A dificuldade de Taeko Okajima com divisão de frações: parte 5

Nos posts anteriores contei sobre a difícil relação da personagem Taeko Okajima com a Matemática (parte 1), o papel das definições matemáticas (parte 2), como dividir um objeto para “pessoas fracionadas” (parte 3) e a importância de revermos conteúdos matemáticos como frações (parte 4). Para finalizar essa série, trazemos a concepção da Taeko que com 27 anos relembra sua dificuldade com frações aos 10 anos, e que considera a capacidade de fazer essas contas, uma condição necessária para nos seus padrões alcançar uma vida bem-sucedida.

Taeko aos 27 anos carrega ainda o estigma que sofreu aos 10 anos, de não conseguir dividir frações, e se compara com outras meninas que conseguiam e hoje se encontram em uma posição da qual Taeko gostaria de estar. O impacto da matemática na vida de Taeko foi bastante traumático, tanto que ela considera que deve ter sido traumático a todos que assim como ela tiveram dificuldade com divisão de frações na escola. Considerando que as pessoas que não se lembram dessa fase da vida escolar, é porque conseguiam fazer essa operação sem dificuldade.

Como discutimos nos posts anteriores, a dúvida de Taeko começava já na confusão de termos usados na língua comum, com aqueles usados na matemática. Passando por esses termos sem o devido cuidado, Taeko já se depara a primeira dificuldade, entender como algo que multiplica pode reduzir, e algo que divide pode aumentar.

Em seguida, Taeko se depara com a dificuldade da irmã naquele assunto. Que apesar de saber como operar frações, não entende o real sentido daqueles procedimentos, não conseguindo explicar para Taeko de outro jeito senão seguindo a regra que aprendeu.

Essa dificuldade com frações aparece inclusive no cenário brasileiro, como visto no post anterior, dado que uma vez que passamos desse conteúdo no currículo escolar, seguimos sem retomá-lo, embora ele se veja presente nos próximos anos e presume-se que os alunos o dominem, o que não é de fato verdade.

Por fim, trazemos nesse post o estigma que Taeko carrega, e que reflete à uma visão simplista do sistema educacional, de colocar a matemática como uma condição de inteligência ou mesmo, um requisito para o sucesso. Yaeko (irmã de Taeko) conseguiria fazer facilmente 20 exercícios envolvendo a divisão de frações, porém talvez não conseguisse responder uma pergunta sobre “o que são frações?”. Perguntas como essa pareciam ter pouca ou nenhuma importância para Yaeko que enxergava a matemática de forma procedimental, voltada para obter os resultados certos na prova. Enquanto que revelavam em Taeko um interesse mais profundo pela matemática, relacionada principalmente sobre entender seu sentido de forma mais abstrata.

Taeko já na fase adulta, diz conseguir operar divisão de frações com dificuldade (ou seja, memorizou o procedimento mesmo que nunca se sentiu satisfeita em entender o porque ele ocorre assim), mas aquela natureza curiosa que lhe fazia questionar e tentar entender como que a divisão de frações realmente funcionava parece ter sido sufocada e agora a acompanhava como um trauma de se considerar ruim na matemática e por isso não estar na posição que gostaria.

Finalizo essa série com a reflexão sobre o que é ser bom em matemática? Yaeko sabia fazer as contas, mas não entendia o que estava fazendo e nem tinha curiosidade em porque as coisas ocorriam daquela maneira. Enquanto Taeko, não conseguia seguir em frente na realização daqueles procedimentos, enquanto não esclarecesse aquela série de dúvidas sobre o comportamento das frações. Se formos pensar nas habilidades de matemática, Taeko demonstrou um genuíno interesse por entender a natureza daquele conjunto numérico, e como suas operações funcionam, ao mesmo tempo que se mostrou resistente em realizar procedimentos que não lhe fizessem sentido. Características essas que revelam uma “habilidade” em matemática que por vezes é mal interpretada e ignorada, dando lugar a habilidade de memorizar procedimentos e realizá-los meticulosamente.

Encerro com um meme que faz alusão ao papel da curiosidade na matemática, na qual um matemático aplicado questiona o matemático puro sobre a necessidade da matemática ser aplicada a projeções e otimizações do mundo real. Enquanto que o matemático puro vê uma relação condicional (flechinha da esquerda para a direita) entre conjuntos, e se pergunta se essa relação poderia ser bicondicional (inverter as flechinhas).

Meme extraído na página facebook.com/teoremastriviais

Imagem de capa extraída do anime Omoide Poro Poro (Memórias de Ontem).

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