Capítulo 21

Covid-19: um exército invisível combatendo a doença!

p.150-155

A COVID-19 por dentro do corpo: imunidade, tratamentos e saúde

 

8 de setembro de 2020
Maurílio Bonora Junior

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Revisão: Maurílio Bonora Junior e Ana de Medeiros Arnt
Edição e Arte: Carolina Frandsen P. Costa

Muito se sabe já sobre as principais células do sistema imune que trabalham para combater diferentes tipos de ameaças, desde vírus e bactérias, até fungos e vermes. Mas, a partir disso, surge a grande dúvida: e no caso do SARS-CoV-2, como combatemos ele?

Semana epidemiológica #37

Média móvel de novos casos no Brasil, na ocasião de publicação deste texto

1.204 óbitos registrados no dia (123.972 ao todo)

Para responder essa pergunta, vamos olhar para várias pesquisas que estão sendo feitas ao redor do mundo, tentando entender melhor a imunidade celular. Tais estudos buscam compreender a relação desse tipo de resposta imune com o vírus causador da COVID-19, dando foco um pouco maior para os linfócitos T.

Antes, vamos retomar a estrutura do SARS-CoV-2. Primeiramente, destacamos a Spike, que é a proteína responsável pela entrada dele nas células. Há, também, as proteínas do nucleocapsídeo, que forma a capa que protege o material genético. O envelope, que é a membrana de gordura que envolve o nucleocapsídeo. Por fim, as proteínas não estruturais (relacionadas principalmente à replicação viral). Caso tenha mais dúvidas, não deixe de conferir dois textos muito bons que já explicaram sobre elas aqui no blog [1, 2].

Adaptado de uma imagem de Davian Ho (CC BY) para o Innovative Genomics Institute.

Uma descoberta surpreendente

A cada dia um número maior de artigos vem sendo publicados e mostrando aquilo que muitos pesquisadores já imaginavam que poderia acontecer. Isto é, desde pessoas que tiveram a forma assintomática e leve da COVID-19 até as que tiveram a forma severa, desenvolvem linfócitos T de memória. Estes linfócitos são capazes de responder ao vírus de forma eficiente, caso sejam expostos a ele novamente. Vários estudos mostraram que células de memória reagem contra partes diferentes do SARS-CoV-2 [3-8], desde a Spike, até a proteína do envelope, nucleocapsídeo e NSPs.

Nota dos Editores:

Simplificando, ‘pro­teínas do enve­lope’ são aquelas que estão encaixa­das na membrana li­poproteica. Já ‘NSPs’ é a sigla para nons­tructural proteins, ou seja, proteínas não estruturais, que tem funções relacionadas à replicação do vírus e sua patogênese.

 

O que mais tem chamado a atenção dos pesquisadores é o fenômeno chamado de Imunidade ou Reatividade Cruzada de linfócitos T de memória de outros coronavírus contra proteínas do SARS-CoV-2. 

Sobre a Imunidade ou Reatividade Cruzada, de novo

Contudo, o que mais tem chamado a atenção dos pesquisadores é o fenômeno chamado de Imunidade ou Reatividade Cruzada de linfócitos T de memória de outros coronavírus contra proteínas do SARS-CoV-2. Um artigo publicado na Nature [3], mostrou que uma parte das pessoas infectadas com o vírus da SARS de 2002-2003 (SARS-CoV-1), há 17 anos atrás, ainda tinham células que conseguiam responder e se multiplicar ao reconhecerem a proteína N (de nucleocapsídeo) do SARS-CoV-2.

Esse mesmo artigo também viu que indivíduos que não haviam contraído a SARS e COVID-19, tinham linfócitos T de memória. Estes linfócitos T respondiam principalmente a duas NSPs do SARS-CoV-2, e à proteína N. Além disso, os linfócitos reconheciam um pedaço da proteína N que era muito parecido com pedaços da mesma proteína de outros coronavírus de humanos. No entanto, com os fragmentos das NSPs isso não acontecia, levantando a hipótese que essas células poderiam responder a fragmentos de proteínas de coronavírus animais.

Um segundo artigo [4], mostrou que uma parte dos pacientes saudáveis, que não tinham sido expostos a COVID-19, também possuíam linfócitos T de memória funcionais. Estes respondiam há um fragmento da proteína S, assim como pacientes que haviam se infectado com o SARS-CoV-2. Além disso, esse fragmento da Spike (que as células respondiam) é bastante parecido com a Spike de outros coronavírus de humanos (os HCoVs).

A partir de experimentos, utilizando tanto a proteína Spike dos HCoVs, quanto os HCoVs inteiros, os pesquisadores viram que essas células de memória reagentes, presente em pacientes que nunca tinham se infectado com SARS ou COVID-19, respondiam muito bem e eram capazes de se multiplicar tanto na presença da proteína quanto do vírus completo.

O que tudo isso significa?

A essa altura do campeonato, vocês devem estar se perguntando o que toda essa quantidade absurda de siglas e dados tem a ver com vocês.

O ponto todo desses estudos é indicar que existe uma certa quantidade de imunidade em pessoas não expostas ao causador da COVID-19. Além disso, as pesquisas buscam mostrar a imunidade celular que geramos contra o SARS-CoV-2. É claro que grandes dúvidas ainda ficam no ar, como por exemplo: de onde vêm essas células? Qual o grau de proteção que elas garantem? O que poderia ter levado a formação delas? 

O ponto todo desses estudos é indicar que existe uma certa quantidade de imunidade em pessoas não expostas ao causador da COVID-19. Além disso, as pesquisas buscam mostrar a imunidade celular que geramos contra o SARS-CoV-2. É claro que grandes dúvidas ainda ficam no ar, como por exemplo: de onde vêm essas células? Qual o grau de proteção que elas garantem? O que poderia ter levado a formação delas?

Como já comentado anteriormente, muitos pesquisadores especulam que essas células possam surgir a partir de eventos prévios de infecção pelos Coronavírus Endêmicos de Humanos (HCoVs) [9]. Estes coronavírus são causadores dos ciclos de resfriado comum nas estações secas e que circulam amplamente entre a população humana, assim como o vírus influenza. Dessa forma, acredita-se que as pessoas que já tivessem entrado em contato com esses vírus teriam uma maior chance de ter células de memória. As células de memória poderiam responder a alguma proteína, ou fragmento de proteína, que fosse compartilhado entre os HCoVs e o SARS-CoV-2.

 

Mas qual a implicação disso?

A principal hipótese levantada é que a presença de linfócitos de memória em parte da população seja o porquê algumas pessoas desenvolvem a forma leve da doença. Ou, até mesmo, permanecem de forma assintomática – estes seriam os casos em que há a presença dessas células de memória. Enquanto isso, a COVID-19 poderia estar relacionada à presença de comorbidade (como já foi muito discutido) somada a falta dessas células de memória. Isso, claro, em sua forma mais severa. Aqui é necessário lembrar que as pessoas que teriam os linfócitos de memória poderiam gerar a forma leve ou assintomática, em decorrência delas conseguirem montar uma resposta mais rápida e forte contra o SARS-CoV-2, dessa forma limitando a severidade da doença.

Nota dos Editores:

Até hoje permanece em dúvida os fatores que levam uma pes­soa a desenvolver a forma assintomática da COVID-19. Por causa da dificuldade de se estudar as cé­lulas de memória (vide o número cada vez maior de pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2), conti­nua muito difícil en­tender como essas células provindas de outras infecções in­fluenciam o desen­volvimento da COVID-19.

Um outro impacto que a existência de uma imunidade celular cruzada entre SARS-CoV-2 e HCoVs poderia ter é relacionada ao desenvolvimento de vacinas. A pré-existência de linfócitos T de memória, principalmente nas primeiras fases de testes, poderia gerar um fator de confusão durante a análise dos resultados. Assim, não seria possível saber se essas células que respondem à vacina seriam novos linfócitos gerados a partir dessa imunização, ou linfócitos de memória que foram reativados após a vacinação. Dessa forma, esta informação, obviamente, não é banal dentro do que precisamos compreender sobre o coronavírus…

Por fim…

Apesar disso tudo, muitos estudos (principalmente com grupos maiores e mais diversos de humanos) ainda precisam ser realizados. Tais estudos necessitam verificar a pré-imunidade ao SARS-CoV-2 – decorrente dos HCoVs. Além disso, analisar o potencial de infecção e severidade da doença nesses casos, através da medição dessa pré-imunidade antes e após os testes. Como vocês podem ver, ainda há muito o que descobrir sobre esta doença e nosso sistema imune! 

PARA SABER MAIS 

 

 

        1. Laborda, Prianda Rios Laborda. A Joia da Coroa. Especial COVID-19, Blogs de Ciência da Unicamp, 2020. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/COVID-19/a-joia-da-coroa/
        2. Oliveira, Graciele de Almeida. Valentões dentro da célula, sensíveis fora dela: os vírus. Especial COVID-19, Blogs de Ciência da Unicamp, 2020. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/COVID-19/valentoes-dentro-da-celula-sensiveis-fora-dela-os-virus/
        3. Le Bert, Nina, Anthony T. Tan, Kamini Kunasegaran, Christine YL Tham, Morteza Hafezi, Adeline Chia, Melissa Hui Yen Chng et al. SARS-CoV-2-specific T cell immunity in cases of COVID-19 and SARS, and uninfected controls. Nature 584, no. 7821, 457-462, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41586-020-2550-z
        4. Braun, Julian, Lucie Loyal, Marco Frentsch, Daniel Wendisch, Philipp Georg, Florian Kurth, Stefan Hippenstiel et al. SARS-CoV-2-reactive T cells in healthy donors and patients with COVID-19. Nature 587, no. 7833, 270-274, 2020. Disponivel em: https://doi.org/10.1038/s41586-020-2598-9
        5. Ni, Ling, Fang Ye, Meng-Li Cheng, Yu Feng, Yong-Qiang Deng, Hui Zhao, Peng Wei et al. Detection of SARS-CoV-2-specific humoral and cellular immunity in COVID-19 convalescent individuals. Immunity 52, no. 6, 971-977, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.immuni.2020.04.023
        6. Sekine, Takuya, André Perez-Potti, Olga Rivera-Ballesteros, Kristoffer Strålin, Jean-Baptiste Gorin, Annika Olsson, Sian Llewellyn-Lacey et al. Robust T cell immunity in convalescent individuals with asymptomatic or mild COVID-19. Cell 183, no. 1, 158-168, 2020. Disponivel em: https://doi.org/10.1016/j.cell.2020.08.017
        7. Meckiff, Benjamin J., Ciro Ramírez-Suástegui, Vicente Fajardo, Serena J. Chee, Anthony Kusnadi, Hayley Simon, Alba Grifoni et al. Single-cell transcriptomic analysis of SARS-CoV-2 reactive CD4+ T cells. Social Science Research Network, 2020. Disponível em: https://dx.doi.org/10.2139%2Fssrn.3641939
        8. Grifoni, Alba, Daniela Weiskopf, Sydney I. Ramirez, Jose Mateus, Jennifer M. Dan, Carolyn Rydyznski Moderbacher, Stephen A. Rawlings et al. Targets of T cell responses to SARS-CoV-2 coronavirus in humans with COVID-19 disease and unexposed individuals. Cell 181, no. 7, 1489-1501, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.cell.2020.05.015
        9. Sette, Alessandro, and Shane Crotty. Pre-existing immunity to SARS-CoV-2: the knowns and unknowns. Nature Reviews Immunology 20, no. 8, 457-458, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41577-020-00430-w

Antibiótico contra vírus? O curioso caso da azitromicina contra a COVID-19

Diversas combinações de medicamentos estão compondo o chamado “Kit COVID-19”. Presença quase constante no “Kit COVID-19”, um antimicrobiano utilizado para infecções bacterianas chama atenção: a azitromicina… O que ela está fazendo ali? Existe alguma base científica para essa indicação? Quais seriam as possíveis consequências do seu uso?

Casos assintomáticos e a transmissão da COVID-19

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Como é que um vírus que ataca o sistema respiratório, causa danos no cérebro?

Quando a pandemia pelo novo coronavírus começou, foi um caos mundial para todos, principalmente para os profissionais da área da saúde. Assim, ninguém sabia nada sobre o novo coronavírus e nem como realizar a melhor conduta médica para essa nova doença. Desde o início da pandemia, as evidências já demonstravam que o SARS-CoV-2 não era apenas uma gripe comum. Isto é, ela logo foi com­preendida como uma nova doença com características incomuns e singulares. Um dos aspectos mais intrigantes do novo coronavírus é o número de sistemas do corpo que o vírus pode afetar.

Covid-19: um exército invisível combatendo a doença!

Muito se sabe já sobre as principais células do sistema imune que trabalham para combater diferentes tipos de ameaças, desde vírus e bactérias, até fungos e vermes. Mas, a partir disso, surge a grande dúvida: e no caso do SARS-CoV-2, como combatemos ele?

Deus, hidroxicloroquina e unicórnios: é impossível demonstrar um negativo?

Quem está habituado à discussão teológica está familiarizado com a afirmação de que seria “impossível demonstrar uma negativa”.
Ela é rotineiramente usada por crentes e apologetas para argumentar que, “segundo a lógica”, é impossível dizer que Deus não existe, mesmo na total ausência de evidências da sua existência. Logo, se você crê em Deus por fé apenas (sem evidência), você não estaria sendo irracional ou iló­gico.

Meu teste deu positivo. E agora? Entendendo a sensibilidade e a especificidade dos testes diagnósticos

A simples ingestão de um ou outro alimento poderia nos tornar imune ao coronavírus? Apesar de estranhas, tenho presenciado situações e recebido mensagens diversas sobre o pH dos alimentos e sobre diversos produtos que as pessoas têm utilizado em substituição ao álcool em gel. 

Qual a relação entre Naruto, anticorpos e tratamento de COVID-19?

Provavelmente você já deve ter ouvido falar sobre o mangá e anime “Naruto”, de 2007. Na história, o ninja adolescente enfrenta diversos vilões com o sonho de se tornar o líder da aldeia em que vive. Se você conhece um pouco da história, com certeza já viu o “Jutsu Clone das Sombras”, em que o Naruto cria diversas cópias de si mesmo para combater um inimigo. Mas o que isso tem a ver com COVID-19?

Sistema imune é infectado pelo SARS-CoV-2 de maneira similar ao HIV

Estudo de pesquisadores ligados à Força Tarefa da Unicamp mostra que a SARS-CoV-2 infecta células do sistema imune de forma similar ao HIV. Entender o mecanismo de infecção do SARS-CoV-2 é essencial para buscar formas de comba-ter o vírus. Nesse sentido, um grupo de pesquisadores da Unicamp, de diferentes laboratórios, uniram-se para en-tender como o sistema imune humano é afetado pela infec-ção decorrente do novo coronavírus. O estudo acabou de ser publicado na forma de preprint.

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