Photo:Rothamsted Manor - 1880's - by Lady Caroline Lawes

Rothamsted Manor [Mansão], em aquarela de Caroline Lawes. c. 1880.

Se a questão da fome no mundo é algo que lhe preocupa, é bom lembrar que a Química criou condições para alimentar (quase) todos os bilhões de habitantes do planeta já no século XIX. O que pode ser chamado de primeira Revolução Verde começou com a pesquisa e o desenvolvimento de fertilizantes sintéticos num lugar chamado Rothamsted.

Até meados da década de 1830, Rothamsted era apenas mais uma grande propriedade rural de Hertfordshire. Seu proprietário, John Bennet Lawes faleceu em 1822 e seus 1000 acres (4km².) de terras passaram ao seu único filho e herdeiro, também chamado John Bennet Lawes. Em 1832, após formar-se no Brasenose College, na Universidade de Oxford, aos 18 anos, o jovem Lawes voltou para Rothamsted e passou a cultivar e estudar ervas medicinais.

Obviamente, ele não seria um simples hortelão. Por volta de 1837 — enquanto a industrialização e a população britânica cresciam velozmente —, John Lawes passou a interessar-se pela questão dos adubos e de seu papel no crescimento das plantas. Começou a experimentar diversas fórmulas de adubo em vasos e, uns dois anos mais tarde, passou para o plantio experimental direto no solo. Com a colaboração do químico Joseph Henry Gilbert (1817-1901), Lawes chegou a um adubo formado pela composição de fosfatos com ácido sulfúrico.

Photo:Portrait of John Bennet Lawes, founder of Rothamsted Experimental Station in 1943 - aged c 45

John Bennet Lawes (1814-1900), por volta de 1860.

O chamado superfosfato foi patenteado pela dupla de pesquisadores e logo passou a ser produzido em escala industrial. Por isso, John Lawes é considerado o pai da indústria de fertilizantes. Em 1854, foi eleito membro da Royal Society e, junto com Gilbert, foi agraciado com a Medalha Real por suas pesquisas agroquímicas em 1867. Se o Nobel de Química já existisse, ele certamente teria ganhado um.

Mas John Lawes não ficou apenas com os louros da glória e continuou dedicando-se ao aprimoramento das técnicas agrícolas. Em 1843, já havia transformado sua fazenda em um centro de pesquisas, a Estação Experimental Rothamsted. No meio século seguinte dedicou-se, entre outras coisas, ao estudo da efetividade da rotação de culturas e da sustentabilidade da cultura do trigo. Muitas das técnicas testadas e aprovadas na Estação Experimental de Rothamsted continuam em uso até hoje.

Photo:Rothamsted - interior of Testimonial laboratory - 1890s

Interior de um dos laboratórios de Rothamsted (c. 1890)

Um ano antes de sua morte, Lawes tomou providências para preservar seu legado e garantir futuras pesquisas. Ele formou um fundo de 100.000 libras com parte de sua fortuna, a ser administrado após sua morte pelo recém-estabelecido Lawes Agricultural Trust. Lawes faleceu em 1900, aos 86 anos e a propriedade passou ao seu filho, Sir Charles Bennet Lawes-Wittewronge.

Charles quase pôs tudo a perder quando decidiu vender Rothamsted em 1934. Felizmente, o Lawes Agricultural Trust conseguiu levantar 35 mil libras para comprar as terras e a mansão de Rothamsted e manter as pesquisas. A mansão (ou casa-grande), que data do século XVI, foi então transformada para receber visitantes e abrigar os pesquisadores residentes no local. Atualmente, a fundação chama-se Rothamsted Research e o foco das pesquisas deixou de ser exclusivamente agronômico e inclui áreas como bioenergia e biotecnologia.

A segunda Revolução Verde só ocorreu entre os anos 1950 e 1970, com o melhoramento genético de sementes, a mecanização e o uso generalizado dos insumos industriais, como os fertilizantes químicos — que começaram a ser desenvolvidos em Rothamsted.

E lembre-se: se você não passou fome hoje, agradeça a John Lawes.


0 comentário

Igor Tenório · 17 de maio de 2013 às 20:11

Muito bom!!! sou agrônomo e nunca ouvi falar de John Lawes… outros famosos como o químicos Liebig fazem parte do nosso cotidiano. Gostaria de solicitar somente alguma citação…artigo ou livro para que possa ter uma maior visão.
Valeu

Bruno · 30 de outubro de 2016 às 0:43

Ronald Fisher não teve também trabalho fundamental nesta fazenda?

    Renato Pincelli · 30 de outubro de 2016 às 21:44

    Sim, Bruno, mas eu não o conhecia. Fisher esteve em Rothamsted por 14 anos, a partir de 1919. Segundo sua biografia na Wikipédia anglófona:

    In 1919 he was offered a position at the Galton Laboratory in University College London led by Karl Pearson, but instead accepted a temporary job at Rothamsted Research in Harpenden to investigate the possibility of analysing the vast amount of data accumulated since 1842 from the “Classical Field Experiments” where he analysed the data recorded over many years and published Studies in Crop Variation in 1921. In 1928 Joseph Oscar Irwin began a three-year stint at Rothamsted and became one of the first people to master Fisher’s innovations.

    Lá, entre outras coisas, Fisher desenvolveu seu modelo de seleção sexual (Fisherian runaway), seu princípio de equidade sexual, seu teorema fundamental sobre a seleção natural, além de trabalhos sobre investimento parental, mimetismo, dominância, a vantagem heterozigótica e a hipótese do filho sexy. Esses conceitos foram reunidos em The Genetical Theory of Natural Selection (1930), uma das obras fundadoras do neodarwinismo.

    Curiosamente, ele deixou Rothamsted em 1933 para ser professor de Eugenia no University College de Londres, cargo que só foi dissolvido em 1939.

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