As mulheres que descobriram como fazer edição de genes

Publicado por Marina Barreto Felisbino em

Emmanuelle Charpentier e Jennifer Douda estão entre os exemplos de algo raro: cientistas atualmente super populares. Mais raro ainda, mulheres. Dessa forma, sua pesquisa é um ótimo colírio científico para inaugurar a ciência pelos olhos delas. Conheça um pouco mais sobre as mulheres que descobriram a tecnologia de edição de genes mais usada na atualidade.

A tecnologia

Emmanuelle Charpentier – imagem do Max Planck Insittute

Jennifer Douda – imagem do The Doudna Lab

Charpentier (atual diretora do Max Planck Institute of Infection Biology na Alemanha) e Doudna (pesquisadora do Howard Hughes Medical Institute e professora da Universidade da California, Berkeley nos EUA) foram as responsáveis por publicar um artigo em 2012 que revolucionou a maneira como entendemos e enxergamos o genoma  (conjunto de genes que determina as as característica de um organismo)

A tecnologia chamada CRISPR-Cas9 é uma maquinaria molecular que permite identificar e editar uma região do genoma, abrindo caminho para o desenvolvimento de novas terapias para diversas doenças ou ainda para a criação de organismos modificados como mosquitos Aedes aegypti estéreis, entre outras.

Abaixo, segue um vídeo (em inglês) em que Jennifer Douda explica um pouco sobre a tecnologia que inventaram.

A história 

No início dos anos 2000, apenas um pequeno grupo de microbiologistas estava prestando atenção em uma recém descoberta: um trecho do genoma de algumas bactérias chamado de CRISPR atuava como um sistema de defesa contra alguns vírus.

Bactérias podem ser atacadas por vírus, os quais são chamados de bacteriófagos. Eles aderem-se à parede celular das bactérias, perfurando e injetando seu DNA.

Ao copiar parte do DNA do vírus invasor e inserir naquele trecho, a bacteria é capaz de reconhecer caso esse tipo de vírus ataque novamente e cortar seu DNA. Diferentes sistemas CRISPR usam diferentes estratégias de ataque, entretanto todos usam uma molécula de RNA como guia.

Charpentier percebeu que o sistema CRISPR que ela descreveu na bacteria Streptococcus pyogenes era tão simples que poderia ser usado como uma poderosa ferramenta de engenharia genética, de maneira a achar, cortar e potencialmente alterar uma região precisa do genoma a nossa escolha, se os componentes desse sistema pudessem ser controlados.

Doudna e Charpentier recebendo o prêmio Breakthrough Prize in Life Sciences em novembro de 2014. Por Stephen Lam/Reuters.

Isso começou a ser possível então em 2011, quando ela encontrou-se com a bióloga estrutural Jennifer Douda na conferência da Sociedade Americana de Microbiologia em Porto Rico. Juntas iniciaram uma parceira que levou à elucidação completa do mecanismo CRISPR-Cas9, assim como sua adaptação para cortar alvos no genoma e modificar sua sequência. Desde então, essa tecnologia vem sendo utilizada por diversos laboratórios em todo mundo. Além de uma pesquisa elegante, que exemplifica como ciência básica, pode se tornar extremamente aplicável, este é também um exemplo de como parcerias são fundamentais para o desenvolvimento da ciência.

Para quem gostou e deseja saber mais informações sobre essas cientistas seguem duas reportagens:

The quiet revolutionary: How the co-discovery of CRISPR explosively changed Emmanuelle Charpentier’s life

Genome-editing revolution: My whirlwind year with CRISPR

Para mais informações sobre a tecnologia e sua aplicações:

Tudo o que você precisa saber sobre a CRISPR, nova ferramenta de edição de DNA

CRISPR: gene editing is just the beginning


Marina Barreto Felisbino

Bióloga formada pela Unicamp em 2010 e doutora na área de Biologia Celular e Estrutural em 2016. Atualmente trabalho na Universidade do Colorado em Denver-USA, onde desenvolvo pesquisa de pós-doutorado. Apaixonada pela ciência, assim como pelo alcance das mulheres à equidade. Com o desejo que todos vejam a ciência pelos olhos delas.

7 comentários

Thiago · 10 de junho de 2016 às 18:57

Muito legal o post!!
A tecnologia CRISPR-Cas9 é extremamente elegante e com maior alcance de edição que as ferramentas de manipulação do genoma “convencionais”, além de ser um bom exemplo, como ressaltado no post, da importância da ciência básica!

Silvia Gatti · 10 de junho de 2016 às 21:30

Muito clara e didática . Aprendi. Obrigada Marina é feliz com sua ação .

Roberto Takata · 12 de junho de 2016 às 01:59

Muito bom.

Além do blogue das Cientistas Feministas sobre o qual comentei outro dia:
https://cientistasfeministas.wordpress.com/
—-

Há ainda um perfil no twitter que talvez a interesse também:
https://twitter.com/mulhernaciencia

    Marina Barreto Felisbino · 12 de junho de 2016 às 12:47

    Obrigada pelas dicas, vou olhar com certeza!

Maria Luiza S. Mello · 1 de julho de 2016 às 09:41

Parabéns, Marina, Pela iniciativa!

Open Philosophy · 17 de março de 2018 às 08:30

Enormes mulheres! Doudna e Charpentier, apenas visíveis por enquanto, certamente ficarão na história como grandes figuras. Mas não apenas pela qualidade destacada do seu trabalho científico, o qual já seria mérito suficiente, mas também por causa da sua sensibilidade e lucidez enquanto ao transfundo geral, ético em particular, que os resultados desse trabalho carregam consigo. É reconfortante perceber que a comunidade científica está em condições de ir além do empenho técnico especializado e enxergar a realidade na qual os resultados desse empenho se inserem. No caso, trata-se de uma realidade em plena transformação, de uma “revolução genética” que pode, como se diz corriqueiramente, “mudar tudo, e para sempre”. Esta sensibilidade em relação ao que acontece “extra muros”, ou seja, fora do laboratório, parece ser uma qualidade essencialmente feminina. Aquela velha história de que os homens são mais “concentrados” e as mulheres mais “dispersas” pode ser verdadeira, mas o exemplo de Doudna e Charpentier levam a suspeitar que não se trata de uma diferença excludente, mas que pode render frutos valiosíssimos. A capacidade de prestar atenção a várias coisas ao mesmo tempo, de lançar-se abarcadoramente à “superfície”, não implica que imersões às profundezas sejam impossíveis.
Em última instância, não se trata apenas do “progresso” material e tecnológico, mas do desenvolvimento profundo da cultura e da civilização como um todo. Neste aspecto, a participação das mulheres é indispensável.

No caso da atuação das cientistas em questão, é necessário divulgar uma e outra vez o chamado global para interromper a aplicação do CRISPR-cas9 em embriões humanos realizado por Doudna (que pode ser visto aqui: https://www.youtube.com/watch?v=TdBAHexVYzc, e também aqui: https://www.nytimes.com/2015/12/04/science/crispr-cas9-human-genome-editing-moratorium.html?_r=0).

A esse respeito, há no nosso blog uma extensa matéria que pode ser acessada aqui:https://www.blogs.unicamp.br/openphilosophy/category/bioetica/

Em conclusão: viva a natureza feminina!
Parabéns não só pelo artigo marina, mas também pela iniciativa como um todo!

As mulheres que descobriram como editar o genoma - Blogs Científicos - UNICAMP · 9 de junho de 2016 às 16:36

[…] [..Saiba Mais..] […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *