in musicologia

Igor e sua eterna inovação musical

José Fornari (Tuti) – 31 de janeiro de 2020

fornari @ unicamp . br


Em 1957, no dia em que completou 75 anos de idade, Igor Stravinsky, o grande compositor erudito russo, cedeu uma entrevista para a NBC, onde é perguntado sobre questões musicais e criativas pelo seu aluno, o maestro Robert Craft. Na época, Stravinsky já morava nos EUA, mais especificamente, em Hollywood, California. Stravinsky foi talvez o compositor mais influente no momento da grande cisão do tonalismo, já mencionado anteriormente, ocorrido no início do século XX. Nesta entrevista, Stravinsky menciona que desde criança já sentia o pulsar da sua veia de inovação, que o acompanhou por seus quase 90 anos de vida. Aos 8 anos de idade, quando iniciou seus estudos musicais com aulas de piano, ao aprender a escala diatônica (Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si, Dó), pensou “alguém deve ter inventado esta escala; se alguém a inventou, então eu também posso inventar a minha própria escala”. Assim, Igor criou a seguinte escala: Dó, Ré, Mi, Sol, Lá, Si, Fá. Seu tio, ao escutá-lo tocando repetidamente ao piano aquela estranha sequência de notas, questionou o sobrinho o porquê daquilo, ao que Igor respondeu “caro tio, está é a minha criação; respeite”.

Stravinsky foi aluno do famoso compositor russo Rimsky-Korsakov, o qual reconheceu e incentivou o seu talento, inclusive usando o seu grande prestígio artístico para abrir muitas portas para ajudar o pupilo a prosperar na sua precoce carreira musical. Apesar de não suportar o tédio das aulas de teoria e contra-ponto de Korsakov, Stravinsky manteve-se a seu lado, estudou orquestração e boas práticas musicais, porém sem nunca perder a sua veia inovadora. Estudou também alguns meses do curso de direito (os seus pais insistiram que ele fosse advogado), o que, creio eu, lhe garantiu boa bagagem também em negociação, relacionamento interpessoal, que ele demonstrou ter ao administrar a sua brilhante carreira musical ao longo de sua vida. Foi contemporâneo de Schoenberg do qual foi vizinho, por mais de uma década, em Hollywood, porém jamais interagiu com ele (Schoenberg havia criticado o estilo composicional de Stravinsky, o qual chamava de “neoclássico”). Foi amigo de grandes intelectuais e artistas da época, como o famoso pintor espanhol Pablo Picasso, com quem colaborou por volta de 1920 e por ele foi diversas vezes desenhado.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/File:Stravinsky_picasso.png

Em 1910, com 28 anos de idade, Stravinsky foi definitivamente consagrado no cenário da música erudita contemporânea, com a sua composição “pássaro de fogo” (L’Oiseau de feu), um ballet, estreado na ópera de Paris. Na entrevista, Stravinsky como foi carregado para fora do teatro nos braços do público, que o aclamou como o jovem compositor mais talentoso de sua época. No entanto, sua veia inovadora não permitiu que ele “dormisse sobre os louros de sua vitória”. Após outro grande sucesso em 1911, com a composição Petruska (também um ballet, tendo o grande bailarino russo Vaslav Nijinsky no papel principal), em 1913, a estreia da composição “o rito da primavera” (Le Sacre du printemps) foi extremamente alvoroçada pelas reações polarizadas da plateia, que aos gritos se dividiam entre exaltar e protestar contra o ballet. A confusão chegou a tal proporção que os bailarinos nem conseguiam mais escutar a orquestra e a première teve que ser cancelada.

O program da première, em 29 de maio de 1913, Théâtre des Champs-Élysées, Paris.  Fonte: https://www.nytimes.com/2012/09/16/arts/music/rite-of-spring-cools-into-a-rite-of-passage.

Ao que se sabe, Stravinsky não era dotado de talentos musicais normalmente presentes em grandes nomes da música, como leitura a primeira vista no eu instrumento musical (Stravinsky tocava piano), ou ouvido absoluto (Stravinsky não possuía esta rara capacidade que o permitisse reconhecer as notas musicais sem uma referência tonal. Talvez também por isso que ele compunha quase que sempre ao piano). Também não tinha uma aparência cativante ou sequer elegante, que o destacasse para o público, como é atualmente comum, no meio musical (inclusive erudito), com exemplos como o da Pianista erudita Khatia Buniatishvili (entre diversos outros).

Na entrevista acima mencionada, Craft pergunta a Stravinsky sobre o seu método de composição, o qual responde que se guia pela seu sentimento (feeling) q a qual eu entendo como sendo a sua satisfação pessoal, algo similar a Claude Debussy (1862–1918), um dos compositores que influenciaram Stravinsky (também desprovido de ouvido absoluto) e que também era conhecido por se orientar composicionalmente pela estética das harmonias e orquestrações que o agradavam, como um pintor se guia pelo seu gosto ao compor tonalidades e texturas em seus quadros. Stravinsky mencionava de Beethoven (outro compositor pelo qual tinha grande admiração) que ao ficar surdo colocava uma vareta entre os dentes e encostava a outra ponta na estante do piano, para poder sentir a vibração dos acordes e melodias, pela qual se guiava para criar as suas composições musicais, mesmo estando sem qualquer capacidade fisiológica de as escutar.

Imagem extraída do video da entrevista (acima), em 3m08s

Stravinsky não se importou (ou pelo menos, não o suficiente, a ponto de fazê-lo mudar a sua atitude composicional) de ser considerado, no início de sua carreira, muito dissonante pelos amantes do tonalismo, nem tão pouco, mais adiante, de ser chamado de neoclássico pelos defensores do atonalismo. Seu amigo pessoal, o grande pianista Arthur Rubinstein, não tocava as peças de Stravinsky em seus concertos por acha-las muito percussivas, contrárias ao estilo clássico pianístico que o agradava, como são as composições de Chopin. Aos 75 anos, Stravinsky fala na entrevista do seu interesse pela tecnologia musical, que permitia explorar nuances sonoras, como a decomposição dos parciais do espectro sonoro, de modo a estudar e reconstruir o timbre musical. Fica clara a sua eterna curiosidade por novas tendências e estéticas, marca indelével das grandes mentes que mantém a curiosidade, a inovação e a ludicidade da infância, por toda a sua vida adulta, independente das pressões que toda carreira de sucesso impõe ao livre pensador.

 

Referências:

https://www.britannica.com/biography/Igor-Stravinsky

Mark N. Grant. How good is your ear? January, 7th 2008. https://nmbx.newmusicusa.org/How-Good-Is-Your-Ear-Part-1/

 

 


Como citar este artigo:

José Fornari. “Igor e sua eterna inovação musical”. Blogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publicação: 31 de janeiro de 2020. Link: https://www.blogs.unicamp.br/musicologia/2020/01/31/47/

 

 

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