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10 diasO livro do jornalista norte-americano John Reed é considerado um dos primeiros livros-reportagem da história. Embora o título fale em Dez dias que abalaram o mundo (edição fac-similar da Record, 1967), o livro é uma cobertura das primeiras semanas da Revolução de Outubro de 1917, que acabaria implantando o regime soviético na Rússia.
Pelas páginas do livro desfilam Vladimir Ilyitch Ulianov, o Lênin, Leon Trotsky e, de maneira bastante discreta, Ióssif Vissariónovich Djugashvíli, o futuro Stálin. Os líderes do Governo Provisório, Alexander Kerensky, o premiê derrubado, e Levr Kornilov, um militar que tentara fortalecer o governo provisório com um golpe, são demonizados com a pecha de “anti-revolucionários”.

OS ATORES POLÍTICOS
Diversas são as agremiações políticas. A esquerda russa tinha, além de bolcheviques e mencheviques, socialistas, socialistas revolucionários e socialistas revolucionários de esquerda (tipo um PC do B). A direita contava com militares de alta patente, kadets (republicanos liberais), líderes da Igreja Ortodoxa (evidentemente) e uma minoria monarquista. Havia ainda os anarquistas, que aparecem de vez em quando, e os ucranianos, que tentam proclamar sua independência em meio ao que parece uma desagregação russa.
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À esquerda, Trotsky, Lênin e Kamenev, líderes da revolução; À direita, Kerensky e Kornilov, os derrotados
A guerra começa, às vésperas da Assembleia Constituinte, com chuvas de panfletos, avisos e cartazes — muitos dos quais são transcritos por Reed em notas ao fim de cada capítulo — que cobrem São Petersburgo. Há relatos e descrições de muitas assembleias e muitos congressos, sempre lotados de homens que não param de discutir e de fumar.
Apesar do clima de intensa democracia direta — e dos apelos de ambos os lados pedindo que o conflito fosse evitado para não haver derramamento de sangue de irmãos russos —, o que ocorre na verdade é uma verdadeira luta pelo poder num país mergulhado pelo caos. Embora fosse uma grande força militar na Primeira Guerra, a força russa estava mais em seus recursos humanos do que em equipamentos, logística e táticas militares. Essa discrepância ente fatores humanos e técnicos foi o que impediu a Rússia de 1917 de derrotar a Alemanha. Graças a essas condições, o socialismo espalhou-se apenas pelas baixas patentes, as que sofriam mais.
AS CONDIÇÕES DOS ATORES
As insatisfações de operários e de soldados são compreensíveis dadas as condições da Rússia. Surpreendente, porém, é a resistência demonstrada pelos camponeses e pelos cossacos. Mesmo diante da promessa de coletivização da agricultura — uma reforma agrária na qual o Estado passa a ser o proprietário de todas as terras —, os camponeses demoram a se convencer e a apoiar aqueles relativamente poucos operários que viviam apenas em algumas cidades do leste russo.
Os camponeses russos haviam saído de um estado de servidão apenas meio século antes. Evidentemente que ainda havia muitos idosos que haviam sido servos e não entendiam aquele papo de reforma agrária. E, tradicionalmente, os mais velhos eram levados mais a sério do que jovens operários que viviam em cidades.
Já os cossacos, na verdade, foram os indecisos do jogo. A princípio eles apoiavam as tropas brancas que ameaçavam retomar São Petersburgo, mas foram convertidos com a promessa de que suas terras só seriam redistribuídas entre cossacos.
Também pode surpreender o fato de que alguns operários apoiaram os Brancos ou tentaram ficar neutros. Foi o caso dos ferroviários, dos carteiros, dos telegrafistas e das telefonistas.
“DISCIPLINA REVOLUCIONÁRIA” E UM POUCO DE LIRISMO
reed_johnEm meio ao caos dos conflitos em São Petersburgo, Reed (à direita) reitera muitas vezes  a chamada “disciplina revolucionária” que às vezes surge espontaneamente, como na invasão do Palácio de Inverno (logo alguns invasores começam a surrupiar as riquezas do Palácio para serem presos em seguida por outros revolucionários menos afoitos) e às vezes surge por decreto (como nas prisões dos ex-ministros depostos, em que a tortura é proibida após denúncias ou quando Trotsky baixa um decreto proibindo o consumo de vinho no Exército Vermelho).
Também em meio a enxurrada de documentos públicos sobre a nova ordem soviética, há descrições mais prosaicas sobre o clima (a revolução ocorreu em dias bastante escuros e nublados, que logo se transformaram nas primeiras nevascas do ano) ou mais líricas (como a descrição do enterro, na Praça Vermelha, em Moscou, dos primeiros “mártires” da revolução). Em certa altura, Reed conta também seus apuros, como a viagem a Moscou num país imenso, gelado e com ferroviários em greve. Ou quando ele quase foi executado por dois soldados analfabetos que ignoraram suas autorizações para visitar a frente de batalha como “correspondente da imprensa proletária americana”.
VEREDITO
Em termos de conteúdo, o livro — ou, pelo menos, a edição que eu li — tem dois pecados: primeiro, poucas são as referências visuais como fotos e mapas; segundo, há muito pouco sobre a repercussão da revolução no exterior, principalmente nos países beligerantes (Alemanha, Áustria-Hungria, França, Inglaterra e Estados Unidos). Reed também deixa essas e muitas outras informações em aberto, sempre sob a jsutificativa de que elas fariam parte de outro livro, De Kornilov a Brest-Litovsk, que o autor nu
nca concluiu.
Em resumo, Dez dias…, embora tenha grande valor histórico, não pode ser considerado uma grande obra jornalística pois trata de mostrar e explicar apenas um dos lados da história.  A obra de John Reed não deve ser levada tão a sério; ela é apenas a crônica de uma revolução feita mais por um simpatizante estrangeiro do que por um correspondente jornalístico imparcial.

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