não se sentem controlados e que, de fato, percebem que têm a oportunidade de aprender com um erro. 

Gitanjali aprecia ainda dividir o que aprende com outros jovens como ela. Em parceria com escolas rurais, organizações de garotas STEM, museus em todo o mundo e grupos como a Shanghai International Youth Science and Technology e a Royal Academy of Engineering em Londres, eles ministram workshops para que jovens que desejam usar suas ideias para resolução de problemas 

Genialidade, dedicação e curiosidade são imprescindíveis para que meninas como essas existam, mas quantas Dasias, Julianas e Gitanjalis estão apenas à espera de mentoria, apoio e incentivo para florescerem? Que todas as meninas possam ter seus talentos reconhecidos e, assim, sejam capazes de explorar suas potencialidades ao máximo! 

Referências 

https://revistapesquisa.fapesp.br/fazendo-pesquisa-na-escola/

https://www.smithsonianmag.com/innovation/high-schooler-invented-color-changing-sutures-detect-infection-180977345/

https://www.washingtonpost.com/health/2021/04/01/high-schooler-wanted-infection-detecting-sutures-be-more-accessible-she-used-beets/

https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-03-06/a-jovem-cientista-da-escola-publica-que-chegou-onde-nenhum-brasileiro-chegou.html

https://www.sbpmat.org.br/en/cientista-em-destaque-entrevista-com-juliana-davoglio-estradioto/

https://time.com/5916772/kid-of-the-year-2020/  








Marina Barreto Felisbino

Bióloga formada pela Unicamp em 2010 e doutora na área de Biologia Celular e Estrutural em 2016. Atualmente trabalho na Universidade do Colorado em Denver-USA, onde desenvolvo pesquisa de pós-doutorado. Apaixonada pela ciência, assim como pelo alcance das mulheres à equidade. Com o desejo que todos vejam a ciência pelos olhos delas.

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