A agradável e ilusória fronteira entre fato e ficção (vol. 3, n. 2, 2016)

O quão fatual e o quão ficcional são as narrativas do nosso dia-a-dia?

 

A narrativa está presente em boa parte das coisas que lemos ou assistimos. Nos livros de literatura, nos quadrinhos, no cinema, no rádio, na televisão, nos jornais. Ela se infiltra nos mais variados estilos, escritos e orais, de comunicação.

Narrar é contar uma história, através de uma sequência de acontecimentos (enredo), onde personagens se movimentam no tempo e no espaço.

Avó e netinha lendo uma história

O ato de narrar, ou contar histórias, foi um elemento de importância central para a transmissão das mais variadas tradições e culturas desde os povos mais antigos do mundo.

Graças a essa perpetuação de histórias, oral e escrita, hoje podemos conhecer um pouco das gerações que nos antecederam e receber influências de civilizações que nem nossos tatatataravôs conheceram.

Costuma-se diferenciar as narrativas entre a fatual e a ficcional. Sendo que a primeira é referente a acontecimentos reais e a segunda, a acontecimentos inventados, que não correspondem à realidade. No entanto, quando tentamos estabelecer uma fronteira entre a realidade e a ficção, percebemos que ela é muito mais simbólica do que imaginamos.

 

O que é ficção?

Quando falamos em ficção imediatamente imaginamos histórias fantásticas, que envolvem elementos totalmente distantes da realidade, como monstros, ou heróis, ou fantasmas, ou tecnologias super avançadas. Além disso, também associamos à ficção as histórias que, mesmo não tendo estes elementos, foram criadas, inventadas, e nunca aconteceram.

Assim, segundo esse conceito que muitos de nós temos sobre ficção, que tipo de narrativa seria não-ficcional, ou fatual?

Desembarque de Cabral em Porto Seguro, pintado por Oscar Pereira da Silva em 1922

Aparentemente, as histórias que lemos tanto nos veículos jornalísticos, quanto nos livros de História, são fatuais, já que são referentes a acontecimentos que realmente aconteceram, e não são inventados.

Por exemplo, ao narrar sobre a chegada de Cabral no Brasil, os autores de livros de História não estão inventando nada, afinal, esse evento verdadeiramente aconteceu, certo?

 

Apesar de termos a nossa definição de ficção, vejamos o que o Dicionário Teórico e Crítico de Cinema, de Jacques Aumont e Michel Marie, tem a dizer:

Ficção é uma forma de discurso que faz referência a personagens ou a ações que só existem na imaginação daquele que a escreve, ou lê. […] A ficção não é uma mentira, mas um simulacro da realidade.

Se a ficção não é uma mentira, mas um simulacro da realidade, ou seja, uma forma de representar o real, então qualquer história que alguém conte será ficcional, certo? Toda forma de relato é uma tentativa de se reproduzir a realidade através de palavras (proferidas ou escritas), logo, é uma espécie de ficção.

Pintura do pintor belga René Magritte. A frase  em francês significa: “Isto não é um cachimbo”.

É como a famosa pintura de Magritte de um cachimbo, seguida dos dizeres “Isto não é um cachimbo”. Parece estranho, a uma primeira vista. É óbvio que é um cachimbo, poderíamos argumentar.

Porém, a frase que acompanha a imagem tem toda a razão. Se você estivesse diante deste quadro, você não poderia pegá-lo e colocar fogo, como poderia fazer se fosse um cachimbo de verdade. A imagem que vemos é uma representação de um cachimbo. Assim como um relato é uma representação de um acontecimento.

Representação de um repórter e um fotógrafo

Essa conclusão vai dar uma dor de cabeça, principalmente nos jornalistas mais… clássicos.

Dizer que há um parentesco entre a mais fidedigna narrativa jornalística e a mais fantasiosa narrativa literária (já que ambas são ficcionadas), coloca em cheque princípios considerados fundamentais no jornalismo, como objetividade, veracidade, etc.

 

Eu ainda não estou convencido. As matérias que lemos no jornal, as reportagens de televisão, as notícias do rádio não podem ser ficções. Elas falam sobre os fatos, sobre a realidade, não são inventadas como em um livro qualquer de literatura.

 

A agradável e ilusória fronteira entre o fato e a ficção

Imagine que você está caminhando na rua e vê uma pessoa correndo segurando uma mochila nas mãos. Ao interagir com este acontecimento real você o registrará em sua mente, usando seus recursos intelectuais, para que isso lhe sirva de memória (já que o acontecido passou a fazer parte do passado).

Essa versão que está na sua mente é um modelo representativo da realidade (um simulacro). E pessoas diferentes não poderão criar versões iguais de um mesmo fato, pois esse simulacro é diretamente influenciado por elementos subjetivos do indivíduo.

A sua visão de mundo, suas experiências pessoais, os livros que você leu, os filmes que assistiu, seu estado emocional no instante do acontecido, são algumas das muitas variáveis que influenciarão a forma como você apreenderá a realidade e a registrará em sua mente.

Fotomontagem de um iceberg por Uwe Kils

Além disso, as pessoas são como icebergs. A parte superficial (externa e visível) é muito pequena se comparada à parte submersa (interna e oculta). Nem nós mesmos conhecemos as profundezas do nosso eu.

Imagine que você está num navio, vê um amontoado de gelo e faz um desenho. Por mais fiel que esse desenho esteja à parte superior do iceberg, você nunca será capaz de expressar a complexidade dessa massa de gelo inteira no papel. Até mesmo o ângulo que você está fazendo sua observação fará diferença na sua versão do iceberg.

Da mesma forma, se alguém te pedir para descrever o seu pai, sua mãe, ou um parente muito próximo, você irá resgatar na sua mente a imagem que tem dessa pessoa. Essa representação que você criou para lembrar-se dela, com certeza será um personagem muito rico, com profundidade e absolutamente similar à pessoa que ela representa.

Mas será que essa representação mental, esse personagem, será uma cópia perfeita do seu parente? A complexidade de uma vida humana nunca conseguiria ser completamente transposta para o personagem de uma narrativa.

De acordo com a doutora em literatura Daisi Vogel, tanto a narrativa literária, quanto as narrativas histórica e jornalística são igualmente “inventadas”,

“porque dependem dos recursos da imaginação, que operam a memória, para recordar, reconhecer, relacionar e ordenar narrativamente os eventos apurados ou testemunhados”

E por causa disso… toda narrativa, seja ela baseada em eventos reais ou fantasiosos, tem essa característica de ficcionalidade, porque deriva da memória. Somente o FATO, no presente, no instante em que ele aconteceu, é que é FATUAL. Qualquer tentativa de retomá-lo num futuro, será parte da imaginação de alguém, ou seja, será FICÇÃO.

 

Esse tempo todo estou sendo enganado??

De fato, a fronteira que costumamos usar entre fato e ficção é ilusória e agradável (como diz o título). Ilusória pelas razões que já explicamos. E agradável porque nos faz acreditar que é possível existir neutralidade ao relatar um acontecimento, ao se noticiar algo, ao contar uma história. Quando, na verdade, não há narrativa fatual, senão o próprio acontecimento.

Essa desilusão, de que todas as informações que obtemos não passam de versões – e que elas são muito afetadas pela visão de mundo daquele que a registrou – nos faz questionar até mesmo o conceito de “verdade”. Tente pensar sobre isso. E numa postagem futura podemos voltar a esse tema.

Mas o mais importante de tudo isso não é que passemos a desacreditar completamente de tudo que lemos, assistimos ou ouvimos. O importante é que levemos esses fatores em conta ao ter contato com alguma história ou informação e saibamos buscar fontes variadas para, a partir de diferentes pontos de vista sobre um mesmo fato, construirmos a nossa própria opinião.

E quanto mais nós formos anárquicos na nossa busca de informações, mais chances teremos de chegar próximo do verdadeiro acontecimento (embora ele seja inalcançável) e mais próximos chegaremos de uma verdade (se ela realmente existir).

 

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Esse post foi inspirado no artigo A Ficção do Relato Jornalístico, de Daisi Vogel, publicado na revista USP.

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