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Reciclar o calor torna o chuveiro elétrico mais econômico e mais eficiente

Estima-se que 80% a 90% da eletricidade usada para aquecer a água de banho em um chuveiro elétrico escorre, literalmente, pelo ralo

Por: Rodolfo Dourado Maia Gomes, pesquisador da International Energy Initiative – IEI Brasil

Edição: Sarah C. Schmidt

Vimos no post anterior que os chuveiros elétricos com múltiplas posições de temperatura são econômicos para o bolso. Porém, não são necessariamente mais eficientes em relação aos chuveiros com três posições (inverno, verão ou desligado). Você pode estar se perguntando, então: como fazer um chuveiro elétrico aquecer a água até a temperatura de banho desejada usando menos eletricidade do que a normalmente utilizada? A resposta é: reciclagem.

Estima-se que 80% a 90% da eletricidade usada para esquentar a água num chuveiro elétrico escorre, literalmente, pelo ralo. Isso porque boa parte da água, ainda aquecida, é perdida. Ter essa ordem de grandeza na cabeça é importante porque ela demonstra a dimensão do desperdício de energia e, consequentemente, de dinheiro. Diante desse quadro, algumas soluções foram desenvolvidas com o objetivo de aproveitar parte desse “calor” (energia térmica) desperdiçado.

Uma solução bastante convencional e consagrada utilizada nas indústrias foi adotada por alguns fabricantes de chuveiros: é o uso do que se conhece como “trocadores de calor”, que consiste em uma plataforma acoplada ao chuveiro por duas mangueiras. Antes de sair pelo ralo, essa água ainda quente transfere parte desse “calor” para a água fria que vem da caixa d’água, preaquecendo-a antes que ela entre no chuveiro.

Isso significa que o chuveiro elétrico precisará fornecer menos energia elétrica para aumentar a temperatura da água, uma vez que ela entra no chuveiro em uma temperatura que já está mais alta do que a da caixa d’água.

Por exemplo, ao invés de entrar no chuveiro com 20 °C, a água entra a 27 °C, para ser aquecida até 38 °C. Desta forma, a energia elétrica que deverá ser usada não precisará aumentar a temperatura da água em 18 °C (38 menos 20 °C), mas em 11 °C (38 menos 27 °C). Consequentemente, a potência elétrica máxima¹ do chuveiro, ou seja, a potência da resistência elétrica, é reduzida: geralmente, essa potência é de 3.000 W nos chuveiros do tipo “recuperador de calor”, enquanto que, nos chuveiros sem essa tecnologia, a potência varia de 4.500 W a 5.500 W (pode chegar a mais de 7.000 W em alguns casos).

Todo o processo é feito sem que as duas correntes de água se misturem

Esse processo pode ser visualizado no desenho abaixo (Figura 1), disponibilizado pelo fabricante, que é de origem nacional. O equipamento foi utilizado no mesmo programa de eficiência energética que empregou os “controladores de temperatura” apresentados na postagem anterior.

Figura 1: Princípio de funcionamento do recuperador de calor

É importante mencionar que esse processo de transferência de calor é feito sem misturar as duas correntes de água, já que essa é uma preocupação bastante comum de muitos moradores quando se deparam pela primeira vez com essa tecnologia. A “água suja” ainda aquecida transfere esse “calor” para a “água limpa” que vem da caixa d’agua através do contato com uma parede metálica da serpentina que as separa (neste caso, o alumínio).

“Recuperador de calor permite usar menos eletricidade para aquecer a água até a mesma temperatura de banho”

É possível perceber claramente o efeito do recuperador de calor no corte da potência necessária para aquecer a água de banho (Figura 3) em relação aos chuveiros tradicionais de 20 clientes medidos (Figura 2). Quando o recuperador de calor é instalado na residência do consumidor, seu chuveiro tradicional de três posições é trocado por um novo de multiposições já com a resistência de 3.000 W, ao invés de 5.500 W, aliando-se a flexibilidade desse tipo de chuveiro com a maior eficiência do processo de aquecimento da água permitida pela recuperação de calor.

O resultado dessa troca trouxe uma redução média de 42% no consumo de eletricidade desses clientes e de 48,1% na demanda (potência requerida) durante o horário de pico² da distribuidora. Reciclando a energia.

E como você pode se beneficiar dessa tecnologia? É possível adquirir alguns chuveiros que já venham acompanhados desse sistema, disponíveis no mercado brasileiro.

Mas isso é tudo ou dá para economizar ainda mais? Bom, dá para economizar 80% de eletricidade com um outro tipo de chuveiro elétrico. E sem o uso de energia solar, gás ou outra fonte de energia. Mas para isso, é importante perguntar: você estaria realmente preparad@ para isso? Saiba mais em uma próxima postagem.

Figura 2: Distribuição do número de banhos e do tempo de banho por intervalo de potência do chuveiro elétrico tradicional do cliente antes da sua troca pelo recuperador de calor
Figura 3: Distribuição do número de banhos e do tempo de banho por intervalo de potência do chuveiro elétrico do recuperador de calor

 


¹ Potência: quantidade de energia (eletricidade, por exemplo) que um equipamento precisa consumir  em uma unidade de tempo para poder funcionar. Por exemplo, o ferro elétrico precisa de 1000 unidades de energia em um segundo para poder cumprir a função de passar a roupa, ou seja, tem uma potência de 1000 W. A televisão de 21 polegadas tem uma potência média de 90 W, ou seja, ela precisa de 90 unidades de energia por segundo para funcionar . Fonte: Glossário IEI Brasil. Disponível em: http://iei-brasil.org/glossario/

² A demanda de pico significa que o país precisa ter uma quantidade suficiente de usinas capaz de fornecer toda essa eletricidade, ao mesmo tempo, quando vários chuveiros estão ligados no mesmo horário. Lembre-se que o chuveiro elétrico é o equipamento que tem a maior potência em nossas casas (entre 4.500 W e 5.500 W, podendo chegar a mais de 7.000 W), por isso ele consome muita eletricidade em pouco tempo de uso se comparado com uma televisão (~ 90 W), um computador (~ 300 W) ou uma lâmpada fluorescente compacta (~ 15 W), por exemplo.

Energia para as mulheres e mulheres para a energia: as contribuições de Amulya Reddy e Srilatha Batliwala

Por Gabrielle Adabo

As aproximações entre os estudos de gênero, que tomam por base as construções sociais que dividem a sociedade em masculino e feminino, e as mais diversas áreas do conhecimento têm permitido a produção de análises sobre os papéis desempenhados e as dificuldades e desigualdades enfrentadas pelas mulheres. Com o uso da energia e com a escolha das tecnologias utilizadas não é diferente, embora pouco reconhecido por esses lados daqui. Você já chegou a pensar nessa conexão?

Pois bem, o acesso à energia e às tecnologias dela decorrentes é fundamental para alcançar a justiça e erradicar as desigualdades baseadas em gênero ou em outros marcadores como classe e etnia. É o que afirmam Srilatha Batliwala e Amulya Reddy em artigo publicado em 1996, década na qual ocorreram discussões importantes nos estudos de gênero.

Neste post, mostramos algumas das contribuições trazidas pela escritora, ativista social e advogada dos direitos das mulheres Srilatha Batliwala e por Amulya Reddy, um dos fundadores da ONG International Energy Initiative – IEI Brasil, ambos da Índia. No artigo chamado “Energy for Women & Women for Energy (Engendering Energy and Empowering Women)” – Energia para as mulheres e Mulheres para a Energia (Engendrando Energia e Empoderando Mulheres), em tradução livre – os autores consideram aspectos dos usos da energia a partir de uma perspectiva de gênero.

Batliwala e Reddy chamam a atenção para as características das análises tradicionais sobre energia, mais voltadas para os ciclos dos combustíveis do que para o consumo. Os autores apontam uma mudança nesse cenário a partir das décadas de 60/70. No entanto, ressaltam que até então (década de 90) poucas análises haviam sido tecidas sobre a distribuição de gênero no consumo de energia.

A partir de um estudo realizado na década de 70 no vilarejo de Pura, no sul da Índia, que analisou os padrões de consumo de energia da população nessa área rural, os autores fizeram algumas observações com base no gênero. As mulheres de Pura gastam mais energia humana do que os homens do vilarejo – 53% do total de horas de trabalho humano, sendo 42% para coleta de combustível, 80% para a busca de água, 15% para o pastoreio de gado e 44% para o trabalho agrícola. Segundo os autores, trata-se de um trabalho que é vital para a sobrevivência das famílias.

Além disso, há o que os autores chamam de uma “preferência de gênero” nas atividades agrícolas. Enquanto os homens aram e preparam a terra com o auxílio de animais, às mulheres cabem atividades como o plantio e a colheita, que implicam posturas de assento e curvatura e o trabalho manual. No entanto, quando é implementada a mecanização destas atividades, com o uso de colheitadeiras mecânicas, por exemplo, tal trabalho passa a ser apropriado pelos homens e as mulheres perdem os empregos.

Apesar de trabalharem mais do que os homens e executarem tarefas sem o auxílio de animais ou máquinas, as mulheres ingerem menos energia alimentar. Segundo os autores: “A universal, mas triste, verdade nos países em desenvolvimento é que as mulheres tradicionalmente comem por último e menos em uma família – isso é resultado do valor cultural dominante atribuído aos adultos do sexo masculino e aos meninos” (p. 4). O acesso aos alimentos dentro da família, portanto, também é marcado pelo viés de gênero. O excesso de trabalho e a nutrição deficiente causam efeitos negativos na saúde das mulheres.

Outros impactos à saúde das mulheres pobres, à nível mundial, foram associados ao uso da biomassa como forma de combustível, principalmente na cozinha. Combustíveis como a lenha e os bolos de estrume liberam altos níveis de componentes tóxicos nocivos em concentrações que podem ser centenas de vezes maiores do que os limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde[1]. Em muitas partes do mundo, as mulheres são expostas desde cedo a tais poluentes no ambiente doméstico, o que pode causar desde infecções a cânceres. Os autores ressaltam que a inexistência de fontes alternativas de energia para o desempenho das atividades diárias domésticas impacta sobretudo as mulheres e as garotas pobres, pois tais tarefas são tradicionalmente desempenhadas por elas ao longo do que chamam de “linhas de gênero”.

As tecnologias que utilizam energia influem, inclusive, em processos como o acesso à educação e a redução da quantidade e a alteração das condições do trabalho doméstico desempenhado tradicionalmente pelas mulheres. Um exemplo de mudança proporcionado às mulheres por meio de intervenções energéticas é citado pelos autores ainda com base na realidade do vilarejo de Pura. A instalação de um sistema comunitário de plantas de biogás para o abastecimento de energia e água causou impactos como a melhoria da qualidade da água e a redução do tempo para obtê-la, pois as mulheres precisam andar longas distâncias para coletá-la e voltar, o que também serve para a lenha. O acesso à água de melhor qualidade, por sua vez, reduziu a quantidade de doenças. Outro efeito da implantação do sistema foi a melhoria da iluminação que permitiu ampliar o tempo para executar as tarefas domésticas e reduzir a pressão sobre as mulheres durante o dia.

As mulheres, portanto, desempenham um papel crucial na gestão dos recursos energéticos, tanto em termos de economia doméstica, como, no caso da biomassa, na coleta e no uso. Elas, portanto, estão em uma posição na qual dispõem de um conhecimento privilegiado desses mecanismos, embora não seja esta uma posição de poder tomar as decisões. Além disso, muitos implementadores de políticas públicas ou centros de pesquisa acadêmica desconhecem ou não reconhecem esses saberes. A sugestão dos autores, com base nesse fato, é que as mulheres assumam esse lugar de gestoras como empreendedoras, na produção de energia. São necessários, portanto, projetos que as capacitem e que promovam o acesso a esse lugar de gerência dentro das empresas de energia, para que elas possam assumir essa posição de poder e decidir sobre prioridades que as afetam (e à vida de suas famílias) de forma mais urgente. Dessa forma, nas palavras dos autores: “da energia para as mulheres, o processo levará ao empoderamento das mulheres”.

O artigo Energy for Women & Women for Energy (Engendering Energy and Empowering Women) pode ser lido (em inglês) em: http://amulya-reddy.org.in/Publication/1996_05_dtaft_WENERGY961.pdf.

Para saber mais sobre a vida e a obra de Amulya Reddy acesse o site criado em sua memória: http://amulya-reddy.org.in/Publ_421_E_EP.htm.

Para mais informações sobre a International Energy Initiative – IEI Brasil acesse: iei-brasil.org.

 

[1] http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs292/en/.