Apagão na Ciência Brasileira

Em tempos de crise, os cientistas brasileiros, assim como todas as outras categorias da sociedade, também abrem o jornal já com receio da próxima notícia ruim.

A má notícia de ontem foi o desligamento do supercomputador do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), que fica em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

O motivo: falta de recursos para pagamento da conta de luz.

Segundo o site do LNCC, foram gastos 60 milhões de reais para a compra do supercomputador que chegou em julho passado ao Rio de Janeiro.

Que tal colocar essa cifra lado a lado com outros números?

O supercomputador do LNCC, batizado de Santos Dumont, é capaz de processar 10.000.000.000.000.000 operações matemáticas num único segundo.

Tal velocidade faz com que ele seja aproximadamente 50 milhões de vezes mais rápido que um notebook comum (isso também dá a ele o apelido de “computador petaflópico”).

Estudos de identificação de proteínas visando o tratamento do Mal de Alzheimer por exemplo, que levariam anos para serem processadas em infraestuturas comuns, foram realizados em apenas 3 dias na máquina do LNCC (veja reportagem CBN).

Na era do “Big Data”, ou seja, a era da disponibilização massiva de dados, grandes avanços na Ciência podem ser obtidos por aqueles que tiverem à sua disposição máquinas e capacidade de processamento como a do LNCC (além de cérebros bem treinados, é evidente!).

O  apagão do Santos Dumont se dará por uma conta de luz de aproximadamente quinhentos mil reais.

Essa discussão pode parecer absurda num país com 11 milhões de desempregados e que talvez tenha prioridades mais importantes do que pagar a conta de luz de um supercomputador.

Porém, se uma família passa por dificuldades, talvez não seja uma boa ideia economizar com a passagem do ônibus, dificultando que o pai chegue ao emprego e o filho à escola, diminuindo suas chances de um dia se encontrar numa situação melhor.

Em outras palavras, se a crise financeira é inevitável, é importante sabermos gerí-la com inteligência para que o país não perca anos de investimento na formação de cientistas, torne obsoletos seus investimentos em infraestrutura e acabe ficando sem um futuro econômico pujante já que investimentos em pesquisa, desenvolvimento, inovação e tecnologia são primordiais para geração de riqueza (e sim, empregos!) em qualquer sociedade moderna.

Trocando em miúdos, podemos até continuar gastando bilhões de reais na construção de estádios de futebol, mas certamente não é isso que nos fará superar os 7 gols da Alemanha, nem os seus 3o prêmios Nobel em Química, nem seus 31 prêmios Nobel em Física ou seus 24 prêmios Nobel em Medicina.

“Eu não ligo quantos PETAFLOPS tem o novo supercomputador da Abby. Eu não vou comprar um novo para você.” Extraído de http://www.itworld.com/article/2849822/petaflops-envy-cartoon.html Crédito: IT World/Phil Johnson

Paula D. Paro Costa

Cientista desde o nascimento, Engenheira e Professora da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação, na Unicamp. Atua nas áreas de processamento digital de imagens, aprendizado de máquina, ciência dos dados e computação afetiva. Nas horas vagas, trabalha para que crianças e jovens tenham contato com as áreas de ciências, engenharia e tecnologia.

6 thoughts on “Apagão na Ciência Brasileira

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  • 25 de julho de 2016 em 14:18
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    Eu tenho sérias dúvidas se quem “gerencia/administra” os recursos financeiros do Brasil pensa que realmente somos um país…

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  • 8 de outubro de 2016 em 13:32
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    Mais do que nunca penso que esse é o momento mais claro de que a relação ciência – emprego – infraestrutura etc é totalmente válida nas discussões políticas. Uma pena não ser prioridade em nosso país!

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  • 14 de outubro de 2016 em 11:11
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    Vejo muita resistência da parte dos pesquisadores em mostrar que a ciência é importante. Tenho a impressão de que não só para os políticos/gestores, como também para a sociedade em si o investimento em ciência é um supérfluo pronto para ser abandonado em tempos de crise. Soma-se a isso uma tendência cultural de “gestões de curto prazo”, ignorando que alguns setores precisam de investimento contínuo por muito tempo para que se possa colher os frutos no futuro.

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    • 14 de outubro de 2016 em 14:33
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      Sua análise me parece perfeita. Concordo que também os pesquisadores devam se esforçar para mostrar o valor da Ciência.

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  • 15 de outubro de 2016 em 12:03
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    Acredito que a dificuldade do meio acadêmico em se “rebaixar” e traduzir termos complexos e aplicados em palavras de fácil compreensão pela maioria da população seja um fator decisivo em momentos de escolha de prioridades em momentos de crise, assim como mencionado no comentário anterior.
    Outra resistência que percebo é a dificuldade de integração da academia com o setor privado, causando assim uma dependência do estado, e sabemos que muitas vezes o estado age com medidas pouco lógicas visando o “populismo de marketing”.
    Assim pessoalmente acredito que em momentos como esse, devemos repensar as formas de obtenção de recursos e até mesmo das aplicações das pesquisas pela ótica da indústria, mesmo na pesquisa básica.

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