E tudo começa com um simples “Hello World!”

No início dos anos 80, meu pai, um economista por formação, se viu desempregado e ousou seguir um caminho que muitos brasileiros sonham em trilhar: o de empreender um negócio próprio.

Numa época em que os computadores domésticos eram uma raridade, artigo de luxo incompreensível para a maioria dos seres humanos, meu pai, um profissional que nunca tinha tido nenhuma experiência nessa área, resolveu arriscar e apostar suas fichas na área de computação, um assunto totalmente fora de sua zona de conforto, mas que parecia promissor…

Foi assim que aquela máquina barulhenta, com uma tela cheia de caracteres verdes entrou em casa. Se eu fechar os olhos, ainda posso sentir o cheiro dela (cheiro de plástico novo).

Eu deveria ter pouco mais de 10 anos naquela época e, obviamente, estava terminantemente proibida de mexer naquele item valiosíssimo que fazia “bip, bip” quando ligava e que se tornara a promessa de sustento da família. Porém, não demorou muito para meu pai me sentar em seu colo e me ensinar como eu poderia ligar o computador e jogar Donkey — um jogo desenvolvido por Bill Gates (bilionário fundador da Microsoft), utilizando a linguagem de programação BASIC.

IBM PC (Wikimedia Commons)
IBM PC (Wikimedia Commons)

Pouco tempo depois, meu pai me presenteou com um lindo livrinho azul, chamado “Basic para Crianças” (Sofia Watt e Miguel Mangada) e seguindo as instruções de um monstrinho laranja escrevi meu primeiro programa de computador!

Um programa que MILAGROSAMENTE escrevia na tela a frase “Hello World” ou, traduzindo, “Olá Mundo!”.

Eu havia conseguido me comunicar com aquela máquina bizarra! E ela havia respondido para mim!

Até hoje me surpreendo como um ato de encorajamento tão simples de um pai, pode mudar tanto a vida de uma criança!

A história continua e poucos meses depois, um episódio envolvendo uma tragédia familiar faria com que a empresa do meu pai nunca decolasse e o computador fosse vendido para pagar as contas.

Meu primeiro livro de programação.
Meu primeiro livro de programação.

Mas nem tudo estava perdido. Algo irreversível já havia acontecido: uma paixão havia sido despertada!

É com essa lembrança que inicio meu primeiro post neste blogue: “Hello World!”

É com grande prazer que, por meio de uma tela, me comunico pela primeira vez com vocês na esperança que, ao compartilhar algumas das histórias que fazem parte do meu dia a dia de cientista, eu possa dar um empurrãozinho para despertar alguma paixão duradoura.

Em tempo: “Hello World!” é uma frase que foi imortalizada pelos criadores da linguagem de programação C, os americanos Brian Kernighan e Dennis Ritchie, no livro de 1978, entitulado “The C Programming Language”.  No livro, um pequeno trecho de programa ensinava o iniciante a apresentar na tela a frase que se tornaria clássica. Desde então, tornou-se uma tradição repetir o mesmo exercício para todas as outras linguagens que surgiriam desde então. Neste link você pode descobrir como são os programas “Hello World!” em mais de 500 linguagens de programação diferentes (o site está em inglês, mas vamos combinar que você não vai se intimidar está bem? #coragem).

Você nunca programou? Quer ouvir uma boa notícia? Com tanta linguagem de programação por aí, está ficando cada vez mais fácil sair programando por aí… Qual sua programação para hoje?

Paula D. Paro Costa

Cientista desde o nascimento, Engenheira e Professora da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação, na Unicamp. Atua nas áreas de processamento digital de imagens, aprendizado de máquina, ciência dos dados e computação afetiva. Nas horas vagas, trabalha para que crianças e jovens tenham contato com as áreas de ciências, engenharia e tecnologia.

8 thoughts on “E tudo começa com um simples “Hello World!”

  • Pingback: E tudo começa com um simples "Hello World!" - Blogs Científicos - UNICAMP

  • 20 de junho de 2016 em 09:25
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    Excelente texto Paula, divertido e nostálgico! Interessante que eu tive uma trajetória semelhante, mas com resultados diferentes. Eu comecei ainda nos computadores pessoais pré-PC, os ZX 80 e ZX Spectrum da vida… aprendi Basic, LOGO, Assembler, etc…. apesar de gostar bastante da coisa (e ate hoje mexo com isso, mas não como atividade principal) acabei indo pra área de humanidades. Na verdade, creio que uma coisa não exclui a outra. Aprender programação ensina lógica e um tipo de raciocínio que me é útil até hoje. Creio que é um excelente recurso didático pra desenvolver habilidades cognitivas que serão utilizadas por toda a vida.

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    • 21 de junho de 2016 em 15:51
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      Oi André! Obrigada por compartilhar sua história. Ela tem tudo a ver com o movimento que prega a educação do Pensamento Computacional. Escreverei em breve sobre isso, mas partimos do princípio que profissionais de todas as áreas se beneficiariam de serem expostos ao mundo da programação pois, como você disse: aprender programação ensina lógica e um tipo de raciocínio que é útil na solução dos mais variados problemas.

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  • 20 de junho de 2016 em 12:47
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    “Basic é quem nem sarampo, todo mundo pega quando criancinha”. Felizmente a frase já não é mais verdadeira em relação ao sarampo : )

    []s,

    Roberto Takata

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    • 20 de junho de 2016 em 14:06
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      Adorei essa Roberto. Vou adotar! Agora tenho tentado disseminar os vírus de Scratch e Python. E você tem alguma sugestão?

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  • 21 de junho de 2016 em 14:07
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    Queria muito ter esse livro.
    Aprendi BASIC I no SENAC de Barra Mansa RJ em 1978-80.
    Mas so foi me servir UM POUCO depois que comprei meu primeiro PC com windows 1 ou 2 usado em 1988-89 e fazia faculdade … Servia pra escrever textos que praticamente perdi todos (embora ainda estejam nos disquetes que não abrem, que por sua vez gravei dos discos magneticos…. )

    fiz faculdade de humanas e simplesmente perdi o bonde muito mais por falta de dinheiro pra pagar um curso que preste e oportunidade que nunca tive

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    • 21 de junho de 2016 em 15:47
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      Olá Warney, obrigada por compartilhar sua experiência. A vida não é mesmo um programa de computador não é? A boa notícia para os mais jovens é que hoje em dia as informações estão muito mais acessíveis. Não são mais necessários livros caros ou cursinhos de programação. Está tudo disponível na Internet para quem quiser aprender…

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