Declínio Rápido da Oliveira e da Confiança na Ciência

Galho de uma oliveira com algumas azeitonas nele.
Photo by Nazar Hrabovyi on Unsplash

Como falamos no texto anterior, as plantas também sofrem com epidemias e algumas causam prejuízos imensos, como é o caso da doença conhecida como Declínio Rápido da Oliveira, ou OQDS em inglês.

Ela vem causando grandes problemas e preocupações em diversos países produtores de oliveiras há anos.

Início da epidemia

Em 2008, no sul da Itália, especificamente na região de Apúlia, produtores observaram em algumas árvores de oliveira sintomas como:

  • folhas murchas
  • amareladas
  • dessecamento foliar progressivo
  • morte de ramos inteiros

Os sintomas foram associados à doenças causadas por microrganismos já conhecidas nas culturas de oliveira, como a antracnose. Porém, as oliveiras começaram a declinar rapidamente e morrer. 

A princípio foram observados pequenos focos da doença, mas em 2013 já havia matado mais de 1 milhão de árvores.

A descoberta de uma bactéria

Cientistas associaram os sintomas a diversas causas como fungos, mariposas, parasitas e até mesmo falta de nutrientes, mas acabaram concluindo que a bactéria Xylella fastidiosa (X. fastidiosa), antes identificada apenas no continente americano, estava presente.

Galho de uma árvore de oliveira seco, atacado pela bactéria
Imagem de https://gd.eppo.int/

A Xylella fastidiosa

Anteriormente falamos sobre a Clorose Variegada dos Citros, doença de grande importância econômica na citricultura, e que também é causada pela bactéria Xylella fastidiosa

A X. fastidiosa se multiplica nos vasos do xilema e pode interromper o fluxo de água para o resto da planta. Sua transmissão é através de vetores conhecidos popularmente como cigarrinhas que, ao se alimentarem de plantas previamente infectadas por X. fastidiosa, passam a transmiti-la para outras plantas.

A cigarrinha

Em teoria, todo inseto que se alimenta dos vasos dos xilemas de plantas são possíveis vetores dessa bactéria. Além disso, esses insetos se alimentam de diversos tipos de plantas, o que explica a transmissão da bactéria para diferentes culturas como plantas de café, ameixa, amêndoa, laranja, entre muitas outras que podem hospedar a bactéria. 

Sintomas nas plantas e a cura

A maioria das plantas não apresentam sintomas, mas em culturas como a das oliveiras, a X. fastidiosa pode causar danos inimagináveis, como aconteceu na Itália. 

Até o momento não existe cura para doenças causadas por essa bactéria, apenas medidas de manejo para evitar sua disseminação.

Origem do Declínio Rápido da Oliveira

X. fastidiosa é uma bactéria quarentenária e faz parte da lista de fitopatógenos da Organização Européia e Mediterrânea de Proteção Vegetal (EPPO), ou seja, ao menor risco de contaminação, as plantas são colocadas em quarentena para eliminação da bactéria. 

Acredita-se que a bactéria tenha sido levada até a Itália através de plantas ornamentais vindas da América Central.

Isto foi determinado porquê sequências de DNA da bactéria identificada na Itália eram muito similares às observadas na Costa Rica, grande exportadora de plantas ornamentais para a Europa. 

Campo com árvores que sofreram com o OQDS (Declínio Rápido das Oliveiras)

Estado de Emergência na Itália

Em 2013, quando foram revelados os primeiros estudos relacionando o Declínio Rápido da Oliveira com a presença da bactéria X. fastidiosa, a região de Apúlia decretou medidas de emergência para prevenção, controle e erradicação de X. fastidiosa.

Porém, devido a rápida disseminação da doença pela região, no início de 2015 foi declarado estado de emergência. Essa foi a primeira vez que a Itália decretou devido à uma doença de planta, e para evitar que a bactéria atingisse outros países. 

Campo com árvores caídas, que foram cortadas para conter o avanço da bactéria X. fastidiosa
Imagem de bari.repubblica.it

No entanto, medidas como erradicação de plantas doentes e uso de inseticidas para reduzir a população de insetos vetores foram vistas como muito extremas por algumas pessoas, já que a região italiana é conhecida pelas paisagens formadas pelas oliveiras, incluindo árvores centenárias, que também são responsáveis pelo sustento de muitos produtores. 

Como a doença estava amplamente disseminada pela região, com mais de um milhão de árvores apenas na província de Lecce, podemos imaginar que os possíveis danos na paisagem, ecossistema, economia local seriam enormes.

Falsas notícias sobre a bactéria

Embora durante todos esses anos grupos de cientistas tenham mostrado a associação da bactéria com a doença, um outro grupo, este de opositores indignados com as medidas de erradicação e com o controle da disseminação da doença e suas possíveis consequências, duvidam dos estudos. 

A disseminação de notícias falsas (as fake news) foi mais rápida que a da própria bactéria. 

Entre as mentiras espalhadas estão:

  1. X. fastidiosa não é a responsável pela doença e sim algum fungo;
  2. Políticos e multinacionais estariam envolvidos na disseminação proposital da bactéria para poderem usar terras dos pomares de oliveira com monoculturas mais lucrativas;
  3. Até mesmo os cientistas que investigavam este assunto foram criminalmente acusados de espalhar a doença (eles foram absolvidos em 2019);
  4. Outros questionam o motivo de os cientistas e governantes não divulgarem os “remédios” para a OQDS, argumentando que já que existem estudos, deveria existir um remédio. Porém os estudos de remédios ainda são iniciais ou sem comprovação científica mostrando sua eficácia.

O fato é que, por mais que os cientistas realizem e invistam em diversos estudos provando cientificamente o causador dos sintomas da doença, este grupo sempre preferiu acreditar no que lhe parece mais acolhedor. 

Parece que estou falando da pandemia de coronavírus, não é? Mas não… Ainda estamos falando do Declínio Rápido da Oliveira.

Charge com duas pessoas. Uma fala para a outra "mas 2500 cientistas falaram isso", a outra responde "eu não gosto de opiniões".

A prevenção da bactéria

Assim como na atual pandemia de coronavírus, o compartilhamento de notícias falsas ainda atrapalha a luta contra esta doença. 

Manter plantas infectadas no pomar e não realizar o manejo necessário, aumenta a possibilidade de vetores adquirirem a bactéria e de contaminarem outras plantas sadias. Desacreditar na doença pode causar perdas muito maiores em todas as propriedades visitadas pelo inseto que carrega a bactéria. 

X. fastidiosa no Brasil

Em 2016, oliveiras infectadas por X. fastidiosa foram identificadas em um pequeno número de plantas em um total considerável de pomares, em pelo menos 3 estados produtores. 

Desde então, medidas importantes de prevenção da disseminação da doença foram adotadas pelos produtores, como a aquisição de mudas certificadas, controle do vetor, poda de ramos sintomáticos e erradicação de árvores em que a doença esteja mais desenvolvida. 

Tomar medidas preventivas reduz muito as chances de acontecer a epidemia que aconteceu na Itália. 

Na Europa, por outro lado, a bactéria que causou o Declínio Rápido da Oliveira já é encontrada em outros países como Espanha, França, Portugal, Grécia e estima-se que esteja presente em 17% das áreas produtoras da Itália. 

Mapa que mostra onde a bactéria Xylella Fastidiosa, que causou o Declínio Rápido da Oliveira na Itália, foi encontrada
Mapa de distribuição da bactéria Xylella fastidiosa pelo mundo

Entenda que não acreditar nas propostas e soluções apresentadas pela ciência tem seu preço, não importa a situação. 

Da mesma forma que estamos vendo acontecer com o coronavírus, as oliveiras sofreram (e ainda sofrem) fortemente porque medidas sanitárias mais vigorosas não foram tomadas rapidamente. A disseminação de falsas notícias e falas mentirosas sobre a doenças também faz vítimas entre as plantas. 

Sobre a autora:

Nágela Gomes Safady é biotecnologista e mestre em Produção Vegetal e Bioprocessos pela Universidade Federal de São Carlos. Em seu trabalho de mestrado estudou a distribuição da bactéria Xylella fastidiosa e suas possíveis rotas migratórias em olivais no sudeste brasileiro. O estudo fez parte do projeto XF-actors que contribui com as pesquisas com a doença na Europa. 

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