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areas-influencia-belo-monte-hidreletrica.jpgPara visualizar o problema: Áreas de influência do projeto de Belo Monte. Clique para ampliar. Fonte: Relatório de Impacto Ambiental de Belo Monte (Maio/2009).

Gostaria de compartilhar uma entrevista interessante feita pelo jornal Olhar Virtual com o professor Emílio La Rovere do Programa de Planejamento Energético da COPPE-UFRJ. A reportagem que relatou a entrevista foi intitulada “O futuro da usina Belo Monte” e assinada por Thor Weglinski. Abaixo alguns trechos selecionados desta entrevista.

Olhar Virtual: Quais os prós e contras na construção da usina Belo Monte?

Emilio La Rovere:  Como todo o projeto energético de grande porte, existem impactos positivos e negativos. Os positivos são a contribuição para o suprimento de energia renovável, isenta* de emissões poluentes e gasosas. Com isso, o Brasil dá um passo importante para a segurança energética e atendimento de uma demanda crescente de energia elétrica. Além disso, a usina permite uma produção renovável a baixo custo, menor do que outras alternativas. Os principais aspectos negativos são os impactos ecológicos e sociológicos sobre as populações indígenas e ribeirinhas próximas ao local.

Olhar Virtual: Há alternativas à construção da represa? Energia nuclear, termelétrica ou outra?

Emilio La Rovere: Tecnicamente sim, como centrais nucleares, termelétricas, a carvão, a óleo, fontes eólicas ou a bagaço de cana. Naturalmente há restrições quanto à produção das alternativas, pois não é fácil gerar a quantidade de energia de Belo Monte, com mais de 11.000MW. É uma quantidade de energia muito grande que outras teriam muita dificuldade para gerir. As alternativas renováveis, como solar ou eólica, são indicadas para atender pequenas demandas espalhadas pelo território, mas não para grandes blocos de energia como as das metrópoles. A nuclear pode ser usada em maior escala como também a termoelétrica a carvão ou a gás. O problema é que todas as alternativas também trazem impactos negativos: as nucleares têm custo alto, as termoelétricas são inconvenientes do ponto de vista ambiental, pois emitem gases de efeito estufa. O uso de hidroeletricidade ainda tem vantagens importantes em relação a outras fontes, observando pós e contras.

(…)

Olhar Virtual: A tecnologia brasileira adotada em construção evoluiu?

Emilio La Rovere: A tecnologia em construção de hidrelétricas evoluiu. Já há sinais disso nas duas usinas no Rio Madeira,  Girau e Santo Antônio, que continuam gerando impactos ambientais, mas que são muito menores em relação à primeira geração de hidrelétricas. As novas usinas foram construídas com turbinas que aproveitam mais a corrente da água e a velocidade do fluxo do rio. As primeiras tinham lagos muito extensos, causadores de grandes impactos ambientais, atingindo comunidades, fauna e flora com alagamentos. Girau e Santo Antônio têm uma nova tecnologia que permitiu amenizar os impactos, já que seus lagos têm uma área bem menor.  Não quer dizer que não temos agressões ao ambiente, mas, comparativamente, as usinas atuais são mais benéficas do ponto de vista ambiental.

(…)

Olhar Virtual:  A usina é vital para o desenvolvimento do país?

Emilio La Rovere:  Belo Monte tem uma importância para o suprimento de energia elétrica no Brasil, e, por isso, a construção é vital. A usina irá aproveitar o potencial remanescente hidrelétrico no país. Houve um período de escassez de geração de eletricidade no país, entre 2000 e 2001, resultante da insuficiência de investimentos. O que aconteceu foi uma falta de planejamento para construção de hidrelétricas pela expansão da demanda. Hoje, o mercado de energia elétrica cresce e, por isso, Belo Monte e outras usinas são vitais para o desenvolvimento.”

Claro que os impactos ambientais e sociais gerados pela implementação do projeto de Belo Monte serão significativos. Existiu sim uma pressão muito forte do governo fazendo com que o projeto fosse aprovado de forma “rápida” (demorou 20 anos para sair do papel, mas a maior pressão foi feita pelo governo atual). Acho o cerne da questão deve ser cobrar do governo que os impactos sejam os menores possíveis e que a contra partida ambiental pela construção da usina (que pode chegar a 2,29 bilhões de reais) seja realmente bem investida.

Não há atualmente tecnologia para substituir a quantidade de energia a ser gerada por usinas hidrelétricas no Brasil. Chegamos em um ponto crítico onde o maior potencial hidrelétrico restante está na Amazônia. Não acho que devemos utilizar todo o potencial hidrelétrico desta região mas não podemos fechar os olhos a esta questão. Devemos sim investir em fontes alternativas de energia (eólica, solar, biomassa, etc), mas achar que hoje elas podem tomar lugar de fontes como a hidrelétrica no Brasil é no mínimo utópico.

* O trecho onde o professor fala “energia renovável, isenta de emissões poluentes e gasosas” é bem questionável. A geração de energia hidrelétrica não é isenta de emissões de gases estufa. Ainda mais em usinas mais antigas, onde problemas como grande área alagada, vertedouro mal localizado, inundação da mata original e consequente decomposição anaeróbica da matéria orgânica, etc aumentam de forma marcante a emissão de CO2 e metano, os dois principais gases estufa. Claro que essa emissão vai variar ao longo do tempo de implementação do reservatório, mas ela não deixa de ser considerável. Como ressaltado ao longo da entrevista a tecnologia atual de implementação da hidreletricidade consegue diminuir significativamente a emissão de gases da área alagada por trabalhar a fio d´água (menor área alagada). Mas nunca será “isenta” de emissões. Isso não é verdade apenas para para usinas hidrelétricas, mas para qualquer tipo de energia considerada “limpa” como biocombustíveis, eólica, solar. Por isso que devemos pensar sempre no custo-benefício de qualquer tipo de fonte de energia. 

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