A figura do herói e as narrativas na política (vol. 7, n. 1, 2017)

Como algumas das narrativas de heroísmo são usadas no contexto político?

 

Está difícil evitar o tema política nesses tempos. Muitos escândalos vindo à tona, eleições presidenciais batendo à porta, participação ativa das mídias tradicional e independente, constante uso de narrativas míticas clássicas pela comunicação política, crise de descontentamento e total perda de credibilidade dos três poderes, enorme polarização da população e uma (aparente) polarização dos políticos.

É evidente que o assunto não vai ser esgotado aqui. E não pretendo citar nenhum caso em particular. O objetivo desse post é apenas abordar um pouco sobre a construção da figura de um herói e a presença desse tipo de narrativa heroica no contexto político.

 

Entre heróis e vilões

Sendo um dos doze principais arquétipos definidos por Jung, a figura do herói é uma constante no pensamento coletivo de uma sociedade. Simplificadamente,

o herói é aquele que atende a critérios morais e desejos em comum de um grupo de pessoas.

Por essa razão os conceitos tanto de herói quanto de vilão não são estáticos e nem universais. Eles variam de época para época, de povo para povo, já que dependem intrinsecamente dos valores e desejos de uma sociedade.

Lucifer Rising - Uma releitura do Yin Yang por Kirsi Salonen.
Lucifer Rising – Uma releitura do Yin Yang por Kirsi Salonen.

Desde os primórdios da história humana o herói está presente no nosso imaginário. Os deuses gregos, dotados de diversas características humanas, se diferenciavam pelos seus super-poderes e a imortalidade. Eram heróis, cheios de defeitos, mas mesmo assim idolatrados pela população.

Com a ascensão do cristianismo, esses deuses foram sintetizados em dois grandes pólos: de um lado, a divina trindade, do outro, a figura de Lúcifer. Com o florescimento de uma mitologia laica, mais próxima do Renascimento, e até o ápice do positivismo, quem foi assumindo a posição de Bem foi a Razão, enquanto ao Mal sobrou qualquer coisa que à razão se opunha.

Como lembra Hilda Magalhães, nos dias de hoje “a produção literária, particularmente, a ocidental sobre a figura do herói realmente assenta-se no maniqueísmo, na unilateralidade e no sucesso do herói”. E podemos complementar dizendo que esse maniqueísmo tem fortes influências religiosas.

 

A relação herói-vilão

Cena do filme "Batman - O Cavaleiro das Trevas". O Coringa funciona como a principal "escada" para a construção do personagem Batman.
Cena do filme “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. O Coringa funciona como a principal “escada” para a construção do personagem Batman.

Joseph Campbell, estudioso na área de mitologia e autor da famosa teoria da “jornada do herói”, defende que o vilão é o responsável por levar o protagonista ao status de herói (ou anti-herói).

Por exemplo, é muito comum o vilão possuir uma força e poderes muito superiores aos do herói. Se fosse o contrário, não haveria nenhum obstáculo a ser superado pelo herói e sua vitória poderia ser vista como injusta. No entanto, por ser mais fraco o protagonista é obrigado a usar outros recursos, que o distinguem do vilão: sua inteligência, destreza, coragem e até mesmo seu amor. E com essas características, consideradas muito mais nobres que a força bruta, o protagonista supera honradamente o seu opositor, tornando-se herói.

É quase uma contradição o eterno conflito entre herói e vilão e o fato deles possuírem essa relação mutualística (quase simbiótica), na qual a existência de um não se justifica sem a existência do outro, como a luz que não existe independentemente da escuridão. Apesar dessa aparente contradição, os dois, de fato, só existem em pares.

 

Por que personagens de heróis funcionam nas narrativas?

Transformar uma história complexa e profunda numa simples disputa entre duas forças – o Bem e o Mal – torna essa história muito mais fácil de ser contada e compreendida. Esse maniqueísmo entre herói e vilão – ou anjos e demônios – é amplamente usado no cinema, na mídia em geral, arriscaria a dizer que até em (alguns?) livros de história.

jornaisPor exemplo, para noticiar uma troca de tiros entre policiais e traficantes, suponha que um jornalista resolva transformar os traficantes (ou supostos traficantes) em vilões arquetípicos, enquanto à polícia cabe o papel de herói. Com isso, ao lermos a notícia, já novelizada, romanceada, roteirizada, temos a mais nítida certeza de que os vilões estão absolutamente errados, têm motivações escusas para seus atos, suas existências ferem a dignidade humana e coloca em risco a vida de inocentes, eles devem pagar pelos seus atos e, por isso, qualquer medida tomada pelos heróis é justificável, até mesmo se precisarem matar os vilões.

Sem querer expressar juízo de valor sobre a história hipotética (ou não) acima, esse forma de contar histórias é chamada por René Köthe de narrativa trivial, e é marcada “pelo automatismo, pela repetição e pelos clichês, em nível de enredo, personagens, temário, valores e final”. Se você pegar um jornal para ler e tentar identificar esse tipo de narrativa é bem provável que encontre, e se perguntar às pessoas que impressões tiveram sobre as matérias, vai ver que essa narrativa trivial ainda por cima é bastante eficiente.

 

Um personagem um pouco mais complexo – o anti-herói

Hannibal Lecter, Dexter, Walter White, Raskólnikov, Macbeth, Frank Underwood, Pedro Bala, Macunaíma, Capitão Nascimento, Aladdin, Michael Corleone, Rorschach… Nenhum desses protagonistas possuem as virtudes e a moral do herói clássico, muito pelo contrário, têm todas as características para receberem o crachá de vilão: furto, homicídio, latrocínio, canibalismo, produção e tráfico de drogas, extorsão, abuso de autoridade, etc. Apesar de todas essas imoralidades, são personagens que despertam nossa empatia e nos convencem até a torcer por suas causas.

O serial killer mais famoso e querido da atualidade, Dexter Morgan. Um, dos vários exemplos de anti-heróis de sucesso na televisão.
O serial killer mais famoso e querido da atualidade, Dexter Morgan. Um, dos vários exemplos de anti-heróis de sucesso na televisão.

Segundo a psicóloga Tatiana Souza o anti-herói é tão fascinante e conquista as pessoas, porque ele “é a personificação da face obscura da subjetividade existente em todos os seres humanos. Pensemos numa válvula de escape que, de maneira camuflada, possibilita a descarga de todos aqueles impulsos agressivos e sexuais que estão inconscientes”. No entanto, não basta ele ser cheio de defeitos e evocarem o pior que há em nós.

O grande sucesso do anti-herói mostra que não é somente pela gama de virtudes do herói que nós torcemos por eles. Usando as palavras certas e sabendo contar histórias, qualquer pessoa – tenha ela uma moral ilibada ou seja completamente imoral, ou amoral – tem potencial de conquistar a empatia do público.

Resumidamente

Um personagem protagonista que tem motivações nobres e realiza ações nobres é um herói. Um personagem antagonista que tem motivações perversas e realiza ações perversas é um vilão. Quando uma figura vilanesca sai do papel de antagonista e ganha o protagonismo ele se torna potencialmente um anti-herói, porque passaremos a ver o mundo através de seus olhos e ele terá a oportunidade de justificar todas as suas ações e motivações sombrias (chance essa que um vilão nunca terá).

Por essa perspectiva, é possível concluir com segurança que quem tem o poder de contar a história e levar as pessoas a olharem o mundo através dos seus óculos, é que será o herói. Ou, como diria Orwell:

Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado. (1984, George Orwell)

 

Como um anti-herói inescrupuloso é capaz de nos conquistar?

Para contra-balancear os defeitos morais dos anti-heróis e torná-los fascinantes e merecedores de nossa torcida, os escritores e roteiristas utilizam alguns artifícios em comum, além de torná-los, obviamente, protagonistas da história:

  1. Backstory: Quando conhecemos os antecedentes de um personagem seus defeitos se tornam mais compreensíveis e fica bem mais fácil aceitar as suas ações e escolhas, mesmo quando elas envolvem o cometimento de algum crime.
  2. Motivos nobres: Outra maneira de humanizar um anti-herói é dar a ele motivos nobres, ou em outras palavras, justificar os meios através dos fins.
  3. Traços redentores: É comum, também, os anti-heróis demonstrarem pequenos momentos redentores, que minimizarão todo o mal que ele já cometeu. Uma demonstração de sensibilidade ou de empatia, a exposição de uma fraqueza, algum tipo de sofrimento pelo qual ele passe, etc.
  4. Colocá-lo ao lado de um vilão clássico: Construir um vilão que seja muito mais imoral que o anti-herói em questão também é essencial para que ele nos conquiste.

Por exemplo

Vamos pegar o personagem da série Dexter (se não conhecê-lo, tente observar esses 4 pontos na trajetória de outros anti-heróis). Apesar do fato dele ser um serial killer esse seu terrível lado não o impediu de ser aclamado pelo público e até visto como um “serial killer do bem”, e isso se deve (além da excelente atuação de Michael C. Hall) à excelente construção do personagem.

1) Dexter Morgan tem um passado muito trágico, que envolve a morte de sua mãe;

2) O personagem desenvolveu um código ético próprio, no qual ele só se permitia assassinar “pessoas ruins”. Já que ele nunca conseguiu livrar-se do impulso de matar, sua ética dá a ele uma forma compensar o mal que faz, e funciona como um motivo “nobre”;

3) São vários os momentos redentores que cativam o público e humanizam o serial killer: Os momentos com seu filho, sua reação após a morte da esposa (é spoiler? É, mas já fazem quase 10 anos, então não reclamem), sua relação com a irmã, seus momentos de fraqueza, etc.;

4) Como dito no item 2, os roteiristas foram muito bem sucedidos em deslocar o papel de vilão para as pessoas sob o radar de Dexter. Assassinos, sequestradores, estupradores, pedófilos, pessoas que fazem mal a inocentes. E assim, o serial killer se torna heróico ao reservar as lâminas de sua coleção de facas para essas pessoas, que dentro de sua ética são piores que ele, promovendo uma espécie de limpeza social.

E é através desse discurso que uma pessoa completamente imoral (ou talvez amoral, no caso de um psicopata) e criminosa consegue erguer-se ao posto de herói.

 

Narrativas heroicas na política

discurso políticoPara citar algumas das narrativas heroicas na política precisamos apenas deixar duas coisas minimamente estabelecidas. Primeiro, o que estou chamando de política.

De forma extremamente resumida, podemos dizer que política é o ato de mediar interesses. É também o ato de organizar, dirigir e administrar nações ou estados, mas sempre por intermédio do diálogo, de negociações, de relações sociais. Não se faz política sozinho, pelo menos, não em uma democracia.

E, em segundo lugar, o que estou chamando de narrativa. Como defini no texto sobre a fronteira entre fato e ficção,

narrar é contar uma história, através de uma sequência de acontecimentos (enredo), onde personagens se movimentam no tempo e no espaço.

E o que isso tem a ver com política?

A construção da imagem pública de um político na mídia se vale dos mesmos recursos narrativos de qualquer história de ficção. Não à toa, várias narrativas e personagens míticos clássicos também são largamente usados na construção da figura do político. Veja alguns exemplos:

 

Narrativa do herói clássico

É muito comum políticos que tenham discursos salvacionistas, messiânicos, heróicos. Paralelo ao trabalho de comunicação do político, temos também uma mídia que ajuda a fabricar narrativas heroicas, demonizando determinados políticos e enaltecendo outros, fazendo-os atender aos desejos e anseios de proteção, amparo e conforto da população.

FanArt do herói Cometa, pelo desenhista chapecoense Samicler
FanArt do herói Cometa, pelo desenhista chapecoense Samicler

Até mesmo uma pessoa de moral completamente questionável pode tornar-se herói (ou anti-herói) da nação. E os recursos midiáticos usados são aqueles mesmos que citei acima. Falar do passado sofrido da pessoa, dar à população um vilão que aparente ser muito pior, um motivo nobre e geralmente genérico (como “acabar com a corrupção”).

Além disso, um discurso extremamente poderoso é o do “eu tenho a força“. Se eu digo à população que vou fazer mil e uma coisas para livrar o país de todo o Mal e faço uma série de promessas, como se eu realmente fosse capaz de cumprir aquilo tudo, eu não terei muita dificuldade de convencer as pessoas. Quantos cidadãos realmente sabem qual é o poder efetivo de um político em determinado cargo?

Se não temos esse conhecimento, qualquer um pode se passar facilmente por um herói, dando a impressão que realmente é capaz de fazer tudo que prometeu.

 

Narrativa do político empresário

políticaBastante presente na atualidade, essa narrativa tem ganhado cada vez mais força. 1) “Eu já sou rico, logo não preciso roubar”, 2) “O Estado é como se fosse uma empresa privada, mas que gasta mais do que arrecada”, 3) “Vou gerir o país igual gerencio minhas empresas”.

Essas são algumas das afirmações mais usadas para construir a figura do empresário enquanto aquele que poderá salvar o país, e elas possuem alguns problemas bastante básicos, apesar de fazerem um aparente sentido.

1) Dizer que não vai roubar não é um ponto positivo. Cumprir a lei é o mínimo que qualquer cidadão deve fazer. E nem só de dinheiro vivem os políticos mais ambiciosos. Em muitas circunstâncias, o poder é muito mais valioso do que o dinheiro.

2) O Estado está longe de ser uma empresa privada. Para começar, os objetivos são completamente diferentes. Qualquer empresa trabalha pra obter lucro, afinal, se isso não acontecer ela não se sustenta. Mas a função do Estado é completamente diferente: manter a ordem, assegurar a defesa e promover o bem-estar e o progresso da sociedade. Querer que o Estado lucre em cima das suas atividades-fim, como essas que citei, é perverter a sua real função.

3) Além do que já disse no item 2, nenhum político trabalha sozinho. Um empresário de sucesso certamente não gere suas empresas democraticamente. Se ele fosse aplicar um sistema de freios e contrapesos, ouvir os interesses de cada um dos seus funcionários e clientes e levar tudo isso em conta, dificilmente sua empresa fecharia no verde todo mês. Portanto, é impossível existir uma gestão política democrática empresarial, porque são conceitos incompatíveis. A gestão de uma empresa não é representativa e nem democrática, porque isso também perverteria o propósito dela.

 

Narrativa do anti-político

Diante de uma enorme crise do sistema político, a população desenvolveu uma aversão a tudo que diz respeito à política. Isso propiciou um terreno fértil para essa narrativa. Qualquer pessoa que atenda a esse desejo popular de opor-se ao sistema e expressar aversão à política é capaz de conquistar muita gente e, com isso, se torna uma espécie de herói.

anti política
Recorte da imagem usada no texto de José Rafael Herrera sobre a anti-política na Venezuela.

A anti-política é estratégia de marketing bastante antiga, mas que também tem ganhado muita força ultimamente. O grande problema dessa narrativa é que ela não é verdadeira.

Afirmar publicamente uma discordância com o mainstream político e declarar-se como alguém “fora do sistema” já é, por si só, um posicionamento político. Além disso, só de estar na posição de um político, ser eleito por esse sistema e utilizar-se dele, já faz de você um político.

Quem usa essa narrativa sabe o quão bem ela pode funcionar e, sem nenhuma dúvida, conhece muito bem o sistema político no qual está se inserindo.  É como se o dono de uma empresa de carnes dissesse que é contra o abate de bois, além de um contrassenso, o que seria isso senão uma tentativa consciente e deliberada de nos enganar e confundir?

 

Por que isso tudo está acontecendo e como minimizar esse problema?

Vivemos hoje num governo tão desacreditado, perdemos tanto a fé na boa política, que está se tornando cada vez mais fácil emplacar narrativas heroicas que conquistem a população. Dizer-se um não-político, avesso à política, apresentar-se como um empresário de sucesso que vai salvar o Estado, vilanizar outros políticos para minimizar as suas próprias imoralidades, entre outras, são estratégias muito antigas, mas extremamente eficientes, para elevar-se ao posto de herói e ganhar a atenção do povo.

Não é desprezando o nosso sistema e apostando em atuações individuais que as coisas serão resolvidas. Como disse, política depende de diálogo e não existe messianismo em uma democracia. Um herói no poder tem tudo para ser um grande ditador e seus super-poderes, o fato dele ser “o escolhido” e sua capacidade sobre-humana, serão algumas das justificativas usadas para que ele continue exercendo seu poder.

Imagem de uma mulher usando Antolhos (aqueles que os cavalos usam para ter a visão limitada)

É evidente que aprender mais sobre política e saber as atribuições de cada cargo político, já nos torna um pouco menos sujeitos a alguns dos discursos mais utilizados. Lutar contra a enorme redução da anarquia na internet à qual estamos sujeitos contribui para que, pelo menos, conheçamos um pouco melhor o lado daquele que encaramos como vilão (e os podres daqueles que tomamos como heróis).

Desconstruir a figura do vilão político é também desconstruir a figura do herói político. Como já disse, uma democracia não precisa de um Messias, de um herói. Precisa é de participação popular e de políticos que realmente representem os interesses daqueles que os elegeram.

Podemos tentar enxergar os personagens do mundo político, e as narrativas construídas pela mídia em torno deles, de maneira mais crítica, tendo em mente que o maniqueísmo religioso de anjos e demônios (ou heróis e vilões) não existe no mundo real. Todos têm motivações boas e ruins, realizam ações boas e ruins, e essas várias nuances e complexidades não podem ser reduzidas a um único título de Bem ou Mal.

 

 

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Aí estão os principais materiais que usei de referência.

Artigo científico de Cléa Valle e Verônica Telles: O mito do conceito de herói.

Artigo científico de Hilda Magalhães e equipe: Do herói ficcional ao herói político.

Crônica de Rennan Torres: Políticos e Super-heróis, o que há em comum?

Texto do Blog do roteirista português João Nunes: Como escrever um anti-herói 

Texto de Victória Ferreira (ECA-USP): O Coringa: A narrativa por trás da construção do vilão carismático

Curso no site site JurisWay de Teoria Geral do Estado

Série de vídeos do professor André Azevedo: Introdução aos estudos de mitologia política

Lucas Miranda

Físico e mestre em Divulgação Científica pela Unicamp. É professor no Sistema Anglo de Ensino, Colunista da Revista Ciência Hoje, Coordenador do projeto Ciência ao Bar e Cinegrafista, Editor e Tradutor na TV NUPES (Fac. de Medicina - UFJF)

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