Mato no prato: as plantas alimentícias não convencionais (PANCs)

um prato com folhas de peixinho frito

Você já ouviu falar das plantas alimentícias não convencionais, as PANCs? Elas fazem parte do bioma brasileiro, o mais diverso do mundo, com cerca de 46 mil espécies de plantas e média de 250 novas descobertas por ano. 

Há uma estimativa de que 10% de todas essas plantas tenham potencial para a alimentação, mas poucas são utilizadas pelo homem. 

Nosso objetivo com esse texto é falar sobre esse nicho de plantas que talvez você conheça e pense que é mato! 

O que são as PANCs?

As PANCs são espécies de vegetais que podem ser utilizadas na alimentação. Apesar de não estarem presentes em nosso dia a dia, as PANCs podem apresentar alto valor nutricional e promover a segurança alimentar.  

As PANCs são plantas que nascem espontaneamente no ambiente,  variando  de acordo com o ambiente, clima e cultura de cada região. Já são aproximadamente 3 mil espécies de PANCs conhecidas.

Brasilidade no prato: alto valor nutricional

Se pensarmos em vitaminas, existe uma supervalorização das espécies que não são nativas. Por exemplo: a cenoura, que é originária da Ásia, é referência em vitamina A e contém 663 unidades desta vitamina por 100g de polpa. Por outro lado, o Buriti (Mauritia flexuosa), espécie encontrada na Amazônia e também no Mato Grosso, Bahia e Minas Gerais, contém cerca de 1204 unidades de vitamina A por 100 g de polpa da sua castanha, que é de sabor agridoce e consistência gordurosa.

Outro exemplo é quando pensamos em vitamina C e logo lembramos da laranja e frutas cítricas. Porém, a Gabiroba (Campomanesia xanthocarpa) possui 10 vezes mais vitamina C do que a laranja

Outras espécies de PANCs também se destacam no ponto de vista nutricional, mas muitas vezes são consideradas daninhas para outras lavouras, pois competem por água, luz e nutrientes com plantas de alto interesse econômico (soja, milho, algodão etc.).

um vaso com uma planta Ora-pro-nóbis
Ora-pro-nóbis

Mato ou comida?

É comum encontrar na internet maneiras de eliminar o caruru, uma planta daninha que pertence ao gênero Amaranthus. Entretanto, nem todos “carurus” são apenas plantas daninhas. 

O caruru Amaranthus deflexus, apesar de ser conhecido como uma planta daninha, possui potencial para alimentação

O que é o caruru?

O caruru é  uma planta rasteira, rica em cálcio, zinco, magnésio, vitamina C e com potencial antioxidante. 

Desta planta se extrai o grão de amaranto, que chama atenção por seu elevado teor de proteína (cerca de 15g por porção de 100g),  contendo inclusive,  aminoácidos essenciais. Além do grão, suas  folhas também podem ser utilizadas para alimentação, de preferência cozidas ou refogadas.

Conheça a PANCs Buva (Conyza spp.)

A Buva (Conyza spp.) também é outro grande problema nas lavouras. Ela tem alta infestação, com densidade de 150 plantas por metro quadrado, e pode reduzir em até 83% a produtividade da soja

Uma única planta de Buva é capaz de produzir cerca de 110 mil sementes viáveis, já que tem baixa exigência de condições ambientais, o que torna sua germinação favorável. Entretanto, essa planta daninha também pode ser utilizada para a alimentação humana!

No Brasil há uma infinidade de espécies de plantas e muitas delas podem estar em  sua alimentação. As informações sobre essas espécies de plantas poucos conhecidas só podem ser acessadas graças ao empenho dos estudos sobre Botânica! 

Os botânicos e a preservação do meio-ambiente

Os botânicos são os responsáveis por realizar expedições e/ou se debruçar em livros e laboratórios. Ali eles aprendem e conhecem a identidade de espécies vegetais, suas características e ainda discutem os processos para conservação, propagação e exploração. 

Em relação às PANCS e plantas medicinais, a ciência anda lado a lado com os saberes empíricos de povos tradicionais.

Além disso,  instituições como a Embrapa Hortaliças possuem iniciativas para resgatar, preservar e identificar PANCs cultivadas por agricultores tradicionais de diferentes regiões. 

O projeto da Embrapa hortaliças mantém uma rede comunitária que também disponibiliza mudas e sementes para quem se interessa em cultivar uma PANC.

Cerca de 300 espécies já foram catalogadas como PANC, e pelo menos 50 dessas plantas já possuem informações técnicas de cultivo e fazem parte desse trabalho de hortas locais de multiplicação e promoção de cultivo. 

Alguns exemplos levantados são:  

  • Amaranto;
  • Capuchinha;
  • Chuchu-de-vento;
  • Fisális;
  • Mangarito;
  • Vinagreira;
  • Taioba;
  • Caruru;
  • Jambu;
  • Ora-pro-nóbis;
  • Peixinho.
Apenas uma mão segurando um ramo de peixinho, uma PANCs
Peixinho

Vantagens do cultivos de PANCs

As PANCs apresentam várias vantagens para o cultivo, como a alta rusticidade e elevada qualidade nutricional, o que possibilita a diversificação de cardápio. A valorização dessas plantas é também uma maneira de preservar nossas riquezas e ressaltar a importância dos ingredientes locais, regionais e naturais. 

Para ajudar na popularização das PANCs é preciso compartilhar conhecimento sobre a espécie e também usar redes sociais para dar dicas de como prepará-las.  É papel de cientistas e órgãos públicos fazer a conscientização das pessoas e a ampliar as informações sobre alternativas de alimentação rica em nutrientes e de fácil acesso.

Se você gostou desse texto e quer começar a explorar o cardápio com as PANCs, não deixe de conferir nosso material de referência. Nele você encontra muito mais informação e até receitas para colocar em prática!

 

REFERÊNCIAS

THABIT, R. A. S. et al. Antioxidant and Conyza bonariensis : a review. European Academic Research, v. 2, p. 8454–8474, 2014.

CONHECENDO AS PANCS: plantas alimentícias não convencionais. Programa de Segurança alimentar do Estudante. IFSC, 2019.

Espécies Nativas da Flora Brasileira de Valor Econômico Atual ou PotenciaL; Plantas para o futuro: região nordeste. Ministério do meio Ambiente. p. 1313, 2018.

Hortaliças Não Convencionais. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. p. 53, 2010. https://www.abcsem.com.br/docs/cartilha_hortalicas.pdf

BORGES, Carla Karoline Gomes Dutra et al. Plantas alimentícias não convencionais (PANC)-a divulgação científica das espécies na cidade de Manaus. 2017

Sobre Descascando a ciência 65 Artigos
O objetivo do Descascando é deixar conteúdos sobre o mundo agrícola e a ciência mais fáceis de serem entendidos. Queremos facilitar o "cientifiquês", para que todos tenham acesso à informação.

2 Comentários

  1. Olá! Primeiramente, obrigada pelo texto, por compartilhar essas informações conosco e parabéns pelo trabalho! Gostaria, contudo, de ponderar algumas questões que penso que podem interessar para reflexões futuras, somente nesse sentido de somar, mesmo.

    O atributo ‘não convencional’ é absolutamente arbitrário e certamente diz mais sobre quem classifica do que quem é classificado: jambu e ora-pro-nobis são plantas largamente utilizadas nas culinárias paraense e mineira/caipira, por exemplo, sendo não convencionais para quem escreve/fala/classifica a partir de outros lugares e olhares.

    Por sua vez, buriti é um símbolo do cerrado como um todo e ultrapassa as barreiras dos estados citados no texto: basta procurar quaisquer notícias, por exemplo, sobre o PARNA da Chapada dos Veadeiros (GO) e você verá que um dos cartões postais do local é um jardim de buritizais centenários (alguns com 400 anos, estimam). Se você visitar Brasília, ainda, verá buritis em vários parques da cidade. Se seguir a estrada partindo de Brasília, sentido Tocantins ou Bahia, vai encontrar muito doce de buriti feito pelas comunidades locais e rurais, além de muitos pés de buritis e buritiranas no caminho.

    A rusticidade, citada no texto, é outro elemento que pode ser controverso, no sentido de denotar uma não-domesticação destas plantas. Com relação a isso, indico a leitura de artigos em torno do tema das florestas antropogênicas, ou mesmo a leitura da recém-lançada coletânea Vozes Vegetais, organizada por Joana Cabral de Oliveira e outros autores (2020, Editora UBU/IRD).

    Por fim, terá um curso no IEB sobre caruru, neste mês de abril: http://www.ieb.usp.br/wp-content/uploads/sites/127/2021/03/Programa.pdf

    Mais uma vez, parabéns pelo trabalho e obrigada.

    Abraços!

    • Concordamos que o termo “não convencional” pode ser arbitrário. Alguém colocou esse nome PANCS porque são plantas consumidas mais em regiões específicas. No entanto, nosso intuito é a divulgação de conhecimento, e com certeza, muitas pessoas ainda não conhecem essas plantas. Como elas são conhecidas com PANCS em muitos locais, nós continuamos usando essa nomenclatura afim de chamar a atenção de quem tem interesse no assunto. Obrigada pelas questões.
      Abraços e continue nos acompanhando.

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*