A arte, a fonte e o mijadouro (V. 4, N. 6, 2018)

Imagine que alguém esteja indo a um museu, para ver uma exposição, e uma das obras que essa pessoa encontra seja um… mijadouro. Isso mesmo, um urinol, objeto produzido com a finalidade de que nele se despeje urina.

Pois isso aconteceu. Em 1917, o artista francês Marcel Duchamp (1887-1968) inscreveu a obra Fonte (imagem anterior) na exposição da Associação de Artistas Independentes de Nova Iorque. Depois de alguns desentendimentos entre os membros da comissão julgadora, o trabalho foi aceito, uma vez que a proposta do evento era expor todas as obras inscritas.

Esse episódio teve um grande impacto no mundo da arte, com consequências que se fazem sentir até os dias de hoje. Vamos entender por quê?

Primeiro de tudo: a fonte e a arte

Devido a sua importância na vida cotidiana e também a seus significados simbólicos, fontes foram constantemente retratadas na história da arte. Em alguns casos, elas próprias eram a obra, como a Fontana di Trevi, na Itália, muito visitada até hoje, por turistas de todo o mundo.

Fontana di Trevi, uma das mais importantes fontes da Itália, idealizada no período Barroco (século XVII), pelo artista Bernini.

Naturais ou artificiais, as fontes sempre foram fundamentais para a vida nas cidades. Quando elas ainda não contavam com sistemas de abastecimento, era nas fontes que as pessoas iam buscar a água necessária para realizar as atividades diárias. Assim, foram essenciais para organizar a vida urbana.

Mas, além desse papel social e histórico, fontes faziam – e ainda fazem– parte do imaginário das pessoas, que muitas vezes as associam à sorte, à magia e à riqueza. Assim, era mais do que esperado que esse elemento da vida social e cultural sempre tenha estado presente nas manifestações artísticas, na maior parte das vezes simbolizando algo positivo ou importante.

Anel etrusco datado de ap. 550 a.C. A cena nele representada – que inclui uma fonte com cabeça de leão – remete a um episódio da Guerra de Troia.

Arte e rebeldia

Mas o que será que Duchamp pretendia ao colocar um mictório no museu e ainda dar a ele o nome de fonte? Por que ele converteu um objeto que era visto de uma forma lírica e até idealizada, em outro, cujo destino era receber dejetos?

Para entender seus motivos, precisamos voltar ao contexto em que o artista estava inserido: o das vanguardas europeias, conjunto de movimentos artísticos que sacudiu a Europa nas primeiras décadas do século XX. Todos esses movimentos questionavam a arte como era feita até então, predominantemente acadêmica.

A fonte, pintura de Jean-Auguste Dominique Ingres ligada ao Neoclassicismo, movimento da primeira metade do século XIX, marcado por rígidas regras de representação.

Os artistas das vanguardas acreditavam que essa arte, artesanal e cheia de regras, não correspondia mais à sociedade em que viviam, marcada por grandes transformações, como a urbanização e a industrialização crescentes.

Duchamp estava ligado ao Dadaísmo, movimento que questionava, de maneira muitas vezes radical, o papel da arte e do artista nessa nova sociedade. E foi o que ele fez. Colocou algo “feio” no lugar de algo que sempre fora considerado bonito. Com isso, denunciou o esgotamento de toda uma tradição artística  focada no prazer visual que a obra de arte poderia dar.

Ready-mades

Mas as questões suscitadas pelo urinol não terminam aí. Ele choca não apenas por ser algo “feio” no museu, mas principalmente porque não foi feito pelo artista, e sim comprado numa loja. É um objeto comum, de uso cotidiano, que qualquer pessoa poderia comprar. Duchamp inaugurou o uso de objetos industrializados, produzidos em série, no lugar da obra feita pelas mãos do artista. Criava, assim, a noção de ready-made, que teve grande impacto na arte.

A Roda de bicicleta, de 1913, foi um dos primeiros ready-mades de Duchamp.

Porque, até então, a habilidade em fazer algo com as próprias mãos era condição para ser artista. Mas isso não correspondia mais a uma sociedade que produzia artefatos em série, nas indústrias. A arte precisou mudar para refletir as mudanças ocorridas em seu tempo.

Duchamp e o contemporâneo

A importância das obras de Duchamp para a arte contemporânea foi imensa. Por exemplo, elas possibilitaram a introdução de objetos da vida cotidiana no lugar dos materiais tradicionais, algo que é muito comum nas práticas artísticas da segunda metade do século XX até hoje, como já vimos em algumas postagens do blog (clique aqui). Seria impossível pensar os trabalhos de hoje fora desse contexto de aproximação entre arte e vida.

Outro aspecto fundamental é que, ao tirar o fazer artístico da esfera do artesanal, Duchamp transforma o artista num propositor de ideias e práticas. A arte foi se tornando, assim, cada vez mais conceitual. E a obra de arte perdeu seu aspecto quase sagrado e único,  para converter-se em um jogo entre artista e público. Um desafio, muitas vezes cheio de ironia, que nos leva a pensar no que a arte de ontem e a de hoje podem vir a significar.

Depois da Fonte, Duchamp ainda fez outras propostas, todas elas relevantes para a arte atual. Mas isso será assunto para outras postagens…

 

Bacharel em artes visuais pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e em Letras pela Universidade de São Paulo. Especialista em Fotografia. Atualmente, cursa mestrado em Artes Visuais no Instituo de Artes da Universidade Estadual de Campinas.

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