Agrotóxico: é veneno ou não é?

aplicação de agrotoxico

Quando esse assunto entra numa roda de conversas a discussão costuma durar pouco, isso por duas razões: a primeira é que muito se ouve sobre agrotóxico, mas pouco se entende sobre o seu funcionamento, e a segunda é que com muita velocidade o assunto vira uma briga de torcida entre os “a favor” e os “contra” os agrotóxicos. Nessa briga todos saem perdendo porque os argumentos de ambos os lados são com frequência bastante fracos… quando não errados!

Então eu vim aqui, humildemente, tentar dar uma forcinha pra você que quer entender mais sobre o assunto e ter mais argumentos pra uma discussão de qualidade.

Quando o assunto é veneno nós precisamos recorrer a uma área de estudo bastante específica: a TOXICOLOGIA. É ela quem estuda a toxicidade das substâncias e diz pra gente se essas são ou não seguras para uso.

Isso vale para o estudo de substâncias presentes na composição de tintas de paredes, passando pelo protetor solar que você passa no rosto e indo até o brócolis que você coloca no prato do seu baixinho e implora para que ele o coma. Então ninguém melhor que a toxicologia para nos dizer se o agrotóxico é veneno ou não.

A toxicologia é um conceito popular!

Não se fala em toxicologia sem se falar em um camarada, que viveu lá por 1.500 depois de Cristo, chamado Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim… para os íntimos, Paracelso! É dele a célebre frase “Alle Dinge sind Gift, und nichts ist ohne Gift; allein die Dosis machts, daß ein Ding kein Gift sei.”. Não? Vamos tentar no português: “Tudo é veneno e nada é sem veneno; apenas a dose faz que uma coisa não seja um veneno.”.

Bem, já melhorou bastante, mas ainda parece ser uma frase dita por um daqueles seus amigos que estava bebendo com você no bar. Vamos ajudar o Celsinho na tradução para os dias atuais: “Tudo é veneno e nada é veneno, depende da dose.”. Apesar de o conceito já ter aparecido na história bem antes de Paracelso, finalmente ele ficou conhecido como o pai da toxicologia e trouxe a noção de DOSE – EFEITO.

Calma, não tem nada de complicado nisso, você certamente já teve contato com essa ideia antes quando ouviu a seguinte frase: “Tudo que é demais, faz mal”. Esse é o primeiro conceito importante que a gente tem que ter enraizado quando o assunto é toxicologia! Ele é fundamental porque nos ensina que um veneno pode não nos fazer mal se consumido em pequena quantidade… mas o inverso também é valido, até as substância mais inofensivas podem ser mortais se consumidas em excesso!

Um pequeno exemplo para fecharmos este tópico: a bactéria Clostridium botulinum produz uma neurotoxina que é uma das mais letais que existe no mundo: o nome dela é toxina botulínica. Uma quantidade minúscula dessa toxina te mata em questão de horas, MAS, se a gente aplicar realmente muito pouco dessa toxina em alguém a gente cria o procedimento estético mais usado mundialmente, o Botox!

Não é porque a substância é perigosa que ela me oferece risco!

 Agora que vocês já conhecem o conceito DOSE-EFEITO, vamos para o nosso segundo conceito fundamental: o RISCO.

Vamos de exemplo que é sempre mais fácil: Imaginem que vocês estão passeando num zoológico e se deparam com uma jaula onde tem um leão. Você tem a plena consciência (ou deveria ter) que se esse bicho fugir, ele automaticamente vira um PERIGO para você. Mas enquanto ele está na jaula está tudo bem, porque você não está EXPOSTO a ele. Agora, se alguém vai lá e libera o Mufaza (referência só para os que já sofrem com dores nas costas) existe um RISCO que ele faça de você o seu almoço.

Com isso a gente chega a seguinte fórmula: RISCO = PERIGO x EXPOSIÇÃO. Basicamente isso significa que uma substância só oferece um risco para mim se eu estou exposto a ela! Um veneno num frasco não me oferece risco algum, a não ser que eu abra o frasco e passe ele no corpo ou o beba. Aí a gente poderia mergulhar fundo num outro assunto que são as vias de exposição (oral, cutânea – pele, respiratória…) mas aí esse conteúdo ficaria maior do que eu planejei, vamos deixar isso para outra hora.

Vamos juntar nosso primeiro conceito com o segundo? Se eu sei que é a dose que faz o veneno e que o risco de eu me “intoxicar” vem da exposição às substâncias, SE EU ME EXPUSER A UMA QUANTIDADE CONTROLADA DE UMA SUBSTÂNCIA (uma quantidade que não seja suficiente pra me causar efeitos negativos), ESSA EXPOSIÇÃO SERÁ, A PRINCÍPIO, SEGURA!

“Luiz, como assim? ” O nosso corpo tem mecanismos de defesa que conseguem lidar com com muitas substâncias estranhas ao nosso corpo, chamadas por nós, toxicólogos/toxicologistas, de xenobióticos.

Exemplo? Sabe aquela cerveja que você toma no final de semana? Dentro dela existe uma substância bastante tóxica chamada de ÁLCOOL! Mas tá tudo bem, o nosso corpo lida muito bem com o álcool! Isso graças a algumas enzimas. Ou seja, se eu me expuser a uma quantidade pequena da substância tóxica “álcool”, eu não vou morrer, meu corpo consegue lidar com isso. Mas, se eu decidir afogar minhas mágoas na cachaça eu vou ultrapassar a capacidade do meu corpo de metabolizar (destruir) esse álcool e aí provavelmente eu vou ter uma intoxicação por álcool (e pelo seu principal metabólito (subproduto da metabolização do álcool) o acetaldeído.

Até aqui pode, daqui pra frente não pode

Luiz, então quer dizer que existe uma quantidade limite que eu posso ingerir de cada substância sem que ela me faça mal!? Sim, meu jovem padawan apaixonado, e essa dose tem até um nome, ela se chama NOAEL (do inglês No Observed Adverse Effect Level). Grosso modo ela significa “até aqui pode, daqui pra frente é por sua conta e risco“.

A NOAEL é a dose de substância na qual nenhum efeito adverso foi observado nos experimentos de laboratório. Ela tem uma prima que se chama LOAEL (do inglês Lowest Observed Adverse Effect Level), que basicamente significa “a partir daqui você vai começar a ter efeitos”.

Agrotóxico é veneno ou nao?
Gráfico de NOAEL (até aqui pode, daqui pra frente é por sua conta e risco“) e LOAEL (“a partir daqui você vai começar a ter efeitos”)

 Essa história de dose segura é válida para todas as substâncias? NÃO! Existem diversos químicos que o nosso corpo não tolera, não importa a quantidade. Um exemplo são as substâncias carcinogênicas, para elas não existe dose de exposição segura!

Tá, mas e o agrotóxico?

“Escreveu, escreveu, escreveu e não disse nada sobre os agrotóxicos!”. Desculpa pela longa introdução meu amigo leitor, eu precisei trazer esses pontos primeiro para poder falar sobre o nosso assunto principal.

Refaço então a primeira pergunta desse longo texto: agrotóxico é veneno ou não é? SIM, agrotóxico é veneno e sobre isso não existe discussão! Os agrotóxicos, também chamados de defensívos agrícolas, são substâncias que tem (na imensa maioria das vezes) objetivo de matar alguma praga que seja prejudicial à lavoura, seja ela um fungo (fungicidas), outras plantas (herbicidas), insetos (inseticidas), roedores (rodenticidas) e aí por diante.

Nesse momento, uma pessoa que não leu toda a introdução vai pensar "viu, eu sabia que era veneno!", vai fechar essa página e continuar falando besteira nas mesas de bar. Mas você, que leu tudinho, entendeu que não é porque uma substância é um veneno que ela necessariamente faz mal para nós.

Vamos fazer um cálculo bastante hipotético aqui comigo. Imaginem que um fazendeiro aplicou 1 litro de veneno em cima da sua plantação de couve. O que acontece com esse um litro aplicado? Bem, uma parte dele cai na terra e pode ser (ou não) absorvido pelas raízes das plantas; outra parte cai em cima da “praga alvo” (do inseto, por exemplo), fazendo o seu efeito; e a outra parte vai cair em cima das folhas de couve. Muito bem, isso significa que do 1 litro aplicado, nem todo esse litro está nas folhas de couve, certo? Certo.

O tempo vai passando e essas folhas começam a absorver uma parte desse veneno, vamos colocar um valor aleatório de 50%? Então digamos que daquele 1 litro aplicado, 800 mL foram para as folhas, os outros 200 mL foram parar na terra ou nos seus alvos. Dos 800 mL que foram parar nas folhas, 400 mL foram absorvidos pelas folhas e entraram nas plantas. Os outros 400mL que ficaram fora da planta ou vão “secar” e ficar por la ou vão acabar sendo degradados pela luz do sol por exemplo ou ainda serem parcialmente lavados pela chuva.

Tá, e os 400 mL que entraram nas plantas? Muitas plantas também são capazes de metabolizar os agrotóxicos, ou seja, elas conseguem destruir aquela substância química, transformando-as em outra coisa! Quanto mais o tempo passa, mais a quantidade de agrotóxico nas minhas couves diminui, seja devido a metabolização feita pela a minha planta, seja pela chuva, seja por outros motivos. E aqui a gente chega a um conceito fundamental quando o assunto é agrotóxico que é o PERÍODO DE CARÊNCIA.

Período de carência do agrotóxico

O período de carência é o número mínimo de dias que eu tenho que esperar entre a última aplicação do meu defensivo e a data da colheita… é um intervalo de segurança que garante que a quantidade do meu agrotóxico na minha planta vai ser drasticamente reduzido! Esse período varia de cultura para cultura tendo em vista que algumas plantas absorvem o veneno, outras não, algumas o metabolizam mais rápido, outras mais lentamente, e por aí vai.

Quando as boas práticas agrícolas são respeitadas, o que compreende o período de carência, a quantidade de agrotóxico que a gente pode encontrar nos produtos colhidos não pode passar de um determinado valor que a gente chama de LMR (Limite Máximo de Resíduos). Esse valor nada mais é que a quantidade de “veneno” que a gente pode ingerir e não vai nos causar nem um efeito adverso. Ou seja, é a quantidade que ainda é considerada como segura a ser ingerida!

Então sim, os agrotóxicos são venenos e como tal merecem toda a atenção nos quesitos toxicidade e exposição. Isso não significa que a gente não possa consumi-los de forma segura, assim como as bebidas alcoólicas ou a toxina botulínica citada acima.

Antes de concluir esse texto eu quero deixar bem claro que os valores usados como exemplo são aleatórios e foram escolhidos para simplificar a compreensão dos mecanismos de degradação dos agrotóxicos. Isso varia enormemente entre o tipo de defensivo agrícola em questão e o tipo de cultivo.

Sobre o autor:

Luiz Ribeiro é formado em biotecnologia, com pós em ciência forenses, mestre em toxicologia pela Universidade de Paris e atualmente doutorando em biologia celular e molecular na mesma universidade. Trabalha estudando o impacto de nanopartículas em doenças neurodegenerativas, principalmente Alzheimer.

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Referências:

The dose response principle from philosophy to modern toxicology: The impact of ancient philosophy and medicine in modern toxicology science (nih.gov)

BOTULINUM TOXIN (nih.gov)

11081_.indb (lavoisier.net)

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