Na tradição canábica, o 20 de abril — 4/20, na notação americana — é dedicado à celebração da erva. Pesquisadores dos EUA e da Grã-Bretanha descobriram que, estatisticamente, esse não é um bom dia para pegar a estrada.

Dizem que por ter origem natural, a maconha não seria uma droga tão perigosa. Embora seus efeitos sejam bem mais leves que drogas tanto legais (como o álcool), como ilegais (cocaína), isso não quer dizer que a Cannabis seja inofensiva. Estudos recentes têm demonstrado que ela pode ser prejudicial ao desenvolvimento cerebral de adolescentes. Mas qual seria o impacto da ganja na segurança do trânsito?

Ainda que equipamentos do tipo já existam, nem todas as jurisdições têm bafômetros capazes de captar traços de drogas ilegais como a marijuana. Para contornar essa limitação, pesquisadores de segurança no trânsito dos EUA e da Grã-Bretanha partiram para uma abordagem tão indireta quanto inusitada e analisaram os dados sobre acidentes no Cannabis Day.

Todo mundo sabe que o 20 de abril é consagrado pelos usuários ao uso recreativo e comemorativo da maconha. Levando isso em conta, os pesquisadores Sotiris Vandoros e Ichiro Kawachi, respectivamente do King’s College (Londres, Grã-Bretanha) e da Universidade Harvard (EUA), buscaram analisar dados para verificar se há ou não aumento de acidentes de trânsito nesse dia.

Com base em números sobre acidentes de carro com mortos ou feridos levantados junto a 51 delegacias britânicas, Vandoros e Kawachi compararam o número de acidentes no Cannabis Day com datas de controle que caíram no mesmo dia da semana, uma quinzena antes ou depois dessa data, entre os anos de 2011 e 2015.

Conforme relatam em estudo publicado na Accident Analysis and Prevention, os dois pesquisadores concluíram que, “na média, no dia de celebração da Cannabis na Grã-Bretanha, houve um adicional de 23 colisões registradas na polícia em comparação com os dias de controle, o que corresponde a um aumento de 17,9% no risco relativo de colisão.”

Essa descoberta parece corroborar o que uma pesquisa feita nos EUA já havia descoberto no ano passado ao cruzar dados sobre o trânsito americano. John A. Staples (Univ. da Colúmbia Britânica, Canadá) e Donald A. Redelemeier (Univ. de Toronto, idem) analisaram estatísticas num intervalo de 25 anos contendo mais de 882 mil acidentes envolvendo 1,3 milhão de motoristas e 978 mil fatalidades.

Segundo o estudo publicado na JAMA Internal Medicine, Staples e Redelemeier notaram que houve 2453 motoristas envolvidos em acidentes com fatalidade em datas de controle. No 20 de abril, após as 4:20 pm, foram registrados 1369 motoristas em acidentes fatais. O número absoluto pode ser menor, mas a conclusão do estudo é que o risco é maior: a cada 20 de abril há 1 acidente fatal para cada 6,4 motoristas por hora, enquanto que no período de controle a taxa foi de 1 acidente para cada 7,1 motoristas/hora.

Os dois estudos podem ser fortes candidatos ao Prêmio IgNobel desse ano, mas a conclusão é uma só: se for dar um tapa na pantera, não dirija.

Referência

VANDOROS, S. e KAWASHI, I. The relative risk of motor vehicle collision on cannabis celebration day in Great Britain [O risco relativo de colisão veicular no dia de celebração da Cannabis na Grã-Bretanha]. Accident Analysis & Prevention. Volume 128, July 2019, Pages 248-252 https://doi.org/10.1016/j.aap.2019.02.013

STAPLES, J. A. e REDELMEIER, D. A. Association Between April 20 Cannabis Celebration and Fatal Crashes [Associação entre a celebração da Cannabis no 20 de abril e acidentes fatais]. JAMA Intern Med. 2019;179(3):456. doi:10.1001/jamainternmed.2018.8094


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