A ciência pelos olhos da Profª. Drª. Mariângela de Oliveira-Abans

Publicado por Juliana Aguilera Lobo em

A Profª. Drª. Mariângela de Oliveira-Abans, astrônoma e pesquisadora do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA).

A Profª. Drª. Mariângela de Oliveira-Abans. Arquivo pessoal. Todos os direitos reservados.

Embora minha formação seja nas Ciências Humanas e Sociais, os primeiros textos que escrevi para o Ciência pelos Olhos Delas tiveram como foco mulheres que atuaram e atuam na Astronomia e na Astrofísica. Isso se deve a uma influência familiar: meu pai, Julio Lobo, é astrônomo no Observatório Municipal de Campinas Jean Nicolini (OMCJN) há mais de 40 anos, e desde  pequena eu fui incentivada por ele a olhar para o céu estrelado.

Apesar disso, até agora eu ainda não havia entrevistado nenhuma cientista da área. Pedi recomendações ao meu pai, que prontamente me retornou com um nome: Mariângela de Oliveira-Abans, sua colega nesses anos de Astronomia. 

A Profª. Drª. Mariângela é bacharel em Física pela Universidade de São Paulo (IFUSP) e tem mestrado em Astronomia pela mesma instituição junto ao Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAGUSP), antigo Instituto Astronômico e Geofísico. 

Fez seu doutorado em Engenharia de Produção na Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI) e trabalha como pesquisadora e coordenadora de Divulgação e Ensino Não Formal no Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), órgão sediado em Itajubá (Minas Gerais) e que integra o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI).

Era uma terça-feira à tarde quando me “reuni” com a Profª. Mariângela via Skype para fazer minha primeira entrevista para o Ciência Pelos Olhos Delas. Num bate-papo que foi ao mesmo tempo extremamente didático, informativo e empolgante, Mariângela me contou sobre sua trajetória, sua pesquisa, sua atuação na divulgação da Astronomia, e refletiu sobre a pandemia e sobre ser mulher na ciência.

Confira abaixo:

Cientista – era isso que você queria ser quando crescesse?  

Na verdade, eu não tinha nenhuma ideia clara do que eu seria quando crescesse. Quando eu era criança, na década de 50, as meninas iam namorar, casar, formar família e ter alguma profissão que não envolvesse ciências exatas – isso pouco se cogitava, eram poucas as mulheres que a gente sabia que tinham, como se dizia antigamente, “uma profissão”. 

Aí eu cresci, fui para a escola e fiz naquela época o que se chamava de “científico”. Era um ensino médio dedicado a quem gostaria de seguir nas exatas; aí tinha-se as engenharias, a física, a química, a matemática. 

Quando fui fazer faculdade, prestei para Física, Geociências e Matemática. Entrei em Física  na USP em São Paulo, capital, e fiquei muito contente. Contudo, isso não era bem o que meus pais queriam que eu cursasse. Quando eu disse pra minha mãe que eu ia fazer Física, ela fez uma cara de estranheza e falou “Física, minha filha? Por que você não faz Artes, Arquitetura? Vai fazer Línguas, Psicologia, qualquer outra coisa, mas Física não!”.  Mas eu bati o pé – “eu quero porque eu quero e eu vou tentar” – e lá fui eu! 

Eu cresci também experimentando coisas, porque a minha família sempre me incentivou a aprender sobre tudo. Quando eu era criança, um dos meus tios me ensinou a pintar parede, apertar parafuso, a trabalhar com enxada, a mexer com máquinas. Então, de certa forma, eu estava num processo de descoberta. Era desse lado que eu gostava. 

Conte-nos sobre a sua trajetória até chegar ao Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA). 

Depois de entrar na faculdade de Física, comecei a perceber que eu gostava muito de laboratório e fui fazendo matérias optativas de laboratório mesmo. Até nas férias eu estava metida em laboratório, ajudando, fazendo; era muito divertido! De certa forma, minha formação é em física experimental. Como eu já brinquei várias vezes em outras entrevistas, meu negócio é apertar botão! Eu gosto de mexer com máquinas e instrumentos.

Depois, comecei a fazer Introdução à Astronomia no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAGUSP), antigo Instituto Astronômico e Geofísico, e fui gostando; gostava das matérias que eu estava fazendo e da pesquisa que o pessoal trazia para a sala de aula pra gente conhecer. 

Fui me entrosando e fazendo mais matérias, até que comecei a fazer iniciação científica, junto com duas colegas da Física, orientada por um professor indiano que trabalhava com quasares. Eu não sabia bem o que era um quasar, mas parecia ser interessantíssimo; a gente fazia aquele trabalho bem simples, porque não sabíamos nada de Astronomia. Ele inclusive publicou um artigo usando parte das reduções que a gente tinha feito (um parênteses aqui: quando a gente fala em reduzir dados, essa expressão quer dizer pegar os números, os dados, limpá-los e trabalhar com eles estatisticamente para poder fazer alguma interpretação, transformá-los em algo útil pra fazer ciência)

Depois disso, eu já tinha certeza que eu queria fazer mesmo Astronomia: me formei em Física e fui fazer mestrado em Astronomia no IAGUSP. Naquela época, eu trabalhei com nebulosas de reflexão, que são grandes nuvens interestelares formadas de gás, poeira e moléculas. Quando eu falo em poeira interestelar, é aquilo que você encontra fora de casa, no seu jardim – são basaltos, silicatos, gelo de água que a gente chama de gelo sujo porque está misturado com os grãos de poeira, além de átomos, como o hidrogênio.

E essas nuvens estão perto de berços de estrelas. Elas são nuvens muito frias (“frio”, em Astronomia, é por volta de menos cento e quarenta graus, cento e oitenta graus Celsius), tão frias que a luz visível das estrelas que estão atrás delas não passa, aí você vê aquela mancha escura no céu. 

Nessa época eu estava interessada em responder uma pergunta: do que são feitos e qual é o formato desses grãos de poeira? Então, nós tínhamos um trabalho que era teórico e observacional ao mesmo tempo. A teoria era usar diferentes modelos de grãos: poderiam ser bolinhas, semi esféricos ou cilíndricos. Eu tinha tabelas com os diversos materiais; queria saber “Como esses materiais refletem a luz, nas diferentes cores, nos diferentes comprimentos de onda?”

Essa era a parte teórica, eu rodava modelos em computador. E para a parte observacional, que era muito mais legal, eu vinha para o Observatório do Pico dos Dias (OPD), gerenciado pelo Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA). E eu vim observar as tais nebulosas de reflexão!

Observatório do Pico dos Dias (OPD). Créditos: LNA. Todos os direitos reservados.
Observatório do Pico dos Dias (OPD). Créditos: LNA. Todos os direitos reservados.

Era o meu sonho trabalhar no LNA e eu vim trabalhar aqui! Quis a vida, não é? Só que no começo a equipe daqui me chamava de pé frio, porque quando chegava a minha vez de observar, segundo o cronograma de distribuição de tempo de telescópio, sempre chovia! Peguei muita chuva, mas consegui os dados e terminei meu mestrado. 

Aí o que aconteceu? Eu acabei me casando com um astrônomo chileno e fui pro Chile. Lá eu trabalhei em pesquisa com o pessoal da Pontifícia Universidade Católica em Santiago.

Toda essa minha trajetória só reforçou os dois aspectos que eu mais valorizo até hoje: um é o da minha pesquisa em Astronomia e o outro é o da divulgação. Isso porque quando eu estava lá no mestrado, eu tinha muito contato com o pessoal que dava as aulas nos cursos de verão no IAGUSP e a gente viajava pra mostrar o telescópio e o círculo meridiano que a USP tem em Valinhos/Vinhedo (São Paulo), no Observatório Abraão de Moraes, e o radiotelescópio lá em Atibaia, o Rádio Observatório Pierre Kaufmann, também em São Paulo, que hoje é operado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE/MCTI – e que pertence à Universidade Mackenzie. E com isso, percebi que gostava muito de contar para as pessoas sobre Astronomia e sobre ciências em geral

Esse contato com o público externo, certo? Sair do laboratório, da sala de aula. 

Exatamente. E é um pessoal que gosta muito do assunto! Então, depois disso, eu descobri que ser cientista ou pesquisadora, na verdade, é também algo que tem a ver com a forma de ser das pessoas. É necessário tirar um pouquinho aquela visão estereotipada que se têm de que o cientista, principalmente o astrônomo, é aquele ser que fica em cima de um pedestal de mármore, que o que ele fala é o certo absoluto ou que ele vive no mundo da lua e não sabe nem o que está acontecendo aqui embaixo. 

Precisamos desmistificar todas essas ideias. Então, complementando a resposta à primeira pergunta, eu não sabia que eu queria ser cientista, eu descobri que eu queria ser cientista, pesquisadora, pelo caminho. Eu fui sendo guiada pelas minhas experiências de vida, pelo que eu conheci de outras pessoas nos lugares que fui, nos congressos que participei, e lendo – a gente lê muito, e sobre vários aspectos, não só sobre aquela área na qual trabalhamos.

Aproveitando esse gancho, a próxima pergunta se refere justamente a isso: Alguma cientista ou algum cientista ou descoberta científica te inspirou na escolha da sua carreira? Ou, como você estava me dizendo, foi uma confluência de fatores? 

Você sabe que, conforme você vai descobrindo que gosta de fazer pesquisa científica, você se dá conta de que é realmente muito curioso, certo? A gente se interessa por muitas coisas e obviamente não acabamos nos especializando em todas. Então, eu lia muito sobre tudo que era assunto, como toda adolescente. Eu escrevi poesia, quis ser arqueóloga, paleontóloga…

Eu também queria ser arqueóloga na infância!

Sim, muita gente com quem eu converso também pensou nessas coisas durante a adolescência! E não tem um pesquisador, um cientista, ou uma notícia que realmente me influenciou tanto. Eu acho que realmente foi o convívio com pesquisadores de diversas áreas, foi a leitura de diversos assuntos, principalmente de Astronomia. Os institutos que eu frequentei, as pessoas com quem eu conversei – esse seria um bom resumo. Eu fui me descobrindo ao longo do caminho. 

E como tem sido a sua atuação no LNA?

O LNA não é um instituto de pesquisa pura; na verdade, ele é um prestador de serviços. Servimos a comunidade astronômica brasileira e nossa missão é proporcionar ao astrônomo brasileiro telescópios e instrumentos de última geração para a pesquisa que ele resolver fazer. Isso tanto em solo brasileiro, quanto no exterior. 

Dessa forma, somos desenvolvedores de instrumentação astronômica. As pessoas nos associam muito ao Observatório do Pico dos Dias, mas ele é só um dos nossos departamentos. O nosso nicho de altíssima tecnologia é justamente o projeto, o desenvolvimento e a construção de instrumentos para telescópios no Brasil e no exterior, tanto para brasileiros, como para consórcios internacionais. E a nossa expertise, como se diz hoje em dia, é justamente o uso de fibras ópticas em Astronomia.

Laboratório de fibras ópticas. Créditos: LNA. Todos os direitos reservados.
Laboratório de fibras ópticas. Créditos: LNA. Todos os direitos reservados.

As fibras ópticas usadas na Astronomia são extremamente delgadas, muito mais do que as de telecomunicações. Nós detemos a tecnologia para manipular as fibras, para poli-las e para encaixá-las em tubinhos, colocar uma lente na frente de cada uma – nós puxamos um cabo de mil e trezentas fibras! Nós temos a tecnologia para alinhá-las e obtivemos patentes por desenvolver novos materiais de polimento e por criar e usinar peças para segurar essas fibras. 

Também temos pesquisa própria porque somos nove astrônomos e um físico, cada um com um campo de atuação diferente. Mas como somos poucos, é um instituto pequeno, sobra trabalho e falta gente. Assim, alguns de nós se dedicam à instrumentação astronômica, outros à geração de códigos de computador, à programação, e alguns trabalham com os consórcios internacionais, com o apoio aos usuários.

Eu sou responsável pela parte de Divulgação e Ensino Não Formal. Coordeno alguns estagiários para que a gente atenda visitas, principalmente de escolas públicas, ao Observatório do Pico dos Dias, que fica entre os municípios de Brazópolis e Piranguçu, e ao nosso querido Observatório no Telhado, que é um observatório pequeno que temos em nossa sede em Itajubá.

Observatório no Telhado. Créditos: Mariângela de Oliveira-Abans. Todos os direitos reservados.
Observatório no Telhado. Créditos: Mariângela de Oliveira-Abans. Todos os direitos reservados.

Além disso, a minha equipe também desenvolve material didático e experimentos que podem ser emprestados para escolas, e eles viajam em grandes baús ou são usados em exposições. Também temos uma coleção de banners e a Biblioteca Itinerante de Astronomia, que não é enorme, mas que contém livros, desde infantis até em nível de graduação, que são emprestados a escolas. 

Outro aspecto do trabalho da minha equipe é dar assessoria a professores e estudantes quando eles precisam fazer trabalhos; a gente dá palestras no LNA, no OPD, nas escolas, a gente viaja. Temos uma colega que atua na parte de assessoria de imprensa, emitindo notas para a mídia. Temos todo um trabalho virtual no nosso portal de ensino e divulgação.

Agora, com a pandemia da COVID-19, os eventos presenciais deram lugar a uma programação virtual periódica. Um dos eventos presenciais era o “Sábados Crescentes”: uma vez por mês, na nossa sede, dávamos uma palestra no sábado à noite, na lua crescente. Já há dois anos a gente vinha transmitindo esses Sábados Crescentes pelo Facebook; agora, com o distanciamento social, eles continuam apenas virtualmente.

Eventos como o “Tarde e Noite de Portas Abertas no Observatório do Pico dos Dias” também foram para o plano virtual. Esse foi o primeiro ano que a gente fez isso e foi um evento que ultrapassou todas as nossas expectativas – em termos de público, de visualizações, de participação; ficamos cinco horas no ar, direto! Foi muito legal porque tivemos rodas de conversa, vídeos com depoimentos e “Viola ao Cair da Tarde” apresentada por um dos nossos colegas. 

Tivemos também, ao final, um evento ao vivo online com astrônomos amadores de três lugares do Brasil em que eles mostraram o céu como os seus telescópios. Contamos com a participação de pessoas de todos os lugares do Brasil, foi bem legal e gratificante. Então, ano que vem, mesmo que a pandemia tenha passado, a gente vai realmente apostar em eventos presenciais acompanhado dos virtuais. Essa é a parte da divulgação. 

E a parte da pesquisa?

Em termos de pesquisa, quando entrei no LNA, eu vinha trabalhando com nebulosas planetárias, que são objetos que sobraram depois da morte de uma estrela de baixa massa. Quando uma estrela como o nosso Sol morre, ela fica instável no final e, de repente, dá um “suspiro”, ejeta sua atmosfera e seu núcleo se contrai. 

Eu trabalhava com nebulosas planetárias junto com o meu marido, é a área dele. Com o passar do tempo a gente descobriu outras áreas e passamos a trabalhar em Astronomia extragaláctica, ou seja, com galáxias de um tipo especial – começamos  trabalhando com galáxias aneladas colisionais, que são galáxias que ganham um anel depois de colidirem. 

Vocês já devem ter jogado pedra numa poça d’água, certo? Formam-se aqueles anéis. Então, é mais ou menos a mesma coisa, você tem uma galáxia com um disco, vem uma outra que passa por ela e dá esse efeito de abrir um anel. É muito legal. Ao ver imagens de uma típica galáxia anelada, podemos observar, pelas cores, que a porção azulada representa justamente o anel – essas são as estrelas mais quentes e, portanto, mais jovens. 

Galáxia Anelada colisional AM 0644-741. Créditos: Hubble Heritage Team (AURA / STScI), J. Higdon (Cornell) ESA, NASA. Todos os direitos reservados.
Galáxia Anelada colisional AM 0644-741. Créditos: Hubble Heritage Team (AURA / STScI), J. Higdon (Cornell), ESA, NASA. Todos os direitos reservados.

Já no núcleo e no bojo que sobrou ali no meio, enxergamos uma cor amarelada devido à presença de estrelas de superfície mais fria. E elas existem há muito tempo, são mais velhas. 

Há uma série de galáxias aneladas: as com dois núcleos, as com vários tipos de anéis; há também aquelas com o núcleo bem redondo e grande, outras que se assemelham a um anel solitário, e as que são distorcidas. Enfim, tem toda uma série de morfologias e de aparências. 

Nós trabalhamos com dois grandes tipos de observação: fotometria e espectroscopia. Fotometria vem de fóton, uma porçãozinha de luz. O que a gente estuda? A cor dos objetos. Estudamos quais partes da galáxia são mais azuis ou mais vermelhas – lembrando que a cor indica a temperatura da superfície dessas estrelas que estamos observando. 

Também estudamos o espectro (nome técnico do arco-íris) dessas galáxias. É pelo espectro que tiramos uma série de informações, como a composição química, a massa aproximada, se a galáxia está girando em torno de si mesma, se está se afastando ou chegando perto de nós, indo ou vindo. 

Juntando a fotometria e a espectroscopia, posso entender como as estrelas e o gás se movem dentro dessas galáxias. Se eu estudar o núcleo dessas galáxias, a parte mais brilhante, mais compacta, eu posso descobrir se há dois núcleos, ou só um; também posso descobrir se esse núcleo é “normal” ou se tem algo “escondido” dentro dele, como um núcleo ativo – núcleo ativo de galáxia é a forma genérica pela qual a gente chama galáxias que produzem muita energia, talvez pela presença de um buraco negro; essa é uma possível explicação. 

E aí tem uma série de classificações. Não existe só um tipo de núcleo ativo, tem vários, e temos descoberto que nessas galáxias que se chocam há um núcleo ativo no centro. A interação entre essas galáxias faz com que a matéria bem lá no centro comece a se aglomerar cada vez mais e isso pode gerar um acúmulo de energia que vemos, e que resulta até em emissão de raios-X.

E quando eu falo que tais galáxias são colisionais, não me refiro à ideia de que elas se “batam”. Imagine duas crianças na praia jogando areia uma na outra; a areia não vai simplesmente bater no meio do caminho e cair, mas os grãos vão passar uns pelos outros e atingir as crianças, passando quase sem se chocar.

O espaço entre as estrelas, a distância entre elas, é algo extremamente grande quando comparado ao tamanho das próprias estrelas. Então é pouquíssimo provável que haja estrelas se chocando; é mais provável que elas passem umas entre as outras e tenham sua órbita e sua trajetória alteradas. Tudo isso acontece por causa da força de atração gravitacional.

Assim, quando as galáxias chegam perto, elas já “sentem” a presença uma da outra e há interações de maré, ou seja, essas galáxias já começam a se deformar um pouquinho por causa da presença da outra. Se realmente chegarem a passar uma pela outra, temos os exemplos que podem ser vistos por meio de imagens feitas pelo telescópio Hubble. O que nos interessa na pesquisa são essas colisões. 

Em resumo, eu trabalho com divulgação e faço pesquisa em Astronomia extragaláctica. Também sou gerente nacional do Telescópio Canadá-França-Havaí (CFHT), que é um telescópio do qual o Brasil, por acordo, teve tempo de acesso em troca de know-how e de pesquisadores visitantes. No momento, nenhum brasileiro está usando o telescópio porque estamos numa fase de reescrita do acordo, mas eu acredito que em 2021 vamos prosseguir nesse sentido e reabilitar o acordo.

Na verdade, é muito comum fazer acordos técnico-científicos, dando a chance de pesquisadores, jovens ou não, irem de um país pro outro e de uma instituição para outra. Morar fora, ajudar, aprender. É uma forma do LNA formar recursos humanos. Isso aconteceu não só com o CFHT, mas também com o Observatório Gemini e o Telescópio SOAR

A pandemia impôs novos desafios à divulgação técnico-científica, como você já havia mencionado. Mas também possibilitou novas dinâmicas; por exemplo, gente de todo o Brasil passou a se reunir virtualmente com mais frequência para aprender e para compartilhar conhecimento. Você gostaria de fazer mais algum comentário a respeito disso?

Houve uma mudança de paradigmas muito grande nas relações interpessoais, de trabalho, de educação, de ensino e aprendizado. Eu acho que não tem volta no seguinte sentido: agora as pessoas já descobriram esse meio virtual. 

Acho difícil que o aumento no contato virtual simplesmente desapareça depois da pandemia, porque é uma facilidade grande em termos de divulgação, é uma chance muito grande, uma oportunidade que nós não podemos perder porque a gente atinge massivamente um público que antes não teria condição, por exemplo, de vir até o LNA.

Antes da pandemia, a gente tinha sim um público cativo que às vezes viajava três horas para assistir uma palestra no sábado à noite. Mas a maior parte das pessoas não tem como, então, dependiam de assistir depois quando ficava gravado nas redes sociais, mas não tinham chance de fazer perguntas. 

Eu acho que o público já descobriu que existe essa interação e que pode fazer perguntas, porque você não precisa mais ter vergonha de perguntar, e as pessoas respondem na hora! Os pesquisadores participam das lives com muito boa vontade, gostam do que fazem! Divulgar é um prazer, então as pessoas estão aproveitando isso. 

Mesmo quando acabar a pandemia e as coisas voltarem a ser presenciais, a parte virtual não vai deixar de existir. Eu acho que isso é um grande trunfo para quem realmente quer alcançar pessoas de todas as esferas sociais, de todas as idades e em todos os lugares, não só no Brasil.

Você já enfrentou alguma dificuldade enquanto cientista por ser mulher?

Com certeza! Eu não tenho problemas na questão salarial porque, como servidora pública federal, meu salário é definido por regras, não tem como eu ganhar menos do que um colega do gênero masculino que esteja na mesma posição; e as bolsas das agências de fomento, como o CNPq, têm valores fixados. Nessa parte não enfrentei dificuldade.

Durante a faculdade ninguém nunca virou as costas pra mim por conta do meu gênero. No entanto, claro que, ao longo do meu percurso, com muito mais anos de trabalho, a chance de sofrer algum preconceito é maior. 

Já passei por episódios em que pessoas achavam que eu não era capaz, por exemplo, de lidar com aqueles gravadores de rolo, de fita, que eram enormes. As pessoas falavam “espera que eu te ajudo, isso é complicado”, e eu pensava “complicado como? é só colocar o rolo e tirar o rolo” e coisas assim. Mas eu acho que isso tem mais a ver com a mentalidade de alguns indivíduos, e eu nunca prestei atenção nisso, nunca dei bola. 

Eu fiz o que eu quis, escolhi a carreira, fiz a pesquisa e fui em frente; eu acho que essa é uma recomendação boa para as meninas e adolescentes. Mas com certeza sei de histórias desagradáveis com outras colegas, inclusive jovens. Não faz muitos anos que aconteceram casos bem lastimáveis de pessoas querendo tirar proveito de pesquisadoras mais novas. 

E durante a sua graduação em Física, como era a proporção de homens e mulheres entre os alunos?

Olha, eu diria que chegava quase a metade-metade, naquela época. Hoje diminuiu um pouco, e eu tenho lido algumas coisas, conversado inclusive com astrônomas mais jovens, e existe o famoso efeito tesoura¹, em que na graduação há muitas mulheres, e de repente, quando você sobe um degrau pro mestrado, as mulheres começam a diminuir de número; você sobe mais um degrau pro doutorado, o número diminui ainda mais.

Como você enxerga a inserção das mulheres na Astronomia e na Astrofísica atualmente? 

Na Sociedade Astronômica Brasileira tem muitas mulheres, eu não sei te dizer ao certo a porcentagem, provavelmente é menos de cinquenta por cento – pelo menos era assim antigamente. Sobre o efeito tesoura, mesmo na graduação, se você pensar em termos de família e de sociedade, as meninas já são desencorajadas logo no começo.

E é por isso que hoje em dia vemos tantas iniciativas de grupos de pesquisadoras que incentivam meninas, além de programas dirigidos a meninas e adolescentes, visando permitir maior equidade – não igualdade, mas equidade, são palavras sutilmente diferentes. Realmente a questão de gênero está em discussão e tornou-se uma discussão saudável. E estar atento ao preconceito, seja ele qual for, de raça e/ou de gênero. 

É como se uma nova era estivesse acordando. Vai ter muita luta pela frente? Vai, claro. Vai ter muita injustiça ainda? Vai. Você não muda as coisas do dia pra noite, mesmo porque as pessoas já cresceram, já foram educadas de certa forma. E educadas não só pelo pai e pela mãe, mas por toda uma cultura.

Aproveitando o tópico, eu gostaria de relembrar o trecho de um texto que publiquei no blog em setembro de 2019: “Em 2019, a participação de meninas na Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA) caiu de forma considerável. Segundo informações publicadas pela Agência Brasil², a quantidade de meninas inscritas vem diminuindo ano a ano desde 2010, tendo caído de 53% para 48% em 2018”. Esse é um dado preocupante, certo?

Eu fico surpresa e triste com essa notícia. É preocupante e precisamos descobrir quais são as causas dessa diminuição, porque a participação das meninas ou de qualquer estudante depende fundamentalmente dela/dele saber que a OBA existe e o que é a OBA, e que escola e docentes apoiem essa participação – isso porque é necessário ter uma professora ou um professor responsável pelos alunos que vão participar. Precisamos atuar em várias frentes e descobrir onde o elo sofre um abaixamento de comunicação que esteja impedindo que todo mundo saiba sobre a OBA.

Mas eu queria falar sobre uma experiência que temos aqui no LNA: promovemos todo ano um concurso chamado “Concurso de Imagens do SOAR” (o SOAR é um telescópio brasileiro em consórcio com universidades norte-americanas e fica nos Andes chilenos). A dinâmica é a seguinte: estudantes, em dupla ou individualmente, propõem um objeto celeste para que o SOAR observe e faça uma imagem. Os alunos, acompanhados de uma professora ou um professor, precisam justificar cientificamente por qual razão essa imagem é interessante e explicar qual é o mérito científico de observar esse corpo celeste.

Os ganhadores são premiados com a imagem que sugeriram que o SOAR fizesse. Um dos nossos astrônomos prepara a imagem, que é colocada numa moldura, e alguém da nossa Coordenação de Astrofísica viaja até essa escola para levar o quadro e dar uma palestra sobre o LNA e o objeto celeste da imagem. Alunos de todo o Brasil participam do concurso, inclusive grupos com meninas. Desta forma, as meninas estão ali participando e ganhando, não são só os meninos. Quando dávamos palestras em escolas, as meninas compareciam e faziam perguntas, ou seja, elas procuram saber. 

E já me aconteceu, quando recebia visitas lá no OPD, de aparecer uma jovem falando “Mariângela, lembra de mim? Quando eu era mais nova falei com você que eu queria fazer Física”. Eu lembrei e ela respondeu “Pois é, eu estou fazendo Física!”. E isso é gostoso e gratificante.

Antes de irmos para a pergunta final, eu queria colocar uma questão que me surgiu durante a nossa conversa. Você falou que era incentivada pelos seus familiares durante a infância a descobrir coisas novas. Em muitos textos do blog, não só nos de minha autoria, percebo que esse incentivo dos pais desde a infância das cientistas é mencionado, e não só nas entrevistas que fazemos como também nos textos da categoria “Na História”, em que celebramos cientistas de outras épocas. Você poderia comentar um pouco sobre isso e falar da importância de instigar a curiosidade desde cedo?

Cada pessoa tem uma personalidade; a criança não é exatamente uma tabula rasa, ela não é um papel totalmente em branco. Ela tem uma certa capacidade de “ser escrita”, e todo e qualquer incentivo que você dê é válido – eu recebi isso. Meus pais conversaram comigo sobre a natureza e me deram a chance de mexer em coisas; talvez eu já fosse uma grande “mexedora de coisas” e eles simplesmente foram alimentando essa curiosidade, essa capacidade. É o que eu chamo de plantar em terreno fértil.

Tenho dois filhos e desde pequenos eles viram tudo quanto foi bicho, verme, inseto, para que não tivessem nojo; plantamos coisas, tivemos gato, tivemos hamster, e eu deixei eles misturarem vinagre com sal, azeite e detergente para ver o que acontecia, acompanhei eles em pequenos experimentos desse tipo. Então, eu acho que a gente deve mostrar caminhos. Acho que, no fundo, esse também é o papel do professor e do divulgador: mostrar caminhos.

A gente acaba não ensinando tudo. Se você ensinar a procurar, já é meio caminho andado. Minha família me deu, sim, um grande incentivo; minha mãe, por exemplo, me incentivou muito a estudar línguas. Como meu avô era radioamador, ela ouvia muitas conversas, isso nas décadas de 1930 e 1940, e por pior que ela falasse sem ter estudado, ela sabia um pouco de espanhol, de inglês, de francês, de italiano, de alemão. Então, em casa, eu tinha esse estímulo. Ela plantou em terreno fértil, né? Aprender idiomas é uma das coisas que eu gosto muito. 

Além disso, na minha família materna havia pintores e artistas. Meu tio era desenhista também e minha mãe me incentivava; essas coisas vão entrando na cabeça da criança e ela vai se apoderando dessas qualidades. Posso dizer que saí da infância com uma bagagem muito grande para aproveitar o que mais a escola e a universidade viessem a trazer. Eu acho importante aproveitar o núcleo familiar para criar condições para a “efervescência”, dar condições para que a criatividade aflore.

E outra coisa: se possível, os pais deveriam levar os adolescentes para visitar uma faculdade e falar com os profissionais sobre o dia a dia da profissão que o jovem almeja seguir. Os pesquisadores nas universidades costumam ser abertos para conversar. Fiz isso com meus filhos: levei pra conversar, agendei encontros e assim você abre os horizontes, que é mais ou menos o que eu também fiz na faculdade, me matriculei em cursos e abri meus horizontes. Então esse seria um conselho; complementando, eu sempre digo que o que você sonha em fazer, o que você quer fazer e o que você pode fazer nem sempre são a mesma coisa.

Finalmente, descreva a ciência pelos olhos da Profª. Drª. Mariângela de Oliveira-Abans. 

A ciência é uma aventura linda, empolgante e que eu faço questão de compartilhar com as pessoas. A ciência que a gente faz no país é de primeira linha: é um dever do cientista divulgar esse conhecimento, é um direito do cidadão receber esse conhecimento, porque ele só vai ser um cidadão pleno se tiver consciência do que existe em ciência no país dele, o que está sendo feito, onde é aplicado o dinheiro do imposto dele, porque a ciência não é uma tábua de salvação imediata. As ciências básicas – Física, Matemática, Biologia, etc. – são ciências que geram conhecimento. 

Sabe aquelas velhas perguntas desde o tempo das cavernas? “Quem sou eu? O que é isso tudo em volta de mim? O que vai acontecer comigo?” – é o que o cientista tenta responder. E esse conhecimento que ele acumula, que ele gera, é como uma pilha de areia em que você vai formando uma base sólida para poder colocar mais areia em cima. Os benefícios são sentidos na sociedade depois, porque esse conhecimento permite que sejam geradas tecnologias aplicáveis. 

A gente hoje fala por celular e tira selfie porque lá atrás na Astronomia alguém precisou inventar a câmera digital para avançar nas pesquisas. Meu diretor gosta de falar do leite em pó, que foi inventado para que os astronautas pudessem consumir durante as missões espaciais. E temos também o escaneamento com ressonância magnética – a interpretação dessas imagens de ressonância, esses programas de computador, eles vão nascendo na Astronomia, por exemplo, e em outras ciências também. 

Em resumo, a ciência básica reverte em benefícios para o cidadão a médio e longo prazo. Mas se não tivermos ciência básica, não há nenhuma chance de o país avançar. A ciência básica é muito importante! 

E quando eu digo que ciência é uma aventura, é porque é empolgante, a gente se entusiasma e ama o que faz! Acho que essa é uma das raras profissões em que o profissional se sente realizado, porque no fundo ele está, no bom sentido, “brincando”, ele está fazendo o que gosta. E na ciência tem campo para todo mundo, para todos os interesses. 

A gente é apaixonado pela natureza e pelo universo, principalmente, que é o nosso laboratório. É o nosso “parquinho de diversões”. Eu acho que a ciência merece respeito tanto do público, como das autoridades. Também devemos ter um certo cuidado ao entrar em contato com o conhecimento científico, porque ele não pode ser tido como absoluto e nem como “a palavra dos deuses”.

Como a ciência caminha nas pernas de várias pessoas, ela tem suas tendências e sua forma específica de trabalho, que é o famoso método científico; é justamente por essa forma de trabalhar que teorias são revistas, reformuladas ou jogadas fora. É assim que o conhecimento avança, às vezes descartando o que não explica a natureza e encontrando novas explicações. Então, a gente não pode dizer que tal coisa é “assim”, que uma estrela nasce e morre desse jeito ou daquele, só porque tem um modelo que está funcionando até o momento. Na hora em que encontrarmos estrelas cujo comportamento não é bem explicado pela teoria, vamos procurar o quê? Aperfeiçoar e adaptar a teoria, e outros pesquisadores vão checar todos esses dados, todas essas alterações e replicar os resultados – é assim que a ciência avança. Assim sendo, essa é a palavrinha de cuidado para quando a gente entra em contato desavisadamente com notícias que dizem que tal coisa é “desse jeito”. Até o momento é desse jeito, o que não significa que é estanque. E é isso que é empolgante, é essa aventura que eu adoro.

Agradeço imensamente à Profª. Drª. Mariângela de Oliveira-Abans por ceder seu tempo para a realização desta entrevista e por generosamente compartilhar conosco suas experiências, vivências e seu conhecimento teórico e empírico não só em Astronomia como em Divulgação e Educação Não Formal. 

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Veja abaixo a participação da Profª. Drª. Mariângela na série “A Ciência que eu Faço”, projeto realizado pela jornalista Vera Pinheiro:

“A Ciência que eu Faço – Mariângela de Oliveira-Abans”. Projeto de Vera Pinheiro.

Notas

¹ Mencionamos o efeito tesoura no texto “O Prêmio de Pesquisa para Mentoria em Ciência da Nature e as 10 mulheres laureadas até hoje”. O artigo “Geographic and Gender Diversity in the Brazilian Academy of Sciences” (2017) explora mais sobre o efeito tesoura e a desigualdade de gênero na ciência e na academia brasileira: https://www.scielo.br/pdf/aabc/v90n2s1/0001-3765-aabc-201820170107.pdf 

² “Participação de meninas cai na Olimpíada Brasileira de Astronomia”, matéria publicada pela Agência Brasil em 03/02/2019. 


Juliana Aguilera Lobo

Graduada em Relações Internacionais pela UNESP Franca, atualmente é aluna especial no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. Realiza pesquisa nas áreas de Ciência Política e Estudos de Gênero e tem interesse em Divulgação Científica. É fascinada pelo céu estrelado desde que se entende por gente.

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