Sobre a Divulgação Científica (DC), as especialidades e os especialistas…

Imagem de apresentação do texto, contém um café em cima de livros no canto esquerdo inferior, em desenho rabiscados e no canto direito superior uma cantoneira com folhas. No centro, dois quadros escritos: CEDiCiências: modos de fazer e pensar a ciência por dentro da Divulgação Científica (DC)
CEDiCiências
Texto escrito por Ana Arnt e Luiz Bento

O que faz com que nós tenhamos parte de nossa carreira dedicada à Divulgação Científica (DC)? E o que isto tem a ver com nossa formação?

Hoje nós vamos falar um pouco sobre formação para fazer Divulgação Científica. Bem como sobre o nosso grupo de pesquisa e conceitos gerais da DC – super por cima, pois estamos só começando!

Vamos começar do princípio: área de formação.

Ela é nosso ponto de partida para trabalharmos na Divulgação Científica. Quer um exemplo? Nós temos, em cursos de graduação, uma introdução ampla a campos de atuação que nos dão condições de atuar em profissões que exigem ensino superior. Até aí, vocês podem pensar que não há nada de novo sob o sol.

Há outras etapas que são relevantes também. A pós-graduação, em nível de mestrado ou doutorado, são cursos em que nos especializamos em uma área específica, desenvolvendo uma pesquisa nesta área. Mas a pós-graduação é mais do que isto. No Brasil, também é parte da formação para atuação como docente de nível superior. Esta etapa temos uma imersão que, simultaneamente, afunila nosso olhar para um objeto específico – com nossa pesquisa. Porém também nos faz ampliar nossa compreensão sobre uma área de nossa formação anterior.

Tá, mas e a Divulgação Científica?

A DC pertence à área da comunicação, que é considerada das Ciências Sociais Aplicadas. Isto dentro de campos delimitados, por exemplo, por agências de fomento brasileiras (como a CAPES ou a FAPESP). Assim, em um campo de formalidades e caixinhas acadêmicas – que são importantes para muitas coisas – a DC não corresponde à área de grande parte das pessoas que faz (ou busca fazer) divulgação.

Estas formalidades e caixinhas de áreas são muito importantes. No entanto, não dão conta de tudo, óbvio. Além disso, existe diferença entre fazer divulgação científica e pesquisar o tema. E aqui estamos falando destas questões razoavelmente misturadas…

Por exemplo, aqui no CEDiCiências, por exemplo, nós estudamos Divulgação Científica e somos um Grupo de Pesquisa em Cultura, Educação e Divulgação Científicas.

CEDiCiências

O CEDiCiências é um grupo de pesquisa que se formou a partir de pessoas que se conheceram aqui no Blogs de Ciência da Unicamp. A partir do trabalho na administração do projeto, e outras pessoas que conhecemos no meio da Divulgação Científica.

Vamos hoje só apresentar um tantinho. pois vamos falar bastante sobre isso em nosso blog. Nosso intuito neste grupo é pesquisar sobre a ciência e a produção de conhecimento em diferentes âmbitos e espaços sociais – cultura, educação e comunicação.

Acompanhando nosso blog, você verá que vamos abordar estes temas de forma mais aprofundada. Hoje é só uma apresentação geral nossa!

Vamos falar de alguns conceitos…

A divulgação científica significa “tornar de domínio público o conhecimento científico”, segundo Eduardo Bessa. E esta é uma das definições mais bonitas que conhecemos. Em nossa concepção, a DC é uma via de democratização do conhecimento científico. Além disso, a DC é extremamente importante por buscar a inserção das pessoas no debate da sociedade contemporânea. E isto apontando o quanto ela é intrinsecamente atrelada à ciência e à tecnologia.

Dessa forma, DC também é inclusão. Fazer divulgação científica é reposicionar a importância da ciência na sociedade. Parte das nossas ações dizem respeito a articular a sociedade com o fazer científico. Isto é, humanizar a ciência e os cientistas, possibilitar o empoderamento das pessoas com o conhecimento científico. Ou, talvez, possibilitar que a ciência seja uma caixa de ferramentas. Mas isto a partir da noção de que este maquinário é modo de pensar. E pensar quer dizer: enxergar e viver nossas vidas particulares na relação com o mundo, seus fenômenos e a sociedade. Temos outras caixas de ferramentas, claro. Mas a ciência é uma das melhores para avançarmos o conhecimento sobre a natureza e como viver em mais harmonia com ela.

Nossa! Tudo isso? Sim, é muita coisa. E por isso é tão bonita.

Mas, calma lá, a DC tem lá seus embates…

– Existem aqueles que defendem o preciosismo da especialidade (mas e aí? Alguém que não é da comunicação poderia fazer DC?)

– Outros já apontam que a DC pode ser feita a partir da especialidade, mas ela é mais ampla do que nosso curso de pós.

Aqui há uma certa dificuldade em delimitar (claro que há mais do que isso também…). Vamos ilustrar aqui usando nós dois como exemplo:

A Ana Arnt fez biologia, ficou anos em um laboratório de paleontologia de vertebrados. No entanto, cursou Mestrado e Doutorado em “Educação”. Mas sua pesquisa analisou uma revista de divulgação científica e os conteúdos de genética humana nesta revista. Todavia a pesquisa falou sobre o quê? De um modo amplo, abordou temas como determinismo biológico, conceito de ciência, determinismo genético, eugenia, evolução e noções de sujeito.

E sobre uma das questões interessantes é que um dos temas que ela sente-se menos à vontade para falar é “Educação”. Isto quando tomado no sentido mais usual do termo. Isto é, questões pedagógicas, didáticas, sobre metodologia de ensino em ciências, etc.

Já o Luiz Bento fez biologia também. E seguiu o caminho considerado de “ouro” dos acadêmicos: mestrado, doutorado e pós-doutorado na área de conhecimento que ele fez graduação (Ecologia). Mas alguns pequenos desvios e aleatoriedades da vida fizeram ele criar um blog de divulgação. Além disso, começou a trabalhar com educação superior e depois passar em um concurso para trabalhar em um Museu de Ciências.

E aí? Sobre o quê será que nós falamos em nosso cotidiano?

Torna-se fundamental pensar, neste momento, que as áreas de formação, dependendo dos projetos de pesquisa, são bastante interdisciplinares – e precisam ser. Nenhum pesquisador passa incólume de estudar inúmeros textos, artigos, teses que atravessam nossa área – e não se limitam a ela!

Estas delimitações são tênues e nem sempre fazem sentido para uma pesquisa. Assim, nos aprofundamos em um objeto de pesquisa, mas passamos anos e anos garimpando leituras, artigos, discussões que têm um escopo muito maior, buscando articulações concisas. Limitar nossa especialidade em um título de doutorado, ou nosso campo de atuação a ele, não é nem tão simples, nem tão real assim.

E após nossa especialização, nos tornamos “daquela área para sempre”?

Para sempre não existe, né? Além disso, não é como se, na ciência, nós parássemos de estudar após o mestrado ou doutorado. Iniciar novos estudos, se jogar em áreas de pesquisa ou de atuação, buscando rigor no que se faz e se aprofundando em novas áreas é absolutamente COMUM no meio científico.

Outro detalhe legal na Divulgação é que nós trabalhamos em equipes interdisciplinares. Não somos apenas “a ANA” ou “o LUIZ BENTO”. O CEDiCiências é um grupo de pesquisa com várias formações. O nosso trabalho de divulgação científica – que está começando como grupo – é permeado por debates que acrescentam novidades às nossas áreas originais. Além disso, também, aprofundam questões importantes sobre o que estudamos na área científica. Assim, nós debatemos conceitos, artigos, áreas de conhecimento. Bem como articulamos ideias para elaborar trabalhos conjuntos. Nós buscamos produzir conteúdo de DC e também pesquisar DC. A pesquisa em DC gera discussão sobre métodos, meios e impacto da DC. Tudo isso é essencial para produzir novos conteúdos de maneira responsável e que tenha impacto.

A DC busca democratizar conhecimento

Dessa forma, deveria ser sobre humildade e reconhecimento de limites. O quê? Limites? Sim! Limites, pois estes nos possibilitam ampliar mais e mais nossas condições de trabalho.

E nós usamos a nossa experiência como parte do texto. Todavia, existem muitas outras formas de atuar na Divulgação Científica! Por exemplo: precisa ter mestrado e doutorado para fazer Divulgação Científica?

Não. Não precisa. Contudo, precisa buscar conhecimento técnico e científico. Isto é, precisa aprofundar o olhar e analisar com acurácia os dados. É necessário, sim, se jogar em campos de conhecimento – e as especializações neste caso ajudam (e muito…), embora não sejam uma etapa obrigatória.

A formação acadêmica nos obriga a estudar (faz parte dos nossos afazeres diários estudar!). Entretanto, isto também pode nos deixar desnorteados, achando que é só sobre isto que se trata. De novo, aqui entra o “detalhe” sobre HUMILDADE e reconhecimento de limites.

Em suma, o que queremos dizer é que, o fim e ao cabo, (tcharammm)

Podemos nos esquecer que nossa formação não é tudo o que se precisa para atuar na Divulgação Científica. A começar que é uma atuação em comunicação, por exemplo. Como falamos antes: não somos formados nisso, podemos atuar nesta área e falar sobre ela?

Além disso, claro, também sabemos um tanto mais que isso. Por exemplo, que fazer fio no twitter, cards no insta, podcasts ou vídeos, postagens aqui não necessariamente nos faz alguém entendedores da DC. No auge nos faz alguém que está fazendo fios, cards, áudios e vídeos e textos (risos de nervoso).

Se formos comunicar apenas – e tão somente – nossa área de especialidade no sentido estrito do termo, estaríamos circulares. Além disso, dificilmente manteríamos qualquer condição de estabelecer diálogo entre pares e extra pares. A pesquisa é, e deve ser, interdisciplinar – tanto quanto deve reconhecer seus limites.

Neste sentido, as parcerias são bem vindas. Uma vez que agregam conhecimento, nos possibilitam ampliar a visão e democratizar não apenas o nosso conhecimento específico e de nossa caixinha. Possibilitam que vejamos o conhecimento como integrado e passível de ser construído como deve ser: coletivamente.

Por fim (por enquanto)

A divulgação científica que pretendemos trabalhar neste recém formado grupo não parte de um ideal messiânico para salvar todos. Tampouco para apontar falhas e horrores sobre especialidades, especializações e preciosismos julgando certo e errado nestes caminhares da DC!

o CEDiCiências está começando seus passos a partir da ideia de que a divulgação científica está aqui para ser acessível e acessada. Também estamos aqui pelo encantamento que temos pela ciência e por tudo o que ela nos possibilita entender do mundo.

Mais do que isto, é por nos encantarmos diariamente por tudo o que o conhecimento nos possibilita que organizamos conteúdo. É por isto que colaboramos com colegas, dialogamos com todos que for possível.

A democratização do conhecimento também não se faz por uma só pessoa. Uma vez que busca ser democrática, procura, também, ampliar seu escopo.

E se não for para mergulhar de cabeça em algo colaborativo, coletivo, compartilhado. Se não for para, acima de tudo, mantermos a postura HUMILDE em relação à construção do que queremos para nosso futuro. Isto é, se não for para pensarmos uma ciência para todos, a gente nem começa…

Seja bem vindo ao nosso mundinho, entre e fique à vontade 😉 

Para Saber Mais

Foucault, M (2002) Microfísica do Poder.

Larrosa, Jorge (2003) Pedagogia Profana

Divulgação científica em tempos de pandemia: como elaboramos conteúdos?

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