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O título deste post é um ataque a notícia sensacionalista que a imprensa mundial vinculou nos últimos meses (por exemplo, BBC e NewScientist) sobre a falácia de que devemos todos comer carne de canguru para contribuir menos com as “mudanças climáticas”. Pelo menos seria melhor do que comer mato o resto da vida como dizem os vegetarianos, tudo para “salvar” o planeta. Existem argumentos bem melhores para consumirmos mesmos carne, como o maltrato dos animais ou problemas de saúde. Mas utilizar aquecimento global para defender uma opção pessoal de alimentação é uma coisa que me deixa muito mal humorado.
Bem, vamos começar do início. Grande parte desta histeria contra o gado veio após um relatório divulgado pela FAO (orgão da Organização das Nações Unidas para alimentos e agricultura) em 2006, intitulado de forma não menos sensacionalista de “Livestock’s Long Shadow”. Algo como a “A grande sombra do gado”, num tom bem cataclístico como o famoso “Verdade incoveniente”. O relatório completo pode ser baixado no sítio da FAO.


Capa do relatório da FAO. Sensacionalista? Não, que isso…

Tirando o título e a capa sensasionalistas, o relatório da FAO não é ruim, longe disso. É bem completo, sendo dividido em 13 partes. Agora uma pergunta. A frase deste relatório mais difundida pela mídia, mais citada em sites e blogs vegetarianos se encontra em qual parte? Um Cheddar McMelt para quem acertar. Sim, você deve ter acertado. Na parte 1! Bem naquela chamada de “Resumo executivo”, que poderia ser chamada também de “Bando de frases soltas que são mal interpretadas fora de contexto”. Para quem ainda não conhece a frase…

“O setor do gado é um importate protagonista, responsável por 18 porcento das emissões de gases de efeito estufa. Isso é uma parcela maior que o setor de transporte.”

FAO. 2006. Livestock’s Long Shadow. Resumo executivo. Página XXI.



Pronto. Para que ler o resto do relatório? Tenho certeza que todos podem entender a força de uma frase com este tom, escrita por um orgão da ONU, na mídia mundial. Uma bomba. Agora esta informação virou uma verdade absoluta. Ninguém vai questionar. Tem a chancela da ONU! Bem, como neste blog nós somos chatos críticos, vamos questionar sim. Vamos começar com uma pergunta simples. O que é gado?

gado1
sm (do ant gãar, do gót ganan) 1 Animais, geralmente criados no campo, para serviços agrícolas e consumo doméstico, ou para fins industriais e comerciais. 2 Rebanho. 3 ch Meretriz. G. asinino: o que compreende os asnos. G. bovino: o que compreende vacas, bois e novilhos; também chamado gado vacum. G. caprino: o que compreende as cabras. G. cavalar: o que compreende os cavalos; também chamado gado eqüino. G. de bico: aves domésticas.

Dicionário Michaelis. Editora Melhoramentos.

Muita gente acha que o termo “gado” refere-se somente ao gado bovino, que é, na verdade, uma subdivisão dentro de gado. O relatório não fala sobre essa divisão no resumo executivo, então 99% das pessoas não tem contato com este conceito, o que pode levar a um erro. Podemos tirar dados do próprio relatório que mostram que o papel da criação de outros animais pode ser bem relevante. Mas depois chegamos neste assunto. Vamos voltar a frase do resumo executivo. Alguém viu alguma citação? Claro que não. Elas estão todas juntas no final do relatório, em um capítulo aparte. Assim não podemos saber de onde cada dado é retirado. Mas podemos chegar a algumas conclusões. Como o relatório da FAO é de 2006, as citações de dados sobre aquecimento global restringem-se ao relatório do IPCC de 2001. O que nos mostra que este relatório já foi publicado de forma defasada. Em 2007, o IPCC publicou o seu relatório mais recente. Vamos dar uma olhada nestes números.


Participação dos diferentes setores na emissão antropogênica total de gases de efeito estufa em CO2 equivalente. Crédito: IPCC (quarto relatório, 2007)

O setor da “agricultura” do IPCC inclui a criação de gado. Então além do gado, temos toda a emissão de gases de efeito estufa (GEE) do uso da terra em todas as plantações do mundo. Somando tudo isso, temos uma participação muito próxima a do setor de “transporte”. Esta afirmação é muito diferente da retirada do relatório da FAO, que afirmava que a emissão do setor “gado” sozinho era maior que o do transporte.

Agora que vimos que a frase muito utilizada pela mídia do relatório da FAO deve ser considerada de forma menos enfática, vamos entrar no relatório em si. Como eu disse anteriormente, ele é bem completo e pode ser melhor utilizado. A tabela abaixo mostra como foi feito o cálculo do número mágico de 18%.


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O papel do gado na emissão de gás carbônico, metano e dióxido nitroso. Página 113. Livestock’s Long Shadow. Crédito: FAO

Vamos analisar a tabela. Uma coisa qu
e me chamou muito a atenção foi a divisão entre o tipo de sistema (extensivo e intensivo) utilizado para a produção de gado. Para a obtenção do dado de emissão de cada GEE foi feita a soma do total de emissão de ambos os sistemas. O que é óbvio, pois se você que ter uma noção geral da emissão de GEE pelo gado do mundo temos que levar em consideração ambos os sistemas. Mas podemos ver la embaixo da tabela um dado interessante. Vamos ver mais de perto.

É isso mesmo que você está pensando. A emissão de GEE pelo sistema extensivo é mais que o dobro do sistema intensivo. E essa análise não para por aí. Além da diferenciação entre sistemas de criação de gado, o relatório também considera as grandes discrepâncias nas diferentes etapas do processo. e de qual tipo de animal estamos falando. Se considerarmos apenas as emissões diretas pela liberação de metano do sistema digestivo, o gado bovino pode ser considerado como líder. Mas e os nas outras etapas? O tratamento do esgoto gerado pela criação de animais pode ser uma importante fonte de gases de efeito estufa deste setor. Neste caso, a criação de porcos é a campeã em emissão de metano. A emissão dos porcos sozinha ultrapassa a emissão anual do gado bovino, em mais de 1 milhão de toneladas de metano (totalizando 8,38 milhões de toneladas de metano por ano).

Além desta análise mais minuciosa dos dados, o relatório da FAO apresenta dezenas de vias mitigadoras da parcela de emissão de gases estufa do setor de criação de gado. Eles dedicam um capítulo inteiro a este tema, chamado “Desafio político e opções”. Dentre elas, podemos citar: melhoria da eficiência dos sistemas de criação de gado, alteração da dieta dos animais, melhor sistema de tratamento do esgoto gerado, aumento do custo da água, solo e tratamento do esgoto (racionalizando o seu uso), etc.

Hoje em dia está cada vez mais na moda ser “verde”, pensar no meio ambiente. Mas quando fazemos isso de uma forma acrítica, podemos cometer erros tão grandes ou até piores do que os que não tem informação sobre o meio ambiente. Pensem em quantos erros já foram feitos em nome de uma boa causa. Alguém lembra de luta contra o “terrorismo”? Problemas existem, a criação de gado gera gases de efeito estufa em grande quantidade. Mas as vacas estão longe de serem terroristas. E muito menos os cangurus de serem “O” salvador.

Múúúúú. Crédito: publicenergy