Planejar: a chave para voar

Planejar é a chave para voar

Planejar é essencial antes de se começar qualquer coisa. Na área de ensino não é diferente. É durante o planejamento que o professor precisa escolher os conteúdos, organizar a ordem das aulas, definir as metodologias e recursos que serão utilizados e também as formas de avaliação. Para isso, ele nunca pode perder de vista os principais objetivos que pretende alcançar com seus alunos.


 

Caro leitor,

Na parada anterior eu expliquei de onde veio o nome deste blog (Nas Asas do Dragão – A Origem), você está lembrado? O projeto “Nas Asas do Dragão” original foi um projeto didático aplicado para alunos da disciplina de Biologia do Desenvolvimento do curso de Ciências Biológicas da Unicamp, em 2015. 

Hoje eu estou aqui para falar um pouquinho mais sobre a importância do processo de planejamento de uma disciplina. Assim você poderá conhecer melhor tudo o que um professor precisa pensar antes mesmo do início das aulas. No caso da disciplina de Biologia do Desenvolvimento, foi durante essa etapa que surgiu a ideia do projeto “Nas Asas do Dragão”. 

(Observação: apesar de algumas vezes eu usar a disciplina de Biologia do Desenvolvimento como exemplo, muito do que eu vou falar pode se aplicar a vários outros casos.)

 

1. A importância do preparo dos professores nas “ciências do ensino”


Deans-for-impactOs professores universitários têm a vantagem de poder levar para a sala de aula o que há de mais atual em suas áreas de pesquisa, além de suas próprias produções teóricas/intelectuais. Mas não adianta ser um profundo conhecedor de conteúdos e não ter nenhum preparo didático. A Unicamp vem se preocupando cada vez mais com isso, e criou o
Espaço de Apoio ao Ensino e Aprendizagem (EA)² para oferecer serviços de apoio didático e pedagógico a docentes da Universidade.

Um dos primeiros passos para o preparo de um bom professor é ter noções de como funciona o processo de aprendizagem. Confira este ótimo post do blog LANTEC:A Ciência do Aprendizado, que resume muito bem a importância de um professor conhecer como os estudantes aprendem. Além disso, na atual “sociedade da informação”, é preciso estar preparado para as mudanças no papel do professor no processo de ensino e aprendizagem. Sobre este assunto, recomendo o post “Para começar a conversar sobre docência e mediação pedagógica“, também do blog LANTEC.

 

2. Exemplo das disciplinas do Instituto de Biologia da Unicamp

A Graduação do Instituto de Biologia (IB) preparou o documento “Projetos Político-Pedagógicos dos Cursos de Ciências Biológicas da Unicamp“, que contém várias informações importantes sobre o histórico do IB e sobre o conjunto de disciplinas que os alunos devem cursar para poderem se formar biólogos pela Unicamp. Algumas fazem parte do conjunto de disciplinas obrigatórias (todos os alunos devem fazer), enquanto outras são eletivas (os alunos podem escolher dentre algumas opções). A disciplina de Biologia do Desenvolvimento é uma das disciplinas obrigatórias, e assim como todas as outras, deve buscar cumprir a missão do IB:

Gerar e disseminar conhecimento de excelência, desenvolvendo atividades inter-relacionadas de Ensino, Pesquisa e Extensão nas diversas áreas das Ciências Biológicas, valorizando a criatividade e a capacidade de reflexão crítica, para formar profissionais competentes que respeitem os princípios da ética e do desenvolvimento responsável“.

A partir desse contexto, os professores têm autonomia para decidir como conduzir suas disciplinas, e devem priorizar uma formação de qualidade dos seus alunos. Para garantir que isso aconteça, fazer um bom planejamento é essencial. É nessa etapa que o professor precisa escolher os conteúdos, organizar a ordem das aulas, definir as metodologias e recursos que serão utilizados e também as formas de avaliação. Para isso, ele nunca pode perder de vista os principais objetivos que pretende alcançar com seus alunos.

 

3. Exemplo da disciplina de Biologia do Desenvolvimento


Objetivo da disciplina:

Compreender os aspectos moleculares e celulares envolvidos na trajetória da célula-ovo, que coordena seu próprio desenvolvimento até a formação de um complexo ser multicelular. Para tanto, as aulas irão promover condições para que os alunos exercitem o espírito crítico, a criatividade, a ética, a habilidade para o trabalho em equipe e a capacidade de interpretação de textos específicos da área.

Avaliações: 

No decorrer do semestre serão realizadas duas avaliações teórico-práticas individuais, compostas por questões dissertativas e/ou objetivas. Além destas avaliações, haverá uma terceira avaliação, baseada no desempenho das equipes de trabalho no projeto “Nas Asas do Dragão” (Avaliação III). Todas as avaliações terão o mesmo peso. Para serem aprovados, os alunos deverão obter Média Final 5,0 (cinco). Os alunos que obtiverem Média Final inferior a 5,0 (cinco) deverão submeter-se ao Exame Final, no qual serão arguidos sobre todo o conteúdo do Programa da disciplina. Neste caso, o aluno deverá obter no mínimo uma nota que somada à sua Média Final totalize 10,0 pontos que, divididos por dois, resultarão em Média Final = 5,0.

Bibliografia básica:

  • Wolpert, L. et al. Princípios de Biologia do Desenvolvimento. 3ª Edição, Editora Artmed, 2008.
  • Garcia, S.M.L. et al. Embriologia. 3ª Edição. Editora Artmed, 2012.

Bibliografia complementar:

  • Gilbert, S.F. Developmental Biology. 10th edition. Sinauer, 2012.
  • Slack, J. M. W. Essential Developmental Biology. 2nd edition. Blackwell, 2006.

Cronograma de aulas na disciplina:

DATA AULAS
04/03/15 Introdução à Biologia do Desenvolvimento;
11/03/15 Organismos modelo e o estudo do desenvolvimento;
18/03/15 Identificação dos processos envolvidos no desenvolvimento – análise de embriões do organismo modelo galinha (atividade prática);
25/03/15 Genes: estrutura, expressão e função no desenvolvimento (atividade teórico-prática);
01/04/15 “Caçando” vestígios do passado: identificação de possíveis elementos reguladores da transcrição usando ferramentas de Bioinformática (atividade prática);
08/04/15 Células e o desenvolvimento: a base;
15/04/15 Vias de sinalização molecular;
22/04/15 Métodos de pesquisa em Biologia do Desenvolvimento;
29/04/15 Avaliação I;
06/05/15 Desenvolvimento de plantas (professor convidado);
13/05/15 Estabelecimento dos eixos corporais em vertebrados;
20/05/15 Formação dos somitos e padronagem anteroposterior;
27/05/15 Organogênese I: Desenvolvimento de derivados ectodérmicos;
03/06/15 Organogênese II: Desenvolvimento dos derivados mesodérmicos e endodérmicos;
10/06/15 Desenvolvimento e Evolução (professor convidado);
17/06/15 Avaliação II; Entrega do projeto “Nas Asas do Dragão”;
24/06/15 Apresentação dos grupos (parte I);
01/07/15 Apresentação dos grupos (parte II);

 


Atualmente, a Profa. Dra. Lúcia Elvira Alvares já tem um conjunto de conteúdos escolhidos e de aulas expositivas preparadas. Mesmo assim, todos os anos ela faz a revisão e readequação das aulas. Ela sempre se esforça para acrescentar exemplos mais didáticos e atuais.

A professora Lúcia também utiliza diferentes técnicas e recursos para diversificar a disciplina. Além de suas aulas expositivas, ela sempre prepara um conjunto de atividades práticas e/ou em grupo. Essas atividades também exigem um bom planejamento, já que é necessário preparar roteiros, separar e organizar os materiais para as aulas e às vezes até reservar algum local específico (por exemplo: um laboratório ou uma sala de computadores).

O projeto “Nas Asas do Dragão” surgiu nessa disciplina com o objetivo de possibilitar aos alunos a aplicação dos conhecimentos teóricos-práticos em Biologia do Desenvolvimento. Assim, o projeto seria uma atividade complementar às aulas.

Designed by Freepik

Com esta atividade, em vez de simplesmente guardar informações, os alunos seriam estimulados a buscá-las, processá-las e organizá-las para construir conhecimentos. Com o projeto, os alunos também poderiam exercitar a criatividade, o espírito crítico, a ética e o trabalho em equipe.

Aproveitando os avanços tecnológicos, uma possibilidade que se mostrou interessante foi a criação de um grupo no Facebook para facilitar a comunicação e o compartilhamento de informações para os alunos utilizarem em seus projetos.

Por fim, pensando na formação completa dos alunos, pensamos em propor que eles participassem do evento Unicamp de Portas Abertas (UPA 2015). Com isso, eles poderiam organizar seus novos conhecimentos e compartilhá-los com a comunidade.

 

4. Conversar sobre o planejamento com os alunos

É muito interessante que o professor compartilhe as principais informações do planejamento da disciplina com seus alunos. Em geral, os estudantes gostam de conhecer os objetivos da disciplina, formas de avaliação, bibliografia e o cronograma de aulas. Isso facilita muito o entendimento entre as duas partes. E vale lembrar que às vezes é preciso ser flexível. É bom conversar com os alunos para decidir possíveis alterações no cronograma, de acordo com as necessidades da turma.

Vale ressaltar que o professor também deve estar disposto a aprender com suas experiências e a buscar formas de se aprimorar. Por isso, não são só os alunos que devem ser avaliados pelo professor, mas o inverso também. As opiniões dos alunos são fundamentais para o professor pensar em possíveis adaptações e melhorias no planejamento para as turmas seguintes.

 

5. Considerações finais

Em resumo, é muito importante que o professor realize um planejamento cuidadoso de suas disciplinas. Primeiramente, é preciso saber bem quais os objetivos que se pretende alcançar (O que espero que os alunos aprendam? Que habilidades espero que eles desenvolvam?). Juntamente a isso, é preciso escolher quais os principais conteúdos que serão abordados (O que vai ser mais importante para a formação dos alunos? Como devo organizar esses conteúdos?). Depois, definir as metodologias de ensino (Que diferentes recursos posso utilizar para envolver mais os alunos?). E por fim, as formas de avaliação (Como definir se os objetivos foram alcançados?).

Uma vez que o principal papel do professor é auxiliar no processo de aprendizagem de todos os alunos, também é muito importante que ele procure conhecer quais são as motivações e dificuldades de cada um. Um bom professor não procura “selecionar os melhores em determinada habilidade”, mas sim “despertar o que há de melhor em cada um“.

Por fim, deixo a charge abaixo para reflexão. Você consegue perceber o que ela tem a nos dizer sobre a importância do cuidado na escolha dos objetivos, das metodologias de ensino e das formas de avaliação?

Avaliação injusta, mais para seleção

 

7 Comentários

  1. Muito interessante o artigo Carolina. Mas fica a velha questão, como medir se o conteúdo foi desenvolvido e aprendido é relativamente fácil e existem muitos métodos conhecidos para se fazer isso. Mas, e as habilidades e competências que, dentro da proposta e do texto, devem ser desenvolvidas transversalmente? Como mensurar isto?

    Coloco esta questão porque é um problema que tenho visto na bibliografia e também na minha área de estudo. Como dimensionar o desenvolvimento da criatividade? Da capacidade de reflexão crítica? Aquisição ou elaboração de princípios éticos? Etc.

    São justamente as competências críticas para nossa formação como indivíduos e nação mas, ainda, apesar de presente nas ementas em geral, muito pouco é feito para verificar se algo realmente está sendo desenvolvido neste aspecto. E isso é essencial para formarmos cidadãos conscientes e críticos, que não sejam meros repositórios de conteúdo formal.

    • Olá, André! Muito obrigada pelo comentário! Com certeza sua reflexão é muito válida. Existe mesmo uma dificuldade em mensurar esses ganhos que se espera que os alunos conquistem, além dos cognitivos. Eu acredito que uma possibilidade seria utilizar metodologias de base qualitativa. Para a da disciplina do ano que vem, inclusive, estamos estudando essa possibilidade. A ideia é começar com um questionário para analisar o perfil dos alunos, e depois um questionário ao final da disciplina sobre suas percepções. Para completar, pensamos em fazer entrevistas semi-estruturadas, para aprofundar algumas dessas questões (ainda estamos estudando como formular essas questões da melhor maneira possível).
      Mas mesmo assim, na minha percepção, ainda mais importante do que dimensionar o desenvolvimento dessas competências são os esforços dos professores em propor situações que em geral (pelo menos com as nossas percepções do dia-a-dia) possibilitam que se essas competências sejam desenvolvidas. Por exemplo: colocar os alunos em contato com dificuldades, dilemas éticos, situações em que seja necessário propor soluções, apresentações, enfim, situações das mais diversas, pelo menos para os alunos terem uma chance de desenvolver diferentes competências, habilidades e atitudes. Mas não podemos nos esquecer que os alunos são seres humanos complexos, com diferentes histórias de vida, diferentes vivências, diferentes motivações… enfim, as essas experiências podem ser bem particulares, dependendo do aluno. Por isso talvez seja mais interessante olhar para isso do ponto de vista qualitativo mesmo, e talvez usar algumas metodologias de análise de discurso. O que você acha?

      • Obrigado pela resposta Carolina,
        é exatamente sobre a medição que está o “xis” da questão… será que o que a gente considera como “situações desenvolvedoras de competências” realmente estão desenvolvendo competências? A literatura trata extensamente sobre a ideia de criar situações onde o aluno aplique a criatividade, o senso crítico, comunicação, etc… mas não existe ainda um parâmetro que indique se estas atividades realmente estão desenvolvendo as competências ou apenas oportunizando a aplicação de competências já adquiridas. O erro que (eu acho) que estamos cometendo é assumir, sem dados, que a simples aplicação de certas atividades automaticamente desenvolvem certas competências. Isso não é científico porque não existem dados que comprovem, entende? Sei que parece um preciosismo, mas é assim que a ciência funciona e avança.
        E sobre a pesquisa que vocês vão fazer no ano que vem, gostaria de participar, ajudar ou apenas acompanhar, seria possível? Acho a colaboração entre grupos de pesquisa muito importante e essa seria uma oportunidade!

        • Entendi, André, você tem razão! Ainda existem muitas dúvidas sobre isso, principalmente porque não temos dados científicos para corroborar nossas hipóteses e aprofundar nossas discussões. Em geral ainda nos apoiamos no que acreditamos que é mais adequado, mas com certeza seria muito interessante poder pesquisar isso mais a fundo e ter dados mais robustos. Isso é uma coisa a ser pensada, talvez possamos algum dia desenvolver e testar metodologias para avaliar isso. Quem sabe?
          Acho que minha professora vai adorar a ideia da colaboração entre os nossos grupos, André! Você gostaria de participar de alguma das nossas reuniões de planejamento? Gostaria de acompanhar as aulas? Essa pode mesmo ser uma grande oportunidade, acho que vai ser muito produtivo. Vamos mantendo contato! =)

  2. Olá Carolina, muito legal o texto.

    Aproveitando a discussão do comentário anterior, será que a avaliação não deveria ser concebida ao se estabelecer os objetivos? O prof. Luiz Carlos de Freitas, também da Unicamp, fala em uma dupla categoria de conceitos em torno da organização didática, a dupla objetivos/avaliação e conteúdos/métodos. A ligação entre um e outro indica que são componentes indissociáveis, articulados e dependentes um do outro. Além disso, há a prioridade da primeira dupla (objetivos/avaliação) sobre a segunda (conteúdos/métodos).

    Dessa forma, o planejamento inicia a concepção dos métodos e conteúdos já os adequando à abordagem de avaliação que, por sua vez, já é criada em relação relacionada aos objetivos pretendidos.

    • Olá, Wagner! Obrigada pelo comentário!
      Muito legal, achei muito interessante essa associação que você mencionou entre avaliação/objetivos, e conteúdos/métodos.
      Na maioria dos casos, os objetivos ainda consistem basicamente em fazer com que o aluno aprenda determinados conteúdos pelo método tradicional (em que o aluno é um aprendiz passivo), e avaliação é focada principalmente na capacidade de “aquisição” desses conhecimentos, não é mesmo?
      Mas ao entrar no campo da aprendizagem ativa, abrem-se caminhos que permitem a inclusão de objetivos muito mais amplos. E avaliar se os objetivos atingidos foram alcançados significa que o processo de ensino-aprendizagem conta com a responsabilidade tanto do aluno como do professor, em parceria, e ambos podem sempre aprender e buscar melhorarias!

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*