Mas isso é arte? (V. 3, N. 5, 2017)

Imagine o seguinte: você vai a uma exposição e se depara com centenas de bancos de madeira espalhados pelo espaço expositivo. O que você acharia disso? Legal? Ou muito, muito estranho?

Algumas pessoas consideram trabalhos como esses não só estranhos, mas incompreensíveis. E, por isso, não têm vontade de visitar museus ou galerias.

Mas… Vamos tentar entender por que a arte de hoje é assim?

Primeiro de tudo…

Saiba que esse estranhamento é comum até mesmo entre pessoas acostumadas com a arte que se faz atualmente.

Isso ocorre porque, muitas vezes, esse é justamente o sentimento que o artista quer despertar em nós.

Além disso, chegamos às exposições esperando ver aquilo que julgamos ser arte: pinturas, como as de Leonardo da Vinci, por exemplo.

Esse é o tipo de obra que queremos ver, porque aprendemos que arte é isso. Está nos livros, e todos nós sabemos que a boa arte, a arte de verdade, é assim.

Leonardo da Vinci, Anunciação, óleo sobre madeira, 1472.
A pintura dos grandes mestres: a arte que queremos ver?

Claro que Leonardo da Vinci é um grande artista. E suas pinturas, simplesmente fantásticas.

Mas não podemos esperar que os artistas de hoje pintem como ele, ou façam o que ele fez, simplesmente porque eles não vivem na mesma época, nem na mesma sociedade de Da Vinci.

A arte do presente não é igual à do passado. Como toda atividade humana, ela muda com o tempo, adquire significados novos e até mesmo inesperados.

Por motivos que discutiremos em outras postagens, a arte contemporânea é assim: muitas vezes difícil de entender.

E é aí que chegamos a outro ponto importante.

Não entendi nada!…

Acontece que arte não é só para entender. É também para sentir, para perceber. É sentindo, percebendo (e também compreendendo) que passamos a olhar para as obras de outra maneira.

Vamos dar um exemplo. Para Ai Weiwei, artista chinês que fez o trabalho Bang (imagem destacada), bancos não são só bancos.

Na China, havia a tradição de pais deixarem para seus filhos um banco de madeira, que ficava numa mesma família por várias gerações. Com a industrialização do país, essa tradição praticamente acabou. Bancos passaram a ser objetos descartáveis, feitos de plástico e metal.

Com seu trabalho, o artista nos convida a perceber – e sentir! – aqueles bancos de outra maneira: não mais como objetos do cotidiano, mas como testemunhas de uma cultura em transformação.

Em outras palavras, esses bancos são os restos de uma tradição em desaparecimento.

E porque o artista quis chamar nossa atenção – e nossos sentidos – para isso, transformou-os em material artístico, espalhando-os pelo espaço e simulando uma explosão.

Então, como lidar melhor com a arte?

Uma boa dica para perder o medo de ir a exposições é encarar a arte como diálogo e os locais de exposição como espaços em que esse diálogo pode acontecer.

Ir a uma exposição é se dispor a uma conversa – com o artista, e também com sua cultura. E ver um trabalho artístico é permitir-se ser tocado por ele. E querer, depois disso, ver outros e outros mais. E falar deles com seus amigos, com sua família, com seus professores.

E ampliar ainda mais os muitos significados que uma obra de arte pode assumir.

 

Referências para a escrita deste texto:

 

3 respostas para “Mas isso é arte? (V. 3, N. 5, 2017)”

  1. Não concordo. Entendo toda essa parte do que a obra de um artista quer representar, etc. O que contesto é a necessidade de conhecimento prévio para entender uma obra. Isso se encaixa com um vídeo que andou fazendo sucesso no Facebook em que um cara descasca a arte moderna por ser apreciada só por um grupo que se porta como uma elite. Acho que a arte deveria ser capaz de ser apreciada por qualquer um e um conhecimento adicional – como o contexto ou a técnica usada – só aumentariam o fascínio por aquela obra. Sem a explicação do texto esse monte de bancos é apenas um monte de bancos. Então sim, a arte atual serve apenas a um grupo com conhecimento prévio, não é interessante ao público em geral. Isso ficou bem claro pra mim quando vi o interesse do público na seção de arte moderna dos museus do Vaticano.
    Outro ponto em que discordo é da habilidade e técnica necessárias para se fazer uma obra como essa dos bancos. Temos o hábito de dizer que algo muito bem feito, bonito, de técnica refinada, o topo daquela área, é uma arte. Essa expressão perde totalmente o sentido diante da arte atual já que qualquer coisa é arte e qualquer um é artista. Isso acaba até por prejudicar artistas em busca de apoio e valorização pois, se qualquer um é artista, por que eu deveria financiar este ou aquele? Só por quê alguma galeria de arte disse que sua obra é importante?

    1. Oi, Daniel. Do meu ponto de vista, gosto também é algo que se constrói. Não consigo imaginar que algo possa ser apreciado sem conhecimento prévio do observador. Esse conhecimento pode ser mais ou menos profundo. A arte moderna, que você citou, hoje amplamente aceita, foi fortemente rejeitada pelo público de seu tempo – tanto o leigo, quanto o especializado. Hoje aprendemos a gostar (digamos assim). Em outras palavras: o gosto não é natural, como você sugere, mas “cultivado” dentro de um contexto cultural específico. De minha parte: já achei o trabalho das cadeiras incrível de cara. Sem ler sobre ele antes. Depois, com as informações adicionais que consegui pesquisando, só aumentou minha capacidade de encontrar significados no trabalho. Concordo que a arte contemporânea é hermética, e isso afasta público. Mas ela é bem, bem interessante e, quando temos algumas chaves de leitura, a dificuldade de contato se transforma em prazer de descoberta.

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