Plantas tintoriais: o resgate

Olá, amigos da ciência! Hoje vamos conversar sobre um tema que mistura ancestralidade e inovação: as plantas tintoriais.

Você já ouviu falar em plantas tintoriais? Elas estão presentes no mundo todo e em todos os biomas brasileiros. 

Mas antes de iniciarmos nossa conversa sobre as plantas, teremos que voltar um pouco na história para entendermos o que a ancestralidade tem a ver com esse tema. Há milhares de anos, o homem utiliza corantes de origem mineral, animal e vegetal para fazer pinturas, decorar utensílios e tingir fios e tecidos. 

O primeiro registro conhecido sobre a utilização de corantes naturais data de 2600 a. C. na China. Os povos da América Latina também possuíam conhecimentos sobre tingimento com corantes naturais. Um dos exemplos mais importantes são os têxteis de Paracas, no Peru, onde eram obtidos mais de 190 tons, evidenciando a riqueza e variedade de plantas tintoriais. 

Portanto, extrair os pigmentos das plantas é uma prática muito antiga, mas que vem ganhando espaço atualmente com mais e mais pesquisas sobre o tema. 

   

Foto de Thaís Silvestre, Chinchero – Peru

 

O que são as Plantas Tintoriais?

As plantas tintoriais ou plantas tintórias são plantas que possuem pigmentos em sua constituição. Esses pigmentos podem ser encontrados nas folhas, raízes, cascas, cernes e sementes. Ao extrair esses pigmentos naturais, podemos obter uma grande variedade de cores. 

Classificação dos corantes naturais segundo sua natureza química

Natureza química

Exemplos 

Cor predominante

Tetrapirróis

(lineares e cíclicos)

Ficobilina

Azul

Verde

Amarelo

Vermelho

Clorofila 

Verde

Carotenoides

(tetraterpenoides) 

Carotenoides 

Amarelo

Laranja

Flavonoides



Flavonas

Branco

Creme

Flavonóis 

Amarelo

Branco

Chalconas 

Amarelo

Auronas 

Amarelo

Antocianinas 

Vermelho

Azul

Xantonas 

Xantonas

Amarelo

Quinonas

Naftoquinonas

Vermelho

Azul

Verde

Antraquinonas 

Vermelho

Roxo

Derivados Indigóides e

índoles

Índigo

Azul

Rosa

Betalaína 

Amarelo 

Vermelho

Pirimidinas substituídas

Pterinas 



Branco

Amarelo

Flavinas 

Amarelo

Fenoxazinas 

Amarelo 

Vermelho

Fenazinas 

Amarelo

Roxo

Fonte: UGAZ, 1997.

 

Foto de Roberta Kremer – Plantas tintoriais

Plantas tintoriais da Flora Brasileira

Você sabia que o nome Brasil surgiu devido a extração de uma planta tintorial? O Pau-Brasil (Caesalpinia echinata)! 

Bom, essa história da origem do nome é uma de tantas outras versões, mas é uma das minhas preferidas. Durante as três primeiras décadas de colonização, a árvore cujo cerne (parte interna do tronco da planta) era vermelho como brasa, chamou a atenção dos navegantes, que prontamente começaram a extrair a madeira vermelha e encaminhar para a coroa em Portugal. 

A partir disso, em 1706, os habitantes naturais do Brasil foram denominados brasileiros, que se referia inicialmente aos que comercializavam Pau-Brasil. Entretanto, tal foi devastadora essa extração, fez com que o Pau-Brasil entrasse para a lista de plantas em extinção e hoje é protegida por lei.

No Brasil, devido a sua imensa biodiversidade, pode-se encontrar milhares de plantas tintoriais, espalhadas por todos os biomas. Outros exemplos de plantas tintoriais são:

    • Abricó de macaco     Couroupita guianensis
    • Angico                 Anadenanthera sp
    • Araucária                 Araucaria angustifolia
    • Barbatimão                 Stryphnodendron adstringens
    • Cacauí                             Theobroma speciosa
    • Cajueiro                 Anacardium accidentale
    • Carqueja                 Baccharis sp
    • Crajiru                             Arrabideae chica 
    • Goiabeira                 Psidium guajava
    • Jenipapo                          Genipa americana L.
    • Macela                 Achyrocline satureioide 
    • Murici da mata                Byrsonima crasiifolia
  • Quaresminha do campo  Trembeya phlogiformis
    • Tinteira                 Coccoloba excelsa
  • Urucum                            Bixa arellana

Vantagens do uso de pigmentos naturais

Com o advento da tecnologia, no século XIX foram sintetizados os primeiros pigmentos sintéticos – a malveína e a fucsina – e o uso dos pigmentos naturais foram substituídos gradualmente, devido a facilidade no tingimento e na solidez da cor dos pigmentos sintéticos. 

Contudo, com a facilidade paga-se um preço alto. A utilização de pigmentos sintéticos pelas indústrias, acarreta poluição ambiental e toxidez para os seres humanos. Cerca de 15% da produção mundial de corantes é perdida durante o processo de síntese e 40% de corante sintético não reagem durante os banhos de tingimento, sendo descartados no meio ambiente, descarregando metais pesados e resíduos tóxicos. 

Nesse contexto, com os avanços da ciência trazendo preocupações e conhecimentos, a sociedade está cada vez mais exigindo produtos que sejam saudáveis e que não degrade o meio ambiente. 

Os pigmentos e corantes naturais, ao contrário dos sintéticos, são ecologicamente sustentáveis, com mínimos riscos a saúde humana, e que garante produtos e processos químicos mais seguros e ambientalmente limpos. 

Para que isso ocorra, indústrias e fornecedores têm investido no desenvolvimento de tecnologias de extração e estabilização desses pigmentos naturais que permitem minimizar o impacto ambiental, reduzir o uso de energia e água das indústrias, além de permitir um produto estável sem sofrer com alterações por oxidação, pH ou luz ultravioleta. 

   Variedade de tons com plantas tintoriais 

Foto de Juliana Allain – Variedade de tons com plantas tintoriais 

 

Onde podemos usar os pigmentos vegetais?

Nas últimas décadas, houve um aumento do interesse na obtenção de compostos e de corantes naturais que possam ser utilizados não só na indústria alimentícia, mas também na cosmética, farmacêutica e têxtil. 

Várias empresas de cosméticos e alimentos, brasileiras e internacionais, já estão aderindo a essa substituição devido a pressão dos consumidores por produtos mais saudáveis e “ecofriendly”. Na moda, a utilização de pigmentos naturais também está super em alta e traz uma proposta mais sustentável para uma das indústrias que mais gera resíduos e poluição. 

No Brasil, o pigmento bixina extraído do urucum, é o mais usado pelas indústrias, e recentemente, foram registradas 410 patentes sobre o assunto com o intuito de desenvolver novas tecnologias para a obtenção de pigmentos das sementes de urucum. O baixo custo de produção e a baixa toxicidade faz com que o urucum seja muito atrativo para substituição dos corantes sintéticos. 

Para desenvolver essas tecnologias, é crucial o incentivo e o financiamento à pesquisa, pois só assim, em um futuro próximo, os corantes sintéticos serão substituídos pelos naturais.

 

Plantas tintoriais Foto de Thaís Silvestre – Roupas tingidas com resíduos certificados de Pau-Brasil 

Existe relação entre a arte e plantas tintoriais?

Recentemente, há vários esforços para o resgate do saber tradicional relacionado ao uso de plantas tintoriais. Técnicas como impressão botânica, tingimento natural e pintura com tintas vegetais são algumas das formas com que artistas botânicos expressam sua arte por meio das plantas. 

A impressão botânica é uma técnica desenvolvida pela artista India Flint em 1999 em que se utiliza a própria planta para o processo de estamparia. Nessa técnica, são utilizadas partes das plantas – folhas, flores, cascas, sementes e raízes – para, através de um processo de aquecimento, transferir os pigmentos naturais para as fibras. Isso permite criar estampas altamente duráveis, com infinitas possibilidades de cores, texturas, formatos e padrões. 

Todo esse processo proporciona peças únicas, estilosas e que não se repetem, mostrando que ao se trabalhar com a natureza deve-se respeitar o tempo e suas particularidades, e aprender a valorizar tudo o que poderia ser descartado.

 

impressão botânica plantas tintoriais

Foto de Thaís Silvestre – Impressão botânica

 

O tingimento natural é uma técnica que resgata saberes de povos tradicionais que utilizam as plantas para tingir tecidos, fios, utensílios e adornos. Essa técnica consiste em dois passos principais. O primeiro é a mordentagem do tecido com substâncias que agem como ligantes entre os pigmentos e a fibra do tecido, e o segundo passo é a extração da cor da planta com a fervura em água, com o intuito de transferir a cor para o objeto de trabalho. 

Novas marcas autorais surgiram nos últimos anos com a proposta de utilizar esses pigmentos para desenvolver produtos mais sustentáveis, tanto ambientalmente, quanto social e economicamente. 

Há também as pinturas realizadas com tintas naturais feitas a partir das plantas. Essas pinturas são duráveis e nos oferece infinitas possibilidades de padronagem tanto em papel quanto em tecidos. 

 

Foto de Roberta Kremer – Pintura com tintas vegetais

Para ajudar na popularização da arte botânica e a utilização de pigmentos naturais, é imprescindível o compartilhamento de conhecimento sobre esse universo, tanto em pesquisas científicas quanto em cursos e dicas nas redes sociais. 

Outra estratégia importante é pressionar as grandes marcas para que ocorra uma mudança no processo produtivo e possamos usufruir de produtos mais sustentáveis e saudáveis. 

Se você gostou desse texto e quer explorar o universo de plantas tintoriais, não deixe de conferir nosso material de referência.

 

Escrito por Thaís Silvestre Sanches Antichera

Sobre a autora: Thaís Silvestre, é nativa de Itirapina – SP. Engenheira Agrônoma (UFV), Mestre em Fitotecnia (ESALQ/USP) e atualmente doutoranda do Programa de Fisiologia e Bioquímica de Plantas na ESALQ – USP, onde pesquisa técnicas de extração e estabilização de pigmentos vegetais e prospecta plantas tintoriais da flora brasileira. E idealizadora do Herbarium – Ateliê Botânico. 

 

Referências

Flint, India. Eco Colour: Botanical Dyes for Beautiful Textiles. 2008.

Miranda, P. H. S., dos Santos, A. C., de Freitas, B. C. B., de Souza Martins, G. A., Boas, E. V. D. B. V., & Damiani, C. A scientific approach to extraction methods and stability of pigments from Amazonian fruits. Trends in Food Science & Technology, 2021.

Ugaz, Olga Lock Sing de. Colorantes naturales. Lima: Pontíficia Universidad Católica del Perú, 1997.

Instagram – @herbarium.atelie






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7 Comentários

  1. Excelente artigo!
    Eu que trabalho com gramas na Real Gramas e amante de plantas em geral, adorei este tipo de tingimento natural.
    As gramas são plantas mais simples, e portanto, não tem essa cor vívida que outras plantas apresentam.
    No máximo, dá uma coceira com a grama Batatais, a única que tem pêlos, kkk.
    Enfim, parabenizo o trabalho. Ficou muito lindo!

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