Capítulo 34

Não há ensino híbrido em período de pandemia

p.249-253

Para além do vírus e do organismo: Pandemia, Meio Ambiente e Sociedade

 

25 de fevereiro de 2021
Gildo Girotto Junior

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Revisão: José Felipe Teixeira da Silva Santos
Edição: Ana de Medeiros Arnt
Arte: Carolina Frandsen P. Costa

Destaco nesse texto a ideia de que o chamado blended learning, por vezes traduzido por ensino híbrido, perpassa uma construção histórica que surge a partir das discussões a respeito de como associar abordagens de ensino de modo a promover métodos, metodologias e estratégias adequadas a um objetivo educacional específico.

Semana epidemiológica #108

Média móvel de novos casos no Brasil, na ocasião de publicação deste texto

1.575 óbitos registrados no dia (251.811 ao todo)

Em meio a discussão histórica sobre ensino e aprendizagem e com o advento dos primeiros computadores (e posteriormente outras tecnologias digitais), o dito ensino híbrido se vincula de forma indissociável ao conceito do uso de tecnologias aliado a ideia de um processo educacional realizado em espaços diferentes e por meios diferentes. Esta ideia, que à época e até os dias de hoje parece promissora, ganha distorções e, por diferentes razões (incluindo mercadológicas), o ensino híbrido passa a ser confundido com uma proposta de simples ensino a distância com o auxílio de recursos tecnológicos.

Em artigo de 1996, denominado “Constructivism: implications for the design and delivery of instruction”, Thomas Duffy e Donald Cunningham trazem diferentes críticas ao construtivismo discutido na época. Algumas destas críticas podem ser consideradas bastante infundadas e outras nem tanto. Os autores apresentam uma proposta própria de interpretação do construtivismo e justificam a abordagem denominada “Problem-based learning”. Apesar de bastante duros em suas críticas, que por vezes generalizaram estudiosos do construtivismo colocando-os como padronizados, o texto ilustra uma característica emergente da época. A discussão de abordagens para o ensino diferentes daquelas pautadas na mera reprodução de conteúdos.

Nota dos Editores:

Tradução literal: “Construtivismo: implicações para o design e entrega de instrução”

Faça um exercício: realize uma busca nas bases de dados de periódicos com o termo science learning ou mathematics learning. Ao filtrar para a década de 1990, um conjunto de trabalhos será encontrado fazendo referência a John Dewey, Lev Vygotsky, Jean Piaget, dentre outros. Você estará vendo referências que propõem estudos sobre as formas de ensinar e aprender. Também encontrará termos como: student-centered learning; alternatives approachs; pratical instruction; os quais associam as bases das teorias da aprendizagem a estratégias didáticas utilizadas.

É nessa época que a ideia de metodologia ativa emerge. Por exemplo, Eric Mazur (o dito criador da “peer instruction”) tem seu livro proposto em 1997 (Peer Instruction: User’s Manual). É nesse período que surgem as primeiras associações ao blended learning (o qual foi erroneamente associada ao ensino híbrido). Utilizarei a tradução Ensino Híbrido para considerar os conceitos abarcados pelo blended learning (os quais serão abordadas), considerando que esta é compreendida como uma proposta que visava que o estudante buscasse as informações por meio de diferentes caminhos e fontes e com a mediação do professor, construísse sua aprendizagem.

Nota do Autor:

Blended learning e hybrid learning são conceitos diferentes, mas que tem sido traduzidos como sinônimos. Hybrid learning se relaciona a um ensino que acontece de forma presencial e transmitido simultaneamente enquanto blended learning tem relação com o uso de metodologias ativas e tecnologias com foco em mudar a estratégia de aprendizagem, fazendo com que o estudante seja mais ativo no aprendizado.

Nesse sentido, incorporando as bases pedagógicas, a intenção é o surgimento de propostas de ensino em que conteúdos não sejam organizados da mesma forma para todos os aprendizes; a rota de aprendizagem é construída considerando as individualidades e as necessidades; valorizam-se atitudes e não conhecimentos; o processo de avaliação pode ser acompanhado podendo ser individualizado. Com a chegada das primeiras tecnologias, os vídeos e seguido dos computadores surge o termo delivery-learning. A partir daí a blended learning passa a ser conhecida como blended e-learning.

No entanto, boa parte de tal proposta não é inicialmente pensada para a escola. Toda a “beleza” começa a ser aplicada a cursos de treinamento empresarial. Pois com o ensino em modo “delivery” é possível  ensinar administradores e (trabalhadores de modo geral) em larga escala. Dessa forma, avalia-se cada profissional de forma individual. Isto é, observa-se o rendimento, a capacidade de aprender sozinho e a forma de linkar o aprendizado com as questões da “firma / empresa”. Como consequência, reconhecer quem deve ou não ser mantido. Quem é ou não melhor para a empresa.

Com a apropriação da tecnologia, o blended e-learning não pode mais existir dissociado de qualquer forma de tecnologia. Nesse cenário, a ideia de um ensino híbrido se inicia como uma proposta de mudança dos objetivos educacionais, tendo por base as teorias do desenvolvimento e da aprendizagem e a incorporação de recursos tecnológicos e novas metodologias.

Apesar de antiga, usarei termos de um dos autores mais referenciados sobre o blended learning (BL). No livro The Handbook of Blended Learning: Global Perspectives, Local Designs, Graham cita que há três definições comuns para o

BL: “Combining Instrucional modalities”; “Combining instructional methods” e “Combining online and face-to-face instructional”. Não apenas como Graham. Mas diversos outros autores e divulgadores da BL se apropriaram da última definição a qual ficou, deste modo, sendo a mais difundida e utilizada ao redor do mundo.

Nota dos editores:

Tradução literal: “Modalidades instrucionais combinadas; “Combinando métodos Instrucionais; “Combinando instrução online e presencial”.

Portanto, nos dias atuais é possível definir o ensino híbrido (BL) como sendo a junção entre a educação presencial e a educação não presencial mediada por tecnologias, porém, não em formato de transmissões de aulas.

Portanto, nos dias atuais é possível definir o ensino híbrido (BL) como sendo a junção entre a educação presencial e a educação não presencial mediada por tecnologias, porém, não em formato de transmissões de aulas. O erro que, ao meu ver, se comete, é esquecer das bases de desenvolvimento do conceito, principalmente aquelas voltadas ao aspecto de maior participação do estudante na aprendizagem. Com isto, diminui-se a proposta ao uso de recursos tecnológicos sem que se pense no objetivo deste uso. 

Este erro tem, pelo menos, duas consequências preocupantes. Primeiramente, não se pensam nos objetivos de ensino para uma proposta de ensino híbrido, fazendo com que a transposição de um ensino presencial para o ensino mediado por tecnologias seja vista como proposta híbrida. Aulas online são o exemplo clássico. Há uma exposição do conceito, com uma avaliação no formato de prova ao final de um conjunto de aulas. O fato de ser online, no computador ou no celular, faz com que seja híbrido? Obviamente que não. 

O segundo aspecto preocupante faz com que, uma vez considerando essa possibilidade fajuta de ensino híbrido, ela se propague como proposta a ser oferecida em diferentes cenários educacionais. Isto faz com que empresas e fundações privadas produzam materiais do chamado “ensino híbrido” para redes de ensino públicas e privadas. Como alguns dos pontos mais marcantes da venda desses materiais aparece o jargão da educação personalizada. Este é outro termo bastante frutífero do ponto de vista dos estudos educacionais, principalmente na alfabetização, mas que é distorcido para uma ideia de que não é mais necessário gastos com a presença física ou profissionais específicos como professores.

De fato, em um período em que buscamos suprir necessidades básicas de estudantes por meio de recursos bastante limitados, dizer que aprimoramos os objetivos educacionais para uma proposta híbrida é simplesmente absurdo. Não estamos fazendo ensino híbrido, estamos adaptando propostas para um ensino emergencial. 

Divulgar este ensino emergencial como proposta híbrida gera uma distorção, prejudica pesquisas a respeito e diminui as potencialidades de se pensar a inserção de tecnologias, com qualidade, na educação. Num futuro, quando não estivermos em pandemia, falar em ensino híbrido poderá ser algo extremamente ruim (e até traumático) pelo simples fato de estarmos usando a terminologia de forma inadequada, por desconhecimento ou por oportunismo. Os mais de 20 anos de pesquisas a respeito do blended learning / ensino híbrido estão sendo negligenciados em um momento que é praticamente impossível desenvolver tal proposta. 

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