Descendo a toca do coelho da IA: Data Centers e os Impactos Materiais da “Nuvem” – Uma entrevista com Tamara Kneese
Por Yama Chiodi com colaboração de Damny Laya
É muito comum que a cobertura midiática sobre os impactos socioambientais da IA seja reduzida a uma questão de consumo individual, mas isso é um erro político e factual. Calcular quanta água gasta cada pergunta feita ao ChatGPT, por exemplo, tira a responsabilidade das empresas e a transfere aos usuários, escondendo a verdadeira escala do problema. Na verdade, o consumo individual, ainda que cresça de modo assombroso, sempre será uma pequena fração do problema. Data centers operam em escala industrial, computando quantidades incríveis de dados para treinar modelos e outros serviços corporativos. Um único empreendimento pode consumir em um dia mais energia do que as cidades que os abrigam consomem ao longo de um mês.
Nos habituamos a imaginar a inteligência artificial como uma “nuvem” etérea, mas na verdade ela só existe a partir de data centers monstruosos que consomem quantidades absurdas de recursos. Os impactos sociais e ambientais são severos. Data centers são máquinas de destruição de energia, água e terra, e criam poluição do ar e sonora, num modelo que reforça velhos padrões de racismo ambiental. O desenvolvimento dessas infraestruturas frequentemente acontece à margem das comunidades afetadas, refazendo a cartilha global da injustiça ambiental. Ao seguir suas redes, perceberemos seus impactos em rios, no solo, em territórios indígenas e no crescente aumento da demanda por minerais críticos e, por consequência, de práticas minerárias profundamente destrutivas.
De acordo com a pesquisadora Tamara Kneese, essa infraestrutura está criando uma nova forma de colonialismo tecnológico. Os danos ambientais são frequentemente direcionados para as comunidades mais vulneráveis, de zonas rurais às periferias dos grandes centros urbanos, que se tornam zonas de sacrifício para o progresso dessa indústria. Além disso, a crescente insatisfação das comunidades do Norte Global com os data centers provocou o efeito colonial de uma terceirização dessas estruturas para o Sul Global.
Ao longo dos últimos meses investiguei os impactos ambientais das inteligências artificiais para um projeto jornalístico. Em setembro, juntei-me ao amigo Danny Laya, que publicou neste mês um relatório muito completo sobre os impactos dos data centers no Brasil. Reunimos-nos para produzir dois episódios para o podcast Oxigênio, que serão lançados em Novembro, e outros materiais em diversos formatos que virão em seguida. Ao longo do nosso processo de pesquisa, encontramos o trabalho de Tamara Kneese. Depois de ler alguns de seus textos e assistir algumas de suas palestras, ficamos muito impressionados e decidimos convidá-la para uma entrevista. Ela aceitou prontamente e nos recebeu com muita paciência e disponibilidade no dia 8 de outubro. Depois de ler a entrevista, a editora do blog, Thaís Lassali, concordou que aqui seria um ótimo espaço para publicá-la na íntegra.
Tamara Kneese é diretora do programa de Clima, Tecnologia e Justiça do instituto de pesquisa Data & Society. Ela lidera pesquisas sobre o impacto ambiental das tecnologias e atua como investigadora principal em projeto da National Science Foundation (Estados Unidos) que usa métodos participativos para estudar os impactos das IAs. Ela também tem uma bolsa da Internet Society Foundation para estudar resistência trabalhista e comunitária à expansão de infraestruturas de dados e energia.
Sua perspectiva é bastante particular porque ela alia uma trajetória profissional tanto na indústria de tecnologia como na pesquisa acadêmica. Por um período, ela atuou no time de Software Verde da Intel, mas também foi Professora Assistente de Estudos de Mídia e diretora do programa de Gênero e Sexualidade da Universidade de São Francisco (Estados Unidos). É autora do livro “Death Glitch: How Techno-Solutionism Fails Us in This Life and Beyond” e está escrevendo mais um que tratará da presença de profissionais de ciências sociais que trabalham com etnografias dentro da indústria de tecnologia.
Kneese é doutora pela Universidade de Nova Iorque, no departamento de Mídia, Cultura e Comunicação, e sua pesquisa trata, em suas próprias palavras, “da justaposição de histórias da computação e da automação com etnografias do trabalho em plataformas e do trabalho com cuidado. Estou, nesse momento, escrevendo sobre ação coletiva na indústria da tecnologia e as relações entre IA e direitos trabalhistas e destruição ambiental“. Seu trabalho pode ser lido tanto em artigos acadêmicos, mas também em grandes veículos jornalísticos como a Wired e a The Verge.
Na entrevista que segue, exploramos sua pesquisa e o momento crítico que os data centers impõem do ponto de vista social e ambiental – crise agravada pela rápida aceleração do uso de ferramentas de IA generativa. Este texto e a entrevista que seguem foram escritos originalmente em inglês, sendo esta versão uma tradução realizada por mim, que tenho o português brasileiro como língua nativa. A versão original pode ser conferida aqui.

Aos interessados em acompanhar o trabalho da Tamara Kneese, ela convidou nossos leitores e leitoras a assinar o newsletter Climate, Technology, and Justice. No próximo mês ela nos disse que lançará um relatório que tratará de questões climáticas em torno da indústria da tecnologia e dos data centers. Para assinar a newsletter basta clicar neste link. Esperamos que a entrevista que segue possa ser instigante para vocês como foi para nós.
Yama Chiodi: Bem vinda, Tamara. Muito obrigado por aceitar nosso convite para esta conversa. Como eu disse antes, minhas perguntas serão sobre seu trabalho em torno dos impactos sociais e ambientais dos data centers. Quero começar nossa conversa com a metáfora da nuvem. Eu li um texto muito interessante que você escreveu sobre esse assunto. Você argumentou que a nuvem é uma metáfora que pode ser enganosa. Você pode explicar por que ela seria enganosa e de que formas ela acaba tornando invisíveis alguns aspectos físicos dos data centers?
Tamara Kneese: Sim, claro. Acho que quando a maioria das pessoas pensa na nuvem, elas gostam da conveniência de poder armazenar arquivos que não estão apenas conectados ao seu computador. Com serviços de nuvem, como o Google Drive, você pode armazenar muitos dados e acessá-los através da sua conta, de qualquer lugar que esteja. A relação que as pessoas têm até mesmo com seu próprio computador pessoal se torna muito mais desapegada; não está conectada a um lugar específico. Você nem mesmo pensa no seu HD ou no seu computador como um ponto de acesso principal ou único. Vimos isso também com a ascensão de plataformas como o Zoom, onde você frequentemente sente que está falando com as pessoas através de um sistema mágico e etéreo, e pode ser fácil se esquecer que todas essas interações, todos esses dados, exigem data centers massivos, que permitem o armazenamento de todas essas informações. Muitos estudiosos, como Mél Hogan, e muitos outros em estudos críticos de data centers têm mapeado o crescimento dos “hyperscalers”, que são esses data centers massivos associados a empresas como Google ou Microsoft. Esses data centers existem há um tempo, mas realmente cresceram de modo acelerado nos últimos anos. A pandemia foi um ponto de virada onde os recursos de computação se tornaram ainda mais importantes para as pessoas. Você tinha que estar conectado para ir ao trabalho, para ir à escola. E assim vimos um crescimento dos data centers, e agora com a IA generativa, há ainda mais investimento.
O problema com nossa relação com a computação é que, na maioria das vezes, nós não pensamos muito sobre a materialidade do sistema de computação e a cadeia de suprimentos mais ampla. Tudo o que fazemos depende não apenas do nosso próprio dispositivo, ou dos serviços de nuvem específicos, mas de uma cadeia de suprimentos global. De onde vem o hardware que estamos usando, e que tipo de práticas de trabalho estão envolvidas? Mais distantes nas redes das cadeias de suprimento, temos matérias-primas e minerais críticos e outras formas de extração, e, frequentemente, abusos de direitos humanos e abusos trabalhistas. É estranho perceber que quando a computação é pensada como nuvem, o software está completamente separado do hardware, mesmo que esse nunca seja o caso, de fato.
YC: Em tempos de IA generativa, é mais importante do que nunca entender a infraestrutura que compõe os data centers. Você poderia descrever brevemente os principais componentes materiais dela?
TK: Essencialmente, os data centers são como galpões gigantes de chips, de servidores, de sistemas em rede. Eles geralmente são edifícios quadrados e genéricos. Num ambiente urbano, eles podem ser bastante pequenos e ocupar apenas uma parte de um edifício. Você não saberia que é um data center a menos que observe a iluminação distinta e perceba que não é uma edificação habitada por pessoas; ela brilha como se fosse um grande computador.
Especialmente agora, com os tipos de IA nas quais as empresas estão investindo massivamente, há uma necessidade de chips cada vez mais poderosos, GPUs. A razão de existir dos data centers é fornecer energia e poder computacional suficientes para que esses modelos de linguagem poderosos sejam treinados e então usados. Por demandar uma quantidade absurda de energia, eles também também demandam quantidades absurdas de água para resfriar os servidores.
Há uma relação muito estranha com o calor. Porque enquanto você depende de eletricidade para gerar muita energia, você também precisa garantir que os servidores não superaqueçam, então precisa de muitos coolers e sistemas de resfriamento que usam água. Além disso, você precisa de fontes de energia de apoio, que garanta que o fornecimento de energia seja ininterrupto. Porque há uma demanda tão grande na rede elétrica, você tem que ter geradores de backup, muitas vezes movidos a diesel, para garantir que o data center possa continuar funcionando. Para as pessoas que moram perto deles, eles são muito barulhentos. Comunidades vizinhas têm reclamado da poluição luminosa e da poluição sonora. Um bom exemplo são as pessoas vivendo perto de instalações de mineração de criptomoedas, que se queixam de coisas como dores de cabeça, enxaquecas e privação de sono. A poluição do ar também é bastante perceptível, com o material produzido pelos geradores movidos a diesel.
O data center em si não é o lugar mais empolgante do mundo. Geralmente não há muitas pessoas trabalhando dentro dele. Não é como uma fábrica ou um galpão da Amazon. Há alguns técnicos garantindo que tudo funciona, mas é basicamente um lugar onde há muitos servidores, sistemas eletrônicos, e, eventualmente, as pessoas que estão ali para fazer a manutenção de toda essa infraestrutura computacional.

YC: Pode ser que eu esteja errado, mas até aqui ainda não tinha ouvido queixas sobre poluição sonora a partir dos geradores a diesel em data centers no Brasil. Enquanto você falava, eu fiquei refletindo se isso estaria relacionado ao fato de termos energia renovável relativamente abundante disponível, o que sabemos não ser exatamente verdade, nem livre de impacto ambiental e social. Ainda que algumas regiões mais remotas de fato usem o diesel como forma primária de energia, proporcionalmente é uma parte muito pequena da matriz energética brasileira. A poluição sonora é sim um grande problema com usinas eólicas, por exemplo. Sobre isso temos muitos relatos, inclusive relacionados a data centers. Mas com geradores a diesel, será que isso é um problema em lugares onde a energia renovável não está disponível tão facilmente?
TK: Interessante. Porque mesmo na Califórnia, onde temos data centers que são, em teoria, mais verdes, ainda assim há geradores a diesel. Antes da situação política nos EUA mudar, muitas empresas de cripto falavam sobre sua relação com a energia renovável, dizendo que conforme a demanda por energia cresce, ter essas infraestruturas ajudará a incentivar o crescimento da energia renovável. Mas o que estamos vendo é que as necessidades de energia são tão grandes que mesmo em lugares onde deveria haver mais energia renovável, também estamos vendo usinas de carvão sendo mantidas abertas quando deveriam ser desativadas. As conversas sobre energia limpa nos EUA desapareceram completamente e agora são basicamente proibidas. Mas o comportamento das empresas em si não mudou realmente.
YC: Sim, faz sentido. Seguindo com os impactos ambientais e sociais. O que você diria que são os fatores de impacto ambiental mais significativos quando se trata de IA e data centers?
TK: O problema de energia provavelmente é que recebe mais atenção, porque é uma fonte de ansiedade em um momento em que deveríamos estar fazendo a transição dos combustíveis fósseis para as energias renováveis. Mas acho que, num nível local, coisas como o consumo de água podem importar mais. Se as empresas de tecnologia se mudam para áreas rurais no México e usam toda a água delas, basicamente impedindo as pessoas na cidade de terem acesso a recursos hídricos, é incrivelmente problemático. Em áreas com estresse hídrico e áreas onde as pessoas que vivem em um lugar não têm tanto poder de negociação, não têm tanto poder político, e especialmente se os lugares já são tratados como zonas de sacrifício, o que vimos repetidamente com terras indígenas em particular, as consequências podem ir muito além dos problemas imediatos relacionados à energia. É meio específico do lugar e do contexto. É por isso que ter uma noção de toda a cadeia de suprimentos de IA é realmente útil. Mesmo que você esteja, em teoria, usando energia renovável para construir um data center, você ainda depende de muitos outros materiais, incluindo chips e minerais, que possivelmente estarão prejudicando comunidades e causando ruptura ambiental. A ideia de ter que conter a demanda e o consumo no geral, em vez de um crescimento corporativo infinito, é uma conversa que a maioria das empresas não quer ter.
YC: Mais cedo essa semana, conversamos com um líder indígena, o Cacique Roberto Anacé. Ele está tentando, se não parar, pelo menos conversar com o governo, porque o TikTok está construindo um data center enorme dentro do território Anacé. O impacto local será enorme, e esse tipo de coisa parece ser um problema que vai existir cada vez mais aqui no Brasil
TK: É verdade. Eu li sobre esse data center do TikTok, que agora é propriedade de pessoas ainda mais nefastas como Larry Ellison, o notório fundador da Oracle (risos). Nos EUA, em South Memphis, há um data center da xAI. Temos esta plataforma que já é tão racista e tão incrivelmente prejudicial para comunidades negras, e eles ainda têm a audácia de poluir sua terra e ar ainda mais. A maneira de enquadrar tipos particulares de dano é importante. Não se trata apenas de as contas de energia das pessoas subirem, ou de quantificar o uso de energia ou água, mas realmente pensar sobre a relação entre esses danos sociais e danos algorítmicos e o racismo ambiental e outras formas de danos que as comunidades estão enfrentando naquele nível local.
YC: Eu assisti a uma palestra que você deu há algumas semanas onde mencionou o caso de South Memphis como uma história informativa sobre racismo ambiental. Pode falar sobre isso?
TK: South Memphis se tornou um dos principais locais para esse debate porque muitas organizações locais de justiça ambiental e organizações de direitos civis se envolveram. O que você tem, basicamente, são partes de cidades que historicamente foram negras, que foram desprivilegiadas, que lidaram com outras ondas de desenvolvimento industrial e poluição. Se uma empresa de petróleo e gás chega à cidade e está poluindo tudo com petroquímicos, é assim que você obtém o que chamamos de “Corredor do Câncer” na Louisiana. A questão é, quais são os lugares onde as pessoas não são consideradas dignas de proteção? Quem é dispensável? Neste país [Estados Unidos], com sua história de supremacia branca e falta geral de direitos civis, muitos dos lugares onde as comunidades negras tradicionalmente estiveram tendem a ser os sacrificados para vários tipos de desenvolvimento, como a construção de estradas interestaduais ou galpões da Amazon. Os data centers são apenas uma continuação do que já estava acontecendo.
Então você tem acordos corruptos no nível local, onde um prefeito e outros funcionários locais acham que estão obtendo algo economicamente valioso ao fechar um acordo com um operador de data center. Eles se reúnem a portas fechadas, tomam decisões em seu próprio interesse, assinam acordos de confidencialidade e não contam a seus constituintes, não dando a eles tempo para se organizar e lutar por seus direitos. O desenvolvimento acontece muito rapidamente. Em certos lugares nos EUA, há muito menos proteções ambientais. Temos um sistema fragmentado. Em South Memphis, Elon Musk estava construindo esses data centers que flagrantemente iam contra as regras de licenciamento de ar da EPA, mas eles estão dispostos a fazer qualquer coisa. Eles pagam a multa, ou contam com funcionários locais para fazer vista grossa porque há muita corrupção. A única maneira de combatê-los é através da lei; tudo acaba se tornando um processo judicial. Infelizmente, você precisa de formas muito específicas de evidência e dados para que um processo seja viável. Houve casos em que dados coletados pela comunidade não foram considerados como evidência legal. É exaustivo para comunidades que já lidam com essas histórias violentas ter o fardo de provar quando foram prejudicadas.
Damny Laya: É impossível não notar um padrão aqui. Porque o que você está descrevendo é o mesmo comportamento desta indústria que vimos no Chile, no Uruguai, no México, e agora aqui no Brasil. O padrão é o mesmo. É por isso que precisamos de políticas públicas fortes, participação social e poder político para as comunidades afetadas. Não tem outro jeito.
TK: Sim, definitivamente. Poderíamos olhar para todos os diferentes cenários e fazer uma engenharia reversa do que quer que seja o seu manual. Seria útil publicar algo sobre exatamente quais são todas as mentiras que você escuta dessas empresas. A estratégia parece ser praticamente a mesma em todos os lugares, especialmente contando com funcionários que estão dispostos a trair o povo.
YC: A xenofobia também desempenha um papel em como o racismo ambiental funciona. O caso da China é notável. Você pode falar sobre como a xenofobia está afetando a maneira como as empresas nos EUA e na Europa estão pensando e regulamentando a IA?
TK: Certamente linhas políticas se atravessam aqui e não é algo exclusivo do governo Trump. Ecoa versões anteriores. Quando o Japão era a capital tecnológica na era Clinton, a “information highway” era considerada uma questão de segurança nacional, e, antes, a origem da internet era sobre medos da Guerra Fria em relação à União Soviética. É sempre sobre competição e inovação americanas. A paranoia da Europa é sempre a de que eles estão criando regulações que os impedem de inovar como China e EUA. Eles produzem regulamentações rigorosas, então voltam atrás, dizendo que não querem impedir a inovação.
Agora, estamos vendo temores sobre o domínio da China. Estamos em um lugar completamente incompreensível e irracional aqui nos EUA. Muito do que a administração Biden estava fazendo em torno do CHIPS Act, para trazer a fabricação de chips para estados como Arizona e Ohio, foi especificamente para combater o domínio chinês e prevenir temores de que a China invadiria Taiwan. Agora, os planos da administração Biden estão sendo contrariados pelas ações da administração Trump, como tarifas, que tornam mais difícil fazer qualquer coisa aqui. A China se tornou o novo foco e o apelo é incrivelmente racista. A maneira como está se desenrolando é também um foco em minerais críticos e a disputa por sua dominância. A ideia de que estaremos em uma boa posição para ter acesso a eles sem fazer bullying com outros países é porque há agora um foco em encontrar minerais críticos nos EUA, mesmo em terras originárias.
YC: Sim, acho muito importante a observação que você fez sobre isso não ser uma coisa que veio apenas com Trump. Se você olhar para a maneira como a IA se desenvolveu na China, é uma consequência direta da geopolítica e das políticas públicas feitas pela administração Biden. É uma coisa muito complicada.
TK: Definitivamente e todo mundo surtou com o DeepSeek. Se você está preocupado em competir com a China em inovação e pesquisa de IA, mas desmantela a NSF e a academia — que é onde a inovação acontece aqui, não em empresas privadas — você está dando um tiro no pé. Isto é o que acontece quando as pessoas não aprendem com a história.

YC: Mudando um pouco de assunto. As big tech tendem a publicar planos de sustentabilidade detalhados para supostamente atingir a neutralidade de carbono. O Google, por exemplo, diz que vai alcançar a neutralidade de carbono para seus data centers em poucos anos, o que é uma loucura se você considerar que suas emissões estão aumentando, na verdade, ano após ano. Quanta confiança devemos depositar nessas promessas, e quais são as armadilhas ou casos mais comuns de greenwashing para ficarmos atentos?
TK: As empresas de tecnologia usam o “net zero”1 de forma criativa. Mesmo quando as coisas estavam mais progressistas, elas já usavam mecanismos criativos de contabilidade, créditos de carbono e certificados de energia renovável para chegar ao status de “carbono negativo”. Temos histórias malucas durante a era Web3 de pessoas de tecnologia indo pro Brasil, dizendo que iriam tokenizar a floresta tropical e ajudar empresas a alcançar status de carbono neutro plantando árvores ou impedindo que árvores fossem cortadas. Os números sempre foram questionáveis. Mas agora as empresas estão pensando “não temos mais que fingir que nos importamos com isso porque temos IA, e podemos dizer às pessoas que a IA vai mágicamente consertar a crise climática”. Na NYC Climate Week, eu estava em um painel onde uma diretora de sustentabilidade da Microsoft fez uma apresentação sobre como a IA iria ajudar as empresas a alcançar suas metas de net zero. Era muito obviamente greenwashing, mas ainda assim ela publicou um artigo na Nature, e as pessoas no evento estavam realmente levando a sério. As pessoas querem acreditar que as grandes empresas estão tentando fazer a coisa certa. Ainda há uma sensação de que as empresas de tecnologia são empresas boas, com valores progressistas. Agora, como houve resistência em torno das emissões vinculadas à IA generativa, as empresas estão liberando métricas com divulgação super seletiva, colocando números que minimizam e escondem seu verdadeiro impacto e algumas pessoas contra-argumentam, mostrando que a matemática está equivocada. Acho que estamos em um momento em que as pessoas não estão mais comprando o discurso corporativo de tecnologia.
YC: Ao mesmo tempo, parece que o governo Trump teve esse efeito sobre as empresas: elas não precisam se importar tanto agora; bem, elas não precisam fingir que se importam tanto.
TK: Sim, elas podem simplesmente dizer o que quiserem.
YC: Mesmo assim, a resistência organizada ainda desempenha um papel importante neste cenário. Um dos aspectos mais interessantes do seu trabalho, na minha opinião, é precisamente prestar atenção em como as comunidades locais e grupos organizados estão tentando resistir à imposição de data centers. Você pode descrever como você vê a resistência social contra data centers nos EUA agora?
TK: Há lugares nos EUA onde os data centers estão em alta concentração há muito tempo, como em North Virginia. Lá há uma resistência mais desenvolvida e orientada à produção de políticas públicas porque os data centers estão em todos os lugares; é impossível ignorá-los. As pessoas estão irritadas com as contas de luz subindo. Implementadores lidando com o desenvolvimento de novos data centers em outras partes dos EUA estão olhando para a Virgínia para ver o que funcionou e o que não funcionou. É algo que é diferente em cada lugar. Em Tucson, Arizona, por exemplo, grupos de justiça ambiental e a comunidade conseguiram impedir a construção de um data center. Vimos outras interrupções de data centers em diferentes condados.
O problema é que cada cidade e condado tem regulações diferentes. O que funciona em um lugar pode não funcionar em outro. A expansão dos data centers está acontecendo muito rapidamente e os representantes do governo locais recebem promessas de benefícios econômicos e empregos, tudo isso acontece muito rápido. A comunidade acaba não tendo nem tempo para se organizar ou mesmo saber que está acontecendo. As pessoas podem impedir um data center em um local, mas é como whack-a-mole [N.E.: jogo tradicional de fliperama com vários buracos, onde um personagem deve ser golpeado ao aparecer pelo buraco] ; eles simplesmente se mudarão para a cidade vizinha. Mesmo que sua cidade diga não aos data centers, você ainda pode estar lidando com as linhas de transmissão de data centers em uma cidade ou estado vizinho. A energia não é limitada por fronteiras municipais.
Outra questão é que se os EUA tivessem uma política federal forte para data centers — o que não vai acontecer — ou se houvesse resistência suficiente para pará-los, eles simplesmente se mudariam para outro lugar, como para o Sul Global, acelerando o que já estamos vendo. Organizar-se contra o big tech não é apenas em um nível hiper-local, mas também uma luta política muito maior sobre quem decide o que acontece com os recursos da Terra.
YC: Eu concordo com você. O cenário do Brasil é muito complicado. Não apenas não teremos uma política nacional tentando parar os data centers, mas nosso governo está construindo uma política nacional para atraí-los. E considerando o clima político com os EUA no momento, é difícil não pensar que esta política para atrair data centers está de alguma forma relacionada a construir capital político para negociar as tarifas. Isso me leva à minha próxima pergunta, que você meio que já respondeu, mas quero perguntar diretamente: você pensa neste movimento de data centers sendo rejeitados nos EUA e se mudando para o Sul Global como uma nova forma de colonialismo tecnológico?
TK: Sim, com certeza! Pensando em diferentes eras da globalização e terceirização, rastreando a mudança da manufatura de eletrônicos do Vale do Silício para lugares como Taiwan… A transferência de ônus ambientais, a busca por mão de obra barata, a busca por lugares onde a luta para fazer o que você quer sem regulamentação não será tão difícil. É definitivamente uma forma de colonialismo.
YC: É muito triste ver isso acontecer em tempo real, diante dos nossos olhos. Encaminhando para o fim da entrevista, gostaria de falar um pouco sobre trabalho. Como a indústria de IA está mudando a infraestrutura e impactando os trabalhadores? E como a IA está mudando a maneira como o trabalho é visto no futuro?
TK: Eu escrevi antes sobre a cadeia de suprimentos de IA e trabalho e estudiosos que fizeram trabalho sobre formas emergentes de solidariedade de classe. Nos EUA, grupos como a Tech Workers Coalition foram iniciados por engenheiros de software e trabalhadores de escritório que se solidarizaram com zeladores e trabalhadores de cafeteria tentando se sindicalizar nos campi de tecnologia. Vimos isso com a Amazon Employees for Climate Justice, organizando-se em torno de motoristas de entrega e trabalhadores de galpões. Mas as coisas mudaram. A dinâmica trabalhista dentro das empresas de tecnologia não é a mesma. A economia entrou em colapso para muitos trabalhadores de tecnologia. Há muita ansiedade, especialmente para estrangeiros com vistos de trabalho. Todos estão se sentindo descartáveis. A IA está sendo enfiada goela abaixo das pessoas; elas são solicitadas a usar o Copilot, são instruídas a aumentar a produtividade. Desenvolvedores juniores estão sendo substituídos por IA; as empresas não estão contratando e estão demitindo pessoas. A ideia de que engenheiros de software são especiais e privilegiados e não precisam se organizar mudou. Agora eles também começam a se enxergar como proletários. Agora é nós todos contra um punhado de bilionários. Por mais terrível que seja o cenário, há mais oportunidade para nos unirmos a pessoas que talvez não estivessem dispostas a se organizar antes.
YC: É muito interessante como novas solidariedades e formas de sindicalização podem florescer do caos. Não quero te tomar muito mais tempo, então vamos para nossa última pergunta. Você vem de uma formação em Estudos Feministas de Ciência e Tecnologia, assim como eu. Que insights feministas dos ESCT podem nos ajudar a fazer uma reflexão mais politizada sobre a IA? Quero dizer, para além da diferença de gênero, em um nível mais teórico e político.
TK: Eu me inspiro em pessoas como Lucy Suchman, que começou criticando a indústria de tecnologia de dentro e está disposta a falar sobre a relação entre IA e genocídio de uma maneira que muitas pessoas na academia não estão. A ideia do que conta como evidência também é realmente importante de uma perspectiva feminista dos ESCT. Quais histórias e experiências são consideradas como parte do registro oficial, do arquivo, ou chegam de fato às vias políticas? Como garantir que não está sendo deixado de fora as histórias mais complexas que não podem ser quantificáveis? Então eu acho essas perguntas ajudam a criar espaços para imaginar que tecnologia as pessoas realmente querem. Apesar da IA generativa, a tecnologia pode ser útil para as comunidades lidando com mudanças climáticas, como com a modelagem climática. O papel dos ESCT feministas não é meramente pensar em projetos de “como usar a IA para o bem”, mas pensar muito mais radicalmente sobre o que queremos dizer com tecnologia. Um DIU é uma forma de tecnologia. Há muitas formas de tecnologia que são úteis, valiosas e feministas por natureza que não têm nada a ver com grandes empresas de tecnologia.
YC: É interessante você ter mencionado tecnologias reprodutivas, porque se você pensar no trabalho de estudiosas como Donna Haraway, acho que seu artigo clássico “The Virtual Speculum” esconde algumas boas sugestões para nos ajudar a reagir às tecnologias de IA, o que inclui uma volta à sua reflexão sobre a metáfora da nuvem. Há tanto para pensar, tanto para fazer! Encerro minhas perguntas aqui por ora. Acho que nossas leitoras e leitores vão ficar satisfeitos de ouvir suas contribuições. Muito obrigado pelo seu tempo e pelo seu trabalho.
TK: Ótimo, estou animada. Também estou muito empolgada que a entrevista será publicada em português. Vou compartilhar com meus amigos brasileiros. Tchau, muito obrigada. Uma ótima noite para vocês.
Yama Chiodi é antropólogo e jornalista de ciência. Doutor em Ciências Sociais (Unicamp) e mestre em Divulgação Científica (Unicamp), pesquisa mudanças climáticas e os impactos socioambientais das tecnologias.
Damny Laya é cientista social e jornalista de ciência. Doutor em políticas de ciência e tecnologia (Unicamp) e mestre em Estudos Sociais da Ciência (IVIC – Venezuela), pesquisa governança da internet e as intersecções da materialidade da internet com a soberania e seus impactos socioambientais.
- Net zero é o conceito que se refere ao estado em que a quantidade de gases de efeito estufa emitida na atmosfera é supostamente equilibrada pela quantidade removida dela. ↩︎
0 comentário