A Amaz√īnia por um herdeiro

Desde o lan√ßamento do livro Arrabalde ‚Äď Em busca da Amaz√īnia estou curiosa para saber o que um herdeiro como Jo√£o Moreira Salles tinha a dizer sobre o assunto. Eu sei que ele √© documentarista, produtor de cinema e fundador da revista Piau√≠, mas nada disso seria poss√≠vel se ele n√£o tivesse antes de mais nada nascido herdeiro de uma das maiores fortunas do Brasil. Acontece, nascer na classe trabalhadora ou na classe dona dos meios de produ√ß√£o √© uma loteria.

Pois bem, dito isso vamos ao livro…

Passei boa parte do início da leitura procurando o que eu estava esperando, histórias sobre a Amazonia hoje, sobre a experiência do homem rico ir viver por lá um tempo para poder escrever sobre sua experiência. Ele começa o livro com um resgate histórico de como o Brasil iniciou sua exploração da região, histórias que muitas vezes me entediaram, mas por certo ele achou necessário, só não era o que eu esperava.

Quando ele começa a relatar dados, fatos e causos da Amazonia hoje, começou a me interessar mais, mas isso só começou lá pelo meio do livro. Seja paciente.

Talvez eu n√£o seja a pessoa mais desinformada sobre a regi√£o, acompanho mais ou menos o que se passa, tenho amigos que moram ou moraram por l√° e posso dizer que boa parte do que li no livro n√£o me foi totalmente novo ou uma grande descoberta, mas o fato de ter tudo isso em detalhes e compilado em um s√≥ lugar √© muito importante e necess√°rio. Para pessoas que n√£o entendem a Amaz√īnia, o que se passa por l√° ou a complexidade de lidar com a floresta o livro √© muito bom, por√©m ele √© escrito por um intelectual para outros intelectuais, ok, um livro, por si s√≥ j√° √© coisa para intelectual nos tempos de hoje, uma pena.

Fiquei imaginando um livro menos cabe√ßudo e com menos divaga√ß√£o para pessoas comuns lerem e n√£o morrerem de t√©dio. Por que se voc√™ n√£o quiser saber mesmo sobre a Amaz√īnia, voc√™ se distrai f√°cil e n√£o engata a leitura ali. Enfim, n√£o √© um livro para pessoas comuns, e t√° tudo certo.

√Č triste a constata√ß√£o de que o Brasil nunca teve um plano decente para a regi√£o. Todas as vezes que o Estado tentou alguma a√ß√£o por l√° a op√ß√£o sempre foi derrubar a floresta e fazer outra coisa. Me pergunto quando esse ponto de vista sobre desenvolvimento vai ser superado e vamos todos concordar que manter a floresta de p√© e conseguir usufruir de suas benesses sem destruir √© poss√≠vel e a melhor op√ß√£o. Clamo para que consigamos chegar nesse consenso logo, na verdade acho que j√° estamos atrasados.

O livro √© uma √≥tima refer√™ncia sobre como o Brasil tem lidado com a Amaz√īnia ao longo do tempo. Voc√™ encontra refer√™ncias hist√≥ricas e muita coisa recente, o livro foi lan√ßado em dezembro de 2022. Se fosse escrito de forma mais simples eu recomendaria para alunos do ensino m√©dio, mas a verdade mesmo √© que o brasileiro m√©dio se interesse pouco pela floresta amaz√īnica, √© algo t√£o distante que parece que ela nem nos pertence ou dela dependemos aqui no Sudeste. Ent√£o s√≥ pessoas metidas a intelectual como eu v√£o se interessar por essas 424 p√°ginas que pedem por um melhor tratamento para o ar condicionado do mundo que muito em breve vai come√ßar a dar defeito.

Em tempo, para quem n√£o sabe, assim como eu n√£o sabia, arrabalde segundo o Aur√©lio significa: Cercanias de uma cidade ou povoa√ß√£o; sub√ļrbio. Entende o que eu quero dizer quando esse √© um livro pra intelectual?

15 anos!

H√° exatos 15 anos eu come√ßava esse blog. Relendo o primeiro post acho que o objetivo dele nunca mudou, sempre tive em mente a possibilidade de encontrar mais pessoas que pensassem nos mesmos assuntos que eu e n√£o me sentir t√£o sozinha. Mas nos √ļltimos tempos, acho que anos mesmo, ele se tornou apenas um lugar em que eu compartilho minhas indigna√ß√Ķes sobre o tema ambiental. S√≥ um lugar de dep√≥sito de pensamentos.

Confesso que me sinto tentada a fechar esse blog, a pauta ambiental continua a mesma desde que comecei aqui, mas sinceramente tenho pouca esperan√ßa de que as coisas mudem e quase nenhuma for√ßa para me esfor√ßar para alguma mudan√ßa significativa. Deve ser a idade‚Ķ Eu tinha 25 anos quando comecei esse blog, hoje beirando os 41 vejo uma segunda onda da sustentabilidade acontecendo e muita gente, mais velha que eu at√©, olhando para ela como se fosse a primeira. √Č cansativo.

N√£o declaro esse blog oficialmente fechado, afinal o mundo sempre foi expert em me irritar quando o assunto √© meio ambiente. Por√©m, confesso que n√£o vejo mais a pauta ambiental como prioridade na minha vida e tenho me tornado c√≠nica para muitas coisas que vejo, infelizmente. Ent√£o deixo aqui meu desabafo e celebro as oportunidades que esse blog me trouxe nesses 15 anos de exist√™ncia, sem d√ļvidas as pessoas que conheci por causa dele foi o que mais importante aconteceu e seria injusto tentar nome√°-las pois sem d√ļvida me esqueceria de algu√©m. Mas ser parte do ScienceBlogs Brasil foi uma das minhas grandes sortes nessa caminhada, fiz amigos para a vida e certamente esse foi o melhor presente que esse diarinho virtual poderia me dar. Muito Obrigada, voc√™s sabem quem s√£o!

Greenwashing urbanístico

No meu passado como servidora p√ļblica paulistana, sim em trabalhei no executivo e legislativo da capital paulistana em 2 momentos distintos, parques lineares foram assunto quando se falava de solu√ß√£o para c√≥rregos da cidade. Sinceramente n√£o tenho bem certeza de como isso foi levado pra frente pela Prefeitura. Existiam v√°rios projetos, n√£o sei se todos se tornaram realidade e dos que foram pra frente quais ainda sobrevivem hoje. √Č, sofremos desse mal na gest√£o p√ļblica, alguns projetos s√£o abandonados ao longo do caminho (pelos mais diversos motivos) ou simplesmente n√£o saem do papel.

Mas o que me faz escrever esse post √© o “caso de sucesso” que ouvia naquela √©poca. Era um c√≥rrego no centro de Seul, na Coreia do Sul, que foi canalizado e coberto no passado e constru√≠do um viaduto elevado, tipo o minhoc√£o em S√£o Paulo ou a falecida perimetral no Rio de Janeiro. Esse rio corta a cidade leste-oeste passando pelo centro e tem 8,4km de extens√£o no total. Esse rio chama-se Cheonggyecheon. Voc√™ pode dar um passeio por ele nesse v√≠deo aqui abaixo:

A obra foi iniciada em 2003 e foi entregue em 2005. Gastou-se na √©poca algo em torno de US$280 milh√Ķes.

Confesso que fiquei maravilhada com o resultado, mas n√£o se iludam, isso tudo √© apenas um cen√°rio constru√≠do que custa por ano mais de US$7 bilh√Ķes de d√≥lares em manuten√ß√£o (dados de 2010). Apenas os 5,8km finais do rio Cheonggyecheon foi restaurado, o trecho inicial continua fechado e serve de esgoto. A √°gua que corre nesse canal vem de outro rio, o Han, s√£o bombeadas sem parar 120.000 toneladas de √°gua diariamente. Ou seja o que vemos nada mais √© que um cen√°rio fabricado. O artigo do professor Myung-Rae Cho, da Universidade de Dankook : The politics of urban nature restoration -The case of Cheonggyecheon restoration in Seoul, Korea, de onde eu tirei essas informa√ß√Ķes aponta todos os problemas da obra e diz ainda que ela foi uma obra pol√≠tica com o intuito de eleger o ent√£o prefeito da cidade como presidente da Coreia do Sul 2 anos depois da entrega.

Podemos chamar essa obra de um greenwashing urban√≠stico? O professor Myung-Rae Cho chama o local de parque p√ļblico decorado com o tema natureza. No projeto, a restaura√ß√£o ecol√≥gica n√£o foi levada em conta, apenas aspectos de engenharia. O que se tem ali √© uma obra de engenharia para evitar problemas de inunda√ß√£o com um projeto paisag√≠stico de natureza. √Č melhor do que era antes? Veja algumas fotos:

Esse √© uma daquelas solu√ß√Ķes que eu diria que odeio amar. Num d√° pra dizer que ficou ruim, melhorou a paisagem milh√Ķes de vezes, por√©m n√£o foi escolhida a melhor solu√ß√£o pensando em longo prazo e uma restaura√ß√£o ecol√≥gica verdadeira. S√≥ o fato de bombear √°gua de outro rio para passar por esse canal, assim, indefinitivamente j√° era motivo suficiente para terem pensado melhor a solu√ß√£o, isso n√£o faz nenhum sentido do ponto de vista ambiental, na minha opini√£o chega ser meio est√ļpido, ainda mais por ser uma solu√ß√£o de obra p√ļblica.

E qual o sentido de restaurar uma parte do rio e largar o trecho inicial como antes? N√£o d√° pra dizer que a raz√£o principal dessa obra era o meio ambiente. D√° pra sentir ai uma vontade maior de parecer verde e ambientalmente correto do que de fato ser. Infelizmente n√£o s√£o s√≥ as empresas que sofrem desse mal…

Muitas outras quest√Ķes sociais tamb√©m entram na conta dessa obra coreana, como a especula√ß√£o imobili√°ria, a gentrifica√ß√£o da regi√£o, o esquecimento cultural que ela provocou, etc. S√≥ mais um exemplo do ser humano fazendo “humanice” no planeta.

Mas como eu n√£o sou coreana vou achar tudo lindo se um dia for passear l√°! hehehe

O document√°rio do momento e a√ß√Ķes individuais

Eu n√£o vi Seaspiracy, nem Cowspiracy e provavelmente n√£o verei. E por algum motivo depois de ver esses filmes tem gente que se acha no direito de sair fiscalizando a carteirinha de ambientalista das pessoas.

Vi gente perguntando como um ambientalista poderia comer carne, vi outra pessoa dizendo que questionar o tal document√°rio era passar pano, vi uma pessoa manifestando seu desprezo pela √Āsia por causa do document√°rio… e tudo mais que as redes sociais permitem.

Como j√° disse ali, n√£o vi o document√°rio e n√£o preciso dele para saber que a ind√ļstria da pesca est√° acabando com os estoques pesqueiros do mundo e que segundo proje√ß√Ķes, em 2050 teremos mais pl√°sticos nos mares do que peixes. Tamb√©m sei que por culpa da mesma ind√ļstria pesqueira as baleias azuis, provavelmente o maior bicho que esse planeta j√° viu, est√£o em extin√ß√£o. Quem me conhece sabe que eu tenho um amor por mega fauna e acho um absurdo viver num planeta com um n√ļmero cada vez menor desses indiv√≠duos. Enfim, √© triste? √Č duro? √Č dif√≠cil? Me sinto impotente? O tempo todo.

Mas a quest√£o ambiental n√£o se resume a consumir ou n√£o carne e a√ß√Ķes individuais s√£o p√≠fias perto do que as ind√ļstrias poderiam estar fazendo. A maioria das pessoas no mundo sequer sabem que podem ter op√ß√£o de comida, mesmo quando elas sabem e mesmo assim optam por comer carne √© impratic√°vel pensar que num futuro pr√≥ximo, digo nos pr√≥ximos 10 anos, conseguir que a cultura da carne se acabe aqui no Brasil, por exemplo. Ah, ent√£o n√£o vamos fazer nada? Olha, eu sei de uma coisa que a gente pode fazer que tamb√©m √© uma a√ß√£o individual e pode fazer uma diferen√ßa absurda: votar melhor.

Veja a diferença

Do que adianta voc√™ separar seu lixo em casa, n√£o comer carne e recusar canudinho de pl√°stico quando temos um Ministro contra o meio ambiente? Quando temos um presidente que j√° tomou multa ambiental, se recusou a pag√°-la e ainda puniu o servidor que aplicou a multa? Enquanto tem gente que fica ai conferindo se quem fala que √© ambientalista come ou n√£o carne a Comiss√£o de Meio Ambiente da C√Ęmara Federal est√° sendo presidida por uma pessoa que mente sobre desmatamento e defende garimpo em terras ind√≠genas. Lamento informar mas todo seu esfor√ßo de fazer a sua parte pode n√£o estar surtindo assim tanto efeito, s√≥ para voc√™ ter uma ideia o Biden com uma canetada l√° nos EUA quer acabar com subs√≠dios para combust√≠veis f√≥sseis, sabe o que isso pode representar? Que se esse dinheiro for bem investido, ele pode fazer muito mais pelo planeta do que a sua exist√™ncia inteira sendo vegano. Lamento mas √© a realidade. Pra voc√™ ter uma ideia, s√≥ no primeiro pacote de incentivo fiscal do governo dos EUA na pandemia, foram dados nada mais nada menos que US$8,2 bilh√Ķes de isen√ß√£o fiscal pra 77 empresas de combust√≠vel f√≥ssil. Imagina esse valor sendo revertido em investimentos em formas de energia limpa e conserva√ß√£o da vida selvagem. Algu√©m a√≠ faz a conta e me fala quantas pessoas mais precisamos que sejam vegetarianas para chegarmos nesse impacto?

Ah, ent√£o desiste de fazer qualquer coisa?

A minha quest√£o aqui n√£o √© dizer: ser vegetariano/vegano √© in√ļtil, reciclar √© bobagem ou queimem mesmo todos os combust√≠veis f√≥sseis do mundo. A quest√£o √© entender a complexidade dos problemas ambientais, o tamanho deles e como as a√ß√Ķes individuais representam pouco perto de uma decis√£o do alto escal√£o de uma grande empresa ou de um governo. Sim, temos que pressionar, sim mudar de h√°bitos √© importante como forma de press√£o, mas n√£o sejamos inocentes de achar de que √© s√≥ isso que vai nos tirar dessa situa√ß√£o. Demonizar as pessoas que n√£o querem ou n√£o podem fazer a parte delas n√£o ajuda na solu√ß√£o do problema.

Eu devo ser provavelmente a √ļnica pessoa que j√° leu todos os posts desse blog, no passar desses 14 anos de blogueirinha de meio ambiente eu fiz uma listinha dos meus pecados ambientais e acreditei que a√ß√Ķes individuais pudessem fazer toda a diferen√ßa, mas revi esse ponto de vista e creio que devemos cobrar de quem de fato impacta o planeta e tem o poder fazer as coisas mudarem numa outra escala. Consci√™ncia √© importante, a√ß√£o ajuda muito, mas focar energia na a√ß√£o que vai trazer mais resultados √© o que de fato far√° o rumo das coisas mudarem.

Uma história real

Isso tudo me faz pensar numa amiga que trabalha numa empresa de petróleo, será que algum ambientalista já perguntou para ela como ela consegue trabalhar numa empresa que é a principal responsável pelo aquecimento do planeta? Mas calma gente, ela é vegetariana, sério, desde criancinha porque ela cresceu num sítio e não suportava a ideia de comer as galinhas que ela alimentava todos os dias. E ai fiscal de carteirinha de ambientalista, você vai dar o título de ambientalista para minha amiga ou não?

P.S.1: Tem umas coisinhas nessa minha resenha de um outro document√°rio que podem ser √ļteis para esse debate, confira Planet of Humans.

P.S.2: Gosto muito desse texto quando ou√ßo pessoas focando apenas na import√Ęncia das a√ß√Ķes individuais, em ingl√™s.

Sobre o que o Brasileiro pensa sobre mudanças do clima 2

Me empolguei com esses dados e resolvi explorar um pouco mais.

Conversando com o master jedi em computa√ß√£o Felipe Campelo, descobri que essa minha “an√°lise” pode ser chamada de an√°lise explorat√≥ria de dados…

Pois bem, dessa vez resolvi juntar as 2 perguntas que analisei no post anterior. E resolvi ver qual a coer√™ncia das pessoas quando escolheram Proteger o meio ambiente, mesmo que isso signifique menos crescimento econ√īmico e menos empregos e depois dizer se concordavam ou n√£o com a frase: As queimadas na Amaz√īnia s√£o necess√°rias para o crescimento da economia.

Para essa an√°lise eu desconsiderei quem respondeu que n√£o sabe para as 2 quest√Ķes, n√£o responderam uma das quest√Ķes ou as 2. Esse grupo desconsiderado equivalem a 4,42% das respostas.

N√£o me surpreendeu descobrir que 62,39% das pessoas foram muito coerentes e al√©m de priorizarem a prote√ß√£o do meio ambiente tamb√©m discordavam que as queimadas na Amaz√īnia s√£o necess√°rias para o crescimento da economia. Apenas 3,9% das pessoas que priorizam o crescimento da economia concordam que as queimadas s√£o necess√°rias para esse crescimento. Gostei de ver que 12,98% mesmo priorizando o crescimento econ√īmico n√£o concordam que as queimadas s√£o necess√°rias. Por√©m as pessoas que n√£o sabem ou est√£o em cima do muro (na minha opini√£o) em qualquer uma das quest√Ķes, somam 11%.

https://public.tableau.com/views/PesquisaPercepoclimaBrasil2/Planilha6?:language=pt&:display_count=y&publish=yes&:origin=viz_share_link

Dessa vez eu resolvi levar em consideração o posicionamento político declarado dos entrevistados. Como comentei no outro post achei bem alto o dado que 25% dos entrevistados não responderam ou não souberam escolher entre direita, esquerda e centro.

https://public.tableau.com/profile/claudia.chow7385#!/vizhome/PesquisaPercepoclimaBrasil2/Planilha7

Ai, com esses dados eu resolvi cruzar com a pergunta: Você já votou em algum político em razão de suas propostas para defesa do meio ambiente?

Ok, ok, vamos desconsiderar que “propostas para defesa do meio ambiente” √© algo muito amplo.

Algumas coisas que achei curioso: todas as pessoas que se declararam de esquerda responderam essa pergunta. E o grupo pol√≠tico com maior n√ļmero de pessoas que responderam sim √† quest√£o foram os declarados de esquerda.

https://public.tableau.com/views/PesquisaPercepoclimaBrasil2/Planilha8?:language=pt&:display_count=y&publish=yes&:origin=viz_share_link

O curioso caso de quem não sabe se votou em alguém por conta de suas propostas de defesa de meio ambiente somam 0,51%.

Porém é triste perceber que quase 60% das pessoas não consideram a pauta ambiental na hora de votar. E essa mesma pesquisa mostrou que 86% das pessoas se declararam preocupadas ou muito preocupadas com o meio ambiente.

Mais algumas conclus√Ķes que me permiti tirar dessa pesquisa: Parece que as pessoas n√£o conseguem relacionar voto e pol√≠tica com a√ß√£o pelo meio ambiente. Parece que as pessoas pensam: Meio ambiente √© uma quest√£o para mim, mas na hora de votar esse n√£o √© um fator a ser levado em considera√ß√£o.

√Č muito curioso pois mais da metade das pessoas disseram nessa pesquisa que acham que os Governos s√£o os principais atores na resolu√ß√£o do problema das queimadas na Amaz√īnia!

E pra quem pensa que as pessoas podem responder o que acham que √© certo na pesquisa e n√£o o que de fato pensam. Eu respondo que se as pessoas acham que se preocupar com meio ambiente, entender que para o crescimento econ√īmico queimadas na Amaz√īnia n√£o √© a melhor op√ß√£o e que o tema aquecimento global √© algo importante ou muito importante, eu acho que j√° √© o suficiente para mostrar que estamos num bom caminho. Talvez seja demais afirmar com precis√£o que 90% dos brasileiros consideram a quest√£o do aquecimento global importante ou muito importante. Mas vamos pensar que parte desses 90% s√≥ acham que √© certo considerar esse tema importante ou muito importante, j√° n√£o √© um bom come√ßo? Alguma coisa certa est√° sendo feita!

Sobre o que o Brasileiro pensa sobre mudanças do clima

Faz um pouco mais de 1 m√™s (in√≠cio de fevereiro de 2021) o ITS junto com a Universidade de Yale e o Ibope divulgaram o resultado de uma pesquisa sobre a percep√ß√£o do brasileiro com rela√ß√£o √†s mudan√ßas clim√°ticas. Confesso que s√≥ fiquei sabendo essa semana, pois o mesmo ITS lan√ßou uma chamada p√ļblica para Programa de bolsas da pesquisa ‚ÄúMudan√ßas clim√°ticas na percep√ß√£o dos brasileiros‚ÄĚ.

Pedi os dados da pesquisa pra eles e resolvi usar meus rudimentares conhecimentos de Tableau (um software de visualização de dados) pra entender melhor os dados dessa pesquisa.

Se você quer saber mais detalhes de como a pesquisa foi feita acesse: https://www.percepcaoclimatica.com.br/

AVISO: Eu só estudei estatística 1 semestre durante a graduação, meus conhecimentos de Tableau, como já mencionei, são rudimentares, mas eu tenho bom senso, é suficiente? Talvez. Veja aí onde eu cheguei com os dados e me corrija se você ver erros.

MINHA “AN√ĀLISE” – (√Č muita pretens√£o minha chamar isso de an√°lise.)

Eu selecionei algumas perguntas que achei mais interessante da pesquisa e resolvi destrinchar melhor como as respostas apareciam regionalmente. Até tentei fazer uns gráficos com a posição política declarada pelos entrevistados, mas achei que a quantidade de gente que não sabia ou não respondeu esta questão era muito grande (quase 25%).

Eis o meu achado.

Quando os entrevistados foram perguntados se concordavam ou n√£o com a afirma√ß√£o: As queimadas na Amaz√īnia s√£o necess√°rias para o crescimento da economia, em todo o Brasil a resposta foi que 74% deles discordavam essa afirma√ß√£o. Achei sensacional esse resultado e ai resolvi fazer um recorte por regi√£o. Como a discord√Ęncia ou n√£o dessa afirma√ß√£o se distribui pelas regi√Ķes do pa√≠s? Eis que a regi√£o com maior n√ļmero de “concordos” sobre a quest√£o acima veio da regi√£o Norte, onde a Amaz√īnia est√° localizada em sua maior parte. Enquanto no Sudeste nem 15% dos entrevistados concordavam com a afirma√ß√£o, no Norte quase 30% concorda.

Você pode ver o gráfico melhor aqui: https://public.tableau.com/views/PesquisaPercepoclimaBrasil/Planilha1?:language=pt&:retry=yes&:display_count=y&:origin=viz_share_link

Essa tend√™ncia meio que se confirma quando a pesquisa pergunta o que √© considerado mais importante para o entrevistado: A) Proteger o meio ambiente, mesmo que isso signifique menos crescimento econ√īmico e menos empregos ou B) Promover o crescimento econ√īmico e a gera√ß√£o de empregos, mesmo que isso prejudique o meio ambiente. No geral o brasileiro respondeu que a alternativa A √© mais importante (77%). Mas quando abrimos as respostas por regi√£o, √© o Norte mais uma vez que det√©m a maior quantidade de pessoas respondendo a op√ß√£o B. Na regi√£o Norte 24,51% dos brasileiros consideram a alternativa B como mais importante para eles, enquanto que nas outras regi√Ķes esse n√ļmero n√£o chega a 17%.

O gr√°fico fica melhor de ver aqui: https://public.tableau.com/views/PesquisaPercepoclimaBrasil2/Planilha23?:language=pt&:display_count=y&publish=yes&:origin=viz_share_link

A minha opini√£o sobre esses dados pode estar muito errada, mas vou manifest√°-la mesmo assim. Eu achava que era uma minoria de pessoas na regi√£o Norte que √© a favor do desmatamento e pensa que pelo crescimento econ√īmico vale tudo. Esses dados me mostram que n√£o √© bem assim, ainda tem muita gente por l√° com esse tipo de pensamento desenvolvimentista a qualquer custo. E ai temos 2 possibilidades para mim: 1) eu era ing√™nua de acreditar que os maus eram a minoria, talvez eles at√© sejam, mas tem uns pseudos bons que os apoiam; 2) eu n√£o sei mexer no Tableau, muito menos analisar dados e isso ai t√° tudo errado… Aceito ajuda dos universit√°rios!

UPDATE: Fiz mais uma an√°lise dessa pesquisa aqui.

Futuro 5: Ikea compra de volta a mobília que você não quer mais

Futuro é/era uma série de notícias falsas criadas por mim, que pretende representar o que deveria ser um futuro mais sustentável. Mas o incrível é que dessa vez a notícia do título não é falsa, ela de fato se tornará realidade em lojas da rede em 26 países.

Mats Ekdahl/Ikea

A Ikea irá comprar de volta os móveis da marca dos consumidores e depois irá revendê-los numa loja de segunda mão da marca. E por que essa iniciativa é tão incrível?

Pra mim mostra que a marca está de fato se empenhando em entrar na economia circular e quem sabe futuramente mudar seu modelo de negócio. Já imaginou o dia que a Ikea não venderá mais móvies mas sim simplesmente alugará e estará sempre responsável por toda a vida de seus produtos?

Eu sei que esse conceito é muito estranho para a maioria das pessoas no Brasil, somente quem é muito rico troca móveis da casa com frequência, mas em países ricos trocas de móveis da casa é quase que nem comprar roupa nova a cada estação.

Quem já faz isso e durante muito tempo foi case de sucesso de sustentabilidade por anos é a Interface floor. Uma empresa de carpetes e pisos de vinil que não apenas os vende, mas se responsabiliza pelo recolhimento, reciclagem e reuso do material. Tudo bem que carpete é algo muito relacionado a países frios e aqui são poucos os ambientes que usam esse tipo de solução, mas pensar em reutilizar o material e se preocupar com o destino dos resíduos é algo bem inovador (não deveria, mas é).

Voltando ao caso dos m√≥veis da Ikea, de certo modo, isso meio que existe no Brasil, toda cidade tem sua loja de m√≥veis usados ou herdar m√≥veis de algu√©m que est√° mudando n√£o √© algo incomum. Mas quem j√° n√£o viu por ai um sof√° descartado num riacho? Ou mesmo algum m√≥vel dando as caras no esgoto na √©poca de chuva e enchentes em grandes cidades? Tor√ßo que v√°rias marcas se empenhem nesse sentido e at√© mesmo outras ind√ļstrias como de carro ou tecnologia por exemplo. Gostaria de v√™-las se preocupando com o que acontece com seus produtos depois que seus clientes se desfazem deles.

Copos pl√°sticos usados viram embalagens de Humor

Pena que meu humor n√£o seja dos melhores, Natura!

Sim, a ideia de reciclar os copos pl√°sticos de um festival de m√ļsica √© incr√≠vel, aglomera√ß√Ķes de gente √© algo que gera MUITO res√≠duo e me pergunto se isso √© sustent√°vel. Falei especialmente disso no post que fiz em 2016 quando fui volunt√°ria nos Jogos Ol√≠mpicos no Rio de Janeiro.

Mas sobre a a√ß√£o da Natura com a Heineken e o Rock in Rio: a a√ß√£o tem seu m√©rito sim, mas n√£o tenho bem certeza se ambiental. O que mais me incomoda nela √© a simplicidade com que parece que o problema foi resolvido. E na verdade n√£o foi simples, nem o problema do pl√°stico foi resolvido. O pl√°stico do copo que voc√™ usou e virou tampa de perfume s√≥ foi adiado para ir para o aterro. O copo que saiu do festival de m√ļsica e virou tampa de perfume para finalmente chegar no consumidor final fez um rol√™ consider√°vel. Na breve exist√™ncia desse pl√°stico ele deve ter rodado mais que muito ser humano com o mesmo tempo de vida. Isso sem pensar no destino da tampa depois que o perfume acabar ou a tampa simplesmente quebrar, pois sim elas podem quebrar.

O mais engraçado é que o Rock in Rio e a Heineken simplesmente repassaram (provavelmente mediante pagamento) uma parte do problema de resíduo deles para a Natura. Ela assumiu o passivo para de fato resolver o problema do ciclo de vida do plástico do copo, que será, sei lá no fim, reciclar novamente a tampa do perfume ou mandá-lo para um aterro?

Me pergunto até que ponto somente adiar a ida de produtos plásticos para o aterro é algo válido, o aproveitamento desse material nunca é 100%. Deve ter a sua validade, mas pra mim não resolve o problema.

O m√©rito dessa a√ß√£o est√° na parceria de um festival de m√ļsica, uma empresa de bebidas e uma marca de beleza. Uma vez que s√£o 3 grandes corpora√ß√Ķes, creio que conciliar todos esses interesses deve ser algo bastante complexo.

Mas do ponto de vista ambiental qual seria a melhor solu√ß√£o para o copo de pl√°stico? Penso que usar copos de pl√°stico n√£o descart√°veis no festival e permitir que as pessoas usem o mesmo copo v√°rias vezes e os levem para casa e continuem usando-os. Mas um festival de m√ļsica com milhares de pessoas √© algo complexo que eu absolutamente n√£o manjo nada. S√≥ t√ī dando meus pitacos de velha blogueira de meio ambiente rabugenta.

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De todo modo, bela tentativa Natura, Heineken e Rock in Rock. Continuem tentando, um dia a gente consegue, ou n√£o.

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Wildeverse, o PokémonGo da vida selvagem

Em 2018 descobri a Internet of Elephants e contei sobre eles neste post. Ai, por coincidência, ou não, fiz um estágio lá enquanto fazia minha pós em Gestão em Inovação Social enquanto estava no Quênia.

Quando escrevi o post eles já tinham planos de lançar o Pokémon Go Ecológico, enquanto estava lá os primeiros testes para esse jogo estavam sendo feitos. Eu até ajudei na produção de videos mostrando esses testes nas redes sociais deles e eis que em Outubro de 2019 eles lançaram a primeira versão de Wildeverse.

Wildeverse √© um jogo para celular sobre macacos (pelo menos por enquanto) que usa a tecnologia de realidade aumentada. O objetivo do jogo √© ajudar a encontrar e monitorar um orangotango, um gorila, um chimpanz√© e um gib√£o. A ideia √© o jogador coletar dados sobre esses animais e enviar para cientistas e pesquisadores de vida selvagem para tentar entend√™-los e principalmente proteg√™-los. Os dados usados para a cria√ß√£o do jogo s√£o baseados em dados reais e foram obtidos com a ajuda de duas organiza√ß√Ķes de conserva√ß√£o: Borneo Nature Foundation (na Indon√©sia) e a Goualougo Triangle Ape Project (no Congo).

Além disso o jogo será usado como fonte de dados para uma pesquisa científica, da Universidade de Oxford. O objetivo da pesquisa é verificar a eficácia do uso de jogos online para comportamentos pró meio ambiente.

Infelizmente o jogo só está disponível em inglês.

Eu n√£o consegui jogar Wildeverse porque meu celular n√£o √© compat√≠vel com o aplicativo do jogo ūüôĀ

Mas tenho certeza que se você gosta de PokémonGo, você vai gostar de Wildeverse.

Aqui o trailer do jogo:

Uma curiosidade meio fora do assunto, voc√™ sabia que uma das empresas unic√≥rnio no Brasil chama-se Wildlife? E √© um studio de jogos mobile, sabe quantos jogos deles tem alguma coisa a ver com vida selvagem? Nenhum…

Planet of the Humans

Eis que despretensiosamente fui assistir o √ļltimo document√°rio produzido pelo Michael Moore. Pra quem j√° viu algum dos filmes dele esse Planet of the Humans segue o mesmo estilo, por√©m o narrador n√£o √© ele. Mas o estilo √© MUITO igual.

Fui ver o filme meio as cegas sem saber do que se tratava e fiquei contente em saber que era sobre meio ambiente, energia verde, sustentabilidade e afins.

Como todo document√°rio, ele conta um ponto de vista, uma vis√£o de mundo, entrevista pessoas que interessam para a narrativa e muitas vezes n√£o aprofunda no assunto que pode de alguma forma contradizer a tese. 

O problema do filme √© voc√™ assisti-lo querendo ver o mundo de forma simplista. E √© isso que me incomoda nele, num mundo complexo cheio de problemas cru√©is a serem resolvidos n√£o √© polarizando a quest√£o ambiental e tratando de forma superficial que vamos chegar num lugar melhor do que estamos hoje. (O detalhe √© que essa abordagem hoje em dia parece que tem sido regra para qualquer conflito, seja na pol√≠tica, na economia, na sa√ļde).

Dois pontos que abusam da superficialidade e simplismo

1) carros el√©tricos. Em 2009 escrevi um post sobre o document√°rio Quem matou o carro el√©trico? E qual foi a minha principal quest√£o naquele post? Qual √© a origem da energia produzida para abastecer os carros el√©tricos? 11 anos depois essa pergunta j√° foi respondida e superada. O desempenho e o custo por km rodado do carro el√©trico √© muito melhor que o carro a combust√£o, ou seja, ele faz mais com menos. Ent√£o mesmo emitindo mais CO2 o carro el√©trico faz mais. Acho pregui√ßoso o argumento: ‚Äúah se a energia do carro el√©trico n√£o tiver origem sustent√°vel, ent√£o o carro el√©trico n√£o serve‚ÄĚ. Voc√™ acha inteligente o pensamento de que se toda a produ√ß√£o de comida no Brasil n√£o for org√Ęnica, ent√£o nem quero saber de produ√ß√£o org√Ęnica e ela nem deve ser incentivada?

Lembrando aqui que o carro el√©trico n√£o √© a bala de prata pra problemas de transporte no mundo e tem v√°rias problemas tamb√©m, mas como a vida j√° deve ter te ensinado, n√£o h√° solu√ß√£o √ļnica e perfeita no mundo.

2) combust√≠veis f√≥sseis s√£o a pior op√ß√£o sempre. Longe de mim querer defender os combust√≠veis f√≥sseis, eles s√£o um problema sim mas √© importante ter claro que o uso deles n√£o vai parar na terra da noite para o dia. √Č ingenuidade achar que isso √© poss√≠vel e a menos que voc√™ seja um ind√≠gena isolado na floresta amaz√īnica ou integrante de alguma tribo isolada africana √© imposs√≠vel n√£o depender de combust√≠vel f√≥ssil de alguma forma. E o fato de aceitar que ele √© parte da vida n√£o significa que voc√™ n√£o pode defender que outras formas de energia e mat√©ria-prima sejam usadas e desenvolvidas.

A falsa dicotomia

Ter conhecimento dos problemas da energia dita verde renovável, do consumo de carne, da produção da soja, das viagens de avião, dos bilionários no mundo, do plástico de origem vegetal, da reciclagem como solução para o problema de resíduos no mundo não me fazem uma pessoa que incentiva e apoia tudo isso. Nem me fizeram defensora da energia fóssil, vegana, deixei de separar meu lixo, vão me impedir de viajar de avião ou deixar de acreditar que uma outra solução além da reciclagem é possível. Felizmente o mundo não é feito só de sim ou não, certo e errado, preto ou branco.

Talvez o filme ajude os desavisados a simplesmente passarem a odiar as solu√ß√Ķes alternativas de energia, provavelmente ambientalistas e defensores da energia verde se sintam ofendidos e/ou tra√≠dos e talvez o filme seja usado pela ind√ļstria do petr√≥leo como endosso aos seus produtos. Tudo isso √© poss√≠vel e nem posso dizer que est√° errado. Talvez se o filme tentasse ao menos seguir no meio do caminho, n√£o s√≥ criticando as energias alternativas, mas mostrando que ela tem vantagens e outros aspectos da origem dos problemas ambientais, seria uma maneira de ampliarmos nossas conversas e ajudaria a diminuir a polariza√ß√£o.

√Č meio estranho o que vou dizer aqui, mas o ponto alto de Planet of the Humans para mim foi a frase da Rachel Carson nos cr√©ditos finais

Mais opini√Ķes sobre The Planet of Humans

Achei que esse texto reforça a ideia de dicotomia do filme (em inglês), provavelmente faz parte do grupo ambientalista que se sentiu traído/ofendido com a abordagem.

J√° esse outro texto (em portugu√™s) sugere que o filme deveria ter focado mais na base do problema: consumo, ideia de crescimento infinito poss√≠vel e modelos econ√īmicos alternativos. V√°lido, mas ai acho que seria um outro filme.

EXTRA: No site do filme planetofthehumans.com tem um guia de discussão para professores (em inglês). Gente, queria tanto que no meu tempo de escola tivesse tido esse tipo de discussão sobre os filmes que assisti… Um dos exercícios que mais me empolgaram foi: se esse filme fosse o primeiro de uma mini-série o que você gostaria que fossem os próximos episódios?