Montanha-russa de emoções: O reencontro

Vocês já passaram por aquele momento em que a única coisa possível é aceitar o inaceitável? Que você sente que o único caminho possível é aquele que você julga o mais desafiador? Nessas horas eu sempre penso: “Se existe o medo, é porque de alguma forma vale a pena”.

Dessa forma, meu terceiro ano começou com uma decisão importante a ser tomada, aquela que dá mais que um frio na barriga, que parece congelar o corpo inteiro. Mas apesar do medo e da ansiedade eu não via outra alternativa a não ser me jogar, e isso não porque alguém estava me obrigando a algo, mas porque no fundo eu tinha certeza que, se deixasse a oportunidade passar, eu me arrependeria o resto da minha vida.  Mas mesmo tomada daquela ansiedade toda, e,  apesar de aceitar a mudança, ela veio de uma forma lenta e eu ainda tive o primeiro trimestre para me acostumar com a idéia.

Durante esse período eu tive que conviver com a dúvida, com a ansiedade, com aquele questionamento interno “O que será que vem agora?”, e pensando bem, eu venho passando por muitos momentos desses na minha vida. Mas, como uma hora isso tinha que acabar, ele acabou e tudo mudou de repente. De um momento para outro eu tinha mudado meu ambiente, eu estava com pessoas ao meu lado que eu não conhecia, eu comecei a me sentir insegura, a sentir que eu precisava ser outra pessoa para me adaptar a esse novo mundo, eu tinha horas a cumprir e por onde começar? Tudo me parecia ameaçador.

Primeiramente, eu estava em um ambiente mais empresarial e ele pedia que eu me arrumasse um pouco mais (ou talvez eu que realmente me cobrasse isso), mas de alguma forma eu não me via como alguém que pudesse pertencer àquele mundo, quando eu pensava em colocar um salto meu pé já doia por antecipação, quando pensava em uma roupa mais social, já me vinha o desconforto, ou quando pensava em maquiagem, me vinha a preguiça. Tudo me remetia a me transformar em alguém que eu não era. Mas será que realmente eu não era? O que me impedia?

Somado a isso, vieram os amigos que eu não tinha mais no dia a dia, e para compensar eu passei o primeiro mês saindo quase todos os dias e usando minhas poucas horas livres pra estar ao lado das pessoas que me importavam. Eu saí da universidade, mas ela não tinha saído de mim. Eu parei com tudo, relaxei na academia, deixei a alimentação saudável (já que não é fácil encontrar isso nos barzinhos da vida), deixei minhas leituras e tudo aquilo que significava cuidar de mim. O que era mais importante? Cuidar dos relacionamentos com amigos não era um alimento pra minha alma também? Eu estava errada em seguir assim? De alguma forma talvez sim, porque depois de um ano inteiro sem nenhuma gripe, meu corpo começou a pedir ajuda.

Foi no meio de tantas perguntas que eu reencontrei o coaching, e de um momento para outro eu comprei duas formações: Coaching financeiro e Coaching de vendas. Vendas… Como assim? E por um acaso do destino, vendas foi o único que eu achei que não fosse servir para nada e o primeiro que eu tive que enfrentar. O resultado? Empoderamento, saí disposta a cuidar da minha auto-imagem, passei a me sentir bem com salto, a me arrumar com mais frequência, mudei minha postura, e já não sentia tão inútil me arrumar. E bastou isso pra que eu comprasse logo o terceiro curso, a formação completa de coaching comportamental.

Minha segunda formação, coaching financeiro. Aí foi um grande desafio, foi realmente um caso sério estar frente a frente com a minha relação com o dinheiro, mas o resultado foi eu começar a me interessar por finanças, começar a buscar cursos e de repente me vi atraindo pessoas que também se interessavam pelo assunto, que tinham um pensamento completamente diferente do que eu estava acostumada a lidar.

E no meio disso tudo veio minha qualificação. Confesso que eu pirei um pouco, estava começando um trabalho novo, em geral saía esgotada e demorei até o último momento para entregar o texto e marcar uma data, mas eu estava tranquila com relação ao que eu precisava apresentar, afinal eu já tinha mudado muito minha postura e vinha me sentindo mais segura comigo mesmo.

Quando finalmente tudo acabou, o drama aumentou, porque apesar de eu ter passado, aquele momento me fez repensar minhas escolhas, eu tive uma base toda em laboratório, de repente parti para bioinfo mas minha paixão realmente era lidar com o biológico e as perguntas começaram a surgir, “Será que eu realmente faço parte disso?”, “Até que ponto eu tomei a decisão correta?”, “Como continuar se eu não sei quase nada do que deveria?”, “O que fazer com tudo mais que eu amo?”, e “Será que eu realmente deveria estar aqui?” (Pra quem já passou por isso e quiser entender um pouco dos sintomas, esse blog apresenta a Síndrome do Impostor de forma bem clara!)

A crise foi realmente grande… e como drama bom vem sempre acompanhado, a vida me levou a um caminho oposto a todos que eu tinha como “amigos”, eu já não sabia qual o meu lugar no mundo. Eu tinha mudado ou o mundo tinha mudado?

Pra compensar o mal, logo em seguida eu fiz a formação em coaching, aí tudo desandou de vez (Claro!), isso porque às vezes pra construir algo é preciso, antes de mais nada, destruir o que já existe. E eu precisava destruir muita coisa. Nesse momento eu me dei conta que o trabalho me fez reencontrar uma parte do meu passado que eu queria esquecer, eu dei de cara com sentimentos que me remetiam à situação que me levou a depressão na minha infância, e graças ao coaching eu me dei conta que tudo que me levava a abandonar situações ou não querer chamar atenção de alguma forma era porque eu associava o “chamar atenção” a dor, a sofrimento. Mas que sentido faz continuar deixando o passado me definir? E quebrando essa única crença, muita coisa mudou em mim.

E assim eu comprei meu primeiro batom vermelho, um batom vermelho!!! Nunca na minha vida eu tinha usado um, porque todo mundo ia olhar e isso não era eu. Comecei a me arrumar e me sentir bem no meu próprio corpo, voltei a me dedicar a mim, comecei a me sentir confiante, a aceitar que eu realmente não sabia muita coisa, mas que eu estava ali para aprender, e por que não?

Aceitei fazer uma apresentação duas horas antes, e isso definitivamente foi uma vitória para mim. Como isso estava me fazendo bem, eu estava mais motivada do que nunca a me tornar alguém extremamente eficiente. E eu comecei esse meu plano. Mas ao mesmo tempo isso veio acompanhado de muitos problemas de relacionamentos, porque eu simplesmente não me encaixava mais em nenhum grupo, eu não queria me preocupar com o que antes era importante, eu queria outras conversas, eu queria olhar pro mundo com esperanças e não achando que ele estava perdido, e eu estava confiante demais. Foi assim que eu tive que começar uma busca por uma nova turma, simplesmente porque eu não aguentava mais chorar sozinha.

Até que ponto tudo isso que eu estava sentindo era causado por fatores externos? Eu mesma estava causando isso, porque eu mudei absurdamente em pouco tempo, e eu queria que o mundo mudasse na mesma velocidade, eu queria que todo mundo pudesse olhar pras coisas da forma que eu o fazia, e isso não aconteceu, e nem deveria. Afinal, quem sou eu pra dizer qual o jeito certo de viver? Eu só sei que esse é o meu jeito certo! Amigos se foram, amigos e amores chegaram, e uma nova vida começou. Eu tive que aprender a me desapegar, reorganizar minha rotina com o namoro, me reinventar, agora equilibrando minha vida pessoal, namoro e trabalho.

E num primeiro momento aquele namoro, algo que eu tinha esperado por tanto tempo, passou a ser a única coisa que eu queria viver, e por um breve momento eu me perdi, e comecei a viver um conflito interno do que realmente tinha que ser decidido entre duas pessoas e o que eu precisava decidir por mim mesma.

E pra fechar o ano, uma última reviravolta ocorreu pra, de novo, alterar meus planos repentinamente. Durante uma reestruturação do centro eu saí de lá, e me peguei pensando no “E agora?”. Eu tinha um mundo de possibilidades na minha frente e eu travei após optar pelo caminho mais fácil e lógico: lutar pra conseguir uma nova bolsa, mas o dano emocional aqui foi grande, muito porque eu revivi aquela dor do passado, mas dessa vez eu não era mais aquela criancinha indefesa, e eu era sim capaz de lutar por mim mesma, eu dei de cara com uma força e uma segurança que eu desconhecia.

 

Pra fechar o post não poderia faltar:

Aprendizados: “Mais do que planos, nós precisamos de sonhos, porque os planos nem sempre acabam como esperamos, mas ainda que seja por uma rota diferente, os sonhos sempre podem ser alcançados.”

Ação: “O que fazer? Como fazer? Está na hora de lutar, de buscar um novo começo mas sem abandoanar o que me restou. Como? Era hora de cuidar das feridas emocionais.”

 

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Sobre Sheila Tiemi Nagamatsu

Formada em Biotecnologia pela UFSCar, Dra. em Genética e Biologia Molecular com ênfase em Bioinformática na UNICAMP, apaixonada por desenvolvimento pessoal e, atualmente, pós-doutoranda em YALE na área de psiquiatria.

2 respostas para Montanha-russa de emoções: O reencontro

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  2. Vanessa diz:

    Adorei o texto! Parabens!

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