É de vírus em vírus que subitamente a morte ataca o citros

Vírus! É bem provável que vocês já estejam familiarizados com eles, já que há muito tempo eles veem causando doenças graves. Basicamente, os vírus são partículas infecciosas extremamente pequenas compostas por uma molécula de ácido nucleico (DNA ou RNA) envolvida por uma capa protéica.

estrutura de um vírus
https://pt.slideshare.net/obita20/movimentao-de-vrus-em-plantas

E eles são dependentes de uma célula hospedeira (SEMPRE!), onde eles encontram toda a maquinaria biológica para conseguirem se multiplicar. Basta citarmos a Dengue, AIDS e Zika para mostrarmos a gravidade das infecções virais.

Mas…e as plantas? Será que as plantas também são afetadas por doenças virais?

A resposta é sim! Definitivamente, SIM!

Os vírus  veem causando muitas doenças em diferentes tipos de plantas no mundo todo, sendo responsáveis por perdas na produção e na qualidade de importantes culturas, como: tomate, alface, uva, cana-de-açúcar, mamão, milho, laranja e muitas outras, o que reflete negativamente para o agronegócio de qualquer país.

Como grande exemplo, vou contar brevemente para você o que aconteceu com a citricultura brasileira lá por meados dos anos 40. Nessa época, o núcleo citrícola do país (São Paulo e Triâgulo Mineiro) vivia um período de plena expansão.

Bem, vocês já devem imaginar o que estava causando os sintomas e a morte das plantas. Sim…era um vírus. Um vírus que é transmitido por um inseto vetor (como a maioria dos vírus) e que afeta exatamente essa combinação de laranja doce/laranja Azeda, uma combinação que representava 90% das plantas de citros crescidas naquela região.

Sim, houve perda de 90% das plantas, o equivalente a 9 milhões de plantas. 9 M-I-L-H-Õ-E-S! Bom…nem preciso comentar sobre o prejuízo que esse vírus causou. UMA TRISTEZA!

 Aliás, o nome do vírus é esse mesmo: Vírus da tristeza do citros (ou CTV).

tristeza dos citros
Tristeza dos citros (https://www.ars.usda.gov)

Como toda infecção viral, não foi nada fácil “tratar” e recuperar os pomares da principal região citrícola do Brasil. Um sistema de pré-imunização (tipo vacina mesmo!) com isolados de CTV mais fracos foi desenvolvido.

Além disso, foi preciso encontrar um novo porta-enxerto que fosse forte o suficiente para se desenvolver na presença do CTV: eis, o limão Cravo!

limão cravo
Limão Cravo

O porta-enxerto limão Cravo passou a ser o “queridinho” dos citricultores. Ele se adaptou muito bem àquela região quente e seca do núcleo citrícola e ainda se mostrou super resistente ao CTV.

Ele tirou a citricultura brasileira do buraco! E assim a citricultura viveu feliz para sempre? #SQN

No final dos anos 90, algumas plantas de laranja doce enxertadas sob limão Cravo começaram a apresentar sintomas bem semelhantes a tristeza dos citros, levando as plantas a morte entre um e seis meses. O número de plantas doentes começou a aumentar e a doença foi denominada denominada de Morte súbita dos citros (MSC).

Essa doença afetava laranja doce/limão Cravo e chegou a destruir quase 4 milhões de plantas. E advinhem quem era o culpado? Vírus? DE NOVO? Sim! Talvez até mais de um (as vezes eles fazem parcerias para ficarem mais fortes!).

Bom, a partir daí, muitos pesquisadores começaram a buscar esse(s) vírus que poderiam estar associado(s) a essa nova doença. Pensaram que pudesse ser um novo variante de CTV. Encontraram um novo vírus em plantas doentes e o chamaram de ‘Vírus associado a morte súbita dos citrus’ (ou CSDaV). Mas provar, provar…que era algum deles que causava a doença, até hoje (QUASE 18 ANOS DEPOIS!) não foi provado.

Hoje, a MSC está sob controle. O tão querido limão Cravo foi substituído por outros tipos de porta-enxertos. Mas (vai vendo…), sintomas de MSC já foram detectados em laranjas enxertadas sob outros porta-enxertos.

Trabalho de doutorado
morte súbita
Fundecitrus

O meu trabalho foi tentar buscar todos os vírus que estavam presentes em plantas que apresentavam sintomas de MSC e comparar com plantas sadias (sem sintomas). Basicamente, o que eu fiz foi coletar folhas e raízes de plantas doentes e sadias e extrair o material genético (RNA) para ser sequenciado.

E com a ajuda da bioinformática (aguarde novos posts), eu selecionei somente as sequências que eram de vírus (ou que poderiam ser). Encontrei um grande número de sequências de CTV e em segundo lugar sequencias de CSDaV.

O que a gente verificou é que não era somente UM isolado de CSDaV, mas DOIS isolados diferentes (as sequências eram diferentes). E, interessantemente, um deles estava mais presente em plantas sadias e o outro estava muito mais presente (tipo quase 30 vezes mais!) em plantas doentes. Dois vírus encontrados somente em plantas sadias nunca tinham sido identificados antes e por isso foram considerados novos vírus!

Poderia ser então um isolado específico de CSDaV o causador dos sintomas? O CTV pode estar fazendo parceria com o CSDaV para ajudar nos sintomas? Os novos vírus de plantas sadias poderiam estar de alguma forma impedindo o desenvolvimento dos sintomas?

Bom…se são perguntas que movem os cientistas…cá estamos nós! Continuamos tentando encontrar qual a função de todos esses vírus nas laranjeiras. O trabalho não pára! Mas, por favor, não levem todos os vírus a mal! Alguns deles também são utilizados para o bem das plantas! Mas essa é uma história para um próximo post…

Se ficou interessado no trabalho, acesse o link abaixo!

artigo emilyn

Escrito por Emilyn Emy Matsumura

Editado por Laís Moreira Granato

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1 Comentário

  1. Estou lendo todas suas matérias, Doutora. Estava aqui pesquisando para cuidar melhor de um pequeno jardim. Porém sua pesquisa me fisgou e me empurrou de volta pro trabalho. Gostaria muito de conhecer sobre esses vírus, sobretudo as sequências de RNA. A propósito, vou precisar me inteirar no básico de sua ciência, para então me valer da informação. Muito bacana mesmo o estudo, obrigado por compartilhar.

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