Aquecimento global: você acredita?

Aquecimento global

Aquecimento global afeta agricultura e todos nós. No ano de 2020, as regiões que mais produzem frutos cítricos no Brasil (Cinturão citrícola de São Paulo e sudeste mineiro), foram prejudicadas devido à falta de chuva, calor intenso e sol abundante entre os meses de setembro a dezembro, o que causou menor produção por área nos pomares.

A alta temperatura neste período têm sido observada e relacionada com a queda de flores e frutos. Para se ter uma noção, setembro de 2020 registrou 4,4ºC acima das temperaturas médias máximas históricas desse mês. Nós, seres humanos, também temos sentido na pele esse calor e efeitos climáticos extremos como enchentes, ciclones, queimadas e secas. 

Aquecimento global não é algo novo

Alterações no clima do planeta Terra sempre aconteceram, alternando entre épocas de extremo frio (Eras glaciais) com anos de temperatura mais elevada. Desde o último Período Glacial, que terminou há cerca de 12 mil anos, a temperatura média da Terra segue aumentando e isso nunca aconteceu de forma tão rápida.

Há muitos anos os cientistas conseguiram correlacionar a concentração de dióxido de carbono com a elevação de temperatura no planeta. Para você ter uma ideia, nos últimos 650 000 milhões de anos a concentração de CO2 na atmosfera nunca ultrapassou as 300 partes por milhão (300 ppm). Em Eras glaciais esse valor chegava a 180 ppm.

Em 1950, os 300 ppm de CO2 na atmosfera foi quebrado e sua concentração segue aumentando 250 vezes mais rápido do que em qualquer período de aquecimento do planeta

Todos somos responsáveis, simples atividades como descarte de lixo e andar de carro, assim como a produção de alimentos e tantos outros produtos destinados a nós consumidores resultam na produção de gases do efeito estufa (GEE). 

As previsões não são boas para o planeta

Quanto maior a concentração desses gases na Terra, maior a retenção de calor, fazendo com que o nosso planeta se transforme, literalmente, em uma estufa. O resultado é o aquecimento global.

O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, divulgado em 9/08/2021, informou que a Terra deve ter sua temperatura elevada em até 1,5 °C já em 2030 e não mais em 2040, como havia sido previsto anteriormente. Os seres humanos já são responsáveis pelo aumento de 1,07 °C.

Com isso, todo planeta irá sofrer. Não só com a elevação da temperatura mas também com aumento das estações quentes no ano e mais ondas de calor. Eventos climáticos extremos como ciclones, geadas e queimadas também serão mais comuns em algumas regiões.

Além disso, caso o aquecimento global chegue a 2° C, como é previsto ainda para século 21, os períodos de secas agrícolas, caracterizado pela falta de umidade no solo que resulta em pouca evapotranspiração e chuvas, devem aumentar e ser intensificado nos próximos anos. Como consequência, isto pode pode inviabilizar a agricultura em muitas regiões e afetando todo o sistema alimentar do planeta. 

Por que a alta temperatura prejudica as plantas? 

Temperaturas elevadas como a de setembro de 2020 “forçam” as plantas a responderem a todo esse estresse. Para resfriar suas folhas, a planta realiza a respiração por estruturas chamadas “estômatos”. Com maior taxa de respiração, a eficiência fotossintética diminui, o que ocasiona menor produção de carboidratos, substâncias necessárias para o crescimento do vegetal e de seus frutos.

Além disso, o efeito da alta temperatura está atrelado ao tempo seco e à falta de chuvas. E já temos exemplos muito próximos do que a soma desses eventos climáticos podem causar.

Também em 2020, a produção da soja foi afetada, com colheitas abaixo da média devido ao período de estiagem, sobretudo no estado do Rio Grande do Sul. Já em 2021, a escassez de chuva no estado do Mato Grosso provocou atraso da semeadura e perda de até 50% da área plantada. 

Tudo está conectado ao aquecimento global

Para culturas como a soja, a maior perda foi devido à estiagem na época de semear as sementes. Durante este período, as sementes precisam de água para germinar, pois este processo necessita da embebição (absorção de água) da semente que desencadeia a reativação da atividade metabólica desta, promovendo o crescimento da raiz primária e o desenvolvimento do vegetal. 

Mas não é só de calor que sofre o agricultor. O inverno também foi preocupante neste ano. As geadas do mês de julho provocaram danos ao café, além de muitas outras culturas agrícolas. 

A geada agrícola ocorre quando a temperatura do ar atinge 0ºC, congelando tecidos vegetais com ou sem formação de gelo na superfície.  A morte do tecido vegetal é causada pela formação de cristais de gelo dentro do tecido vegetal, que se expandem e se rompem as células da planta. Você pode conferir esse efeito da geada com mais detalhes no nosso post do instagram

Aquecimento resfriamento global

Reverter o processo de efeito estufa é quase impossível, mas podemos atrasá-lo. Nesse sentido, a agricultura moderna e sustentável pode trabalhar a nosso favor.

A ciência tem entregado aos produtores novas variedades tolerantes ou até mesmo resistentes a seca e altas temperaturas, plataformas digitais para monitoramento da água e também de pragas e doenças. Dessa forma, a irrigação e aplicação de agrotóxicos só acontece quando a planta  realmente precisa.

Além disso, a combinação de conhecimentos tradicionais com tecnologias modernas tem permitido novos sistemas de produção que comportam mais de uma atividade agrícola em um mesmo espaço, ao mesmo tempo. Estratégia que auxilia no controle das emissões de gases do efeito estufa.

Plantas transgênicas promovem a adoção do plantio direto – manejo conservacionista que melhora a saúde do solo e reduz o uso de maquinários, logo temos uma menor emissão de CO2. Essa e muitas outras práticas fazem parte do Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono), criado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). É a agricultura brasileira trabalhando contra o aquecimento global.

Com ciência e a colaboração de todos podemos frear a emissão de gases que colaboram para o efeito estufa e ainda manter a nossa produção de alimentos.

Sobre os autores:

Lucas Bernardi: Engenheiro agrônomo e mestrando em agricultura tropical e subtropical (tecnologia da produção agrícola – IAC) e divulgador científico no Descascando a Ciência. 

Dr. Paulo José Camargo Dos Santos: Biólogo, pesquisador, mestre em microbiologia e doutor em biologia molecular. Atualmente trabalha como criador de conteúdo voltado para agricultura e divulgador científico no Descascando a Ciência

Referências:

Nasa. Global climate change. Disponível em: Climate.nasa.gov. Acesso em 20/08/2021.

Tierney, J. E., et al. Glacial cooling and climate sensitivity revisited. Nature, 2020.

Fundecitrus. Faltou chuva, sobrou sol. Revista Citricultor, ed. 54. disponível em: https://www.fundecitrus.com.br/pdf/revistas/RevistaZCitricultor_edZ54_alta.pdf Acesso:22/08/2021

Canal Rural. Milho: com seca, produtores relatam perdas de até 50% na área plantada em MT. Disponível em: https://www.canalrural.com.br/noticias/milho-com-seca-produtores-relatam-perdas-de-ate-50-na-area-plantada-em-mt/ acesso: 20/08/2021

Fundecitrus. Reestimativa da safra de laranja. Disponível em: https://www.fundecitrus.com.br/pdf/pes_relatorios/1220_Reestimativa_da_Safra_de_Laranja.pdf Acesso: 22/08/2021

Prof. Ledson – UFLA. Metabolismo de germinação. Disponível em: http://www.ledson.ufla.br/metabolismo-da-germinacao/etapas-da-germinacao/ Acesso: 22/08/2021

Agricultura INPE. Geadas. Disponível em: http://agricultura.cptec.inpe.br/geada.shtml  Acesso: 23/08/2021

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2 Comentários

  1. Excelente artigo!
    Muito esclarecedor e muito importante.
    Ainda existe muita gente que duvide do aquecimento global.
    Ainda mais no inverno, quando faz muito frio, já vi gente falando: “eu sabia que esse negócio de aquecimento global era tudo balela”…

    • Obrigada por acompanhar nosso blog. Infelizmente ainda há muita gente que duvida do aquecimento global, mas ele está aí…e não é mais uma preocupação futura! Ele já chegou e está fazendo estragos.

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