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Depois de tentar, com algum sucesso, imaginar o teatro do futuro, T. Baron Russell escreveu — num estilo bastante tortuoso — o seguinte sobre como seria a música de nossa época:
[O] próprio músico profissional, como o ator, vai deixar de ser considerado como um tipo de arlequim superior ou um animal performático, exibindo suas forças para a diversão de um público reunido. O que ele pôde um dia tocar poderá, se ele quiser, ser constantemente repetido. […] Em vez do intérprete ou cantor ser julgado por seu desempenho em uma ocasião na qual o cansaço, a fadiga, a doença ou condições desfavoráveis atuem contra seu perfeito sucesso; quando as condições esmagadoras de nervos dos palcos podem em qualquer caso ofender suas suscetibilidades e distraí-lo da perfeição de seu empenho, ele [o cantor] será capaz de encontrar sua reputação na melhor performance que ele é capaz de fazer. [O músico] será capaz de tentar e tentar, vez após vez, em seu estúdio privado. Quando ele se satisfizer, ainda sozinho, ele irá publicar se esforço artístico para o mundo. Ele pode destruir tantas gravações insatisfatórias quanto quiser — da mesma forma como o escultor quebra o molde que não o agrada e da mesma forma que o pintor cobre parte de sua pintura — e ser julgado apenas pelo seu melhor.
— T. Baron Russell, A Hundred Years Hence [Daqui a cem anos], 1906
Em resumo, Russell acreditava que as gravações libertariam cantores e intérpretes de maus bocados. Na prática, ele prevê o uso do que se chama hoje de playback [dublagem de gravação].
Por outro lado, ao falar em músicos que trabalham “sozinhos” em estúdios “privado[s]”, o autor adiantou também o surgimento de músicos (e músicas) independentes, que não dependem de um “público reunido”. Em tempos de myspace, tramas e youtube nada poderia ser mais verdadeiro.
Mas, assim como achava que o cinema acabaria com atores medíocres, Russell também pensava que a música gravada jamais seria capaz de resultar em música ruim. Ele acreditava piamente que a evolução técnica nas artes resultaria em artistas irretocáveis, perfeitos, incapazes de ter um dia ruim (ou de, considerando-se bons o bastante, escolherem justamente as suas piores gravações). Ele ignorou, enfim, que a música, como qualquer arte, é feita por seres humanos, seres que podem compor grandes obras num dia e músicas péssimas em outro.

0 comentário

Caique Abbud · 30 de janeiro de 2011 às 10:49

>Ele ignorou mesmo foi a maneira como a produção musical de nossos tempos foi absorvida pela indústria, que sempre visa o máximo de lucro possível pelo mínimo custo. Para que gastar dinheiro com bons músicos, artistas de verdade, que, um dia, irão confrontar os executivos com ideias próprias? É bem melhor produzir hits em série, partindo de fórmulas pré-estabelecidas, executados por vegetais facilmente manipuláveis e empurrados goela abaixo do público através de pesadas ações de marketing.Excelente post, a propósito!

Frederico · 15 de abril de 2011 às 14:16

>Imagina oque ele diria se visse as merdas que saem das gravadores hoje em dia huahuahuahuahua

Dani Sameu · 17 de julho de 2011 às 15:48

>Acredito que ele estaria certo, e talvez sua forma de olhar poderia ser extremamente seguida se o que realmente é bom fosse valorizado e também se assim como muitas boas bandas fazem, outros cantores não deixassem se lever pelo fator econômico e esquecer o sentido valorozo que a música produz.

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