Ciência pelos olhos da Dra. Cacilda Borges do Valle

Publicado por Marina Barreto Felisbino em

Hoje tenho o prazer de apresentar as visões de ciência da Dra. Cacilda Borges do Valle. Como de costume, essa série de entrevistas me dá uma imensa alegria por poder conhecer e compartilhar a história de mais uma grande pesquisadora.

Entretanto, pela primeira vez, calhou de estar frente a frente ouvindo-a e devo confessar que me sentir um pouco jornalista foi uma grande oportunidade. Ao entrar em sua sala, fui recebida por uma pesquisadora vibrante, que conta com orgulho sua história e se desculpa pelas calças sujas de terra de quem estava no campo. Com a modéstia, convicção e naturalidade de quem sabe, começo a ouvir atenta e impressionada os passos que a conduziram até ali – a maior especialista do mundo em capim braquiária, variedade de pastagem predominante no Brasil.

No doutorado em Illinois em 1984

No doutorado em Illinois em 1984

A pesquisadora citada como uma das 100 pessoas mais influentes do agronegócio (Revista Dinheiro Rural – 2013) e escolhida como um dos 10 heróis da Revolução Verde Brasileira (FAO/ONU, ABAG e ANDEF – 2013), sendo homenageada por isso no Forum Desafio Brasil 2050 em São Paulo (outubro 2013).

Iniciou sua carreira como agrônoma na Universidade de São Paulo- ESALQ em 1973. Já contratada pela recém criada Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), seguiu para fazer seu mestrado em Fisiologia de Pastagens nos Estados Unidos na Iowa State University of Science and Technology (1977).

Após um período de retorno ao Brasil (1978-1982), onde inicia suas atividades na Embrapa Campo Grande, no estado recém separado de Mato Grosso do Sul, parte novamente para EUA agora na University of Illinois para realizar o  doutorado em Melhoramento de Plantas.

A partir de 1986, coincidindo com a chegada da coleção do capim braquiária vindo da África, ela inicia seu trabalho em tempo integral na Embrapa. A carreira de Cacilda Borges do Valle se confunde com a entrada, caracterização e melhoramento dessa variedade de pastagem que foi fundamental para o desenvolvimento da pecuária brasileira. Como ela mesma admite, existe uma era no Brasil central antes e após a entrada da braquiária, uma planta que fez a diferença entre ser um Brasil retrógrado dominado pela saúvas e a situação atual.

Recebendo homenagem do CREA

Recebendo homenagem do CREA

1. Cientista – era isso que você queria ser quando crescesse? 

“Engraçado que não me acho tão cientista, porque na agronomia temos uma visão e atuação muito prática, mas essa parte de entender o funcionamento das coisas, a fisiologia das plantas sempre me chamou muita atenção.

Sempre fui boa aluna e gostava de estudar. Meus pais diziam que para estudar nunca faltaria dinheiro. Minha mãe não avançou nos estudos, pois na época dela mulher não ia para escola. Meu pai era engenheiro civil e sempre apreciou as ciências exatas, nos incentivando a estudar principalmente essas matérias. Embora tenhamos tido uma boa formação nessa área, 3 das 4 filhas acabaram seguindo carreiras nas áreas biológicas.

Fiz um intercâmbio de um ano nos Estados Unidos e isso me ajudou a entrar com facilidade em agronomia na Esalq. Durante a faculdade tive a oportunidade de ser escolhida a ser bolsista de Iniciação Científica, já que terminei como terceira da turma em uma classe de 200 alunos. Essa era a orientação dentre da minha casa: você tem que ser um pouquinho melhor e trabalhar um pouquinho mais que os outros. Mostre seu valor, porque essa é a receita para o sucesso.”

2. Algum cientista ou descoberta científica a inspirou na escolha dessa carreira?

“Eu gosto muito do que eu faço e meu pai era um grande incentivador da agronomia. Na época que iniciei minha carreira, estava no Brasil um consultor estrangeiro Dr. Yves Savidan que trouxe uma coleção de pastagem colonião. Esse francês passou anos na Costa do Marfim e cinco anos conosco e foi inspirador trabalhar com ele e juntos traçar o caminho para o melhoramento de forrageiras. Além disso, houve muitos pesquisadores que admirava, melhoristas de forrageiras, durante meu período no EUA, como Dr. Wayne Hanna e Dr. Glen Burton. Eles me ajudaram a vislumbrar o que seria possível fazer com forrageiras, algo que não era valorizado no Brasil. Hoje o nome da Embrapa é associado a uma semente de pastagem de melhor qualidade, mas demorou anos para atingirmos esse prestígio.”

Como consultora na Colombia em 1988

Como consultora na Colombia em 1988

3. Você já enfrentou alguma dificuldade enquanto cientista por ser mulher?

“Senti principalmente na época da faculdade. Éramos poucas, apenas 6 mulheres entre os 200 alunos do curso de agronomia e sentia que o curso ainda era muito machista naquela época.

Eu me lembro que as coisas eram muito feitas para homens. Durante as aulas de mecânica, precisávamos mexer no motor do trator e tínhamos que subir num banquinho para alcança-lo ou mesmo tínhamos dificuldade em alcançar o pedal na hora de dirigir. Os garotos tiravam pelo dessa situação. Mas aquilo não me preocupava, já que sabia que não seria isso que faria nos próximos anos.

Quando passei no concurso do Instituto florestal, logo que me formei, até estranhei, pois estava concorrendo com muitos homens. Durante os períodos de pós graduação nos EUA, já havia muito mais mulheres no departamento de agronomia. Uma vez atuando como profissional, na Embrapa, nunca senti qualquer segregação. Éramos entre 5 e 6 mulheres num total de 20 pesquisadores, um número já mais significativo.  Houve um certo questionamento no início se seríamos capazes de ir a campo. Mas mostramos com nosso trabalho, que aqui não tinha saia ou salto alto e provamos nosso valor. Aqui se você desempenhar bem seu trabalho você é promovido independente de seu gênero

4. Descreva, em poucas palavras, a ciência pelas olhos da Dra. Cacilda Borges do Valle

Analisando modo de reprodução em 2001

Analisando modo de reprodução em 2001

“No nosso caso que é uma ciência muito aplicada, porque a Embrapa é um empresa de pesquisa, mas de uma pesquisa dirigida à solução de problemas da agricultura. Então, o não se considerar cientista, está relacionado ao fato de estarmos mais olhando para o produto, como resolver um problema.

Mas precisamos lembrar que só vamos chegar a uma solução  se tivermos um embasamento. Dessa forma, é importante saber os antecedentes para chegar até aquilo e esse é a parte da ciência: você tem que ler, saber o que está sendo estudado, ter contato com outros que trabalham na área e nunca perder a curiosidade de saber mais.

Nós estamos entrando numa era de genômica, proteômica, de nanotecnologia. Nós temos que entregar uma cultivar para o produtor plantar na propriedade dele, mas, ao mesmo tempo, temos que ver por que caminhos podemos fazer isso com mais eficiência e acurácia. Por isso, você tem que olhar sua pesquisa como ciência.”

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Foi realmente um prazer ouvir essa pesquisadora tão bem sucedida que demonstra em cada palavra a paixão pelo que faz.

Para quem quiser maiores informações vale a pena ver esse vídeo em que a Dra. Cacilda fala mais sobre o capim braquiária, seu tema de pesquisa.

Clique aqui para ler outras entrevistas da série A Ciência pelos Olhos de.


Marina Barreto Felisbino

Bióloga formada pela Unicamp em 2010 e doutora na área de Biologia Celular e Estrutural em 2016. Atualmente trabalho na Universidade do Colorado em Denver-USA, onde desenvolvo pesquisa de pós-doutorado. Apaixonada pela ciência, assim como pelo alcance das mulheres à equidade. Com o desejo que todos vejam a ciência pelos olhos delas.

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