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matrix tanque
Embora se diga muitas vezes que Matrix é apenas uma releitura high-tech de um antigo pensamento de Platão — o mito da caverna —, a inspiração pode ter sido bem mais recente. Nos anos 70 do século passado, o filósofo libertário Robert Nozick (1938-2002) propôs uma “máquina de experiências”:
Suponha que houvesse uma máquina de experiências que lhe daria qualquer experiência que você desejasse. Superduper neuropsicólogos poderiam estimular seu cérebro de tal forma que você pensaria e se sentiria escrevendo um grande romance, ou fazendo amigos ou lendo um livro interessante. Durante todo aquele tempo, você estaria flutuando em um tanque, com eletrodos ligados ao seu cérebro. Você deveria se plugar nessa máquina pelo resto da vida, reprogramando constantemente suas experiências? Se você teme perder experiências igualmente desejáveis, nós supomos que as empresas desse ramo pesquisaram exaustivamente a vida de muitos indivíduos [antes de fazer suas ofertas]. Você pode apontar e escolher diante de uma ampla biblioteca ou bufê de tais experiências, selecionando suas experiências para, digamos, seus próximos dois anos de vida. Depois de dois anos você terá de dez minutos a dez horas fora do tanque, para selecionar as experiências para os dois anos seguintes. É claro que, enquanto você está dentro do tanque, você não sabe que está lá. Você vai pensar que está realmente acontecendo. […] Você se plugaria?
— Robert Nozick, Anarchy, State and Utopia [Anarquia, Estado e Utopia], 1974
É incrivelmente semelhante ao filme e talvez até mais assustador, já que sugere, implicitamente, que você pagaria para entrar na máquina e ter suas experiências. Quando Matrix chegou às telonas, surgiram questionamentos bastante fortes contra a recém-criada “realidade virtual”. Havia temores de controle mental do tipo sugerido por Nozick e de que isso arruinaria completamente nossa liberdade, anulando nosso poder de escolha.
Mas me parece que esse tipo de máquina de experiências não precisa ser necessariamente uma tecnologia super-avançada. Na verdade, talvez não precise ser nem uma máquina. A própria vida é bastante parecida: você vive fazendo escolhas e depois passa a se questionar se não está perdendo outras experiências ou oportunidades igualmente interessantes. Então você sempre acaba caindo sob controle de suas relações sociais (primeiro são os seus pais e os seus parentes; depois vêm os seus amigos e os seus amores), as quais te convencem de que você deve fazer algo por que outros já o fazem ou fizeram. Em última instância, você não escolhe nada sozinho, embora goste de acreditar nisso.

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