Palavras ao vento: como a imprensa divulga a ciência.

Como costumo fazer diariamente, durante as minhas manhãs, procuro por sites de notícias para me manter informada. Em meio às abundantes matérias sobre política, economia e previsão do tempo, volta e meia me deparo com notícias como “a cura do câncer está mais próxima”, “descoberta a nova droga – uma esperança para o fim do sofrimento”, e coisas do tipo. De dietas mirabolantes à busca de vida em outros planetas, os temas científicos sempre figuram nos grandes portais de comunicação.

Ao divulgar uma novidade científica, a imprensa comum sempre busca fisgar o leitor com títulos chamativos (quando não sensacionalistas), que diversas vezes não refletem os reais resultados dos estudos científicos. Seja por má interpretação do texto original (publicado em revistas científicas especializadas), ou por má fé (deliberadamente voltada para gerar polêmicas), manchetes científicas são alardeadas e frequentemente causam desconforto nas pessoas que trabalham nas pesquisas que serão divulgadas.

Por exemplo, o caso da Fosfoetanolamina, que nos últimos anos está fazendo parte do dia a dia da imprensa. Antes dos recentes estudos clínicos, a droga era apenas uma promessa, pois para quem não sabe, a fosfoetanolamina é produzida endogenamente (isto é, faz parte do nosso metabolismo produzir essa molécula). Durante muito tempo foi divulgada a “milagrosa” eficiência desta substância sobre o câncer. Movida por uma divulgação equivocada, a opinião pública se mobilizou a ponto de influenciar um decreto presidencial autorizando o livre uso da droga por pacientes com diagnóstico de câncer em todo o país, passando por cima de órgãos reguladores como a Anvisa. Apesar de estudos comprovarem efeitos antitumorais da droga sobre cultura de células de diversos tipos de câncer (rim, mama, melanoma, entre outros), os mesmos resultados não foram significantes em animais e em ensaios clínicos com humanos, levando ao Instituto do Câncer a suspender novos testes com a substância.

Ainda no assunto “câncer”, uma notícia veiculada em março de 2017 à exaustão pela imprensa causou muito burburinho, a respeito da causa das mutações genéticas em tumores. Muitas manchetes, como já dito, por desinformação ou por busca de ibope, fizeram crer que as causas da maioria dos cânceres seria aleatória (ou “por azar”), ou seja, sem possibilidade de ser evitada por quaisquer meios de prevenção. Foi noticiado que pessoas com hábitos saudáveis (sem vícios como etilismo e tabagismo), que praticam exercícios regularmente estariam aleatoriamente sujeitas ao câncer, não tendo causa hereditária e/ou ambiental. Na realidade, o estudo analisou dados de diversos tumores provenientes de diferentes locais no mundo e mostrou que o grande vilão da história são os erros na replicação do DNA. Somados a fatores genéticos e ambientais, esses erros contribuem para o desenvolvimento da doença, sendo considerados como um terceiro fator de causa. Foi descoberto que dois terços do número de mutações durante a replicação do DNA dos pacientes estudados se encontrava em regiões aleatórias. Ao contrário do que a imprensa divulgou, os próprios autores do estudo afirmam que a ideia do artigo é alertar a população sobre a importância da prevenção (primária ou secundária) da doença e que mapear esses erros pode levar a métodos de detecção precoce no futuro.

Deixo claro que não sou contra a divulgação científica e tecnológica pelos meios de comunicação populares. Pelo contrário: estou tentando fazer a minha parte aqui. O que deve ser evitado é o sensacionalismo, divulgação de boatos e interpretação errônea. E o que vale para todos nós, sendo cientistas ou não, é sempre buscar a fonte correta das informações.

(Fonte: http://www.smbc-comics.com/comics/20090830.gif)

Referências:

“Anti-angiogenic and anti-metastatic activity of synthetic phosphoethanolamine.” https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23516420

“Synthetic phosphoethanolamine a precursor of membrane phospholipids reduce tumor growth in mice bearing melanoma B16-F10 and in vitro induce apoptosis and arrest in G2/M phase.” https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22902646

“Anticancer effects of synthetic phosphoethanolamine on Ehrlich ascites tumor: an experimental study.” https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22213293

“Synthetic phosphoethanolamine has in vitro and in vivo anti-leukemia effects.” https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24201752

“Potential antitumor activity of novel DODAC/PHO-S liposomes.”
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27143880

“Synthetic phosphoethanolamine induces cell cycle arrest and apoptosis in human breast cancer MCF-7 cells through the mitochondrial pathway.”
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23773853

“Pílula do câncer: entenda polêmica em torno da fosfoetanolamina”.
http://www.ebc.com.br/noticias/saude/2016/03/pilula-do-cancer-polemica-fosfoetanolamina

“Wikipedia – Fosfoetanolamina.” https://pt.wikipedia.org/wiki/Fosfoetanolamina

“Fosfoetanolamina: Instituto do Câncer suspende novos testes devido a ‘ausência de benefício clínico significativo’”.
http://g1.globo.com/bemestar/noticia/fosfoetanolamina-instituto-do-cancer-suspende-testes-devido-a-ausencia-de-beneficio-clinico-significativo.ghtml

“Dois terços das mutações que causam câncer ocorrem por ‘falta de sorte’”. http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2017/03/1869080-dois-tercos-dos-casos-de-cancer-sao-por-falta-de-sorte.shtml

“Dois terços das mutações que causam câncer são aleatórias, diz estudo”.
http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/dois-tercos-das-mutacoes-que-causam-cancer-sao-aleatorias-diz-estudo-21104379

“Dois terços das mutações causadoras de câncer ocorrem devido a erros aleatórios de reprodução do DNA, diz estudo”.
http://g1.globo.com/bemestar/noticia/dois-tercos-das-mutacoes-causadoras-de-cancer-ocorrem-devido-a-erros-aleatorios-de-reproducao-do-dna-diz-estudo.ghtml

“Stem cell divisions, somatic mutations, cancer etiology, and cancer prevention”.
http://science.sciencemag.org/content/355/6331/1330

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Sobre Luciana Souto Mofatto

Graduada em Ciência da Computação pela Unimep (2000) e em Odontologia pela Unicamp (2007), possui Mestrado (2008-2010) e Doutorado (2010-2013) em Biologia Buco-Dental pela Faculdade de Odontologia de Piracicaba - UNICAMP. Fez pós-doutorado em Bioinformática no Laboratório de Genômica e Expressão (LGE) do Departamento de Genética, Evolução e Bioagentes (Instituto de Biologia - UNICAMP). Atualmente é Analista de Tecnologia da Secretaria da Educação.

2 respostas para Palavras ao vento: como a imprensa divulga a ciência.

  1. Pingback:Zohnerismo (parte 1): A arte de levar a falsas conclusões com fatos verídicos. (V.3, N.6, 2017) - Torta de Maçã Primordial

  2. Ótimo conteúdo, parabéns!

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