Energia, biocombustíveis, alimentos

Recebi por mail esse texto e achei muito bom. Grifei as partes que mais me interessaram. Só fica a pergunta: se até economistas super famosos como Paul Krugman está dizendo que os recursos estão acabando, não temos mais planeta para explorar, por que continuamos com essa obssessão de crescimento infinito e eterno? Seremos parasitas ao ponto de consumirmos até a última possibilidade pra então ir atrás de novo planeta para destruirmos? Mas até onde se sabe não há outro planeta…

ALIMENTOS E AGRO-COMBUSTÍVEIS: UM IMPASSE

Clóvis Cavalcanti
Economista ecológico e pesquisador social

Em março de 2007, Fidel Castro escreveu denso artigo no jornal Granma, de Havana. Nele, analisa o impasse entre mais produção de comida e mais combustíveis de origem agrícola. Segundo Fidel – que se baseou em trabalho de Atilio Borón, cientista político argentino de quem sou amigo –, por mais “que os discursos oficiais assegurem que não se trata de optar entre alimentos e combustíveis, a realidade demonstra que … ou o solo se destina à produção de alimentos ou à fabricação de bio-combustíveis”. Na sua edição de 4.4.2007, a respeitável revista britânica, considerada de direita, The Economist, publicou editorial em que diz que “Fidel está coberto de razão”. Segundo esse semanário, são bastante conhecidas suas divergências do líder cubano; mas, naquele momento, tinha-se que reconhecer os méritos da reflexão de Fidel. No último dia 21 de abril, Paul Krugman, brilhante economista e professor da Universidade de Princeton (EUA), em sua coluna no ilustre jornal New York Times, afirma que está propenso a aceitar a tese (que antes lhe parecia exagerada) de que “a era dos recursos baratos acabou para sempre”. Em sua opinião, “as ofertas limitadas de recursos naturais erguem um obstáculo ao crescimento econômico do mundo no futuro”. No caso dos países ricos, isso significa que fica mais difícil elevar os níveis de vida da população; no dos países pobres, especialmente no de alguns deles, que se está começando “a viver perigosamente próximo do abismo”. O artigo de Krugman tem o sugestivo e esclarecedor título de “Ficando sem Planeta para Explorar”. Sua tese é a de que, num mundo finito, explorar mais e mais o que a natureza nos dá significa ir acabando com a riqueza natural. Para Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994), outro brilhante economista, um enunciado desse naipe não passa de “tautologia sem graça”, algo semelhante tendo sido dito pela admirada economista inglesa Joan Robinson (1903-1983).
Não deve ser por mero acaso que a opinião de gente tão notável coincida. Krugman lembra bem, a propósito, que o preço do barril de petróleo em abril de 1999 era de 10 dólares. Na ocasião, The Economist escreveu que esse preço deveria baixar, talvez para 5 dólares, acrescentando que o mundo estava diante de “perspectivas de petróleo abundante e barato pelo futuro previsível”. Engano rotundo. Logo em seguida, o petróleo começou a encarecer sem retorno, já tendo ultrapassado a marca dos 115 dólares o barril. A realidade que se tem hoje é de que a alta do barril não retrocederá. Ele irá ficando sempre mais caro, até porque a demanda não diminui – nem mesmo se estabiliza – e não existem mais grandes jazidas a ser descobertas. Em outras palavras, ocorre aquilo que se chama, em inglês, “the end of peak oil” (o fim do pico do petróleo). É aqui que cabe pensar no futuro da Refinaria de Suape. Quando ela estiver terminada, em dez anos, quanto custará um barril de petróleo? Talvez mil dólares. Talvez mais. Ou menos. Ninguém sabe. Se a The Economist cometeu o erro enorme de 1999, como podemos garantir que em 2018 o petróleo justificará o empreendimento de Suape? Pode acontecer que ele se torne totalmente inviável. Afinal, é preciso consumir menos – e não mais – petróleo, por causa do efeito estufa. Pernambuco e o Brasil poderão ter prejuízos monumentais.
Pior, porém, pode ser no curto prazo. Estamos ficando “sem planeta para explorar”, como assinala Krugman. Ou seja, se cresce a produção de agro-combustíveis (também chamados, talvez impropriamente, de “biocombustíveis”), como existe só uma Terra a ser explorada, faltarão solos para a produção de comida. Menos comida, relativamente a uma população sempre em crescimento (e com renda que aumenta), levará àquilo que Fidel, aplaudido pela The Economist, comentou em março de 2007: “o encarecimento dos alimentos e, portanto, o agravamento da situação social dos países do Sul”. A mesma coisa, aliás, que afirma Krugman agora. Mais interessante é saber por que se quer mais agro-combustíveis e por que isso está significando o aparecimento de um espectro que ameaça a paz de todo o mundo. Nas palavras de Fidel, saudadas por The Economist, “Os alimentos são convertidos em energéticos para viabilizar a irracionalidade de uma civilização” voltada para “sustentar a riqueza e os privilégios de uns poucos”, mediante “brutal ataque ao meio ambiente”. Na verdade, os economistas entendem muito bem disso: trata-se dos seus famosos “custos de oportunidade”. Explicando: quanto mais agro-combustíveis se produzam, tanto menos alimento haverá.

6 Comments

  • Francisco von Hartenthal
    10 de maio de 2008 - 21:23 | Permalink

    Olá!De fato, o uso do solo não tem como prioridade a produção de alimentos, mas colocar os agro-combustíveis na berlinda é uma meia-verdade.O solo do nosso planeta é principalmente ocupado por: cidades que consomem e não produzem (alimentos), pastos e culturas que não são destinadas à alimentação humana (soja, milho, cana, etc).De qualquer maneira, a solução só pode ser mesmo diminuir o consumo.Abraço!

  • fabricio zandona
    19 de maio de 2008 - 19:13 | Permalink

    “Alimentos ou biocombustíveis?”?? Acho que a pergunta deveria ser – Evitar ou não uma catástrofe? ou seja, o aquecimento global. Este sim é capaz de causar uma grande fome no mundo sem precedentes se cruzarmos os braços e aguardar como sugere o relator especial da ONU para o Direito à Alimentação, o suíço Jean Ziegler e outros “intelectuais” do mundo globalizado. A agricultura é frágil, sensível a pequenas alterações de clima. O aumento de apenas alguns graus na temperatura do planeta é suficiente para arruinar plantações do mundo todo e causar uma catástrofe mundial que nós não conhecemos. Devemos pensar a longo prazo para assegurar a nossa sobrevivência. Acho que deveriamos ajudar o Brasil na defesa dos biocombustíves até que se ache outras fontes viáveis de energia limpa. Gasolina no more!!

  • 2 de dezembro de 2008 - 21:35 | Permalink

    Agesilau Martins, Ms em desenvolvimento e professor Universitário
    Concordo com as idéias de Clovis Cavalcante, principalmente quanto à exaustão dos recursos naturais, idéia tomada dos pensadores clássicos da Economia- Smith e David Ricardo. Para melhor aclarar as idéias que contém as entrelinhas do texto, faço referência a uma palestra proferida por Clovis Cavalcante nos idos dos anos 70 em Teresina-Pi, no Auditório Hérberte Parentes Fortes, quando este levantou a tese de que a Lei dos Rendimentos Decrescentes tida como revogada em decorrência do crescente aumento de produtividade experimentado pelas atividades econômicas no século passado, não estava tão em desuso, mas sim afirmava ele que os rendimentos decrescentes estavam presentes para todo mundo ver. Para ilustrar a presença dos rendimento decrescente foi mostrado que no início da exploração de petróleo para que se extraísse um barríl do produto quase nada se gastava de energia. Mas que, com o passar dos tempos, a extração de um barril de petróleo está a exigir cada vez mais energia,levando a crer que vai chegar a um ponto em que para se extrair um barril de petróleo vai-se gastar o equivalente a um barril, tornando assim antieconômica a exploração desse produto.
    Fico então a indagar, não seria essa a situação do petróleo do pré-sal no Brasil. Desejo que não e espero que a tecnologia seja ainda capas de extrair muitos barris de petróleo antes que essa situação irreversível, ao meu entende, venha a ocorrer.
    Porém, acredito plenamente nos rendimentos decrescentes provenientes da exaustão dos recursos naturais e que essa situação indesejável fatalmente chegará.

  • 2 de dezembro de 2008 - 21:35 | Permalink

    Agesilau Martins, Ms em desenvolvimento e professor Universitário
    Concordo com as idéias de Clovis Cavalcante, principalmente quanto à exaustão dos recursos naturais, idéia tomada dos pensadores clássicos da Economia- Smith e David Ricardo. Para melhor aclarar as idéias que contém as entrelinhas do texto, faço referência a uma palestra proferida por Clovis Cavalcante nos idos dos anos 70 em Teresina-Pi, no Auditório Hérberte Parentes Fortes, quando este levantou a tese de que a Lei dos Rendimentos Decrescentes tida como revogada em decorrência do crescente aumento de produtividade experimentado pelas atividades econômicas no século passado, não estava tão em desuso, mas sim afirmava ele que os rendimentos decrescentes estavam presentes para todo mundo ver. Para ilustrar a presença dos rendimento decrescente foi mostrado que no início da exploração de petróleo para que se extraísse um barríl do produto quase nada se gastava de energia. Mas que, com o passar dos tempos, a extração de um barril de petróleo está a exigir cada vez mais energia,levando a crer que vai chegar a um ponto em que para se extrair um barril de petróleo vai-se gastar o equivalente a um barril, tornando assim antieconômica a exploração desse produto.
    Fico então a indagar, não seria essa a situação do petróleo do pré-sal no Brasil. Desejo que não e espero que a tecnologia seja ainda capas de extrair muitos barris de petróleo antes que essa situação irreversível, ao meu entende, venha a ocorrer.
    Porém, acredito plenamente nos rendimentos decrescentes provenientes da exaustão dos recursos naturais e que essa situação indesejável fatalmente chegará.

  • 2 de dezembro de 2008 - 21:35 | Permalink

    Agesilau Martins, Ms em desenvolvimento e professor Universitário
    Concordo com as idéias de Clovis Cavalcante, principalmente quanto à exaustão dos recursos naturais, idéia tomada dos pensadores clássicos da Economia- Smith e David Ricardo. Para melhor aclarar as idéias que contém as entrelinhas do texto, faço referência a uma palestra proferida por Clovis Cavalcante nos idos dos anos 70 em Teresina-Pi, no Auditório Hérberte Parentes Fortes, quando este levantou a tese de que a Lei dos Rendimentos Decrescentes tida como revogada em decorrência do crescente aumento de produtividade experimentado pelas atividades econômicas no século passado, não estava tão em desuso, mas sim afirmava ele que os rendimentos decrescentes estavam presentes para todo mundo ver. Para ilustrar a presença dos rendimento decrescente foi mostrado que no início da exploração de petróleo para que se extraísse um barríl do produto quase nada se gastava de energia. Mas que, com o passar dos tempos, a extração de um barril de petróleo está a exigir cada vez mais energia,levando a crer que vai chegar a um ponto em que para se extrair um barril de petróleo vai-se gastar o equivalente a um barril, tornando assim antieconômica a exploração desse produto.
    Fico então a indagar, não seria essa a situação do petróleo do pré-sal no Brasil. Desejo que não e espero que a tecnologia seja ainda capas de extrair muitos barris de petróleo antes que essa situação irreversível, ao meu entende, venha a ocorrer.
    Porém, acredito plenamente nos rendimentos decrescentes provenientes da exaustão dos recursos naturais e que essa situação indesejável fatalmente chegará.

  • 2 de dezembro de 2008 - 21:35 | Permalink

    Agesilau Martins, Ms em desenvolvimento e professor Universitário
    Concordo com as idéias de Clovis Cavalcante, principalmente quanto à exaustão dos recursos naturais, idéia tomada dos pensadores clássicos da Economia- Smith e David Ricardo. Para melhor aclarar as idéias que contém as entrelinhas do texto, faço referência a uma palestra proferida por Clovis Cavalcante nos idos dos anos 70 em Teresina-Pi, no Auditório Hérberte Parentes Fortes, quando este levantou a tese de que a Lei dos Rendimentos Decrescentes tida como revogada em decorrência do crescente aumento de produtividade experimentado pelas atividades econômicas no século passado, não estava tão em desuso, mas sim afirmava ele que os rendimentos decrescentes estavam presentes para todo mundo ver. Para ilustrar a presença dos rendimento decrescente foi mostrado que no início da exploração de petróleo para que se extraísse um barríl do produto quase nada se gastava de energia. Mas que, com o passar dos tempos, a extração de um barril de petróleo está a exigir cada vez mais energia,levando a crer que vai chegar a um ponto em que para se extrair um barril de petróleo vai-se gastar o equivalente a um barril, tornando assim antieconômica a exploração desse produto.
    Fico então a indagar, não seria essa a situação do petróleo do pré-sal no Brasil. Desejo que não e espero que a tecnologia seja ainda capas de extrair muitos barris de petróleo antes que essa situação irreversível, ao meu entende, venha a ocorrer.
    Porém, acredito plenamente nos rendimentos decrescentes provenientes da exaustão dos recursos naturais e que essa situação indesejável fatalmente chegará.

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