Maritza Soto e Lia Medeiros: 2 mulheres que estão fazendo a diferença na Astronomia

Creative Commons. Imagem via Pexels: https://www.pexels.com/pt-br/foto/ceu-close-cuidado-femea-69806/

A disparidade no número de mulheres e homens inseridos nas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, conforme a sigla em inglês) já é amplamente conhecida e há alguns anos vem sendo discutida nas universidades, nas empresas e nas organizações internacionais.

Mulheres nas STEM

Segundo a UNESCO (a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), as mulheres correspondem a apenas 35%¹ do total de alunos matriculados nessas áreas – e essa desigualdade é extremamente preocupante, sobretudo se levarmos em conta que tais campos, especialmente a Tecnologia,  são responsáveis por uma fatia considerável das vagas de emprego que são abertas.

Creative Commons. Imagem via Women of Color in Tech: https://www.flickr.com/photos/wocintechchat/25926664911/

Por esse motivo, cada vez mais iniciativas têm buscado incentivar a entrada de meninas e mulheres nas STEM – como o prêmio “Para Mulheres na Ciência”, uma parceria entre a UNESCO, a L’Oréal Brasil e a Academia Brasileira de Ciências. Além disso, há inúmeros projetos que visam formar jovens mulheres na tecnologia, especialmente no campo da programação, como o Minas Programam.

A ONU, inclusive, estabeleceu 11 de fevereiro como o Dia Mundial das Meninas e Mulheres na Ciência. Contudo, há ainda muitos obstáculos e entraves para que a igualdade seja alcançada, e muitas áreas do conhecimento seguem enfrentando adversidades para atingir a paridade de gênero.

E na Astronomia?

Uma dessas áreas é a Astronomia: em 2019, a participação de meninas na Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA) caiu de forma considerável. Segundo informações publicadas pela Agência Brasil², a quantidade de meninas inscritas vem diminuindo ano a ano desde 2010, tendo caído de 53% para 48% em 2018.

Apesar desse cenário, e de todas as dificuldades encontradas por mulheres na ciência que estuda os corpos celestes, há muitas pesquisadoras vindas da América Latina que são dedicadas à essa área. Selecionei duas jovens mulheres que estão se destacando e fazendo a diferença na Astronomia e na Astrofísica:

Maritza Soto (Chile)

Maritza Soto. Imagem de divulgação via Queen Mary University of London: https://www.qmul.ac.uk/spa/people/research-staff/profiles/msoto.html

A chilena Maritza Soto tem uma trajetória incrível. Quando menina, Maritza adorava ver imagens de planetas e de estrelas. Percebendo isso, seus pais a incentivaram e Maritza seguiu adiante até completar seu doutorado em Astronomia na Universidad de Chile.

Em 2015, quando tinha apenas 25 anos e trabalhava no Observatório de la Silla, na região chilena de La Higuera, Maritza comprovou a existência de um planeta com uma massa três vezes maior do que Júpiter e que fica a cerca de 290 milhões de anos-luz da Terra.³ 

Esse exoplaneta (nome dado a planetas que encontram-se fora do nosso Sistema Solar), recebeu a denominação HD 110014 c e orbita ao redor da estrela Chi Virginis, na constelação de Virgem. Desde então, Maritza já descobriu mais dois exoplanetas gasosos, o K2-237 b e o K2-238 b, que também são maiores que Júpiter.

Atualmente, Maritza – que em 2018 foi indicada ao prêmio de Chilena do Ano – faz seu Pós-Doutorado na Queen Mary University of London, em Londres. Sua pesquisa continua focada na análise de dados estelares para a detecção de exoplanetas.

Lia Medeiros (Brasil)

A astrofísica Lia Medeiros já apareceu numa das Pílulas de Conhecimento no Instagram do blog e definitivamente merece ser mencionada de novo! Lia mudou-se ainda criança para os Estados Unidos, e começou a se interessar por matemática ao perceber a linguagem universal dos números.⁴

O pai de Lia é professor universitário – dessa forma, ela sempre usufruiu de uma proximidade com a pesquisa científica. Lia graduou-se em Física e Astrofísica, fez mestrado na Universidade de Califórnia em Santa Bárbara e no começo de 2019 defendeu sua tese de doutorado na Universidade do Arizona.

Lia Medeiros. Imagem por Bob Demers/UANews: https://uanews.arizona.edu/story/21-ua-students-contributed-global-effort-resulting-first-black-hole-image

Em abril de 2019, aos 28 anos, Lia ganhou destaque na mídia brasileira ao fazer parte da equipe do projeto Event Horizon Telescope (EHT), responsável pela primeira imagem de um buraco negro já divulgada ao longo da história humana.

Lia elaborou ferramentas estatísticas para entender as propriedades da imagem do buraco negro e foi essencial no desenvolvimento das simulações que levaram à imagem final, de acordo com Dimitrios Psaltis, professor da Universidade do Arizona e integrante do EHT.⁵

Lia hoje faz parte do Instituto de Estudos Avançados (Institute of Advanced Studies – IAS), na cidade de Princeton, em Nova Jersey. Seu trabalho é focado em simulações teóricas e ela continua estudando elementos do projeto EHT.⁶ No começo de setembro de 2019, Lia ganhou o Breakthrough Prize em Física Fundamental do IAS.

O que fica claro – tanto na trajetória de Maritza quando na de Lia – é que elas tiveram o encorajamento e o apoio de seus familiares desde cedo. Isso só prova que incentivar as garotas desde a infância a descobrirem e a se interessarem pela ciência é essencial para que as desigualdades de gênero diminuam cada vez mais e para que as mulheres possam desenvolver todas as suas potencialidades.

Quer ler mais sobre mulheres na Astronomia e na Astrofísica? Então confira os posts sobre esse tema que já publicamos no blog:

Celebrando Williamina Fleming: de trabalhadora doméstica a astrônoma pioneira em Harvard

O universo extraordinário com Emma Osborne

 

Referências:

¹ http://www.onumulheres.org.br/noticias/desigualdades-de-genero-empurram-mulheres-e-meninas-para-longe-da-ciencia-avaliam-especialistas-executivas-e-empresarias/ 

² http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2019-02/participacao-de-meninas-cai-na-olimpiada-brasileira-de-astronomia 

³ https://elpais.com/internacional/2018/10/02/america/1538445368_446776.html 

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/04/17/resultados-como-esse-podem-inspirar-a-proxima-geracao-de-cientistas-diz-brasileira-envolvida-na-1a-foto-de-um-buraco-negro.ghtml 

https://uanews.arizona.edu/story/21-ua-students-contributed-global-effort-resulting-first-black-hole-image 

https://www.ias.edu/scholars/lia-medeiros 

Graduada em Relações Internacionais pela UNESP Franca, atualmente é aluna especial no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. Realiza pesquisa nas áreas de Ciência Política e Estudos de Gênero e tem interesse em Divulgação Científica. É fascinada pelo céu estrelado desde que se entende por gente.

Sobre Juliana Aguilera Lobo 2 Artigos
Graduada em Relações Internacionais pela UNESP Franca, atualmente é aluna especial no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. Realiza pesquisa nas áreas de Ciência Política e Estudos de Gênero e tem interesse em Divulgação Científica. É fascinada pelo céu estrelado desde que se entende por gente.

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