Ciência e política: como atuar mutuamente?

Sempre em ano de eleições, vem a tona o pensamento de como a Ciência será promovida no governo do próximo presidente. Algumas notícias em 2018, como o anúncio de cortes da CAPES e CNPq, deixam um alerta sobre uma possível escassez de recursos. O orçamento está apertando, porém tal situação não é de hoje. Qual a devida ação a ser tomada pelos políticos frente a Ciência? Apoiá-la? Camuflá-la? Deixá-la de lado? A política sempre andou ao lado da Ciência, desde longa data, porém ela é instável.

Você já deve ter ouvido sobre Galileu Galilei: um cientista queimado por abraçar a sua descoberta sobre o movimento da Terra. Sócrates foi obrigado a tomar cicuta, um veneno letal, ao forçarem a recusar a verdade que ensina. Até mesmo Giordano Bruno, apoiador das ideias copernicanas, morto pela Inquisição. Naquela época, a Igreja era um “órgão” único e sempre lutava contra a presença da intelectualidade junto aos governos. A História sempre nos deu exemplos aonde, após o surgimento de uma ideia contrária a um preceito, simplesmente não se tinha diálogo, apensa execução. Hoje, no século XXI, a conversa entre Ciência e Política, por meio dos governantes, acontece, mas de forma muito lenta.

Os cientistas em formação, mestrandos e doutorandos, almejam um dia reverter ao mundo aquilo que sua pesquisa científica busca: MUDANÇA. Os políticos brasileiros sempre dizem que mudar é necessário, mas nenhum deles pensa EM COMO MUDAR. Do modo contrário, os cientistas buscam pela IMPLEMENTAÇÃO DESTA MUDANÇA: facilitar a vida da sociedade, resolver problemas. Cientistas, por essência, buscam mostrar que o mundo não é apenas um livro, e sim uma grande biblioteca, pronta para prover e receber conhecimento. Todavia, será que a sociedade pensa o mesmo sobre a ciência brasileira? Visando alcançar o maior número de pessoas, realizamos uma pesquisa de opinião, via Twitter, a qual se encontra abaixo. Agradeço a minha amiga, Jéssica Sales, bacharela em Direito, pela UEMG, e atualmente mestranda na Unimontes, por se propor a me ajudar nessa pesquisa.


A pergunta foi: “O Brasil investe apenas 0,7% do PIB em pesquisa, cerca de 4x menos que países desenvolvidos. Apesar disso, a Bradicinina, utilizada no tratamento de pressão alta, é 100% brasileira, e responsável por salvar muitas vidas. Sabe disso: você acredita na ciência brasileira?”


Resultado:
Número de impressões: 15.989 (total de pessoas que viram o Tweet)
Número de engajamentos: 1305 (total de pessoas que interagiram com o Tweet)
Votos: 1021
SIM: 72%
NÃO: 28%

Podemos notar que mais de 15 mil pessoas visualizaram o tweet, no entanto, apenas 8% se engajaram e 6% responderam a pergunta. Esse resultado mostra que uma grande porcentagem dessa fração da população brasileira não acredita ou não se interessa pelo assunto. Quantos brasileiros sabem o papel do Ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação (MCTIC)? Quantos já se interessaram em procurar sobre o papel da ciência na sociedade? Inclusive, muitos projetos do MCTIC são atuantes na sociedade, como o Gesac, o Cidade Digital e o Centro de Recondicionamento de Computadores.

Ao meu ver, faltam políticas públicas que favoreçam o engajamento da sociedade com a ciência brasileira. As universidades federais e estaduais são pagas com dinheiro público e, além de promoverem serviços de saúde públicos, deveriam propor iniciativas sociais, mas, para isso, o Estado e o Governo, devem incentivar e promover diretrizes direcionadas a atuação dos cientistas na sociedade. Aqui na UNICAMP, durante o UPA (Unicamp de Portas Abertas), os alunos e a sociedade podem visitar o campus e interagir com os pesquisadores e decidir sobre uma futura carreira. Fizemos um post sobre este evento que pode ser acessado aqui. Outro modo de interação, de forma mais aberta, é o Pint of Science, que objetiva levar uma discussão sobre temas científicos aos bares e restaurantes. Uma forma mais ativa de implementação de projetos científicos em sociedade, por exemplo, é o sistema de Sistema de Alerta a Inundações de São Paulo (SAISP), que foi desenvolvido em convênio com Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). No SAISP são providos mapas de chuvas, leituras de represas e avisos de inundações.

Diversas iniciativas poderiam existir para promover o maior contato da comunidade com os cientistas, como cursos, palestras, propagandas incentivadoras. É imprescindível a necessidade de um fórum entre políticos e cientistas, para discutir o rumo científico do Brasil, políticas públicas, ajudas necessárias, entre outros assuntos. Por que não haver uma cooperação mais frequente, com políticas de retorno a sociedade?

Para realizarmos TUDO isso, não podem haver os diversos cortes prometidos: de bolsas, de incentivo a ciência, na manutenção frequente de lugares estatais,nas  medidas de prevenção de saúde pública, como o SUS, nos programas de desenvolvimento e aprimoramento de pesquisas em Zika …

Em suma, gostaria de enfatizar que, em debate, nenhum candidato especulou ou foi questionado sobre seu posicionamento em relação a ciência e seus andares a passos curtos. IMPORTANTÍSSIMO discutirmos sobre o assunto, já que, dependendo do modo como ela é tratada, podemos ter a ciência noticiada não pelos seus méritos, mas sim como um próximo Museu Nacional.

 

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Sobre Lucas Miguel

Bacharel em Matemática Aplicada e Computacional, mestre em Ciência da Computação pela UNICAMP, e doutor em Bioinformática pela mesma universidade, atualmente é pós-doutorando em Bioinformática no CEPID/CCES - Centro de Engenharia e Ciências Computacionais. Possui como linha de pesquisa integração de ômicas e simulação metabólica.

2 respostas para Ciência e política: como atuar mutuamente?

  1. O lance seria as pessoas que são guiadas pela ciência fazerem sempre o melhor que puderem para melhorar a vida dos seres, deixando altos salários e necessidade de fama no lugar da política e do poder, que são passageiros.

  2. Pingback:Liderança científica: Qual o seu movimento? - Terabytes of life

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