Dia Mundial do Meio Ambiente – Vale tudo!

Quem abriu a página do Uol, do Globo.com ou do IG no dia 05 de junho viu um quadrado ou um banner verde dizendo que a primeira mineradora do mundo zerou seu “footprint”. Olha só que legal!

uol globo ig

Gente é tanta enganação junta nessa afirmação que eu nem sei por onde começar.

Bom, mas vamos começar pelo termo “Footprint”. O que é um footprint, raios? Footprint quer dizer nada mais nada menos que pegada em inglês, só isso, ou seja, dizer que você zerou sua pegada é o mesmo que dizer que você zerou sua sombra? Sei lá, vai saber…

Aí, lá no anúncio tem um asterisco no termo footprint, provavelmente sabendo que ninguém saberia o que exatamente isso queria dizer eles explicam logo em seguida: “Quer dizer que a Vale já recupera ou preserva uma área verde maior que a área impactada pela atividade de mineração.” Ou seja, eu entendi que se a Vale devastou X km2 de área para mineração ela recupera ou preserva X km2 de área verde, certo? Pronto, isso zera meu footprint, já posso dormir tranqüila porque estou quites com o Planeta? Provavelmente pra quem inventou esse blábláblá sim… Mas eu como acionista da Vale (sim, assumo, tenho ações da Vale em algum fundo por ai) não acho, em absoluto, que a Vale tenha zerado pegada nenhuma, sei lá, ela pode estar cumprindo com a legislação, pode estar fazendo a parte que lhe cabe sobre preservação do meio ambiente, mas dizer que isso neutraliza a pegada dela é tão enganação quanto eu dizer que ao comprar um terreno maior que o tamanho do terreno da minha casa e plantar árvores nele eu zerei meu impacto no Planeta.

Outro furo desse blábláblá, como a Vale pode zerar a pegada dela em área se o impacto dela não pode ser calculado em área? (Isso levando em consideração que impacto seja uma coisa assim super simples de calcular como uma área). Ela não impacta o meio ambiente em 2 dimensões, como uma área é medida, o impacto dela, é tridimensional, ou seja se ela quiser dizer que tem uma pegada neutra não é a área que ela tem que medir e sim o volume! E convenhamos, minerações subterrâneas impactam muito mais o subsolo que a superfície, quem a Vale quer enganar com esse papo de área?

Vamos encurtar esse papo essa afirmação que eles zeraram o footprint quer dizer absolutamente NADA. Aliás vamos parar de nos enganar com esse blábláblá de zerar, neutralizar alguma coisa, isso não existe!!! A nossa existência nesse planeta gera impacto e NUNCA será igual a zero ou neutro!! O que pode existir no máximo é um equilíbrio dinâmico.

Ah, pra não dizer que eu só falei mal da Vale eu digo que o vídeo da Campanha ficou muito bom, a ideia de relacionar o sobrenome dos funcionários aos das árvores plantadas (isso não quer dizer que reflita a realidade) foi bem original.

Ainda sobre o dia Mundial do Meio Ambiente se viu mais ações:O Submarino ficou verde e acha que consumindo mais a gente ajuda o Planeta e algumas empresas aproveitam o ensejo pra anunciar que pretendem ser Carbon Free e/ou ter práticas sustentáveis. Como eu disse no título: Vale tudo!

submarino

12 Comments

  • 6 de junho de 2009 - 15:12 | Permalink

    Clau, eu diria mais.
    O estrago da Vale tem 4 dimensões, pq além do volume que eles alteram, existe o tempo. Mineradoras são especialmente eficientes em poluir o ambiente com resídios dos minérios, como ácidos, cianureto e íons metálicos, que podem continuar contaminando o ambiente por um prazo indefinido de tempo.
    E manter um parque é uma medida bem mais barata e ineficaz do que manter, monitorar e combater a poluição da região explorada, por um período indefinido de tempo. Algo que se não for feito pela empresa vai precisar ser feito por nós, contribuintes.

  • 6 de junho de 2009 - 21:10 | Permalink

    Em uma sociedade cada vez mais consciente do seu próprio impacto negativo sobre o meio ambiente, não é surpresa que muitas empresas ou corporações disputem aprovação do consumidor promovendo-se como ambientalmente corretas ou ‘verdes’. Tais ‘promoções’ vão do simples uso embalagens com logos ecológicos, aos mais abrangentes, como a publicidade de investimentos em novas tecnologias ou em ‘ações sociais’. As organizações gastam bilhões de dólares, todos os anos, em uma tentativa de convencer os consumidores de que suas operações têm um impacto mínimo no ambiente. Mas podemos acreditar nas propagandas? Quanto desse ‘marketing ecológico’ não passa de ”lavagem ambiental’?
    O termo ‘greenwashing’ é uma versão ambiental de ‘lavagem de dinheiro’ ou ‘branqueamento de capitais’ ou ‘whitewashing’ — a tentativa de encobrir erros com indicações falsas ou apresentação tendenciosa de informações. Enquanto o termo ‘lavagem verde’ surgiu por volta dos anos 90 a prática em si data desde meados da década de 60, quando as corporações já se esforçavam para melhorar a imagem pública à luz do emergente movimento ambientalista moderno. Agora, mais do que sempre, é grande o interesse das mega-companhias venderem uma imagem ambientalmente correta. Mas, como com todas as formas de propaganda e imaginação pública, inevitavelmente, surgem questionamentos relativos à validez das propagandas ambientais de certas companhias. As preocupações dessas empresas com o meio ambiente seriam tão genuínas quanto os anúncios milionários fazem isto parecer? Rogério Ruschel, editor da revista eletrônica ‘Business do Bem’, sintetizou muito bem ‘Os 6 pecados do greenwashing’, tema sobre o qual existe vasta bibliografia disponível, principalmente em Inglês. Greenwashing, em síntese, é a apresentação inexistente ou inadequada de benefícios ambientais ou sócioambientais apresentados por empresas, serviços ou produtos.
    Recente estudo realizado com 1.758 promessas encontradas nas embalagens de 1.018
    produtos disponíveis no mercado dos Estados Unidos revela os seis principais pecados do ‘greenwashing’. São eles:
    Os Malefícios esquecidos – O principal pecado encontrado na pesquisa, presente em 56% dos produtos pesquisados, se caracteriza pelo fato do produto destacar apenas um benefício ambiental e ‘esquecer’ os malefícios. Exemplos: O produto é reciclável, mas consome muita energia e água para ser produzido; ou o produto é feito sem teste em animais, mas sua decomposição natural pode prejudicar a cadeia alimentar natural.
    A Falta de Provas – Representando 26% das promessas encontradas, é utilizado por produtos que anunciam benefícios ambientais sem comprovação científica ou certificação respeitável. Nesta categoria são encontrados xampus não testados em animais, produtos de papel com uso de material reciclado, lâmpadas com maior eficiência energética – todos sem comprovação dos argumentos disponibilizados ao consumidor.
    A Promessa Vaga – Entre as promessas vagas encontradas em 11% dos produtos pesquisados estão produtos ‘não-tóxicos’, e sabemos que qualquer produto em excesso pode intoxicar uma pessoa; produtos ‘livres de produtos químicos’, o que é impossível, porque todos os insumos de todos os produtos contêm elementos químicos na composição; ‘100% natural’ (urânio, arsênico e outros venenos também são ‘naturais’); ‘ambientalmente produzido’, ‘verde’, ‘conscientemente ecológico’, todas são promessas 100% vagas. E estamos falando de embalagens – imagine aqui no Brasil as promessas vagas que vimos diariamente na propaganda milionária subliminar. Imagine aqui na Amazônia.
    A Irrelevância – O pecado encontrado em 4% dos produtos pesquisados se caracteriza por destacar um benefício que pode ser verdadeiro, mas não é relevante. A mais irrelevante das promessas foi a relacionada ao CFC, banido do mercado norte americano nos anos 70: inseticidas, lubrificantes, espumas de barba, limpadores de janelas e desinfetantes, por exemplo, todos livres de CFC. A promessa é irrelevante porque se não fossem livres de CFC estes produtos não teriam licença para estar à venda no mercado.
    A Mentira – Encontrado em 1% dos produtos, é simplesmente uma giga-mentira deslavada.
    Os Dois Demônios – Encontrado em 1% dos produtos, são benefícios verdadeiros, mas aplicados em produtos cuja categoria inteira tem sua existência questionada, como cigarros, inseticidas ou herbicidas orgânicos.
    O Greenwashing brasileiro ou tupiniquim – Este tipo de pesquisa de análise de promessas de sustentabilidade socioambiental nas embalagens de produtos, infelizmente, ainda não foi feito no Brasil. Na verdade, sequer temos condições de avaliar o greenwashing na propaganda comercial ou na cobertura jornalística, segmentos momentaneamente sem metodologias para fazê-lo. Muitos devem conhecer promessas publicitárias ‘vazias’ feitas por grandes anunciantes que falam mais do que fazem, digamos assim, grandes clássicos do greenwashing publicitário. Vou dar uma dica: a palavra-chave é minério.. Não é eticamente correta uma empresa investir até 3 vezes mais, para comunicar determinado projeto sócioambiental, do que com o projeto socioambiental propriamente dito, portanto, os critérios de conceituação e definição de greenwashing devem ser urgentemente, e cada vez mais, iniciativas do Estado, do Setor Produtivo e da Sociedade.

  • Rafael Tadeu
    8 de junho de 2009 - 12:24 | Permalink

    Footprint ?? É de rir …Eu quero saber se ela anda repondo as cachoeiras ,corregos e riachos que ela polui na regiao do Quadrilatero Ferrifero em Mg ?
    Ela me mata de rir ….

  • Camila
    14 de junho de 2009 - 17:08 | Permalink

    Gosto muito do que vc escreve. Sempre dou uma lidinha por aqui!
    Um abraço.

  • 14 de junho de 2009 - 17:26 | Permalink

    Obrigada, Camila! 🙂

  • Deilaine
    25 de junho de 2009 - 21:17 | Permalink

    não entendi nada

  • 30 de junho de 2009 - 19:46 | Permalink

    Claudia,
    muito bom o teu post – ia escrever sobre isso mas agora você já escreveu e vou repercutir. Este papo de footprint da Vale pode se encaixar em vários dos tipos de greenwashing do meu artigo que o Nelson Tembra relembrou, acima: em “Os Malefícios esquecidos”, sofre de “Falta de provas”, é uma “Promessa Vaga”, é “Irrelevante” e atende os “Dois Demônios” – isto se não for uma mentira deslavada.
    Abraços
    Rogerio Ruschel

  • 30 de junho de 2009 - 23:14 | Permalink

    Obrigada pela visita Rogerio!

  • 18 de julho de 2009 - 22:54 | Permalink

    São posts críticos e com personalidades como esse seu que nos enche de orgulho. Parabéns,
    estamos contigo
    abração
    http://www.biosferams.blogspot.com

  • Thomás
    9 de outubro de 2009 - 12:47 | Permalink

    Ambientalistas eu diria. É, existem muitas pessoas que são iguais a autora deste artigo, (cospe no prato que come). A Vale pelo menos faz alguma coisa para amenizar o impacto que causa, e vocês? Ja perceberam quantas vezes dam a descarga durante o dia? Quanto tempo passam no banho, quantas aceleradas dão numa viagem de carro ou moto? O Causa da humanidade esta caminhando para um futuro negativo é justamente essa, muitos olham o quintal do vizinho e não percebem o quanto o seu é mais sujo.

  • Jailma Melo
    31 de março de 2010 - 12:26 | Permalink

    Concordo plenamente com o Thomás,nós temos que ohar primeiro o nosso quintal para depois falarmos dos nossos vizinhos.Quem olha a vida do seu próximo esquece da sua.

  • cristina veiga
    24 de abril de 2010 - 19:39 | Permalink

    Acho que esta certo olhar também o modo como consumimos e poluimos e tentar melhorar, mas a responsabilidade é maior quanto maior estrago voce faz. O meu estrago conta mas o da Vale… tem uma bela diferença. Lógico que o mínimo que a Vale pode fazer é reflorestar mas deveria pensar em mudar radicalmente o modo de produzir e jogar fora o lixo (no nosso quintal).

  • Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado.

    Skip to content