A ciência pelos olhos da Dra. Allison Porman Swain

Publicado por Giovana Maria Breda Veronezi em

A Dra. Allison P. Swain na Universidade do Colorado - Anschutz. Arquivo pessoal.

A Dra. Allison P. Swain na Universidade do Colorado – Anschutz. Arquivo pessoal.

É com muita satisfação que apresento a convidada especial de hoje, a Dra. Allison Porman Swain.

Allison graduou-se pela Universidade de Lehigh em 2009 e obteve o Doutorado em Biologia Molecular, Biologia Celular e Bioquímica na Universidade de Brown em 2014, estudando o mecanismo de mudança de fenótipo branco-opaco1 em Candida tropicalis, uma das espécies de fungo causadores da candidíase. 

Após defender seu Doutorado, Allison morou por 5 meses em uma comunidade ecológica sustentável em Modi’in, Israel, participando do programa Eco-Israel. Lá, ela aprendeu sobre vários aspectos da vivência sustentável e ganhou certificação em design de permacultura2

Allison analisando cultura
de células em microscópio.
Arquivo pessoal.

De volta aos EUA, Allison trabalhou em fazendas de produção orgânica no Colorado antes de ingressar na Universidade do Colorado – Anschutz em sua posição atual como Pós-doutoranda. Ela agora estuda o papel das modificações epigenéticas3 – pessoalmente, um dos meus campos favoritos na ciência! – na regulação da formação de heterocromatina4 em células de câncer de mama.

Além da ciência, uma das paixões de Allison é a promoção de oportunidades iguais para mulheres e minorias neste campo. Ela é membro da organização Mulheres na STEM (da abreviação em inglês Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) presente no campus da Universidade do Colorado – Anschutz. Ela já foi presidente do grupo e agora é chefe de um programa de orientação que lançou em maio do ano passado, com o objetivo de facilitar as relações de orientação no campus, combinando pares de orientador(a)-orientado(a) e criando uma comunidade de orientação.

Sabendo de seu interesse e envolvimento neste assunto, além da incrível pesquisa que ela conduz, eu a convidei para essa entrevista. Aqui, Allison compartilha mais sobre sua trajetória, inspirações e suas ideias sobre a ciência. Você pode conferir tudo isso abaixo!

Ao final, na página 2, está disponível também a versão não traduzida da entrevista, originalmente concedida em inglês.

1. Cientista – era isso que você queria ser quando crescer?

Eu sempre amei a natureza e estar ao ar livre. Quando criança, minhas atividades favoritas eram dançar, jogar futebol e subir em árvores. Quando bem pequena, eu queria ser artista – dançar e escrever poesia (eu realmente amava fazer as coisas rimarem). Quando eu cresci, eu me destaquei nas minhas aulas de ciência e adorava ajudar os outros, então fiquei interessada em fazer algo no campo da medicina.  Quando eu fui para a faculdade, envolvi-me com a pesquisa e decidi seguir um novo caminho no campo da biologia e me tornar cientista.

2. Algum cientista ou descoberta científica a inspirou na escolha dessa carreira?

Um campo que despertou meu interesse na ciência foi o da regulação epigenética. Era fascinante para mim como os genes são ligados e desligados em diferentes células. Eu achei extraordinário o fato de todas as nossas células terem o mesmo DNA e ainda assim resultarem em um organismo com diferentes órgãos e tipos celulares. Eu acho que a biologia e a vida em geral são milagres complexos que os biólogos têm a chance de desvendar e descobrir, e isso é divertido!

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“Um dos meus objetivos atuais é fomentar a inclusão na biologia e lutar pelo que é certo.”

(À esq.) Allison mostrando prêmio concedido a ela por apresentação de sua pesquisa em formato de pôster. Arquivo pessoal.

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3. Você já enfrentou alguma dificuldade enquanto cientista por ser mulher?

Tenho sorte por sempre ter me sentido apoiada em ser o que eu quisesse ser quando jovem crescendo em Nova Jersey. Eu tive várias oportunidades de fazer pesquisa durante a faculdade, e trabalhei em grupos de pesquisa que eram abertos e me aceitavam enquanto mulher. 

Durante o meu doutorado, eu encontrei algumas dificuldades no laboratório em que estava. Enquanto um colega estava preparando um artigo científico dele para publicação, eu percebi que fui deixada de fora como autora, apesar das minhas observações experimentais terem me levado a sugerir os experimentos que fundamentaram o artigo. Embora eu tenha confrontado os outros autores, eles decidiram não me incluir no artigo pois eu não estava envolvida na redação e edição do mesmo. Em outro artigo que eu escrevi o rascunho inicial como um capítulo da minha tese, eu fui rebaixada a co-autora, e então segunda autora, durante o meu tempo afastada do laboratório, estudando e trabalhando com agricultura.

Eu me senti desencorajada e este foi um dos motivos pelos quais eu decidi fazer uma pausa da ciência entre o meu doutorado e o pós doutorado. Eu não queria trabalhar em um campo que estivesse tão preso em suas maneiras de promover os homens primeiro, mesmo que seja algo inconsciente ou devido a um viés implícito. 

Agora, eu entendo a importância de promover a inclusão e a diversidade na ciência. Um dos meus objetivos atuais é fomentar a inclusão na biologia e lutar pelo que é certo. Eu espero promover outras mulheres e minorias na ciência, pois perspectivas e históricos variados impulsionam a descoberta científica.

4. Descreva, em poucas palavras, a ciência pelos olhos da Allison

A ciência é uma ferramenta para se entender como nosso mundo funciona. A ciência pode ser incrivelmente poderosa quando usada corretamente – ela pode nos informar como a vida funciona e resolver problemas complexos da medicina. 

A nível pessoal, a ciência também pode ser estressante e frustrante às vezes! Conseguir um protocolo que funcione ou que a minha cultura de células se comporte nem sempre é fácil, e os resultados nem sempre são o que eu estava esperando… Por outro lado, isso é parte do que torna a ciência tão empolgante! 

Todos os dias a ciência me permite fazer uma pergunta, desenvolver um método para testá-la, e conseguir resultados. Às vezes parece um ciclo interminável, mas é um ciclo que se constrói e que desenvolve o que sabemos sobre os organismos vivos. A ciência é como um quebra-cabeças, e eu amo descobrir como todas as peças se encaixam. Essa é a parte divertida da ciência!

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“A ciência é como um quebra-cabeças, e eu amo descobrir como todas as peças se encaixam.”

(À esq.) Registro de um dos momentos de diversão no laboratório. Arquivo pessoal.

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Obrigada Allison por gentilmente nos conceder esta entrevista e por todos os seus esforços em fazer a ciência mais inclusiva para todos!


Glossário

1Mudança de fenótipo branco-opaco: refere-se à capacidade de espécies de Candida mudarem sua morfologia entre um tipo celular branco e outro opaco. Trata-se de um fenômeno especializado e reversível, que também resulta em mudanças de comportamento, sendo o estado opaco uma forma mais eficiente de reprodução sexuada.

2Permacultura: conceito criado na década de 70 pelos cientistas australianos Bill Mollison e David Holmgren. Propõe o design de sistemas produtivos sustentáveis, de forma a atingir harmonia e equilíbrio com a natureza.  Baseia-se em 3 princípios éticos que são cuidar da terra, cuidar das pessoas e partilha justa.

3Modificações epigenéticas: Conjunto de modificações químicas nas proteínas nas quais o DNA se enrola (histonas), no próprio DNA ou RNA que alteram o padrão de expressão de genes sem, no entanto, mudar a sequência deste, ou seja, sem mutação.

4Heterocromatina: No núcleo das células, o DNA é compactado se enrolando em proteínas chamadas histonas, formando um complexo chamado cromatina. Ao estado mais compactado da cromatina é dado o nome de heterocromatina, geralmente inativo na expressão de genes.


Giovana Maria Breda Veronezi

Graduada em Ciências Biológicas pela Unicamp em 2014 e Mestra em Biologia Celular e Estrutural pela mesma universidade. Com o sonho de criança em ser Bióloga realizado, almeja na vida adulta ver a ciência (e o mundo) cada vez mais pelos olhos delas.

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