Chegou a Primavera: seja bem-vinda, polinização!

Uma abelha no centro de uma flor, provavelmente colhendo pólen

Queridos leitores, esperamos que vocês estejam em plena saúde física e mental durante esta pandemia e que possam aproveitar a Primavera, que chegou trazendo o florescer de inúmeras plantas.

Coloque sua máscara e vá observar como as flores estão exibindo suas pétalas, de cores exuberantes e com insetos ao seu redor, realizando a polinização, tema central deste texto. 

E o que é a polinização?

A polinização consiste no transporte dos grãos de pólen, presentes nas anteras de uma flor, para o estigma da flor (Figura 1). É assim que as plantas se reproduzem, e o resultado final deste processo é a formação de um fruto

partes flor
Figura 1: Partes de uma flor completa

A transferência de pólen para o estigma pode ocorrer das anteras para o estigma da mesma flor ou de flor diferente, mas na mesma planta (autopolinização) ou pode ser feita de uma flor para outra em plantas diferentes (polinização cruzada) (Figura 2).

Além disso, a polinização pode ser realizada por agentes polinizadores bióticos (animais) ou abióticos (vento, água). 

Duas ilustrações, sendo uma sobre Autopolinização e a outra sobre polinização cruzada em plantas.
Figura 2: Autopolinização e polinização cruzada em plantas.
Ilustração: Nasky / Shutterstock.com

Como acontece a polinização?

Sabe-se que 87,5% das plantas com flores no mundo são polinizadas por algum tipo de animal, sendo que as florestas tropicais possuem uma dependência de 94% por parte dos polinizadores. 

De acordo com dados da FAO (Food and Agricultural Organization), 33% da alimentação humana depende em algum grau das plantas cultivadas e polinizadas por animais.

Já as culturas agrícolas têm diferentes graus de dependência por polinizadores de animais, e uma avaliação global mostrou que cerca de 85% dependem de polinizadores em algum grau.

No Brasil, estima-se que 60% das culturas sejam dependentes de polinizadores. Incrível, né?!

Dependendo do tipo de recurso oferecido pelas flores (óleos, néctar, pólen e resinas), podem ocorrer vários tipos de polinização:

  • entomofilia (insetos em geral)
  • melitofilia (abelhas, abelhas sem ferrão e vespas)
  • cantarofilia (besouros)
  • psicofilia (borboletas)
  • esfingofilia (mariposas)
  • miofilia (moscas)
  • ornitofilia (aves)
  • quiropterofilia (morcegos).

Dentre todos os polinizadores, as abelhas são as que apresentam o maior destaque.

Androceu, formado pelos estames (anteras e filetes).
Figura: Androceu, formado pelos estames (anteras e filetes).

Sobre as Abelhas

Eu sei que às vezes você pode ter aquele medo de ouvir uma abelha zunindo próximo do seu ouvido, mas saiba que dentre os polinizadores, as abelhas ocupam lugar de destaque. 

E existem cerca de 20.000 espécies de abelhas conhecidas no mundo. 

As abelhas são atraídas por flores que possuem cores vivas, como azul, lilás, amarelo e que produzem néctar; área de pouso; odor agradável e que produzem e oferecem algum tipo de recurso floral (pólen e néctar). 

Elas se alimentam quase que exclusivamente de pólen e néctar, e precisam visitar um grande de número de flores para satisfazerem suas necessidades individuais, das crias e da colônia.

Ao coletar o alimento, os visitantes se sujam com grãos pólen que pode aderir por todo o seu corpo, cabeça, tórax, abdômen, antenas e nas patas, e em algumas situações particulares, as abelhas polinizam as flores realizando uma vibração torácica nas anteras, para liberação dos grãos de pólen, conhecido como polinização por vibração ou buzz pollination (Figura 3). 

Sabe-se que a introdução de abelhas Apis mellifera em plantios tem contribuído para incrementar a produção de muitas culturas.

Pesquisas científicas já demonstraram que as abelhas melhoram a qualidade dos frutos e das sementes em pelo menos 70% de cultivos agrícolas no mundo.

Por exemplo, cientistas registraram que as abelhas A. mellifera gastam, em média, de 28 a 36 segundos visitando as flores de plantas de abóbora-gigante (Cucurbita maxima) e perceberam que plantas que não receberam visitas dos insetos não produziram frutos.

Além disso, observaram que frutos oriundos de flores que receberam mais visitas, apresentavam maiores porcentagens de frutificação, peso e número de sementes produzidas.

Outro exemplo é sobre a cultura do café.

A flor do café é hermafrodita e teoricamente não precisaria de agentes polinizadores para obter boas produções, mas cientistas constataram que a polinização realizada pelas abelhas A. mellifera provocou aumento de 38,8% e de 168,4%, no primeiro e segundo ano, respectivamente, na produção de grãos de café variedade Mundo Novo.

Uma cultura de grande importância para o cenário agrícola brasileiro e que também sofre grande influência de polinização na sua produtividade é a soja.

Cientistas observaram que plantas polinizadas por abelhas apresentaram, em média, 50 vagens e 110 sementes, enquanto as plantas que não receberam visitação de abelhas produziram, em média, 38 vagens e 82 sementes.

Mas nem tudo são “flores”…

Você já sabe a importância que as abelhas têm no processo de polinização, no entanto, suas populações têm sido reduzidas drasticamente devido à:

  1. redução das fontes de alimento e locais de nidificação (construção de ninho)
  2. ocupação intensiva das terras
  3. mudanças climáticas
  4. o uso de defensivos agrícolas e doenças, o que coloca em risco todo o bioma em que vivem. 

Não só as abelhas têm sofrido com ações humanas e mudanças climáticas.

Um estudo publicado em 2017 por cientistas nacionais e internacionais demonstrou, a partir de um modelo matemático, o impacto potencial das mudanças climáticas na distribuição geográfica dos polinizadores de 13 culturas agrícolas brasileiras.

Esses cientistas preveem que, aproximadamente, 90% dos municípios analisados na pesquisa enfrentarão perda de espécies polinizadoras até 2050. 

A situação dos polinizadores nos próximos anos é mesmo preocupante. Ainda assim, não percamos a esperança de que todos podemos colaborar para que esses dados alarmantes não se concretizem no futuro.

Vamos prestar atenção não apenas na beleza das flores, mas também na fantástica interação que elas têm com seus agentes polinizadores e que traz tantos benefícios para a sociedade humana e o meio ambiente.

Sobre o autor

Dr. Diogo Manzano Galdeano

Doutor em Genética e Biologia Molecular

Professor da Universidade Federal de São Carlos e Centro Universitário Anhanguera

Referências

Giannini TC, Costa WF, Cordeiro GD, Imperatriz-Fonseca VL, Saraiva AM, Biesmeijer J, et al. (2017) Projected climate change threatens pollinators and crop production in Brazil. PLoS ONE 12(8): e0182274.

Soroye P, Newbold T, Kerr J (2019). Climate change contributes to widespread declines among bumble bees across continents. Science, 367(6478):685-688.

COSTA CC de A, OLIVEIRA FL (2014) Polinização: serviços ecossistêmicos e o seu uso na agricultura. Revista Verde de Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável, 8(3):1-10.

D’avilla M, Marchini LC (2005). Polinização realizada por abelhas em culturas de importância econômica no Brasil. Boletim de Indústria Animal, 62(1):79-90.

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